Menu:
21/fev

Um misto de depressão e um pouquinho de indignação me fez terminar de assistir Amor (Amour), filme de Michael Haneke, com a boca aberta em completo choque. Como diria Georges, o personagem principal, esse é um tipo de filme que você pode não se lembrar da história, mas recordará da emoção que ele lhe passa. Ele mandou seu recado perfeitamente. O final dessa história me deixou alguns minutos sem respirar envolta a uma perplexidade que gerou muitos questionamentos que terminaram em vários por quês.

 

O enredo do filme de língua francesa, porém com dedo de austríaco, gira em torno da vida do casal aposentado Georges e Anne, que vivem sozinhos e mantêm uma rotina de muito amor e distração em concertos e em almoços e jantares que compartilham juntos. Em um desses momentos, Anne simplesmente fica catatônica, sem motivo, razão ou circunstância. Esse comportamento dá aval a uma série de eventos nada animadores que comprometem e abalam a vida de ambos.

 

Por mais que o enredo gire em torno de Anne e seu problema de saúde, fator que faz Georges se movimentar na história, é ele que leva tudo nas costas e nos faz respeitá-lo em cada atitude tomada a favor da esposa. Georges fica o tempo inteiro em foco para provar que seu amor por Anne é verdadeiro e que superará a fase ruim até o fim ao lado dela. Ele dá a alma para fazer com que a esposa se sinta bem e não dá apoio a ideia de que ela seja um estorvo, sendo paciente com todos os resmungos e chateações da mulher.

 

Porém, conforme os dias passam e a saúde dela fica mais comprometida, Georges se divide entre a necessidade de manter a promessa de que não a internaria ou a colocaria em um asilo, e os cuidados da casa, das compras, dos remédios e da alimentação de Anne. E ele faz tudo sozinho.

 

No decorrer de todo o dilema vivido pelos personagens, não tem como não respeitar os esforços de Georges, por mais que você queira dar uns tapas nele e gritar: por quêêê? Por isso, é fácil se revoltar com ele no final da história, mas, ao mesmo tempo, compreender que o amor e sua vivência não são mil maravilhas. O sentimento também requer sacrifícios.

 

Amor: críticas sociais

 

O longa aproveitou a rotina do casal para explorar alguns pontos com sutileza, como o “preconceito” e os maus-tratos com as pessoas idosas. Isso foi refletido na segunda enfermeira que Georges contrata que, ao invés de pentear o cabelo de Anne, parece que vai arrancar o couro cabeludo dela. A profissional, que de profissional não tem nada, é aquele tipinho de mulher que sempre aparece no Datena acusada de maltratar pessoas de idade ou crianças. Foi realmente tocante o pulso firme de Georges ao assistir sua esposa ser humilhada e foi genial ele se impor e afirmar que espera que alguém trate a enfermeira como ela tratou Anne.

 

Georges faz das tripas coração para manter Anne confortável. Não consigo mais visualizar este tipo de amor tão forte, sabem? Eu ainda tenho em mente que todo mundo é materialista e que o amor é a última coisa que se passa na cabeça de todo mundo. Falo isso porque me sinto dessa forma. Não que eu seja a cidadã capitalista, mas dar voz aos projetos pessoais é mais fácil que abrir o coração e deixar alguém entrar. Essa força e persistência de Georges é o que faz de Amor uma verdadeira história romântica, realista e tocante com demonstrações gritantes de força e otimismo – mesmo com a carga de pessimismo.

 

Entre meus questionamentos, acredito que muitas pessoas têm medo de envelhecerem por causa da reação dos filhos que tomam atitudes extremistas, como enviar o “estorvo” para o asilo. Eu trabalho perto de um e é realmente triste de se ver. Eu não consigo nem imaginar minha mãe em um lugar desses, sabem? É desumano! A filha do casal, Eva, até cogita a ideia de enviar a mãe para algum canto onde alguém assuma a responsabilidade por ela, mas Georges, sempre lindo, não permite.

 

Esse tipo de atitude propõe que todo mundo ficará jovem para sempre, como Dorian Gray, e a ideia de respeitar os idosos é frescura. Fico doente quando vejo os assentos preferenciais do metrô ocupados por homens (em grande maioria) desleixados e patéticos que sentam e fingem que dormem para não desocupá-lo. As necessidades de uma pessoa idosa não consegue tocar o coração de ninguém. E isso é triste. Muito triste.

 

Existe amor assim?

 

Em algum lugar deste mundo deve haver sim. Amor é aquele tipo de filme que nos faz questionar se existe esse tipo de relacionamento para a vida inteira. Hoje em dia, as pessoas se juntam tão rápido e se separam por tão pouco que é comum se questionar se vale a pena sonhar com casório e ter um amor épico. Confesso que sou do time que não bota tanta fé em relacionamentos duradouros, mas admiro quem consegue levar adiante uma história verdadeira, capaz de sobreviver a muitos empecilhos. Homens como Georges se tornaram um caso raro. Se o longa acontecesse na real, aposto que a primeira opção é largar a esposa à mercê dos cuidados de outra pessoa que nem conhece a família.

 

É um filme que merece sim o Oscar de filme estrangeiro, até daria o de melhor filme,  por retratar um dos elementos que poucos seres humanos ainda acreditam: o amor. É uma história verdadeira sem se apoiar em clichês e essa honestidade o faz intenso, a ponto de gerar uma pausa reflexiva e dramática. É um filme de quebrar o coração, mas que demonstra a pureza de um sentimento que nos faz atingir os limites da razão, cujas escolhas nem sempre são aceitáveis, como desistir do amor da sua vida.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3