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14/set

O nome Christiane F. não é estranho para muita gente, especialmente entre aqueles que já assistiram ao filme de mesmo nome, cujo livro é a pauta de hoje. Originalmente chamado de Wir Kinder vom Bahnhof Zoo, publicado em 1978, traduzido no Brasil como Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada, Prostituída…, trata-se de um relato real e muito profundo da adolescência perdida, onde ela se viu diante dos altos e baixos do consumo da heroína e das aventuras nada românticas para consegui-la, tendo como plano de fundo a Alemanha.

 

O objetivo dos autores Kai Hermann e Horst Rieck ao produzir este livro era fazer um trabalho que tivesse como foco o relato de Christiane, de maneira que ele servisse de retrato para a juventude rendida às drogas da década de 70 (e após ela também) e como ela chega a esse caminho que, nem sempre, tem volta. O ponto de partida dos autores foi examinar o passado de Christiane e chegaram à conclusão de que os adolescentes não chegam aos limites da insanidade por acharem bacana ou divertido, mas pela união de inúmeros fatores.

 

Esses fatores seriam: habitação sub-humana, impossibilidade de praticar esportes, crise com os pais, sentimento de alienação, isolamento da família e na escola, e bullying. Um conjunto que continua a abalar a juventude do século 21, porém, com mais intensidade. É tudo isso e muito mais que torna os adolescentes mais vulneráveis a aceitar quaisquer oportunidades que parecem promissoras, que os ajudem a esquecer dos problemas, além da conquista do destaque e da aceitação, dois itens buscados de maneira alucinada pela galera jovem.

 

Christiane representa o slogan que domina a mente de muitos adolescentes: não tenho nada a perder. Ao pensar assim, ela alimentou um vício e conviveu por um longo tempo com a falta de esperança de um futuro promissor. Ela parou em um buraco negro e os pais se fizeram de cegos, um comportamento típico em muitos lares.

 

Christiane F., 11 anos: a história

 

 

Christiane cresceu em uma família humilde. Os pais e a irmã mais nova vieram para Berlim à procura de oportunidades melhores de trabalho e se depararam com uma realidade completamente diferente. A mãe queria o melhor para as filhas e o pai pouco ligava, pois ele é descrito por ela como um petulante vaidoso que só queria saber dos amigos, do carro esporte e de status. Essas duas figuras são bem comuns, um tanto quanto normais, mas Christiane sofria abusos do pai que parecia um nazista. Primeiro: o homem não queria ser visto como chefe de família e obrigava a esposa e as filhas a tratá-lo como tio. Segundo: o pai era desequilibrado e, por qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, batia em Christiane e, conforme o relato dela, até ficar em carne viva.

 

A família vivia no conjunto residencial Gropius, precário de todas as maneiras possíveis, e que não proporcionava às crianças momentos de diversão. Christiane relata que havia placas de proibições para todos os lados e, se o sindico pegasse alguém fora da linha, era dedurado. Até então com 11 anos, Christiane perdeu as contas de quantas vezes apanhou do pai por fazer coisas que ela nem tinha noção de que eram erradas (na verdade, nem eram). Antes do impasse com as drogas, ela era uma criança que se comportava como muitas outras: cuidava da irmã mais nova, amava animais, especialmente o cachorro, e queria apenas se adequar à nova moradia e aos grupos sociais.

 

Todos os planos da família de Christiane começaram a dar errado e a garota começou a criar repúdio pela condição sub-humana da qual vivia. Para fugir da realidade, ela se encontrava com outras crianças do Gropius, até que conheceu o Centro de Jovens do conjunto, onde o envolvimento com drogas começou. Por um longo tempo, o local era conhecido por ser um dos maiores points de droga da juventude perdida em Berlim. Christiane começou com raxixe, partiu para a maconha e chegou na heroína, a droga que fazia você mais cool e awesome.

 

A necessidade de se encaixar na “turma”

 

Christiane queria o que todo adolescente quer: se encaixar. O problema é que ela fez isso da maneira errada, guiada pela vontade desesperada de pertencer a alguma turma. Por não ser o tipo de garota ideal para ter um grupo bacana, Christiane começou a agir de maneira rebelde para chamar atenção. No que isso deu? Em amizades destrutivas. Ela poderia ter caído fora? Claro que poderia. Mas como, se a família, a base de tudo e que deveria se importar, não estava nem aí para ela? E se a vontade de sumir e viver outra realidade fossem maiores a engolir a vida real que, para os jovens, tende a ser um saco?

