Menu:
21/jun

Eu pensei muito na hora de complementar o que escrevi no Facebook com relação ao protesto de terça-feira (18) que partiu do centro de SP para a Av. Paulista. Afinal, seria mais um post entre tantos e não se fala em outra coisa a não ser sobre isso. Prometo que este será um texto clean, uma opinião pessoal tendo como base um ponto de vista meio jornalístico. Não descascarei a banana porque isso não me apetece, nem distribuirei hashtags. Afinal, sou contra elas (e por que #changebrazil? Deveria ser em português isso daí!).

 

Eu decidi ir ao protesto em cima da hora. Depois da manifestação pacífica de segunda-feira (17), eu queria ver o que realmente acontece nas ruas, pois fiquei com os olhos cheios por causa da beleza e da intensidade da qual o protesto começou e terminou. Sem contar que me identifico demais com o que acontece agora no país e queria fazer minha parte. Deu aquele medo de baixar polícia, mas dei a cara tapa. Surtei minha mãe em casa e fui para a rua. Vi coisas lindas – pais com crianças, casais de idosos com bandeiras do Brasil, galera com lençol branco na janela a favor da causa… Enfim, foi bonito de se ver.

 

Porém, no meio do protesto, comecei a me sentir estranha. Eu senti que as pessoas queriam mimicar o que aconteceu na segunda e o que vi foi um desfile de cartazes sem contexto. Como a mídia bem pontuou, a Av. Paulista entrou em ritmo de festa. Literalmente foi assim, pois havia pessoas que aproveitaram para beber cerveja e fumar maconha. Posso com isso?

 

Enquanto o centro de SP pegava fogo, eu me senti mais uma na multidão. Não que eu buscasse pancadaria e, se acontecesse, estava disposta a enfrentar. É o risco que se tem que correr quando se há uma meta, ainda mais quando se trata do Brasil, um país com incontáveis problemas. Chegou uma hora que o protesto miou e a coisa toda esfriou. Como mostra essa foto do bebê que tirei, ficou nítido que algumas pessoas foram para a rua se exibir. A partir daí, comecei a refletir sobre muitas coisas relacionadas aos Atos em SP.

 

Não houve sensação pior que sair de um protesto, cujo objetivo central era a diminuição da tarifa, e depositar o bilhete único na catraca para ir para casa. Isso meio que perde o propósito da coisa. Quando soube que a galera pulou a catraca do metrô na segunda-feira, pirei demais, porque é isso que se tem que fazer.

 

Meu problema existencial aumentou mais por causa da minha timeline no Facebook que, a cada dia, está impossível. Metade compartilha as hashtags do momento, mas duvido que saibam o que fazem em totalidade. Conto nos dedos aqueles que realmente compreendem as próprias motivações de irem para a rua e tenho certeza que os mais engajados não fazem tanto show na internet.

 

No meio do protesto, comecei a dar mais valor às pessoas que levaram bomba da polícia na quinta-feira (13) ao invés daqueles que, para mim, desfilaram em SP com cartazes em uma “passeata” que teve caracteres diferentes. Friso que isso não se refere a todos, mas não dá para fingir que protestar está perto de se tornar um show, o que requer cuidado para não desvirtuar o processo. Não basta um cartaz, uma bandeira e o canto do hino nacional. É preciso de atitude que vai além da fotinha compartilhada no Facebook. A coisa só esquentou na Av. Paulista bem tarde, quando a galera que estava no centro se encontrou com quem estava lá, mas vi que não aconteceu nada de grave.

 

Tudo isso pode ser apenas impressão minha. Sei que muitos são honestos no que fazem, pois sabem o que querem e são eles que eu respeito. No meu trabalho, tenho conhecidos que comparecem fielmente aos protestos. E sabe o que percebi? Eles são os que menos compartilham frases e hashtags online. Eu fui e publiquei uma foto com comentário. Isso basta. Porém, o brasileiro ainda é individualista e toca o foda-se quando acha que pode falar o que bem entende, sendo que metade ainda não entende de nada. Acho que, neste quesito, ainda há muito que melhorar. Especialmente porque agora me irrito fácil com fotos compartilhadas seguidas do lindo + hashtag do protesto.

