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23/fev

Eu sempre tenho meus momentos com relação ao que condiz à música. Não me considero eclética (embora essa seja a perfeita definição), mas o gosto musical é um estado de humor, como uma vez afirmou minha querida Peyton Sawyer. Se estou feliz, escuto canções felizes. Se estou triste, o mesmo processo. Acho que todo mundo passa por isso, né? Quando eu quero palavras positivas, vou à sessão de autoajuda musical e me deparo com muita coisa boa, inclusive, Legião Urbana. Você deve estar se perguntando por que essa menina está falando de música sendo que ela deveria falar de um livro…

 

Calma que eu vou explicar!

 

Uma das minhas músicas favoritas do Legião é “Mais uma vez”. É aquela música que sempre me faz cantá-la com a voz engrolada e com as lágrimas pinicando os cílios, junto com “Pais e Filhos” e “Monte Castelo”. Eu nunca conseguirei explicar os efeitos da voz do Renato Russo em mim, mas é algo extremamente forte e emocional, como se ele fosse meu psicólogo e sempre tentasse me mostrar o lado bom da vida. Por isso, acho que Pat precisava de uma dose de Legião Urbana para ser a trilha sonora do seu filme.

 

Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã

 

Se eu fosse dar uma música de presente para Pat Peoples seria “Mais Uma vez”. O personagem principal da obra de Matthew Quick, O Lado Bom da Vida (The Silver Linings Playbook), é aquele cara que raramente você encontrará perto da sua casa. Talvez, o encontro aconteça em um momento qualquer, mas nunca ocorrerá novamente. Não pelo fato do personagem ter ficado em uma clínica psiquiátrica ou por amar demais quem não lhe dá valor, mas por correr atrás do prejuízo gerado por um único e absurdo erro que o fez valorizar dois itens que muitos de nós nem sequer dá atenção: o lado bom da vida e a crença no final feliz.

 

Sim, eu sei, não é fácil viver e esperar o lado bom das coisas, pois já estamos à espreita de coisas ruins. É mais forte que a gente, sério! Há sim possibilidades de se encontrar positivismo na vida, mas, enquanto continuarmos a reclamar do calor no verão e do frio no inverno, essa pacificidade interna continuará bem distante. Infelizmente, as pessoas se tornaram individualistas, frias e vazias. O seu futuro namorado pode estar embaixo do seu nariz, assim como uma nova amizade, mas é mais fácil viver no transe, dentro da redoma, onde ninguém pode te alcançar. Digo isso porque faço parte desse grupo (oi, gente!).

 

Em suma, o que queremos é qualidade de vida, mas esse modus operandi não gira em torno de uma família unida ou um relacionamento estável, mas sim em um salário milionário, a gata peituda da festa ou o garoto com cartão de crédito sem limites. As amizades verdadeiras se tornaram escassas e apreciar a beleza de um fusca se tornou uma atitude patética. O lado bom da vida em pleno século 21 é resumido por status, onde você só é alguém se tiver iPhone, Instagram ou mais de 300 amigos no Facebook. Minto?

 

Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar

 

Pat é o cara que representa alguns bons ditados e, um deles, é dar valor quando se perde algo ou alguém muito precioso. Esse fato não foi inteiramente culpa dele, pois o personagem foi traído, passou dos limites e fez da sua internação um processo particular de melhora para reconquistar o suposto grande amor da sua vida, Nikki. Pat perdeu muito em quatro anos trancafiado no lugar ruim (ou a clínica psiquiátrica), sem noção do tempo e, de quebra, um bloqueio de memória, a chave que justificaria sua internação e o tempo separado da esposa.

 

Pat traçou seus objetivos, como perder peso, dar valor às mulheres, ser gentil ao invés de ter razão e ler todos os livros que Nikki usa em sala de aula. Ele não é tão distante da realidade de muitas pessoas que batalham todos os dias para conquistar algo e, no caso do personagem, ele só queria a amada de volta. Entre os cuidados da mãe, os amigos loucos, os jogos dos Birds (Voem, Eagles, Voem!), o desprezo de um pai temperamental e crises de choro e de raiva, ele se manteve em pé e correu ao longo do seu filme com uma obstinação realmente inspiradora com uma grande pitada de ingenuidade.