 

Ela tinha 11 anos quando tudo começou. Uma criança. Um detalhe que acontece até hoje na nossa sociedade. Claro que, quem se envolve com drogas, faz isso plenamente consciente, mas o que fazer quando elas oferecem uma realidade supostamente melhor? O pai de Christiane largou a família mais tarde e levou a irmã. Ela ficou sozinha com a mãe que, em curto espaço de tempo, começou um novo relacionamento com um cara que a menina não simpatizava. A figura materna não dava apoio, pois estava tão atolada no trabalho e preocupada demais com o novo namorado que nem viu a filha mergulhar na droga. Ao notar estranheza, a mulher se fez de cega, até ser tarde demais.

 

Na década de 70, os jovens pensavam diferente em comparação aos de hoje. Acredito que agora o livre arbítrio realmente é uma questão pessoal, não que nunca fosse, onde se torna mais fácil você sair pela tangente antes de cometer uma burrada. Há muita informação sobre tudo atualmente e o acesso a ela é muito mais fácil. Christiane, além de ser uma novata no pedaço, morou em um lugar onde só se respirava drogas e não foi de se esperar que as primeiras amizades dela fossem com usuários “mais leves”. Ela não tinha com quem conversar e nem como jogar no Google para saber os danos que fazia consigo mesma.

 

No livro, ela frisa e muito a questão da “turma” e a necessidade de pertencer a um grupo que acolhe, que te aceita como é. Por vezes, muito melhor que o apoio da família. Christiane se sentia melhor entre os amigos e, para pertencer sem correr o risco de ser chutada, passou a se comportar como eles. Ela deixou as roupas de criança de lado para usar jeans bem apertado, andar de salto alto e investir em maquiagem. Atitude que mudou uma garota que nem tinha chegado aos 15 anos e mal tinha peito. A partir daí, ela começou a ter contato com o lado obscuro da juventude, onde só se usava drogas, fazia sexo ou se permitia ser bolinado.

 

As discotecas eram o inferno e Christiane começou a frequentar o Sound, o ponto de venda da heroína. O mais incômodo ao ler a obra é vê-la descrever como ovacionava os drogados mais velhos, por serem magros e com cara de zumbis. Isso a fez ter uma nova necessidade de se enquadrar e caiu nas garras da H. Quem teve grande influência no dilema de usuária dela foi o namorado Detlef, a companhia mais “pesada”, pois é com ele que ela compartilha os altos e baixos da heroína.

 

Christiane F.: drogada…

 

Ao conhecer o Sound, Christiane começou a passar mais tempo na rua que em casa. Quando ela se envolve com Detlef, parece até que uma história de amor e salvação começaria, mas não é nada disso. A relação deles é simplesmente terrível. Christiane tentou fazer com que o namorado não se tornasse um viciado em heroína, mas ele não resistiu, mesmo ciente do que a droga causava nas outras pessoas que pertenciam ao mesmo círculo que eles. Algumas começavam a morrer de um dia para o outro, mas nem isso foi o bastante para segurar Detlef.

 

Com o tempo, Cristiane era uma das poucas pessoas que não usavam heroína. Após o primeiro contato, uma reação em cadeia começou. A jovem admitiu que estava consciente dos próprios atos, mas ela queria pertencer a algo, queria esquecer os problemas, queria se sentir querida, mesmo que isso a destruísse por completo. No início, ela cheirava, com a promessa de que nunca se picaria. Porém, isso não demorou a acontecer.

 

Christiane F.: prostituída…

 

A heroína não tinha um preço acessível e Christiane assistia enojada Detlef se prostituir e ter relações, em grande maioria, com homens para alimentar o vício dele e dela. Ela faz mais uma promessa de não ter que recorrer aquilo, mas embarcou na prostituição, e fez outro pacto silencioso de que não teria relações sexuais com ninguém. Essa parte do livro é bastante densa, pois nada do que ela pensa perdura por muito tempo. Tudo que ela acha que consegue evitar é posto à prova a todo instante e ela não tem outra alternativa senão alimentar o vício que, a cada página, se torna maior.

