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12/jun

Amor: uma única palavra, algo delicado, uma palavra que não é mais larga ou longa que uma lâmina. É o que ela é: uma lâmina, uma navalha. Ela corre pelo centro da sua vida, cortando tudo em duas partes. Antes e depois. O restante do mundo cai em ambos os lados.

 

Antes e depois – e durante, um momento que não é mais largo ou longo que uma lâmina.

 

Quem nunca teve medo do amor? Estendam a mãozinha quem nunca tentou lutar contra um sentimento tão bonito e ao mesmo tempo tão triste? Eu sempre achei a palavra amor ou o ato de ser amado meio distorcido. Desde adolescente, nunca vi muito objetivo em se apaixonar por uma pessoa que não liga para você, até descobrir como isso funciona. Só sei que esse sentimento nos faz suscetíveis a cometer burradas homéricas, gera insegurança e uma depressão engordativa quando a temida desilusão acontece.

 

Eu poderia dizer que o amor é desumano. Afinal, defendo a tese de que não é justo amar outro alguém sem ser correspondido. Poderia dizer que qualquer inclinação para isso acontecer deveria ser banida. Quem sofreu ou sofre por amor sabe como a luta é grande e, sério, seria mais bonito se duas pessoas se identificassem logo de cara, sem frescuras, e aprendessem a se amar de verdade. Digo isso porque é meio frustrante gostar de um cidadão sem ter certeza de nada. Eu não acharia ruim se todo mundo tivesse controle do coração, pois, para quem já tomou na cabeça, sabe muito bem que esse é um sentimento ótimo, porém, dolorido.

 

Com essa linha de pensamento, trago a vocês a resenha do livro Delírio, escrito por Lauren Oliver, cujo plot principal é justamente esse, o amor. Claro que é mais um livro YA, em um universo utópico, onde as pessoas vivem em um governo opressor. Isso já virou clichê e os autores insistem em aproveitar a onda Jogos Vorazes e Divergente para publicarem obras com histórias que envolvem limitações políticas e amores impossíveis. No caso da trilogia de Lauren (opa!), o amor é uma anomalia.

 

Confesso que comprei Delírio naquelas promoções sagradas do Submarino, só por comprar. A sinopse não me era interessante e lembro que ri com a ideia de que o amor é uma doença. Não me julguem, pois não consigo tratar outros livros pós-Divergente com certa decência. Todas as livrarias estão dominadas por distopias e a obra de Lauren figurou na minha prateleira como mais uma. Não comprei o primeiro livro de uma trilogia com a ideia de ler de imediato, mas para um futuro do qual eu estivesse pronta, pois ele não me transmitia a sensação de que o enredo seria algo arrebatador. Especialmente, quando o ponto que mais me preocupou foi a questão do amor ser proibido em uma “sociedade”.

 

De fato, li só o primeiro volume e ele não me ofereceu nada de novo. É um livro ingênuo, que oferece a sensação de adrenalina no final da história. Como era de se esperar, é narrado em primeira pessoa no ponto de vista de Lena, a personagem principal de Delírio.

 

Delírio e a questão do amor

 

Lena está prestes a completar 18 anos, vive em uma oprimida Portland e conta os dias como uma presidiária para receber a intervenção que anulará a possibilidade de contrair a doença chamada “amor deliria nervosa”. Essa operação se dá em uma parte do cérebro que faz as pessoas não mais se apaixonarem. Sem amor, a proposta do universo onde Lena vive é tornar a população, imune ao sentimento, mais feliz. Claro que isso torna as pessoas mais conformistas. Afinal, a anomalia é responsável por muitas perturbações, tais como ansiedade, desespero e depressão. A premissa é: o amor não é saudável e precisa ser exterminado.

 

Enfim, a história transcorre com a preparação de Lena para enfrentar a intervenção, mas, antes disso, a jovem precisa lidar com uma entrevista que determinará um par para ela, assim que a hipótese de contrair a deliria seja eliminada. Aqueles que ainda não foram “curados” são proibidos de trafegar na rua até certo horário, meninas e meninos estudam em escolas diferentes, a internet é monitorada, assim como os telefones. Até música alta é contra as leis da utópica Portland para não acarretar fortes emoções que deixam as pessoas malucas. Só quem é curado pode demonstrar amor em público, mas com certa discrição.

 

Como nada na vida é perfeito, a destemida Lena tem todas as crenças quebradas quando Alex entra em sua vida. Eu gostei do menino, admito! Sei lá, esses livros utópicos tornam os personagens masculinos mais interessantes que os femininos, que se mantêm perpetuadas em salvar o mundo, rodeadas de muito mimimi que chega a ser irritante. Ao conviver mais com o garoto, que aparentemente sofreu a intervenção, a vida de Lena vira de ponta cabeça. Emendado a isso, ela tem que lidar com o comportamento insano da melhor amiga, Hanna, personagem que guia os leitores para o lado obscuro (e bacana) do enredo, onde rolam festas clandestinas e todo mundo se agarra.

 

A relação de Alex e Lena cresce, mas é de se esperar, para minha chateação, que o romance aconteça rápido demais. Como esse papo de instalove me irrita, vocês não fazem ideia. Sem contar, que o personagem surge em todos os lugares em que a garota se encontra. O romance deles não fez meu coração bater na garganta, não me encheu de expectativa, mas não quer dizer que eu não tenha torcido para eles no final, fato que realmente compensou a leitura de Delírio.

