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04/abr

Sem contestar, Jogos Vorazes (The Hunger Games) foi muito bem adaptado para o cinema. A trama conseguiu revezar entre momentos emocionantes, tensos, dramáticos e apaixonantes, sem quebrar à essência que a trama do primeiro livro de Suzanne Collins representa. Os detalhes e, especialmente, os diálogos dos personagens foram respeitosamente preservados para Tributo nenhum botar defeito. A cada cena ocorre a imersão dentro do universo que Collins escreveu com tanto afinco e não há como questionar essa fidelidade que foi completa do começo ao fim. Houve limitações no enredo, como qualquer adaptação de livro para o cinema, mas para compensar isso, vemos cenas que podem ser consideradas extras, longe do ponto de vista da narradora da história, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence).

 

O destaque de Seneca Crane foi muito bem construído, desenvolvido e cheio de sentido. Isso foi uma surpresa e tanto! A única coisa que se sabe é que ele é chefe e Idealizador dos Jogos, nada mais que isso. Com seu engrandecimento, vemos do que ele realmente é capaz e qual caráter ele possui com relação ao seu trabalho e aos tributos na arena. O personagem de Wes Bentley realmente mostrou como os Jogos funcionam, como tem um carisma meio duvidoso e como não tem pulso firme quando se trata do presidente Snow, outro personagem muito bem posicionado na adaptação com frases chaves que provam seu poder e sua afinidade com a crueldade.

 

O fato de darem importância a esses dois personagens foi relevante e cheio de spoilers para quem já leu “Em Chamas”. Para quem sabe do enredo, vê-se um encaminhamento primordial para o que acontecerá no futuro. As amoras e o isolamento de Seneca no final, é o gancho imprescindível e inteligente para o que virá a seguir.

 

O que também chamou atenção foi a consideração dos roteiristas em mostrar a miséria da qual a população do Distrito 12 vive. É uma sensação inexplicável olhar para aqueles rostos desamparados, um sentimento real, que fez jus a tudo que Katniss descreve no livro. Eu não esperava um baque tão forte, mas uma visão geral no lugar onde ela vive foi um comparativo essencial para as tomadas que ocorreram na Capital, local das pessoas fúteis e vazias. Foi um peso e duas medidas. A fome é o principal male do Distrito 12 e dar ênfase a esse ponto da história mostra que esse fator realmente é capaz de matar os mais fracos dos homens. É impossível não sentir pesar por aquilo que está na telona, pois colocando o fato na vida real, isso também acontece e, na maioria dos casos, os poderosos não se importam.

 

Nesse caso, temos à Capital, e ela não se impõe como deveria para manter a sobrevivência daqueles que fazem parte do lado mais desfavorecido de Panem. O marcante dessa cena do Distrito 12 são as expressões faciais das crianças que, ao mesmo tempo que estão esfomeadas, esperam o tique do relógio, apreensivas para começarem a rezar para que seus nomes não sejam pronunciados por Effie Trinket (Elizabeth Banks).

 

Katniss e Prim (Willow Shields) dividem cenas emocionais e, com poucos gestos e palavras, expressam que se amam e que uma não conseguem se ver sem a outra. O elo que as unem é intensificado de forma lisonjeira pelo ato do broche de tordo ter sido dado por Prim. Foi uma cartada de mestre, pois a razão de Katniss caçar e tentar sobreviver aos Jogos é por causa da irmã mais nova. Por mais que sua vida seja baseada no bem-estar de Prim, Catnip se esforça demais para mantê-la bem, inclusive a mãe, cujo rancor a atriz Jennifer Lawrence conseguiu manejar perfeitamente, sem fazer uso do exagero de gritos e grosserias. Bastava apenas um olhar para saber o que Katniss sentia com relação as duas mulheres da sua vida. Mas o mais tocante é a cena da qual a jovem arruma os trajes da irmã e, quando estão à espera da chamada dos novos tributos e Prim é a escolhida, a pequenina coloca delicadamente a blusa dentro da saia.

 

A minha preocupação era como seriam as lutas na arena. Foi uma carnificina moderada, mas pelo menos ela existiu e não foi “reinventada” para não deixar ninguém chocado.

 

Os Jogos não são maleáveis, é sangue para todos os lados e fiquei satisfeita por não terem maneirado no impressionismo da cena. A sensação de desespero, a claustrofobia daqueles 24 tributos, com duas únicas opções que é lutar ou morrer, me fez refletir o quanto um poder maior pode tratar o resto das pessoas como peões em seus tabuleiros. A primeira luta que dividiu aquele grupo em busca da sobrevivência foi de saltar da cadeira, implorar para que acabasse, pois não era certo que ninguém ali perdesse a vida por mera diversão. O esbanjamento de riqueza e entretenimento ficou ainda mais evidente no desfile dos tributos, onde vemos o povo da Capital vibrando por aqueles que serão selecionados para serem suas apostas, a fim de gerar lucro. A desumanidade do que são os Jogos é mostrado do começo ao fim e tudo se intensifica quando chegamos até a parte de Rue (Amandla Stenberg).

