Menu:
03/mar

Não sou muito fã de Stephenie Meyer. Na verdade, eu nem a amo e nem a odeio, mas meu receio quanto a ler qualquer obra dela aconteceu por culpa de Crepúsculo. Não vou mentir, antes de sair o filme, isso com o elenco já confirmado, eu era a maior fangirling do Edward (não do Robert), mas não do tipo desesperada que imaginava que um vampiro apareceria na minha vida. Peralá!

 

Neste caso, realidade x expectativa, por favor! Contudo, tive um período de encantamento até ler Amanhecer, onde o feitiço caiu por terra. O amor acabou e eu não leria os quatro livros de novo nem que me pagassem milhões (mas podemos conversar, se quiser).

 

Mas por que o amor acabou?

 

Se eu for enumerar as causas que me fizeram sair do amor para o desprezo por Crepúsculo, eu teria que mudar o objetivo do post. Irei dizer apenas um deles: achei o cúmulo o Jacob ficar com a Nessie. Eu achei isso um empurrão inaceitável, só para o personagem não terminar sozinho, além de precisar de alguém para explicar como funcionava o tal imprinting. O fato de Edward Cullen brilhar não me abalou tanto quanto a isso, mas não deixa de ser um ponto surreal também, pois Meyer tentou mudar a essência de um ser sobrenatural que nenhum escritor ousou alterar tanto assim.

 

Quando estava envolvida no universo de Bella Swan, descobri que Meyer tinha publicado A Hospedeira. Porém, isso foi no meu momento de revolta. No que deu? Não li, nem quis e pouco me importei. Me diziam que era mais maduro, melhor que Crepúsculo, mas eu não queria saber. Minhas relações com a minha xará estavam cortadas. Dispensei a leitura por anos e não tinha coragem de gastar um tostão com o que parecia ser mais uma história boba que me causaria revolta à Pat Peoples.

 

Os anos se passaram e eu estou aqui. Literalmente, banquei a poser, pois comprei o livro em uma promoção no meu amado Submarino (luxuosos 10 reais) e comecei a leitura por causa do lançamento do filme que acontecerá neste mês. Eu tenho sérios problemas em ficar de fora das coisas, ainda mais quando tem fandom envolvido, então, dei uma nova chance para Meyer, com o psicológico preparado a não criar expectativa para me aborrecer depois.

 

Quando terminei a leitura, fiz a pausa dramática mais digna do mundo com a seguinte pergunta: por que Stephenie Meyer sonhou com o plot de Crepúsculo, sendo que A Hospedeira é mil vezes melhor?

 

Tudo bem. Eu só a perdoei por conta dos anos de publicação. Afinal, Crepúsculo veio primeiro.

 

A Hospedeira é um livro enorme que me dava preguiça só de olhar para ele, ainda mais por ser narrado em primeira pessoa, algo que todo mundo sabe que não sou muito fã. Confesso que fiquei confusa no começo, mas depois peguei a maré e me rendi à história da Peregrina, a estrela da obra de Meyer, junto com Melanie. Assim como a alma demorou a se habituar à humana, eu comi bola até me acostumar ao formato da narrativa, pois se trata de duas pessoas em um corpo e que falam ao mesmo tempo.

 

Stephenie repetiu o mesmo formato de Crepúsculo dando voz a sua protagonista que é mil vezes mais interessante que Bella Swan. Peregrina (Peg e Pet no final da história) é uma alma que foi inserida no corpo de Melanie. O livro relata a história de duas personagens, uma que é humana e tenta se manter viva, já possuída pela alma, e a outra é alienígena, sem conhecimento nenhum da furada que se meteu. O background é mais ou menos futurista, com uma pegada sci-fi meio juvenil que até curti, onde tudo aquilo que vivemos hoje é esquecido, pois os humanos estão instintos e os Buscadores estão à solta para fazê-los de hospedeiros.

 

Peg não consegue dominar Melanie e começa a receber lembranças da vida humana do corpo hospedeiro que a deixam desconcentrada. A alma precisa se habituar, mas é levada para o fundo das memórias de Melanie e a parte tensa se inicia: Peg se apaixona por tudo aquilo que não lhe pertence. Como vocês puderam notar, é difícil explicar o enredo de A Hospedeira. Eu mal consegui comentá-lo com meus amiguinhos de almoço. Só lendo mesmo para compreender a maneira como Meyer destrinchou uma história que achei muito superior a Crepúsculo, tanto em qualidade quanto em desenvolvimento.

