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28/nov

Eu acho que questionamentos fazem parte da vida de qualquer ser humano. Há quem diga que, sem esses questionamentos, nossa vida não teria graça e há quem diga que se questionar pode nos fazer loucos. Eu fico com a segunda opção, pois além de ser fã do silêncio, eu gosto muito de pontuar dúvidas sobre minha vida. E, a maioria das questões, sempre puxa para o lado negativo, pois conforme se apanha, mais a sensação de injustiça aumenta e isso em parte é culpa nossa.

 

O Ano da Leitura Mágica me atraiu no supermercado. A capa era bonita e eu imaginei que a história seria surpreendente. Eu nem cheguei a ler a sinopse. Mas, como estava desempregada, preferi deixar para depois, com aquele aperto no coração que dizia que eu precisava daquele livro. Ele ficou uns três dias na minha mente. De tanto pensar, não aguentei e comprei online. Ele chegou em casa bonitinho, mas estava em época de TCC e deixei para lê-lo depois. Coloquei-o no topo da prateleira e o fiz esperar.

 

Até que de uns dias para cá, desejei livros inspiradores. Eu estou meio que nessa fase de criação, onde meu cérebro não para por um segundo, sem contar a constante procura por respostas. Eu encontrei algumas delas em O Ano da Leitura Mágica. Ao sair do clima de morte de J.D. Robb e seu Natal Mortal, onde um Papai Noel é um perfeito e sádico assassino, eu queria algo que me fizesse suspirar e pensar. Depois de olhar para a prateleira, o livro do supermercado me chamou de novo e me afoguei na leitura, terminando em três dias.

 

Em O Ano da Leitura Mágica, Nina faz algumas perguntas: por que minha irmã morreu? Por que eu mereço estar viva e ela não? Por que? Por que? Por que? Eu não a julgo, pois fiz perguntas quando tentei lidar com a doença de outra pessoa. Foi algo meio: por que eu? Por que ele? Foi um duelo constante que precisava ter um botão para acionar o mode off, pois foi cansativo e dolorido. Eu não tinha estrutura para esquadrilhar o impasse que vivi, nunca tinha passado por aquilo e eu deixei que tudo se transformasse em um furacão, onde tudo ficou fora do lugar por um bom tempo.

 

Nina perdeu a irmã mais velha. Para curar a dor, ela encontrou a fuga nos livros, onde parou por um ano para se render à leitura, na viagem de encontro a novos personagens e, quem sabe, respostas para os seus questionamentos. Sem contar que ela fez das obras literárias uma forma de representar seu luto por Anne-Marie, além da tentativa de diminuir a culpa que sentia pelo ocorrido e procurar um novo ângulo em que pudesse viver sem a irmã.

 

Ao longo das páginas, descobrimos que Nina é uma mulher com uma rotina comum. É formada em Direito, é casada, tem filhos e é apaixonada por livros. Ela lê desde criança e isto se refletiu por toda sua vida. Até seus filhos são adeptos à leitura e eu admiro uma mãe que consegue fazer isso, ainda mais quando as crianças são muito pequenas e só querem saber de brincar e se lambuzar com comida. De qualquer forma, Nina é uma pessoa que encontra um novo universo em 100 ou 500 páginas de uma obra, algo que leitores assíduos aderem como vício à fuga da realidade.

 

O livro é realmente inspirador e era o que eu precisava no momento do qual me encontrava. Conforme Nina desenrolava sua história, eu via partes da minha, mesmo não tendo perdido uma pessoa especial ainda. Mas é como se eu tivesse perdido e, às vezes, isso me incomoda e muito. A obra tem em cada página aquela sensação pura de reflexão e eu gosto disso. Fragile Things é uma fonte inspiradora para mim, pois me ajudou a enxergar minha “vocação” que eu jurava que não tinha descoberto ainda. Um livro pode ser muito revelador, acreditem.

 

Calma! Não indico neste post um livro de autoajuda, mas sim aquela leitura obrigatória para dias tempestuosos.

 

O Ano da Leitura Mágica serviu de consolo e esperança para Nina superar a angústia, na poltrona roxa, em seu momento que ela chama de fuga de volta à vida. Para cumprir a meta de ler um livro por dia, ela reorganizou a rotina e botou os filhos e o marido para se moverem, seja para limpar a casa ou fazer o jantar. Sem contar que, além de ler, ela resenhou todos eles em seu blog. Há comentários dos livros lidos e citações condizentes, e ainda ficamos por dentro da vida dos pais dela, com foco na figura paterna e os horrores que ele vivenciou durante a Segunda Guerra Mundial.