 

Christiane conheceu garotas mais novas que ela, Babsi e Stella, todas viciadas em heroína e prostituídas. Nas crises, ela dividia o mesmo cliente com elas e até mesmo com Detlef para fazer o programa custar mais caro. Na Berlim da década de 70, a praça point da droga era rodeada de jovens, em grande parte, menores de 18 anos, que batia ponto para poder alimentar o vício por heroína. E Christiane era uma delas.

 

A partir daí, a história de Christiane e Detlef se torna mais complexa e agonizante, pois eles chegam juntos ao auge do vício e da prostituição. Depois de se dividirem na hora de se prostituir para conseguir a heroína, ao longo da narração, é apresentado os inúmeros momentos que ambos tentam sair dessa vida, com várias crises de abstinência que acarretava em novas picadas depois de 24 horas de tortura. Se Detlef recaía, Christiane também e vice-versa. Porém, eles insistiram na esperança de se manterem limpos, mas era só encontrarem uma desculpinha para “comemorar” e a picadinha acontecia.

 

Durante a narrativa, Christiane não se mostrou dependente de Detflef. Era raro ele tomar as decisões por ela. A jovem assumia a iniciativa de tudo para manter o vício de ambos. O namorado simplesmente era um estorvo, pois ela fez uma boa parte dos absurdos pela droga na crença e na ingenuidade de que o amor que os unia era capaz de sobreviver à heroína.

 

Sobre o filme Christiane F.

 

O filme de mesmo nome foi lançado em 1981 e dá cenário ao depoimento da garota. Porém, não é tão intenso quanto o livro. Quem acha que o mundo das drogas é lindo e fácil, imaginem na Alemanha da década de 70 (ou em qualquer outro país, onde a heroína começava a bombar), onde grupos de jovens se reuniam para usar qualquer droga para se esquecer dos problemas. Os relatos de Christiane apenas intensificam a precariedade que viveu e, no filme, o foco mesmo é a questão dela ser jovem demais, usar heroína e se prostituir para consegui-la. O longa é bem mais leve perto da obra.

 

Opinião da Random Girl

 

“É a razão profunda pela qual este livro extraordinário é, e deveria ser, quase insuportável.”

 

Sim, o livro é praticamente insuportável de ler e nem por isso dá para despregar os olhos das páginas, especialmente quando chega o momento em que Christiane começa a se prostituir. Insuportável no sentido de realmente dar um incômodo por tentar imaginar o cenário da qual a jovem viveu. Eu tenho pavor de agulhas e, quando ela usou a droga pela primeira vez, o braço dela foi cutucado para encontrar a veia com a seringa, e isso me deu uma agonia tremenda. Não é uma história nojenta só porque rola o papo de prostituição, pois nada é aprofundado. Porém, não tem como não imaginar como uma criança se vendia para se drogar.

 

Eu tinha até receio de lê-lo no ônibus e no metrô, mas, toda vez que lembrava que geral abria com orgulho 50 Tons de Cinza, me sentia a pessoa mais incrível em estar focada na leitura de algo mais interessante.

 

Christiane se perdeu e se rebaixou. Ao longa da jornada, ela acumulou traumas relatados no livro e que comprometeram sua vida social pós-droga. A jovem chegou ao ponto de não conseguir se relacionar com garotos por um longo tempo, pois imaginava que eles iriam querer algo em troca.

 

O interessante dessa documentação é que ela segue um tempo linear. No meio, há relatos da mãe de Christiane, dos policiais que a enquadraram inúmeras vezes por porte de drogas e dos institutos de saúde que tentavam “salvar” os junkies alemães. No final das contas, o pai é quem se torna uma figura até que relevante, mas peguei tanta raiva dele que tive vontade de arremessar o livro pela janela do ônibus duzentas vezes toda vez que ele maltratava a filha.

 

O livro Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada, Prostituída… faz refletir. Ele é um perfeito divisor de opiniões, pois é fácil apontar e dizer que ela sabia que a heroína é destruidora e blá! blá! blá!, mas quem cresceu em um ambiente desestruturado tenta fugir da realidade, pois soa mais fácil. É coisa de gente fraca? Não sei, pois cada um sabe dos problemas particulares, do quanto eles pesam e do desespero que eles causam. Como disse, a juventude da década de 70 era totalmente diferente da de agora, que é muito mais carente e extremista por atenção. Na minha época escolar, já existia o ato de cometer bullying, mas só foi dar nome ao ato que o assunto ganhou uma proporção desnecessária.