 

Porém, o que valeu, foi avistar os mais engajados e é com eles que deixo um elogio positivo, pois são vocês que me representaram nos dias passados de manifestações. Na terça-feira, foi de arrepiar alguns gritos lá na Av. Paulista. Meus olhos se encheram de lágrimas incontáveis vezes. É incrível ver o que acontece no Brasil de perto e, mesmo que o esforço seja pouco, adquire-se uma sensação de querer fazer mais em meio a essa luta que já mudou toda a rotina do país.

 

As baixas da manifestação de terça-feira

 

Além da depredação no centro, nada me abalou mais que o grito de “ser brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Até o mês passado, geral metia pau no país e agora a desculpa do gigante ter acordado vale para tudo e todos? Isso não me deu muita lógica enquanto ouvia a população presente gritar. Eu perdi meu patriotismo ao longo dos anos, nem sei dizer se algum dia fui patriota, e seria muita hipocrisia da minha parte dizer, de uma hora para outra, que tenho orgulho de ser brasileira. Jamais! Meus perrengues com essa nação são muitos.

 

Como frequentar a linha vermelha de segunda a sexta. Moro no centro, o paraíso dos meios de transporte. O centro, aquele que sofreu a depredação. Eu poderia ser feliz, porque é um bairro bom, onde as coisas são bem fáceis de encontrar, sem contar a praticidade de se locomover. Infelizmente, por causa da falta de infraestrutura do metrô e da superlotação, tenho que acordar todos os dias às 5h20 para não ser esmagada por pessoas que, me desculpem, não têm noção de que não é necessário selvageria para entrar em um metrô. Metrô de São Paulo não é coração de mãe. É uma locomotiva e, infelizmente ou felizmente, não cabe todo mundo.

 

Eu tenho que acordar cedo demais. Eu preciso sair da cama de madrugada como tantos outros na espera de ter o mínimo de confortabilidade que nem sempre é garantida. Já tive a mão quase arrancada. Quase perdi a sapatilha. Já roubaram meu celular. Já derrubaram meus óculos. Já me encoxaram. Já fui assaltada.

 

Eu vou me orgulhar do país quando as mudanças acontecerem. Fim! Me recusei a declarar que sou brasileira com muito orgulho durante o protesto. O país ainda pesa na negatividade e não é porque a população está na rua que isso dá um sentimento completo de satisfação. Os Atos são ótimos, mas são as pessoas que vão para a rua entendidas do que acontece que me fazem sentir orgulho. Não o Brasil. Pelo menos, não ainda.

 

Eu li comentários de pessoas que realmente não gostaram do que viram na terça-feira. Foi desanimador e não sei se alguém se sentiu assim também. As pessoas são contra o vandalismo e eu só fui entender essa defesa ao estar lá. Uma amiga minha que estava no caos de quinta-feira disse que se é para ficar andando com cartaz, uma hora geral cansará. E sabem? Eu vi um pouco de verdade nisso. Eu cansei em 3 horas de protesto e nem foi de caminhar. No fundo, acho que até sou a favor do confronto, pois é assim que os manifestantes encontram uma forma de chamar atenção.

 

O problema é que é preciso fazer isso da maneira correta, pois as manifestações já se tornaram point de bandido, de gente mal-intencionada e de gente com cara de balada e roupa de marca que caíram, literalmente, da espaçonave.

 

Em meio ao alvoroço, ainda sinto que as pessoas estão perdidas. Digo isso por conta dos inúmeros convites que recebo com propósitos diferentes.

 

O resultado das manifestações em SP trouxe a baixa dos R$0,20 centavos, mas eles serão tirados de algum lugar, não tenham dúvidas. Este país não cede fácil e sempre exige algo em troca. Porém, os protestos provaram que a população tem poder, o que é ótimo, mas acredito que ainda falta organização nas metas a serem alcançadas. Nem a galera do MPL sabe o que quer, basta conferirem este vídeo que mostra que eles possuem um objetivo utópico demais.

