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16/abr

Hoje é aniversário de morte do Titanic e eu não podia deixar esta data passar batida. Com certeza, o filme deve ter sido reprisado, afinal, hoje é segunda-feira e faz um pouco de sentido. Para aqueles que gostam muito da história que envolve o navio, assim como eu, a dica vai para a série Titanic: Blood and Steel. A minissérie de 12 capítulos foi ao ar no ano passado e eu tinha o esqueleto desta review pronto. Porém, por motivos que não sei explicar, eis que desenvolvê-la calhou agora e espero que eu consiga atraí-los para uma série histórica incrível.

 

Se você espera aquele velho conto de ninar de como o Titanic afundou no dia 15 de abril de 1912, esqueça. Titanic: Blood and Steel traz uma proposta diferente, mas não inusitada. A história se baseia na construção do navio “inafundável”, na cidade de Belfast, o lugar do nascimento do Titanic, no ano de 1910. Nessa época, a Irlanda estava em posse de Londres e havia a velha briga religiosa entre católicos e protestantes. Para lhe ajudar, os protestantes eram na maioria ricos e os católicos eram os pobres. Isso queria dizer que as grandes empresas eram protestantes e só conseguiam se estabelecer quem seguia a mesma linha de pensamento. Dessa forma, os católicos ou morriam de fome ou tinham que esconder a verdadeira intenção religiosa.

 

É nesse meio que surge Mark Muir (interpretado por Kevin Zegers), um engenheiro muito inteligente que entra como mão de obra e braço direito da construção do Titanic. O homem é responsável em tomar conta de todo o processo que traria o navio histórico à vida, focado, especialmente, no que condizia a parte do aço que deveria dar plena segurança à embarcação na ideia de transformá-la imbatível, sem jamais afundar. Mark tenta mostrar ao longo da trama como o Titanic tem uma planta de construção muito sensível e começa a se envolver e meter o bedelho demais, o que dá aval para inimizades dentro da White Star Line.

 

Entre o talento e a paixão pela engenharia do navio, Mark vive como agente duplo, onde de manhã ele se passa por um pequeno burguês protestante com acesso às festas e aos encontros da primeira classe, e a vida de plebeu católico, cujo pai é um bêbado que esconde um fato que muda todo o percurso do personagem.

 

A história de Mark se torna mais interessante quando ele conhece Sofia, a garota pobre. Não é nada de romance à Jack e Rose. De certa forma, eles ficam juntos no final, mas a maneira como acontece é um mar de suposições, já que a série não se prolonga até o fatídico naufrágio no dia 15 de abril de 1912. Além do romance e do trabalho em cima do Titanic, o personagem se vê no dilema de reencontrar a filha perdida que coloca em risco o relacionamento com a mulher que ama e que está decidida a ir para NY em busca de uma vida melhor.

 

O interessante é que Titanic: Blood and Steel não foca apenas na construção do Titanic. Há outras questões levantadas como as greves sindicais, as intrigas religiosas, os casamentos combinados pela riqueza, a falta de respeito à mulher e a questão da imigração, especialmente da Itália, de pessoas que vinham para Belfast à procura de trabalho digno. Esse cenário apresenta personagens grandiosos à sua maneira, que expressam o quão estão descontentes com as condições em que vivem e como são barrados por questões de preconceito. Até os mais elitizados se abalam com essa divisão de Belfast, como aconteceu com Lord Pirrie, o personagem da série que é o dono do estaleiro que abrigava os gigantes da White Star Line.

 

A série foi extremamente fiel com as principais figuras que marcaram a lenda em torno do Titanic, assim como aconteceu na adaptação de James Cameron. Thomas Andrews sempre foi o meu favorito. Isso se deu por causa do filme e das pesquisas sobre o naufrágio, que se intensificou ainda mais com este seriado que o apresentou mais uma vez como a parte sensata da construção do Titanic, um homem compassivo, atencioso, preocupado, inteligente e apaixonado pelo que a embarcação poderia se tornar. Bruce Ismay foi apresentado com a fiel arrogância e o capitão Edward Smith, sempre com um ator que é quase o clone da versão original, fez meu coração saltitar por causa do carisma que também tenho por ele.

