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07/maio

Quem faz ou fez Jornalismo, sabe que a lista de indicações de livros sempre é imensa. Tenho certeza que, pelo menos uma vez, um professor tenha comentado algo sobre A Sangue Frio, obra que representa o jornalismo literário e investigativo de qualidade, escrito por Truman Capote. Lembro que, enquanto cursava a faculdade, eu era meio rebelde com essa história de leitura obrigatória, se é que posso chamar assim, pois os professores só citavam e não cobravam os alunos. Assim, não me senti estimulada em pegar esta obra para ler assim que ela foi indicada.

 

Meu contato com A Sangue Frio foi por intermédio do filme. Assisti e o achei incrível. Depois, comprei o livro com o intuito de fazer meu TCC sobre algo relacionado (sim, gente, antes de Harry Potter eu fui parar até na ditadura) e ele ficou estacionado por um longo tempo até eu me convencer de que precisava tirar a poeira dele. Até porque estava cansada (ainda estou um pouco) de livros de fantasia. Precisava me sentir inteligente com histórias reais. Não que ler histórias de mentirinha seja ruim, mas chegou uma hora que meu cérebro não aguentava mais tanto triângulo amoroso ou algum drama romântico cheio de mimimi.

 

A Sangue Frio

 

Capote é uma figura excêntrica e sempre demonstrou ser um tanto quanto egocêntrico. Características típicas de jornalistas ferrenhos. A Sangue Frio nasceu depois de A Bonequinha de Luxo e fez com que ele largasse a vida dentro da alta sociedade para se enfiar em uma cidade interiorana, atraído por um incidente descrito em uma pequena nota do jornal: uma família do Kansas tinha sido brutalmente assassinada. O que o atraiu ainda mais foi o fato sinistro de que o/os assassino/os não deixaram vestígios na cena do crime. Parecia até o crime perfeito! Porém, Capote e o faro jornalístico deu vida ao que se tornou uma verdadeira obra de não ficção e um exemplo dado em todas as salas de jornalismo.

 

Ao longo de A Sangue Frio, Capote narra o crime que aconteceu em 15 de novembro de 1959, data que marcou a morte dos 4 membros da família Clutter, assassinados a tiros sem motivação aparente. O escritor relata o fato como se realmente fosse uma história, com caráter literário, cheio de figuras de linguagem. A obra conta com um narrador onisciente e com depoimentos das figuras envolvidas na investigação. O jornalista não fugiu nem um pouco do objetivo de remontar o crime, com um olhar clínico em cada detalhe do que aconteceu e não deixou de explorar a personalidade dos dois assassinos.

 

Os criminosos

 

A Sangue Frio reporta um crime que foi pauta durante 5 anos até a condenação dos assassinos Dick e Perry, na forca, em 1965. Durante todo esse período, Capote fez o que muitos jornalistas atuais deveriam fazer – não que não o fazem mais, mas essa questão de imediatismo sem verificar a informação só acarreta em absurdos e erros bizarros –: emergir no fato, checar os dois lados da história e pesquisar até quando não se tem mais dados para coletar. O autor ultrapassou até a linha tênue que o separava dos assassinos e os entrevistou.

 

Os relatos, que chegam a gerar um inconformismo imenso, de ambos enriquecem o material coletado por Capote e, mesmo que não queiramos saber, lemos o ponto de vista dos assassinos e as causas reais do que eles fizeram contra a família Clutter. Dick é descrito como impiedoso, invejoso e pedófilo com inclinação a estuprador. Perry é o lado B da história, uma pessoa que gerou dúvidas de caráter entre aqueles que o interrogaram, por ser franzino, compassivo e até mesmo amoroso. Perry era digno de dar pena, se não fosse a crueldade que habitava dentro dele.

 

Muito se fala da queda amorosa de Capote por Perry e, ao longo da leitura, dá para pegar esses detalhes. Eu senti como se o autor quisesse mesmo mostrar que o criminoso foi injustiçado pela vida ruim e pelo péssimo tratamento fraterno que o impulsionou à vida criminal. Se foi algo real ou não, o ponto de vista de Perry ganhou mais nuances em comparação a de Dick e ele se tornou quase uma caricatura romântica, uma pessoa fragilizada, incapaz de matar. Vejam bem, Perry era amante das artes, um cara sensitivo, mas tinha baixa autoestima. O que mais foi frisado ao longo da obra foi o fato de Perry ser gramaticalmente e artisticamente instruído, o que o faz mais inteligente que Dick, em teoria. Bizarro, eu sei, mas no final das contas ele assume que atirou em boa parte da família Clutter.

 

Capote foi minucioso em cada detalhe da obra. Ele realmente se preocupou em apresentar a força de um crime que foi bárbaro para a época e que aconteceu por um motivo idiota: a busca de um cofre. A inexistência dele custou à vida dos Clutter. É bárbaro pelo simples fato de que antes mesmo da nossa sociedade se tornar o que é hoje, as pessoas já matavam por muito pouco. E isso é lamentável! Por um cofre, Dick e Perry alvejaram uma família que nunca fez mal a ninguém. O mais caótico é a narração de Perry sobre o comportamento do Sr. Clutter, que simplesmente não reagiu contra os criminosos. O homem manteve-se firme e tentou proteger a família toda.

 

O perfil dos assassinos

 

Se você já assistiu aos programas como os do Datena uma vez na vida, deve ter colhido algum depoimento onde alguém próximo ao criminoso fala que ele foi corrompido pela família e pela sociedade para chegar a tirar a vida de outrem. O comportamento de Dick e Perry é explanado como uma causa das circunstâncias do passado da vida deles, antes de irem para a cadeia por infrações menores. Ao longo da trama, Capote deixa meio claro que isso não faz nem um pouco de sentido, mesmo que não tenha sido intencional.