 

 

Tarifa zero? Really?

 

Não dá para exigir tudo de uma vez. Se os Atos deste mês visavam a baixa da tarifa, que ficassem nisso. Virou um rebuliço de causas e motivações que até a mídia se perdeu. Nem eu conseguia entender. Todas elas são justas, sem sombra de dúvidas, mas ainda ocorre certa confusão. Ou é a cura gay ou a PEC-37. Duas coisas ao mesmo tempo destoam tudo e fico até um pouco aliviada por notar que, depois da conquista da tarifa, as metas começaram a ser ordenadas.

 

Sobre a mídia

 

Não é de hoje que ela é distorcida. A Globo principalmente. Para quem estudou história sabe que a emissora é filhote da ditadura. Desde que eu era pequena, ela nunca mudou a programação. Ela nunca parou para auxiliar o povo. Trata-se de uma questão chamada ibope. O jornalismo, infelizmente, precisa disso. Ser um profissional ético gera demissão e os jornalistas sabem que a empregabilidade está em baixa. Ou você mantém o emprego pelas mentiras ou você junta as coisas e vai embora.

 

Essa é a parte de desilusão de quem se forma em jornalismo, pois o profissional adquire a opinião do veículo que trabalha. É difícil, mas muitos que falaram demais foram chutados. Convenhamos que não é uma decisão fácil, pois mexe no bolso. Nem todos tem a sorte de trabalhar em veículos independentes e é para isso que existem blogs.

 

E a internet. Só acho que seria mais útil todo mundo desligar a TV e se concentrar em uma mídia, no caso, online. O Facebook é um prato cheio, o antro da organização de protestos. Nossa banda larga é a mais cara do mundo e ela está sendo bem usada. É lá que a verdade das manifestações devem ser publicadas. Se você tem blog, poste o que viu. Tirou foto? Divulgue também. Eu acho esse gesto válido, pois a mídia não cobre coisas boas, só tragédias.

 

Foi isso que aconteceu enquanto a mídia cobria o rapa no Centro. Ela esqueceu que a Av. Paulista estava em paz. Ela encobriu, como sempre, a parte boa. É isso que a população deve se empenhar em mostrar para sair do clichê de xingar as emissoras que continuarão a faturar, especialmente se acompanharmos o que elas têm a dizer. Eu odeio a Globo, tem horas que não aguento e dou pitaco, mas isso é dar força a ela. Parei com isso!

 

A mídia nunca vai mudar. Trata-se de dinheiro, de visibilidade.

 

Opinião geral da Random Girl

 

Mesmo com alguns pesares, me sinto melhor por ter conhecimento das coisas além do computador. Eu me sinto mais à vontade em publicar este texto, pois saí da cogitação para o que é real. Eu gosto de compartilhar minhas experiências aqui no Random Girl da maneira mais sincera possível, porque aprecio viver antes de contar. Nada mais chato que meter bedelho como meio mundo faz e esse não é meu objetivo. Jamais colocaria este post no ar sem ter ido para a rua. Eu realmente me sinto gratificada em assistir uma fatia das manifestações que não são tão maravilhosas assim. Ainda estou chateada, fato. Mas…

 

V de Vinagre, Revolta da Salada, seja qual nome for, é realmente a hora de tentar mudar a história desse país que viveu muito tempo na casca de que está tudo bem, mas não está. Dentro da bolha, há muita coisa errada. Mesmo com a pequena decepção de terça-feira e a pouca felicidade sobre a conquista da baixa do preço da “condução” (por causa da espera de onde os R$0,20 centavos serão cobrados), o povo ganhou poder e eu espero ver muita luta ainda.

 

Recado final: se você quer ir a uma manifestação porque acha cool, fique em casa com as hashtags. Se não, acompanhe um protesto e leia muito sobre o assunto. É algo que realmente mexe com você, que faz pensar e que realmente traz uma mudança interna que não sei dizer se é revigorante ou não.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3