 

A construção dos ‘ics’ da White Star Line

 

Antes do Titanic, a empresa contava com o navio Olympic, que sofreu uma batida tremenda por causa da velha e boa questão da alta velocidade que contribuiu para que o Titanic afundasse. Na série, o Olympic ganha uma atenção redobrada, pois é a partir dos erros dele que se começa a construir o Titanic, todos focados na intenção de não fazê-lo se arrebentar no meio do Pacífico. O tamanho dos navios sempre foi um problema para a White Star Line, altamente criticada na época por causa desse desejo de fazer embarcações maiores que os portos. Não é à toa que, na série, foi mostrado o pedido de aumento do porto de NY para que o Titanic conseguisse atracar (o que não aconteceu).

 

Na trama de Titanic: Blood and Steel, o Olympic serviu de pano de fundo para Mark descobrir e corrigir as falhas do metal referente aos navios produzidos pela WSL, a fim de trazer melhoras na construção do irmão do meio, o Titanic. Inclusive, é muito bacana o fato do seriado assinalar as embarcações trigêmeas, pois, depois do Titanic, o investimento iria para a construção do Gigantic, que seria maior que os dois anteriores e teria uma capacidade absurda de passageiros e velocidade.

 

Ao longo da série, Mark tenta explicar aos responsáveis pela construção do navio que o metal, por exemplo, não era eficaz para proteger o casco. É nesse atrito que o personagem começa a ser visado, pois ninguém acredita nele, a não ser Thomas Andrews. Em meio à tentativa de resolver a construção da embarcação, manter a identidade e ficar com Sofia, Mark tem que dar o melhor de si para que o Titanic não sofresse os mesmos danos que a irmã mais velha (os navios são tratados como sister ships). Porém, todas as tentativas não impediram que o incrível e inafundável navio fosse por água abaixo.

 

A figura da mulher no século 20

 

Aquilo que aconteceu com a Rose no filme não é mentira e nem forçada de barra. Nessa época, os casamentos eram contratos, onde a garota nova e virgem tinha que se casar com quem os pais escolhessem, independente se houvesse amor ou não. Bastava ser rico! Na série, a sofrida da vez é Kitty, personagem que chega a ser irritante, mas depois se apresenta como uma pessoa que merece um final feliz. A jovem começa a trama encrencada porque tem que se casar com um rico, mas cai nas graças de Mark e não sossega até seduzi-lo. Quando o relacionamento dela com o engenheiro é descoberto, fala-se da reputação, onde a mulher perde o valor por ter dormido com outro cara que não tenha sido o futuro marido.

 

Cal, o noivo da Rose, ficou estarrecido com a traição, lembram-se? E ele estava bem disposto a tê-la de volta, não é? No início do século 20, havia chances de voltar atrás, mesmo que qualquer possibilidade do casamento dar certo tenha se esvaído pelo ralo. Era uma questão de aparência. O homem não queria ser visto como chifrudo e a mulher não podia ser vista como uma little bitch, pois se isso circulasse na alta sociedade, ela nunca mais conseguiria se casar com alguém de alto escalão. Cal estava disposto a ficar com Rose, mesmo depois de descobrir a traição, e o mesmo aconteceu com Kitty. Porém, ambas preferiram a liberdade e assumiram outras personalidades (leia-se sobrenome) para conseguirem viver em paz, sem terem vínculos com a família.

 

Ao contrário da garota elitizada, temos Sofia, a humilde. A mulher, junto com a irmã, trabalha duro para sustentar a família italiana no meio da zona que é Belfast. Ela é extremamente envolvida nas causas a favor dos trabalhadores, mesmo que não apareça como uma praticante direta. O relacionamento dela com Mark é a velha questão do perigo, porém, mascarado, pois o homem pertence à mesma classe social que ela, mas ele vive uma mentira parcial para poder trabalhar e ter um salário digno. Da mesma forma que Kitty, Sofia quer ser livre para ter uma vida mais estável. Contudo, o dilema dela é deixar a família para trás e, claro, Mark.