 

Hoje, é difícil ver uma pessoa se submeter à outra, pois, de certa forma, soa errado e deprimente abraçar outra pessoa com humildade, pois todo mundo criou a necessidade de estar sempre no topo, acima de qualquer ser humano, até mesmo dos pais. Se submeter virou sinônimo de “escravidão”, tanto para um homem quanto para uma mulher, e ninguém mais quer se inclinar a outra para não ferir o orgulho. Em um mundo tão independente, não há mais espaço para o amor genuíno, nem para se dedicar à pessoa amada, nem se dispor a ela, mesmo que isso rebaixe um pouquinho a autoestima. Tudo agora é a base da recompensa, na fatídica pergunta: o que eu ganho com isso?

 

Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Quem acredita sempre alcança.

 

Pat teve que aprender a viver fora do lugar ruim da maneira mais difícil. Ele perdeu a noção de tempo e, com a memória bloqueada, tudo ao redor dele fica um pouco mais complicado. O homem acha que passou meses internado, mas, na verdade, foram anos. Ele fica chateado porque perdeu o casamento do irmão e também fica enraivecido com o papo das fotos do seu casamento não estarem no devido lugar.

 

De volta ao lar, o personagem redescobre o que é viver em família e em sociedade, e ganhou Tiffany de brinde, a garota que também tem problemas particulares muito sérios. Desempregado aos trinta e poucos anos, tendo que viver embaixo da asa da família, Pat não tem a melhor das oportunidades e ele fica muito suscetível à tristeza.

 

Quer coisa mais tensa ter que pedir dinheiro para a mãe nessa idade? Digo isso porque fiquei um ano desempregada, com 25 anos, e quase tive um ataque psicótico. Não é nada legal pedir grana para os pais depois da adolescência, mas, como Pat diz, esse é o papel da mãe e é por isso que ele a ama tanto.

 

Pat cresce durante a história e somos envolvidos em todos os seus dilemas, por mais bobos que possam ser, mas são tocantes e reais. Um incidente o fez bloquear o episódio que o levou para o lugar ruim e a versão atual o tirou de lá para ter a chance de recomeçar. Entre crises e comprimidos, Pat não abaixa a cabeça em hipótese alguma e não se dá por vencido. Ele confia em si mesmo, acredita que conseguirá vencer o período ruim e, em meio as suas muitas corridas, encontrar aconchego mais uma vez nos braços de Nikki.

 

No final, Pat consegue vencer e de uma maneira inusitada. Ele sempre acreditou em finais felizes, nas reviravoltas que os roteiros sempre dão para fazer o telespectador acreditar que aquele será o término, mas a situação inteira muda. Nada do que ele espera acontece. Deus foi o diretor do seu roteiro e ele era o personagem principal da obra que seguiu por caminhos surpreendentes como em uma obra cinematográfica, sendo testado a todo o momento.

 

Pat ganha pelo carisma e pela esperança de acreditar que tudo dá sempre certo no final, não importa quantas coisas ruins apareçam no meio do caminho. Ele vencia todas as corridas, não só por ser homem, mas por ser um melhor corredor, e quando a tempestade estava prestes a ruir seu universo, até certo ponto fantasioso, ele encontrou sua força interna e venceu.

 

O Lado Bom da Vida: livro e filme

 

Por ser um livro totalmente narrado por Pat, a visão masculina prevalece e é estranho ler sobre um homem tão sensível em um mundo que coloca a mulher sempre como depressiva e o homem como o dominador. Isso deu um humor impecável ao Lado Bom da Vida. Mesmo com tantos problemas e tantas crises, Pat não perde o otimismo e isso faz do livro uma obra extremamente inspiradora para qualquer momento da vida. Não dá para definir se Matthew pensou em um romance, uma comédia ou um drama, porque a obra é um misto dos três, mas que nos leva a torcer pelo sucesso do personagem.

 

Sem contar que as emoções com relação à história de Pat dependem muito do seu estado de espírito. Alguns acharão o livro extremamente engraçado como eu, outros vão chorar litros por se sentir da mesma forma que o personagem, outros encararão a vida com um pouco mais de esperança e é provável que haja alguém que não sinta nada. Para mim, Pat é a versão crescida de Charlie de As Vantagens de ser Invisível, a única diferença é que o personagem de Chbosky estava ocupado participando e Pat estava querendo ser gentil. Ambos conseguem ser tocantes com suas peculiaridades e por acreditarem que a vida é realmente muito boa.

