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14/abr

É inegável que Audrey Hepburn é um símbolo de feminilidade, não só pela beleza, mas por sempre ter demonstrado ao longo da carreira um grande autorrespeito, sem precisar recorrer aos escândalos para se promover. Sem contar que ela ainda é uma fonte inspiradora por ter acreditado na força da família, no poder de ser mulher, na crença nos próprios sonhos e no quanto é possível mudar a vida de alguém por meio de um gesto altruísta.

 

Audrey iniciou a carreira no período em que estrelas como Marilyn Monroe eram referência e padrão de beleza. De origem belga, mas erradicada na Inglaterra, a atriz ficou famosa por interpretar Holly Golightly, a fatídica personagem do consagrado livro de Truman Capote, Bonequinha de Luxo. Esse foi o papel que a levou ao auge e a eternizou para sempre.

 

O livro Quinta Avenida, 5 da manhã – Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o surgimento da mulher moderna baseia-se nesse cenário e o título mensura o horário da gravação da poderosa cena em que Holly toma café em frente à vitrine da Tiffany. A obra de Sam Wasson aborda a transição da década de 50 para 60, onde, além de narrar como se deu a carreira de Audrey e as aspirações de Capote, pontua o papel da mulher nada moderna que buscava ter voz em meio a uma sociedade que a calava.

 

Wasson começa a narrativa no final da década de 50, onde dá respaldo à trajetória não só de Audrey, como de Capote. Antes dos destinos deles se encontrarem, a atriz agregava no currículo cinematográfico papéis que ganharam notoriedade como “A princesa e o Plebeu”, “My Fair Lady” e “Férias em Roma” que lhe rendeu o Oscar. Enquanto Capote desfilava entre a elite de Manhattan até se deparar com a inspiração que lhe daria Bonequinha de Luxo, Audrey engrandecia no cinema ao mesmo tempo em que tentava conciliar a vontade de casar e ter filhos.

 

O background do livro

 

Wasson nos leva ao mundo cinematográfico da transição da década de 50 para 60 e foca bastante no papel da mulher, não só como responsável pelo lar, mas como ela era tratada nos estúdios da sétima arte. Ao contrário do que vemos hoje, nessa época, a censura era dominadora e os roteiristas tinham que encaminhar os trabalhos para o Green Office ou o Production Code Administration. Caso fosse recusado, os produtores tinham trabalho duplo para readaptar o que foi escrito.

 

Claro que os mais espertinhos davam um jeito, como aconteceu com Bonequinha de Luxo e até mesmo com o genial Psicose, mas materiais banhados de sexo, de violência e de jargões de baixo calão eram facilmente barrados.

 

Sam foi bem inteligente ao fazer uma ordem cronológica que leva o leitor à produção de Bonequinha de Luxo. Embora o cinema tenha sido o ponto de partida do autor, ele deu um foco bem interessante para as questões da mulher e do casamento tendo como base o estilo de vida de Audrey, a mulher que se tornou símbolo Girl Power em uma época que ser esposa era ser submissa ao marido, ficar dentro de casa e tomar conta dos filhos.

 

Ao chegar em Audrey, a narrativa remonta a quebra de paradigmas ocasionadas pela atriz por meio das personagens que atuou para o cinema e que transmitiram a imagem da mulher independente, sem fazer uso da nudez ou se meter em confusão com algum homem. Essa preservação toda influenciou e muito na decisão dela em aceitar a proposta de ser a protagonista de Bonequinha de Luxo, ainda mais por estar casada na época com um homem que não a fazia se sentir completa e que não via com bons olhos o reconhecimento do trabalho realizado por ela.

 

As mulheres daquela época consideravam Audrey uma inspiração para serem livres e donas do próprio nariz. Porém, a realidade da atriz era completamente diferente dessa compostura aparentemente perfeita.

 

Audrey Hepburn: a mulher moderna

 

“No anos 50, se você fosse mulher, muita coisa estava errada e muito pouco era honroso. Ou você era vagabunda ou era santa.”

 

 

Uma coisa que me chamou atenção neste livro é o contraste que se dá entre a Audrey diante dos holofotes e a Audrey longe deles. A versão artística dela esbanjava o lado ainda inexistente da mulher, a moderna, aquela que podia curtir a vida, fazer sexo antes do casamento, beber e fumar sem se importar com os comentários negativos. Até hoje, esses padrões ainda são vistos como desprezíveis no comportamento da mulher, mas os incômodos quanto a isso são bem menores, pois se tornou algo “natural”.

 

O agente de Audrey tinha uma singela preocupação em mantê-la como a mulher perfeita e amada, até se deparar com o desafio que mudaria ou destruiria a carreira dela para sempre: interpretar uma prostituta. O efeito foi supostamente o contrário, pois Audrey alcançou o estrelado e serve de modelo até hoje como o tipo de mulher que todo mundo quer ser. Na época de Bonequinha de Luxo, o público feminino só queria saber de Audrey Hepburn. Com um papel que tinha tudo para destruir a reputação adorável da atriz, ela se tornou a garota mais cool do começo da década de 60 por causa da infame Holly Golightly.

 

Audrey foi contra a maré das garotas malvadas, famosas por fazerem sexo sem amarras, como Sam muito bem exemplificou ao longo do livro. A atriz fazia parte do seleto grupo de mulheres que todo homem deveria desposar. Porém, a versão fora da fama não era nada independente, pois ela era meio que submissa ao primeiro marido, Mel Ferrer.