 

Não havia redes sociais para se distrair, algo que segura um pouco mais os jovens a fazer e pensar besteiras, pois eles não procuram motivos na rua para se darem mal, a não ser, como de praxe, por influência de algo. Christiane era uma criança carente de tudo, de afeto, de amigos e de atenção, e, em contato com “a galera errada”, era de se esperar que ela chegasse ao fundo do poço por querer ser cool.

 

Hoje, esse comportamento de querer se encaixar não é muito diferente. Os adolescentes querem fazer parte de tudo e querem ser os primeiros da fila. Eles brigam por bobagens. Quando a vida mordê-los na traseira, é bem provável que não aguentem o tranco. Eu acho a geração atual preocupante, pois muitos não possuem expectativas de nada e se contentam em ficar horas diante de uma tela de computador, onde uma rede social é o diário público. E as histórias para contar no futuro, onde ficam? E as experiências? Vejo “aborrecentes” forçar os pais sem dinheiro a comprar tênis caros, celulares da moda e fazem um inferno na terra se não conseguem, um comportamento patético. Isso se chama falta de louça para lavar.

 

Christiane termina o livro falando sobre a falta de ideal do jovem, o que emenda meu comentário acima. Ela sinaliza algo do qual acredito, sobre a necessidade dos adolescentes não quererem ser como os pais, de achar que os adultos idealizam demais, o que é uma porcaria no ponto de vista dela. Quando Christiane foi para o interior para viver com a família por parte de mãe, depois do inferno em Berlim, ela serviu de consultoria para muitos jovens, mas acabou vendo um reflexo do que viveu, algo que a marcou para sempre.

 

“Matar-se, como minha mãe, por um apartamento ou um sofá novo é coisa de débil. Era bom para nossos pais, com suas teorias ultrapassadas. Para mim, e acho que para muitos da minha geração, essas coisas materiais, esse pequeno conforto são o mínimo vital. Precisamos de algo mais; que dê sentido à vida. E que não encontramos em lugar algum; mas alguns jovens, eu entre eles, estão sempre em busca do que poderá dar sentido à vida.

 

De acordo com o fim do livro, Christiane ingressou em uma nova fase de adaptação e ela não cogitou a possibilidade de voltar para Berlim, justamente por saber que teria recaídas. Os resultados dessa aventura regada à heroína foram atraso nos estudos, expulsão da escola por causa do currículo nada promissor e conflitos de querer ou não a heroína de novo.

 

Eu fiquei muitos dias chocada com a história de Christiane. O filme realmente não me trouxe nada em comparação ao livro que é rico em detalhes e, acredito, fiel à vida da garota que se tornou popular por ser uma viciada em heroína muito jovem e por ter se prostituído. É um caminho que não tem volta, pelo menos para mim. Christiane permaneceu limpa por 10 anos assim que foi chutada de Berlim pela mãe, mas ter acesso às drogas era muito fácil naquela época. Há até a confirmação de que ela teve um filho e de que voltou a usá-las. Vai saber, né?

 

Eu assisti ao filme quando era adolescente e eu estava em uma fase um tanto quanto rebelde. Admito que a leitura me fez muito mal e acho que amadureceu diversos pontos de vista dos quais desacreditava. Como disse os autores, é sim um livro extraordinário, muito intenso e marcante, que não tem como não parar de ler, só para saber o que aconteceu com Christiane no final. Chega a ser doloroso, terrível e muito, mas muito insuportável.

 

 

Na Prateleira:

Nome: Eu, Christiane F., 13 anos, Drogada, Prostituída…

Autor: Kai Hermann e Horst Rieck

Páginas: 320

Editora: Bertrand Brasil

Stefs
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  • Maria Cecília Webster

    Muito bom artigo!!! Assisti na década de 80 ( tenho o livro tb ) e confesso que fiquei dias sem dormir direito.. o filme me impressionou muito! Era doloroso demais!!!! Livro ( melhor ainda ) e filme bom, servem como um alerta,servem como aprendizado, mas com muito sofrimento!!!!!!!!! Sofrimento , agonia, desespero demais!!!

  • Essa leitura retrata o modelo de nossa sociedade.Precisamos despertar,fazer alguma coisa para reverter esse quadro lamentável em que vivemos.