 

Para quem está acostumado com Bella e Edward, terá que fazer uma limpeza espiritual como eu fiz, pois A Hospedeira não tem nada a ver com a saga vampiresca e nem com o apelo amoroso de love me, love me not. É outro universo, sem InstaLove, os personagens são mais velhos e maduros, e a história de amor não é o foco principal, mas sim a questão de sobrevivência e das experiências humanas de Peg, além da expectativa de vida e morte. Atrelado a tudo isso estão os desejos positivos e negativos dos seres humanos diante de uma alienígena que, no ponto de vista deles, é o inimigo.

 

O livro é de fantasia, mas é bem humanizado, daquele jeito que gosto, que me faz refletir assim que termino a leitura. Nele são ressaltados, pelo ponto de vista de Peg, as qualidades e defeitos dos humanos, o comportamento deles quanto à hora do aperto, como lidam com uma situação nova e a capacidade de fazer ou pensar atrocidades por medo do desconhecido. Sem contar que os humanos têm a necessidade de estar em primeiro lugar em qualquer circunstância. Os questionamentos de ser ou não ser estão presentes, onde a dúvida central é manter o corpo da hospedeira ou se sacrificar para que todos fiquem felizes à sua maneira.

 

As personagens principais: Peregrina e Melanie

 

Peg é a hóspede que torna o corpo de Melanie um hospedeiro. Ao longo da história, ambas duelam para ver quem se sobressai até chegarem ao consenso. O começo da trama é bem parado com os duelos das duas e o conflito com a Buscadora, mas a “ação” realmente se inicia a partir do momento que encontram Jeb e os outros humanos que formam um grupo de foragidos. Isso inclui o amor da vida de Melanie, Jared, que age com hostilidade ao corpo que ama. Ele a trata como “coisa” por entender que a amada se foi ao ser dominada por Peg.

 

A história demora um pouco para chegar ao que interessa, mas toca nos conflitos humanos gerados por causa da presença de Peg. O grupo foragido se divide entre aqueles que confiam na nova versão de Melanie e aqueles que desconfiam e a querem morta de qualquer jeito. Conforme os impasses acontecem, percebemos que a alma é incapaz de fazer maldade, é pacífica e justa, mas pode ser corrompida.

 

Peg tinha tudo para roubar o universo de Mel, mas ela deixou evidente que isso é caráter dos humanos. A alma se deparou com sentimentos nunca vividos antes e isso, do ponto de vista dela, é realmente assustador. Tinha momentos que queria acudir a garota devido à pressão e ao medo que os humanos impuseram a ela. Um detalhe bem bacana é que A Hospedeira entra na questão do que é justo e injusto, onde todas as atitudes tomadas em pró da Peregrina era uma faca de dois gumes que se refletiu na convivência do grupo.

 

Por outro lado, Melanie age como uma segunda voz na mente de Peg. Tipo a nossa consciência que tenta nos avisar se determinada decisão é certa ou errada. Como se pode imaginar, há momentos que ela só atrapalha. Papel do nosso consciente, fato!

 

Os personagens de A Hospedeira se dividem nessa onda incansável de sentimentos que geram tantos atritos que servem de aprendizado para Peg. E, claro, ao se tratar de Meyer, o primordial deles é o amor, que inclui Jared que pertence à Mel. Em contrapartida, tem Ian, que mostrou à Peg a sensação incrível de ser amada, sem sofrer preconceito e descaso, e ter a promessa de que essa relação duraria para sempre, independente do corpo que a alma ocupasse.

 

O quadrado amoroso: Ian e Peg e Jared e Melanie

 

O triângulo amoroso é um quadrado. Jared é ligado à Melanie. Ian a Peg. Sim, é uma confusão, pois o corpo quer Jared, mas a alma quer Ian. Porém, Mel não quer que Ian chegue perto dela, pois trata-se do seu corpo e ele pertence ao Jared. Deu para entender? É, só lendo mesmo, gente!

 

Ian e Peg formam meu casal favorito. Não só por eles terem mais destaque na história, mas pela questão do garoto ter aprendido a aceitar a garota como ela é. Jared só via o corpo por ser de Melanie e Ian via a alma. Não é à toa que Ian sempre foi o primeiro a intervir nas atitudes impensadas de Peg e brigava com Jared o tempo inteiro por achar que ele incitava o lado autodestrutivo dela. Para Jared, Melanie não existia mais e ele só foi aceitar a nova versão da amada quando descobriu que ela coexistia com Peg.

