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16/jul

Eu não sei se isso só acontece comigo, mas, desde que Harry Potter acabou, eu não consigo chegar perto nem dos livros e nem dos filmes. Eu juro que tentei, mas não consigo. Sempre saio pela tangente, como se fosse uma lagartixa. Parece até que sofri algum tipo de trauma, um terror psicológico que me fez ter fobia da saga que foi minha companheira durante árduos 10 anos. Essa fobia foi diagnosticada com o seguinte termo: saudades. Eu não sou muito boa para lidar com a falta de algo ou de alguém muito importante. Por isso, externei durante dois anos o que o menino bruxo representou para minha vida.

 

Parece até que me tornei uma hater de Harry Potter, mas não é isso. Quando se vive algo desde o começo (nem precisa ser tão do começo assim) com muita intensidade, com direito a choro e a histerismo, é difícil acordar em dado momento e ver que aquilo acabou. Que não vai acontecer da mesma forma que era antes. Que os bons momentos na comunidade de fãs de HP se acabou e que não tem mais como reviver tudo de novo, a não ser na memória.

 

Pausa para eu chamar as inimigas porque essa sou eu sendo chata e egoísta como uma velha pottermaníaca (termo que era mais usado antes do potterhead, boa noite! Mas amo os dois, porque são lindos, own!).

 

Eu sou uma dos milhões de fãs velhotes que cresceram com Harry Potter. Eu, ao lado de muitos, vi até o Potterish nascer. Quem acompanhou a saga desde o início, lá em meados de 2001, tem um efeito emocional completamente diferente daqueles que descobriram esse universo em 2010, por exemplo. Infelizmente, o novo fandom potteriano não teve a oportunidade de ver as coisas incríveis do passado para compartilhá-las conosco, de forma igual, sem arrogância. Minha irmã é muito chateada com isso, embora ela tenha acompanhado boa parte. A primeira vez que ela foi ao cinema foi para assistir a Câmara Secreta (e ela afundou na poltrona, porque era muito pequena).

 

Sempre que vejo um barraco do fandom, lembro como os potterheads velhotes eram civilizados. Nós brigávamos sim, algo bem digno de batalha de Hogwarts, mas eram por questões do livro, não porque o “FC” foi montado por um poser (oi?). Se era para brigar, a briga era com sangue nos olhos, como aconteceu com a guerra de shippers. Independente disso, no final do dia, quem era Dramione, Romione ou Harmony juntava as mãos e chorava pela mesma causa.

 

Os potterheads mais novos têm todo o direito de sentir inveja dos mais velhos, pois eles não terão as mesmas emoções que eu (e milhões) tive com Harry Potter ao meu lado. Claro que a emoção da geração que chegou agora é diferente, mas eles perderam a parte mais legal (na época não era) que foi a tortura psicológica de esperar pelos livros. Sem contar a correria com um monte de capas esvoaçantes para pegar o melhor lugar no cinema e terminar sem o cachecol (isso aconteceu comigo, mas uma alma caridosa me devolveu).

 

Vocês não sabem o que é chegar no trabalho de cosplay, pendurar uma coruja de pelúcia no monitor, abrir um dos livros na cara dos clientes na recepção e achar que está lindo. Eu fiz tudo isso, sem contar as folhas de sulfite que gastei para imprimir fotos e escrever fanfics. Esse era o poder clandestino de quem é da velha guarda potteriana, que brigava até com os pais para conseguir ir aos lançamentos dos livros (em inglês) e tinha que ficar na casa dos colegas, porque o evento terminava altas horas da noite.

 

Na nossa época, não havia redes sociais. Só blog. E a gente se amava nos comentários e não tinha frescura para divulgar o amiguinho do lado.

 

Quem era ficwriter como eu, queria agarrar as 30 pessoas ou mais que deixavam reviews fofas em fóruns. Quem viveu desde o falecido Edwiges Home Page sabe do que falo. Não tinha nada de Nyah!. Nós trabalhávamos na era 1.0 da Web, com página estática e internet discada. Vão vendo como era um desafio ser fanático por Harry Potter! Agora, idealizem o drama para ver os trailers nessa época.

 

No fandom de Harry Potter todo mundo tinha o que fazer. Todo mundo era reconhecido por alguma coisa e era respeitado por isso. Não tinha essas frescuras de ~melhores fãs~, ~você é poser~, ~meu site é a melhor fonte~, etc. O que tornava o mundo potteriano sensacional e irresistível eram as amizades, os recadinhos nos blogs, a troca de figurinhas dos álbuns, ser metido e exibir na escola o fichário com a foto de Hogwarts…Ai que saudades disso, por favor!