 

Quando digo submissa não quer dizer que ela parou de trabalhar para cuidar do filho e do marido. A tensão entre Audrey e Mel era evidente, até em eventos públicos. O homem não gostava nem um pouco de ver a carreira da esposa alavancar e reclamava por achar que estava sendo deixado para trás. Como forma compensatória, pelo menos é o que eu acho, ele a humilhava com críticas totalmente irrelevantes, como os cotovelos sobre a mesa, o fumo e o uso de palavrões, atitudes espontâneas de Audrey. Mesmo fora das telas, Mel exigia que a mulher fosse perfeita e que o respeitasse.

 

Audrey não aceitava que vivia um casamento infeliz por acreditar no poder da família. Diante de tanto estresse, ela sofreu inúmeros abortos, até dar vida a Sean, o fio de esperança que poderia sustentar o casamento. Mesmo com essa briga interna, ela manteve-se firme e se empenhou de uma maneira verdadeira no papel da mulher moderna.

 

A adaptação de Bonequinha de Luxo tinha a preocupação de respeitar a imagem de Audrey, a garota cool do momento. Com o simples new look, um corte de cabelo e o abraço de Givenchy, Audrey se tornou a figura mais popular do circuito cinematográfico. Ela fez as mulheres trocarem as saias justas por calças. Os saltos, por sapatilhas. As blusas decotadas por cardigãs. A atriz ensinou ao público feminino a amar as coisas simples, como apreciar a vitrine de uma loja por meio de Holly Golightly.

 

No passado, as mulheres eram muito mais submissas ao homem. Hoje, esse comportamento ganhou forma e poder no machismo. Uma mulher que conquistou um cargo excelente é criticada, assim como aquela que recebe um salário maior que o do homem. Audrey tentou “segurar” o marido com muita paciência, chegou até a crer que Sean mudaria o lado frio do relacionamento, mas a garota feliz da tela não era a mesma fora dela.

 

De Audrey a Capote

 

No livro, Sam relata a preocupação de Audrey com relação à Holly. A atriz só aceitou o papel com a condição de fazer algumas modificações na personagem, um detalhe que foi aceito, pois o Green Office barraria o roteiro por se tratar de uma prostituta em meio a diálogos ricos em trocadilhos sexuais. Um roteiro de linguajar ácido, ainda mais inspirado em algo de Capote, era barraco na certa e era um material suficiente para declarar o apocalipse na transição da década de 50 para a de 60. A dificuldade inicial era fazer Holly uma personagem agradável, de maneira que as pessoas se apaixonassem por ela e esnobasse o papo de prostituição.

 

Jornalista, Capote foi responsável em criar a personagem que levou a carreira de Audrey ao ápice. Muito se pergunta se Holly foi baseada na mãe dele, mas eu acho que foi uma mistura de todas as mulheres, talvez, promíscuas que ele conheceu. A alta sociedade, independente da década, sempre teve um lado mais tacanho, onde as mulheres conseguiam dar escapulidas para serem elas mesmas em meio aos homens dominadores e de ego inflado.

 

Capote foi dotado de muita inteligência e insistência, o que o fazia praticamente insuportável de se conviver no ponto de vista de algumas pessoas. Eu o imagino como aquele tipo que fazia todo mundo se esconder assim que era avistado, pois uma bomba sempre vinha junto com ele. Mesmo agradável para alguns e para outros nem tanto, o jornalista criou uma personagem que, mesmo que não fizesse o tipo da mulher da década de 50 e 60, trouxe trejeitos modernos ao público feminino em três atitudes personificadas em Holly: o fatídico vestido preto, a cor que remeteu à independência da mulher, o fato dela morar sozinha em uma cidade grande, no caso Nova York, e ter como amigo um homem que também era prostituto.

 

Ele, mesmo que tenha declarado que odiou a adaptação de Bonequinha de Luxo, trouxe liberdade à mulher no início da década de 60 em forma de Audrey Hepburn e não de Holly Golightly.

 

Opinião geral

 

É um livro incrível e envolvente. Ele faz um balanço geral não só em cima das figuras envolvidas em Bonequinha de Luxo e da mulher moderna, como o tipo de cinema que era produzido na década de 50 e de 60. Sam foi muito condizente ao recontar como uma das produções mais lindas e perfeitas do cinema aconteceu de forma plausível, com perfeita delimitação de espaço e de tempo que levou Audrey e Capote ao hall de artistas eternizados.

 

Dentre todas as mulheres de Capote, Holly era a favorita dele. Audrey, tendo Holly Golightly como a porta-voz, mudou o conceito do que é ser mulher e de como os homens não é tudo o que se precisa na vida. Eu amei esse livro do começo ao fim, ele clareou muitas coisas que eu só cogitava na minha cabeça e foi realmente enriquecedor.

 

Segredo da Random: quando estou muito triste, sempre assisto Bonequinha de Luxo seguido de O Diabo Veste Prada, pois me sinto mil vezes melhor por ver mulheres independentes correr atrás do que querem e se darem bem. É realmente revigorador, sério.

 

Quem gosta de cinema, Audrey e Capote vai abraçar esse livro muito inteligente, organizado e bem escrito.

 

Fotos retiradas do amigo Google, com exceção da capa do livro que pertence a mim.

 

 

Na Prateleira

Título: Quinta Avenida, 5 da Manhã
Autor: Sam Wasson
Páginas: 268
Editora: Zahar

Stefs
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