 

Peg tem reações aos dois garotos, por ser duas pessoas. O amor por Jared é o fogo que gera o incêndio e por Ian é água que gera pacificidade. Como brigar com isso? O mais tenso é que Peg se apaixona pelo garoto de Mel e tudo começa a ficar mais confuso do que aparenta. Nesse combo, cheguei à conclusão que Meyer tentou debater mais uma vez a insegurança feminina perante o garoto que gosta. Quando Peg descobre quem realmente ama, o primeiro medo dela é saber se o sentimento continuaria se ela largasse o corpo de Mel.

 

No final, esse impasse é resolvido. Jared pode ter amado Peg, mas o interesse dele sempre foi no corpo. Não digo em forma carnal, detalhe que também se inclui, mas para o rapaz se tratava de Mel, a humana que encontrou no percurso de uma de suas dezenas de fugas e, de fato, não faria tanta diferença se a alma morresse. Jared aprendeu a ser compassivo e aceitar “a coisa”, mas nunca escondeu que o interesse era no corpo hospedeiro.

 

Ian não ligou para o corpo, pois ele aprendeu a amar a alma. Ele queria Peg, independente de onde ela estivesse. O rapaz não foi um doce de pessoa com ela no começo, mas é assim que certos relacionamentos começam, não é? O que encanta em Peg e Ian é o fato do amor deles ter sido construído aos poucos e ter chegado ao final da história por motivações justas e certas. Não é nada de amor à primeira vista, o que me deixou satisfeita, e a garota não fica com expressão de boba o tempo inteiro. Amém!

 

Palavra Final

 

A Hospedeira ganha valor por falar do comportamento humano acima do quadrado amoroso. Peg teve que aprender a conviver com um grupo imenso cujos sentimentos a banhavam como água fria o tempo inteiro. Ela não sabia se era amada ou odiada, pois tudo girava em torno de manter o corpo de Melanie vivo, pois é essa a versão que todos queriam e, ao mesmo tempo, temiam ter de volta. Esse conflito é muito bem desenrolado, realmente dá para sentir a agonia de Peg, e Meyer conseguiu fazer eu me cativar pela sua protagonista “parasita”.

 

Se a raça humana fosse extinta, não agiríamos de maneira tão diferente como foi retratado na obra de Meyer. Ela foi até suave ao expressar a nossa necessidade de sobrevivência, por exemplo, pois tenho certeza que agiríamos de maneira muito pior se nos deparássemos com Peg. Conforme os anos passam, nos tornamos mais egoístas. Em outras circunstâncias, duvido muito que Peg teria ficado viva até o fim. Humanos são intensos e loucos, ainda mais quando o lugar onde pertencem sofre alguma ameaça.

 

O que tiro de lição é que, independente da geração, é da estirpe humana julgar aquilo que desconhece. A maioria das pessoas pode jurar que se preocupam mais com o que o próximo tem a oferecer por dentro que por fora, o que é uma baita mentira. A primeira coisa que notamos em um indivíduo, por exemplo, é como ele se veste. Se forem trajes horríveis, lá vai uma onda de julgamento. Jared e Ian cravam muito bem essa ideia. Um considerava o corpo mais importante que a alma e vice-versa. A parte física e não emocional é vista em primeiro lugar. Aqui, calha o conselho de não julgar o livro pela capa.

 

Além disso, há a questão dos interesses. Jeb pode ter tido a melhor das intenções, mas assegurou Peregrina para saber como funciona o universo das almas e se havia possibilidades de desligar o hóspede da hospedeira. Ele era o “monstro” mais ameno entre o grupo. Peg é tão ingênua que não vê o quanto foi usada ao longo da sua convivência com os humanos e algumas partes chegam a ser absurdas. Afinal, não sabemos lidar com pessoas “bobas” e, quando encontramos uma, queremos usá-las por diversão ou porque ela tem algo muito bom a oferecer. Os humanos são movidos por interesses e Meyer pontuou isso de forma que não fugisse tanto da realidade.

 

Mas sempre tem alguma coisa que fica a desejar e em A Hospedeira não foi muito diferente, ainda mais pela autora que tem. Os pontos negativos da obra são a facilidade com que as coisas se desenrolam e as doses de monotonia. Eu fiquei a leitura inteira à espera de um pouco de ação, mas nada aconteceu. Peg conseguia tudo o que queria com um piscar de olhos, até mesmo quando confrontou a Buscadora.