 

Nós, os antigos (quase os Originais, vejam bem), sofremos durante os 10 anos de Harry Potter. Assistimos o início. Curtimos o meio, com direito a querer bater a cabeça da J.K. na parede quando ela teve bloqueio de escritor e atrasou por mais 1 ano a Ordem da Fênix, e xingar no ainda inexistente Twitter a morte do Dumbledore em O Enigma do Príncipe (no meu caso, eu teria usado o Caps Lock para expressar minha felicidade). O fandom de HP, acima de tudo, era humilde e abraçava gente nova, algo que não vejo acontecer mais, pois há muitos grupos de fãs no Facebook que recebem a galera aos sopapos.

 

Harry Potter acabou em 2007. O que aconteceu no dia 15 de julho de 2011 foi apenas um sacode, um alerta de que tudo finalmente terminou. Literalmente, foi um tapa. Porém, foi em 2007 que vi fóruns fechar, sites ficarem abandonados, meus autores de fics pularem do barco… Foi nessa época que o vazio nasceu, que Dobby morreu, que Snape foi inocentado e que a guerra de shipper terminou.

 

Hipoteticamente, claro.

 

O que mais sinto falta desde que Harry Potter acabou?

 

Minha infância. Talvez, a sensação de segurança. Quando lia os livros, me sentia imbatível. Ninguém poderia cruzar meu quadrado, pois era uma bruxa maligna. Meu sonho era lançar Avada Kedavra nas pessoas. Eu me sentia uma personagem, o que fez minha transição da adolescência para a vida adulta muito mais fácil.

 

Há pessoas que não aceitam quando um fã afirma que só criou gosto pela leitura quando entrou em contato com Harry Potter, mas foi exatamente isso que aconteceu comigo. Eu tenho um TCC que comprova isso. Quanto a este ponto, ninguém pode me desafiar. Há pessoas que não acreditam que um livro é capaz de moldar caráter, como também há os céticos que descreem quando alguém diz que, por meio da obra, descobriu a vocação. Eu também tenho provas disso, pois sou escritora wannabe.

 

Talvez, meu medo de tocar de novo nos livros e nos filmes vem da dura verdade em saber que não viverei os últimos 10 anos mais uma vez. Não terei mais as emoções da espera dos livros, o desespero de encontrar uma tradução meia boca, o tempo divertido em responder 30 reviews das minhas fics, brigar em fóruns de discussão, fazer festa nos encontros potterianos e virar a noite nos chats intermináveis que perduravam, especialmente se fosse uma partida de RPG. Eu sinto muita falta disso e me veto de sentir. Minha mãe diz que lembrar é sofrer, mas como sofrer se foi algo tão incrível?

 

Eu sou daquelas que adora mencionar Harry Potter para tudo e, se me derem oportunidade, dou pitaco. Sou daquelas que olha feio para a geração Z que diz que os livros são ruins. Cada gosto é um gosto, mas, desculpem, não dá para fazer um gráfico comparativo de Crepúsculo com HP. Isso é uma babaquice, pois as autoras colheram méritos diferentes e são respeitadas pelas respectivas bases de fãs. Uma coisa que não aguento é berrar só porque a KStew estava ao lado do Daniel no Oscar. Please, vão lavar louça!

 

Quem chegou agora, acha que o universo Potter é cheio de clichês, mas não é. Ele se moldou ao longo de 10 anos. Nada do que a Jo disse na festa de lançamento da última parte de Relíquias foi em vão, pois Harry Potter ajudou muitas crianças, especialmente aquelas que não se enquadravam na escola. Atualmente, quantos livros dão essa sensação de esperança para um público infantojuvenil? Quase nenhum, pois todos agora são focados em estúpidos triângulos amorosos ou em um relacionamento ‘n’, onde uma garota é obrigada a ser uma doida varrida.

 

Não haverá novas Hermiones, nem novos Harrys e nem novos Ronys. Os autores atuais podem tentar, mas jamais conseguirão. Não haverá outros Voldemorts, nem outras Bellatrixs (como é o plural disso, gente? Hahaha). Tudo o que veio depois se embasou em Harry Potter, salvo Suzanne Collins que trouxe um ponto de vista novo que tirou o foco do mundo da magia para abrir espaço para os universos utópicos.

 

Nada se compara a Harry Potter e vou defender isso ‘till the end. Seja você velho ou novo, apenas ame essa saga incrível com todo seu coração.

Stefs
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