 

Em contraste delas, temos Emily, que realmente representa o lado da mulher briguenta e sem limites que busca a justiça e boas condições de vida. Ela vai presa injustamente, é humilhada e, por meio dela, fica frisada a falta de engajamento político da mulher, sendo excluída até do direito ao voto.

 

Por meio dessas três mulheres, dá para ter uma visão geral de como a figura feminina era tratada em meados do século 20 e fica difícil não se apaixonar ou se mobilizar com a causa de cada uma delas.

 

Conclusão

 

O Titanic passou por várias provas no mar antes da primeira viagem oficial, no dia 10 de abril de 1912. Belfast estava um caos e o navio se tornou a esperança para todos que queriam uma nova vida na amada América. Pessoas de classe baixa especialmente. As ofertas de trabalho nos Estados Unidos e a possibilidade de um futuro melhor eram certas e ficaram focadas na figura do Titanic, que recebeu vários títulos, tais como navio dos sonhos. As pessoas que havia dentro daquela embarcação, em grande maioria, queriam uma chance para recomeçar.

 

Ao longo da série, o tamanho do Titanic foi muito debatido, mas nada como a questão de segurança, item que poderia ter sido controlado se não fosse a ganância dos engenheiros que não queriam atender a quantidade de botes correta, pois poderia comprometer a estética do navio. Ismay foi o principal culpado disso, pois Andrews tentou ampliar o deque para impor mais barcos, a fim de atender a grande demanda de passageiros. Não é à toa que foi constatado que havia muitas pessoas para poucos botes.

 

Com o naufrágio, nem a regra de mulheres e crianças autorizadas a embarcarem primeiro nos botes contribuiu para salvar metade das pessoas que estavam no Titanic. Sem contar que a parte beneficiada foi a primeira classe, pois a terceira ficou presa nos porões do navio. Com o passar do tempo, foi difícil esconder embaixo do tapete uma falha extremamente grave para uma embarcação que foi rotulada como “aquela que não afunda”. Com essa crença de que “nem Deus pode afundar o Titanic”, a falta de preparo, mesmo que não fosse intencional, destruiu muitos sonhos.

 

Vale mencionar a questão da velocidade também, outra grande culpada que não permitiu o desvio do iceberg a tempo. Tudo culpa do Ysmay que ordenou ao Capitão Smith que acendesse todas as caldeiras para que o navio chegasse um dia antes em NY.

 

Todos esses itens foram abordados em Titanic: Blood and Steel com uma cautela que facilitou o entendimento de quem não está por dentro das lendas que rodearam o histórico navio, seguido pela dedicação de Mark, o personagem que recebeu os méritos por ajudar a colocar uma embarcação que tinha tudo para ser perfeita “em pé”. No finale da série, dá até aquele aperto no coração, especialmente na tomada em que o Titanic finalmente faz a primeira e última viagem.

 

No geral, a série tentou ser o mais fiel possível aos fatos que rodearam o Titanic e, pelo que li sobre o naufrágio desde os 15 anos, ela conseguiu beber da fonte da maneira certa. Todos os pontos fracos do Titanic foram levantados e eu fiquei muito empolgada com isso. É um seriado de cunho histórico muito bom, que serve de aprendizado para que o mais leigos compreendam o que aconteceu com uma embarcação (quase) tão bem planejada afundar do dia para a noite por causa de um bendito iceberg.

 

Os figurinos merecem um destaque assim como os atores que conseguiram realmente dar vida aqueles que foram responsáveis pelo navio, especialmente Billy Carter, o lendário Thomas Andrews. Os cafés parisienses foram resgatados sempre que Mark e Sofia se encontravam, e os convescotes da primeira classe marcaram presença para mostrar o lado da elite completamente entediado.

 

Vale um elogio muito grande para Kevin Zegers que interpretou muito bem o papel de Mark, com direito até ao sotaque britânico (toda vez que ele falava “daughtá” tinha crises). O ator conseguiu guiar muito bem o personagem e ter química com todo mundo do elenco, até com o próprio Titanic.

 

Vale muito a pena assistir Titanic: Blood and Steel. Acreditem em mim!

Stefs
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