 

Meyer provou mais uma vez que tem grande dificuldade em destroçar o mundo dos seus personagens e dá a eles finais fáceis e felizes. Sei que todo mundo gosta de uma conclusão saltitante, mas, na ficção, os leitores precisam de tragédias para se revoltar e depois sorrir. É regra e faz bem!

 

De fato, não dá para reconhecer o dedo de Meyer nesta obra. Eu li algumas entrevistas dela onde foi afirmado que sci-fi é a sua pegada na hora de escrever. Acho que voltarei em breve a dar um pouco de crédito a minha xará, pois também sou afeiçoada a esse gênero e pago de Inês Brasil: me chama que eu vou! Sem dúvidas, dou o maior apoio para ela permanecer nesse caminho, pois funcionou melhor que o vampirismo.

 

Além do filme que está quase aí (quero ver logo, mammy!), há boatos de que A Hospedeira ganhará sua continuação muito em breve, detalhe que já foi confirmado por Meyer na época do auge de Crepúsculo. O título temporário é The Seeker ou O Buscador. Confesso que estou curiosa para saber o resto da história de Peg, mas ainda é só rumor e daqueles dos fortes que nunca se confirma.

 

“Talvez não houvesse como ter felicidade nesse planeta sem uma dose igual de dor para equilibrar”

 

 

Na Prateleira:
Nome: A Hospedeira
Autor:  Stephenie Meyer
Páginas: 557
Editora: Intrínseca

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Oi minna!

    Assisti ontem (27/10/2014) o filme A Hospedeira. Eu amo a Peg. Voltei o filme várias vezes na parte final, pra mim ver rs… é muito emocionante ^-^ e eu odeio Crepúsculo rs… gostei do primeiro filme e achei o resto muita viadagem e nem quis saber do livro! Zuei com a minha sogra, ela ama Crepúsculo. Eu disse a ela, que dessa vez a Autora de Crepúsculo acertou em tudo rs… o livro e o filme A Hospedeira é maravilhoso em tudo! Não quis que Peg morresse, não quis que ela voltasse para um dos planetas :/ eu realmente me apeguei a ela :( amo a Peg e chorei quando ela disse que finalmente tinha achado um motivo para morrer! Ian é um cara demais que se apaixonou por Peg mesmo sabendo que ela não era uma humana. Ian e Peg ♡♡ FORever ^-^

    Obrigado pela oportunidade ^-^
    Até mais, bjs!

  • Uma das melhores resenhas de A Hospedeira que já li (e olha que já li várias :b), mas como defensora do Jared tenho que pontuar algo que considero errado na sua colocação. Jared e Ian não são contrários na dicotomia alma x corpo. Tanto Ian quanto Jared não querem o corpo se não com a alma da que ama dentro, Jared não liga mais para o corpo do que para a alma como você disse, pois se assim fosse, Jared namoraria com Peg sem problemas e não é o que ele faz, ele a trata mal justamente por não ser A Melanie, ainda que seja o corpo dela. Alguém que representa uma contrapartida aos dois seria Kyle, que mesmo quando descobre que Jodi não vai voltar à vida, decide deixar a alma Sunny dentro do corpo dela (despistando seu ódio pelas almas) apenas pra ter o corpo/presença da namorada com ele, egoísmo puro (ainda que eu goste dele no final).

    • Hey, Cinthia, tudo bem? Obrigada por deixar seu comentário aqui e fiquei muito contente por vc ter realmente gostado da resenha *_*.

      Ótimo ponto de vista o seu, não tinha puxado para esse lado, deve ser porque me apaixonei pelo Ian logo de cara e por ter pegado uma birra sem fim do Jared. Eu me recordo da mudança dele no final do livro, onde Peg pede para ele que minta sobre querer que ela fique ou não e, no fundo, ele já não ligava mais para isso. Eu tinha até pensado em pontuar isso na resenha, mas ficaria um post de graduação hahahahaha.

      Kyle foi uma revelação, eu imaginava que teria uma surpresa na vida dele, de maneira que ele mudasse de opinião e isso foi realmente mto bom, pois conseguiu mostrar um efeito contrário no que condiz a Jared e Ian.

      Obrigada mais uma vez pela visita!!! Grande beijo!