 

Perry foi maltratado pelos pais. A mãe era praticamente uma prostituta e era uma alcoólatra enquanto o pai o surrava e o explorava no trabalho braçal. Com tanta revolta, esse é meio caminho andado para cometer os delitos. Se você pensa que Dick foi pior que Perry, enganou-se. Ao contrário do criminoso sensitivo, Dick era o que tinha a vida melhor e conseguiu ser o pior quanto ao tratamento com relação à família Clutter. Dick cresceu em um lar pobre, mas bem-estruturado, fazia esportes e ganhava medalhas. O que o incitava à violência, em parte, era a cobiça pelo que as outras pessoas tinham.

 

Dick não achava justo ser pobre e considerava ser a única pessoa do mundo digna de ter riqueza, luxo e mulheres. Outro fator meio bizarro com relação a Dick foi o acidente que ele sofreu que o deixou em coma. Ao longo da história, os pais dele afirmam que ele mudou bastante por causa disso. O auge das semelhanças entre Perry e Dick, além da vida criminal, foi os tais acidentes de carro, que os tornaram uma dupla quase perfeita.

 

Dick planejou o assalto à mansão dos Clutter da cadeia. Isso não deveria assustar ninguém, pois vivemos em um país onde bandido tem telefone dentro da jaula. Vejam bem como nada, socialmente falando, mudou. Hoje, quadrilhas encomendam mortes via celular e Dick planejou o ataque por meio de informações de outro criminoso que tinha trabalhado com a família. O pior é que essas informações não eram totalmente verdadeiras. Assim que saiu em condicional, Dick tinha tudo planejado e encontrou Perry para prosseguir com o desejo insano de ter dinheiro e, o mais cruel, fazer uma abordagem sem testemunhas.

 

Criminosos matam pessoas a troco de nada e com Dick e Perry não foi diferente, mesmo sendo em uma década onde o conservadorismo familiar era muito grande e ninguém tinha os artefatos que temos hoje, tais como celulares. Ninguém andava na rua dando motivo para ser morto, algo que acontece com certas pessoas que acham natural tirar um notebook da mochila dentro do metrô. Dick e Perry mataram uma família por causa de um cofre. Um cofre que não existia. Por causa desse item, 4 vidas foram tiradas a sangue frio porque o mantra da abordagem era não deixar ninguém vivo.

 

O canto, conhecido na época como a forca, era um dos meios de penitência de morte do Kansas na década de 60 e Dick e Perry chegaram lá 5 anos depois. Isso porque eles tiveram a pachorra de pedir dezenas de vezes para reaverem o caso, com a explicação de que não foram julgados corretamente, pois toda a população estava contra eles. Contra fatos não há argumentos e, nesse caso, eram as marcas de sangue feitas pela bota de Perry e a arma de Dick que era exibida na sala da casa dos pais dele, do mesmo calibre que foi usado no crime.

 

Opinião geral

 

Muito se pergunta sobre a pena de morte e eu digo que sou a favor. Assim como da redução da maioridade penal. Sei que nada disso funciona no Brasil, mas não me importaria se esses dois itens fossem colocados em prática. É muito cabível um grupo assaltar uma pessoa, fugir, e colocar o menor para responder o ocorrido. Afinal, ele não pode ser preso e continuará na criminalidade para tirar vidas, porque está imune às leis. O nosso governo não vê que, a cada dia, as pessoas estão mais monstruosas e, se você respirar errado, você leva um tiro, uma porrada ou é sequestrado. O mais preocupante nisso tudo é que a lei brasileira não assegura à população e isso é uma falta de vergonha na cara, uma palhaçada das grandes.

 

É fato que estamos rodeados de Dicks e Perrys e não adianta culpar pai ou mãe por má criação. Há tanta gente que já levou uma surra de cinta e está muito bem, obrigada. Se uma coisa que aprendi é que cada um tem livre-arbítrio e nada, nada mesmo, justifica, nem má convivência com os pais. É fácil culpar alguém quando alguma coisa errada acontece. Quantos bandidos não culparam o parceiro por terem cometido tal crime? Em A Sangue Frio, Dick culpou Perry de tudo quando deu depoimento à polícia. Na hora, todo mundo é inocente.

 

A Sangue Frio é muito mais que um livro que reconta um fato real com um apelo demonstrativo de como dois homens mataram uma família querida e respeitada a troco de nada. Conforme lia, fiquei meio abobalhada com alguns detalhes, especialmente com o tipo de vida que eles levavam, na crença de que jamais seriam pegos. Capote captou a criminalística do ocorrido e tomou cuidado para não narrar o acontecido com a família Clutter de forma sensacionalista. A obra chega até dar aquela sensação de ser “mais uma história”, mas, por ser real demais, é capaz que você fique tão inconformado quanto eu e manterá o fato na cabeça por muitos dias.

 

O livro é brilhante, Capote simplesmente alcançou o auge merecido por esta obra bem descritiva e pontuada, com uma cronologia de tempo impecável. É fácil engolir as páginas com rapidez, pois a história é muito envolvente.

 

Capote realmente seguiu seu instinto e fez uma obra-prima que se tornou ponto de referência na carreira dele. Recomendo tanto o livro quanto o filme – que, por sinal, é bem fiel à obra.

 

 

Na Prateleira

Título: A Sangue Frio
Autor: Truman Capote
Páginas: 440
Editora: Companhia das Letras

Stefs
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