 

Os pontos mais marcantes no decorrer da leitura deste livro foi quando Nina fala sobre memórias, das lembranças de pessoas que ela coloca como pretéritas. As memórias é nossa fonte para relembrar as pessoas que se foram ou não vemos mais, para sentir saudades e reviver momentos que foram bons e importantes. Minha mãe sempre diz que relembrar é sofrer duas vezes, mas isso depende e muito do ponto de vista de quem lembra. Se a memória é ruim, nem tem por que recordar, né?

 

Sem contar a maneira como ela coloca as palavras como testemunhas da nossa vida tendo o pai como exemplo. Ele escreveu os efeitos da guerra e passou a história adiante para Nina, pois não sabia como dialogar sobre tudo o que viu e sofreu. Essa é a ideia colhida para explicar o quão bom é ler e escrever, pois é uma forma de se obter histórias inesquecíveis que podem ser passadas para outras pessoas.

 

Outra coisa que se encaixou perfeitamente na minha vida foi quando Nina descreve o amor entre um homem e uma mulher. Sempre quando você está mal, alguém do passado reaparece e com ela não foi muito diferente. No caso da autora foi algo bem suave em comparação ao que acontece comigo esporadicamente.

 

O engraçado é que ela me fez ver que a maneira como tratava esse intruso não estava errada. Às vezes, nós confundimos o amor por uma pessoa com o amor às lembranças da convivência com ela. Eu passei um período em que tive que diferenciar “o que” eu amava, ou seja, se estava atada a pessoa ou a lembrança dela e do que vivemos juntos. A segunda opção saiu como vencedora.

 

Reviver as lembranças de alguém querido, mesmo que tenha ido embora, pode te fazer bem em algum momento… Ou não. Tem gente que prefere bloquear e eu acho que isso machuca muito mais. Sair da visão turva e perceber que não se ama mais uma pessoa, mas ama o que ela representou para sua vida, é uma conquista que serve uma salva de aplausos. Depois de passar dois anos em duelo com meus sentimentos, eu cheguei a mesma conclusão da Nina, amando apenas as lembranças de uma determinada pessoa, pois o amor não existe mais.

 

O ponto-chave do livro é a devoção de Nina por Anne-Marie. Eu me sentia a irmã falecida dela que sempre pentelhava a mais nova e, em um momento de risco, toda a concepção de irmandade mudou. Eu não consigo imaginar um mundo do qual minha irmã não exista. Irmandade é um elo muito forte e eu me sinto praticamente gêmea da minha little sister. Por mais que não tenha perdido a minha Anne-Marie, só o fato do livro tratar sobre o relacionamento de irmãs o fez ainda mais significativo para mim.

 

No geral, é um livro sobre uma experiência de vida, de lembranças, de perdão, de culpa. O começo do ano mágico de Nina se deu com A Elegância do Ouriço e terminou com Spooner, fazendo-a cumprir a meta de 365 livros lidos e resenhados. Além de muito sentimentalismo, a obra também envolve a questão de se desafiar para superar algo e ela não desistiu. Há muitas formas de superação nesta vida e, no caso da autora, ela não poderia ter encontrado lugar melhor que nos livros, o paraíso de cenários e personagens, sempre com uma mensagem escondida que nos serve de aprendizado.

 

Trata-se de um livro muito pessoal e, quem não se identifica com nenhum momento difícil da vida de Nina, acredito que não vai gostar muito da leitura. Mas vale a pena dar uma chance.

 

O Ano de Leitura Mágica está ao lado de Fragile Things, de Neil Gaiman, na ala inspirações da Random Girl. Por favor, comprem. O livro é lindo!

 

Na Prateleira

Título: O Ano da Leitura Mágica

Autor: Nina Sankovitch
Páginas: 232
Editora: Leya

 

 

“Somos aquilo que gostamos de ler e quando admitimos que adoramos um livro, admitimos que este livro representa verdadeiramente algum aspecto do nosso ser, seja o fato de sermos loucos por romance, ou por aventura, ou secretamente fascinados por crimes”

Stefs
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