 

Foi uma das cenas mais lindas do filme. O desespero que Jennifer Lawrence deu à Katniss após ver a morte da sua parceira de Jogo foi comedido porém muito intensa. Sua revolta contra o sistema e estar perdida por não saber o que fazer gerou uma onda de soluços. A partir dessa cena, vemos algo inesperado e o impensável levante no Distrito 11, mais um gancho do que virá mais tarde na adaptação referente ao segundo livro. A revolta e a indignação contra à Capital faz dos Pacificadores “vítimas” das quais a ira e descontentamento são descontados devido a mais uma vida perdida injustamente, apenas para relembrar os Dias Escuros. Assim como a atenção que deram para Seneca, esse conflito entre a população do Distrito 11 e os Pacificadores também foi uma das cenas extras e muito bem encaixada no contexto da trama, nos dando mais uma onda de choque elétrico e uma crise de ansiedade por aquelas pessoas que só querem viver em paz e serem respeitadas.

 

Depois de tantas tensões, a cena entre Katniss e Peeta enaltece os olhos. O início do que virá a ser uma dor de cabeça ficou um pouco a desejar por não ganhar a devida atenção que merecia. Sabemos que o “casal” comanda os capítulos finais do livro e encurtá-los deve ter sido um trabalho imenso, pois com certeza os Tributos não se importariam em ver Josh Hutcherson por mais alguns minutos, honrando o papel do menino padeiro com seu talento nato e carisma. Ele realmente abraçou o adolescente apaixonado pelo personagem de Jennifer. Os dois possuíram uma química excelente, mesmo com a carranca de Katniss toda vez que tem que imaginar que deve se aproximar de Peeta para ganhar dádivas de seus patrocinadores.

 

Mas o que realmente importou foi o beijo tão esperado de ambos e as circunstâncias para que isso acontecesse. O amor ingênuo de Peeta por Katniss gera saltos dentro do peito. Até seu respeito pelo que ela representa ficava nítido apenas em seu olhar e em seu sorriso. Na batalha da Cornucópia, no derradeiro final, o toque dele na trança da jovem só fixa que da parte dele, aquele “amor” nunca foi encenação.

 

A cabine de comando dos Jogos merece ser ovacionado. Imagino a dificuldade em elaborar algo tão futurista e inimaginável. As câmeras, os comentários de Caesar Flickerman (um espetáculo de personagem) e Claudius Templesmith – que deram um toque a mais nas cenas da arena por conta do humor -, a implantação de artifícios que atrapalhem a vida dos tributos…Vê-se que essa parte da trama foi construída cuidadosamente para superar às expectativas. A criação dos bestantes e como elas são jogadas na arena contra Peeta e Katniss desabou tudo o que eu havia criado na minha mente. O sarcasmo para manter os Jogos como entretenimento fica mais do que claro a cada investida contra aqueles que tentam se manter vivos. Emendando com essa cena, temos o confronto final dos tributos do Distrito 12 e Cato. Foi torturante, mas não foi isso que fez da luta mais emocionante, mas sim o que o loiro sanguinário disse à dupla antes de ter seu cruel fim.

 

É incrível como Jogos Vorazes nos faz criar simpatia por determinado personagem, até por quem não merece. O discurso de Cato sobre seu fim na arena só mostra o quanto os Distritos mais ricos podem surtar a cabeça de seus filhos e tirar toda sua sanidade, transformando-os em máquinas mortíferas.

 

O filme foi um compacto dos pontos mais importantes e o acréscimo de informações não tão novas faz dessa adaptação realmente a mais fiel que já vi. Pode ter deixado a desejar na questão do estado final da perna de Peeta, a cena do pão do qual mostra os personagens com a idade atual (que ficou lindíssima da mesma maneira), mas os outros frames conseguem fazer esses deslizes serem esquecidos. Os bilhetes de Haymitch para Katniss toda vez que lhe enviava uma dádiva foi uma sacada brilhante. O personagem em si foi muito bem interpretado por Woody Harrelson. Lenny Kravitz no papel de Cinna não decepcionou e nem Elizabeth Banks como a tresloucada Effie. Na verdade, parecia que todo o elenco aderiu como estilo de vida à causa de Jogos Vorazes, para presentear seus fãs com uma adaptação que comovesse ao mesmo tempo que os fizessem refletir.

 

Acho que essa foi a questão mais importante do filme como um todo: mostrar o quanto aquelas pessoas são vulneráveis e que apenas precisam exercer seus papéis, sendo moldados e limitados pela Capital. Por mais que haja risos e amor, o foco sempre será no que o Presidente Snow é capaz de fazer contra um Distrito para relembrar o que aconteceu no passado. Finalizar a história com a câmera fechada em seu rosto, enquanto ele fita Peeta e Katniss voltando às suas casas como vitoriosos, é de causar arrepios e foi uma conclusão perfeita para gerar ansiedade para o que virá no próximo ano, quando a fagulha se tornará em chamas.

Stefs
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