 

Além do amor, é óbvio que o governo ditador de Portland possui um inimigo que pode destruir toda a politicagem contra o amor. A lenda urbana ronda as pessoas que vivem na Selva, um pesadelo real, mas ignorado, até Alex confirmar que ela existe e que muitos integrantes estão infiltrados na cidade para combater as ações que anulam a liberdade das pessoas se amarem verdadeiramente e com liberdade.

 

O que me fez ficar um pouco aborrecida foi a reviravolta da história de Lena. Ela não é a garota mais interessante (cêjura?) e não se sobressai por ser certinha demais e uma grande ativista a favor da “morte” do amor. Por causa de Alex, ela muda o ativismo para a Selva, o que até entendo por causa de certos fatores que não contarei ou perderá a graça da leitura de Delírio. Quem vai contra ela é Hanna, que deixa de ser brilhante para dar espaço para a protagonista que, em tese, se “dá bem”.

 

A história em si é bastante ingênua. Lena é uma garota boba e não dá para exigir muito dela. É fácil gostar mais de Hanna, pois ela é mais palpável e real por não querer se render ao caminho infeliz de ser vetada de se apaixonar e ficar com uma pessoa cujo sentimento não é recíproco. Lena e Hanna caminham juntas rumo à intervenção e têm percursos separados, onde tudo acontece totalmente ao contrário. O que isso quer dizer? Hanna queria ser livre, mas quem consegue isso, hipoteticamente, é Lena. Não curti. Achei ofensivo.

 

Random Girl sobre Delírio

 

Delírio não traz novidades, mas não quer dizer que seja uma leitura desprezível. Sendo honesta, até gostei e esperava que fosse algo pior. Há os absurdos, pois é incompreensível entender aonde Lauren queria chegar ao criar uma história que proíbe o amor. Porém, dá para chegar a uma conclusão que não tem nada a ver com Lena, Alex, Hanna ou a Selva. O plot principal em torno do amor é interessante e que se fortalece nas aberturas de cada capítulo, onde a autora descreve o Shhh (Suma de hábitos, higiene e harmonia) e, mesmo não querendo, algumas partes chegam a ser verdadeiras.

 

Digo isso porque amei uma pessoa até agora. Assim, de quase morrer, de ficar muito mal, tão mal que afetou todas as minhas relações sociais. Muitos problemas, muito estresse e, aos poucos, o amor que havia ali se tornou, literalmente, uma doença. É verdade que o calor da paixão provoca guerras e faz os seres humanos matarem por nada – vide notícias de homens que aniquilam as mulheres por serem abandonados, por exemplo. O amor pode não ser uma doença, pois male, male, é algo muito bom de sentir. Porém, há consequências e, no caso de Delírio, era um governo que queria manter a população totalmente vazia.

 

Acho que Delírio me ajudou a entender um dos maiores pretextos de livros YA e não me cabe criticá-lo, pois ele teve um propósito e acredito que o atingiu. Na adolescência, não sabemos quem somos, nossa personalidade não está bem definida e queremos quebrar as regras em nome da emoção. Não é à toa que nossos pais nunca hesitaram em nos chamar de “aborrecentes”. Lena não faz o tipo revoltada, é totalmente passiva, e tem que lidar com circunstâncias que vão contra tudo o que sempre acreditou. Claro que é bem chato ler todas as inseguranças – clichês – dela (não sou bonita, não uso maquiagem, mimimi, bleh!), mas, no final, dá até para acreditar que a personagem é determinada.

 

Garotas querem encontrar o garoto lindo que as achem lindas e, por meio de Delírio, caí na real que esse tipo de leitura pode ser realmente boa. Em teoria, pessoas da minha idade não poderiam ler livros YA, pois é muito fácil torcer o nariz e colocar o dedo em riste, mas é preciso focar no público-alvo. A obra de Lauren não foi destinada para uma leitora como eu, que não quer o garoto gato e muito menos ser heroína. Nesse sentido, o livro teve um objetivo e conseguiu ter um fandom que tentou espalhar a deliria quando a FOX comprou os direitos do livro para fazer uma série que seria estrelada por Emma Roberts (atualmente, o piloto foi engavetado).

 

Por mais que haja dezenas de livros iguais, eles vendem por causa da perspectiva da heroína forte, mesmo que seja surreal demais, mas que traz certa esperança para a mulher que sempre foi submetida ao homem. No caso de Delírio, Lauren queria demonstrar que o amor é bom e que vale a pena senti-lo. A autora pecou no excesso de clichês, isso é fato, sem contar que os personagens são muito previsíveis. Eu cheguei à metade do livro e conseguia visualizar o final. Contudo, a proposta é o amor e é nisso que se deve focar ao ler o primeiro livro da trilogia.

 

Acredito que, o que a autora quis apresentar, digo isso até porque foi como me senti, que o amor faz as pessoas perderem as estribeiras e que esse sentimento é o grande motivador de tragédias. O amor é bom, mas ele também consegue provocar o pior lado do ser humano. Contudo, ainda é possível encontrar esse sentimento, seja na forma de amizade ou de um interesse, pois, como diria Renato Russo: sem amor, eu nada seria.

 

Na Prateleira

Título: Delírio
Autor: Lauren Oliver
Páginas: 352
Editora: Intrínseca

Imagens: retiradas do Tumblr e do Deliriumfandom.com

Stefs
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