 

Sem contar que sua parceira de cena, Tiffany, impede que um drama se desenrole, pois ela é bocuda, divertida e insegura, mas não de um jeito que a coloca como uma injustiçada ou dramática. Ela é mordaz e sagaz, focou seus medos na dança e criou uma autoproteção que a tornou mais forte. Finalmente, uma garota toma uma atitude sobre um homem, sem as piscadinhas e olhares bobos. Foi lindo! Sei que as mulheres acham maravilhoso um cara fazer tudo por elas, mas já cansei disso.

 

Pat assistia ao filme da própria vida, com direito a cortes de cenas (vai lá Rocky Balboa!) e repetições dos seus afazeres que reforçam a pitada de humor, mesmo não intencional, do personagem. Esse papo de “filme da própria vida” foi um item que me chamou a atenção logo de cara, pois trato a minha vida como uma série, com direito ao season finale e à música tema de despedida. Neste exato momento, ainda estou em hiatus e estou em processo de produção da minha nova saga. Isso não quer dizer que vou parar de assistir seriados, como Pat fez com os filmes, apesar de que esse meu comportamento diminuiu bastante. Afinal, no meu seriado tem tanto pepino para resolver.

 

Sem contar que, quando o personagem falou isso pela primeira vez, lembrei-me de um episódio de The O.C (não recordo o número, mas acredito que seja da segunda temporada), onde Summer também acha que vive um seriado e grava a própria voz para narrar seus bons momentos.

 

Outro item que realmente me tocou foi sua paixão por nuvens. Eu gosto de nuvens e minha personagem do WP também gosta delas e eu fiquei tão feliz ao ver que a ideia de gostar dos flocos de algodão (duh!) não é idiota. O ponto altíssimo do comportamento de Pat se reflete nas suas aventuras ao ler os livros para agradar Nikki, porque ele se revolta com o final de todos.

 

O personagem ficava revoltadíssimo por nenhum deles ter um final feliz. Essa parte no filme me fez rir muito. Quem se revolta com leituras de livros se identificará muito fácil com Pat. Imagino a reação dele lendo Harry Potter. Ele ficaria ferrado da vida com a morte do Snape, certeza.

 

Foto: divulgação

Como todos bem sabem, o livro ganhou adaptação para o cinema e quem interpreta Pat e Tiffany é Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, ambos indicados ao Oscar de Melhor Ator e Atriz. Nem preciso dizer também que o longa concorre na categoria principal da noite (Melhor Filme). Sobre a obra cinematográfica, apreciei bastante e foi realmente um choque assistir à trama com o roteiro adaptado de cima a baixo, com alterações gritantes, mas que respeitaram os personagens e os diálogos mais marcantes. Não espere fidelidade extrema do livro com o filme. Sei que esse aviso não é novidade, mas não espere mesmo.

 

Deixo minha indignação pelo fato da dança não ter usado a música sugerida no livro. Fiquei chateadíssima! Para compensar, Bradley e Jen têm uma química incrível e isso poupou a minha ira interna. Nem parece que ele fez Se Beber Não Case e que ela é aquela personagem lá, er, Katniss (piadinha sem graça!). Eles realmente provaram que são atores versáteis, que topam qualquer desafio, e que se dão incrivelmente bem no que fazem. Além de terem demonstrado uma ótima química.

 

Palavra final

 

A moral que eu tiro é que é sempre bom acreditar no lado bom da vida. Não sabemos quais surpresas encontraremos no meio do caminho, as chances que surgirão no percurso e quais as pessoas que poderão pipocar para dar aquele abraço maravilhoso e aquela palavrinha de conforto. Vivemos sim em um filme, mas o diretor dele somos nós e, com escolhas sábias, não há porque viver sempre no lugar ruim. Sempre haverá alguém que se importa. Pat contou com a família, com os amigos, com Tiffany e ganhou os melhores presentes da vida e muitos motivos para acreditar em finais felizes, mesmo com as crises.

 

“Acredito em finais felizes do fundo do meu coração. Tenho trabalhado demais em meu autoaperfeiçoamento para desistir de meu filme agora.”

 

 

Na Prateleira: 
Nome: O Lado Bom da Vida
Autor: Matthew Quick

Páginas: 256
Editora: Intrínseca

Stefs
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