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08/out

Eu já falei que costumo comprar livros pela capa, né? Com o título de hoje, a atitude não foi muito diferente, pois fiquei encantada pela arte da obra que será resenhada hoje: A Garota dos Pés de Vidro. Não li a sinopse, não chequei o autor… Simplesmente o levei para o caixa e afirmo que raramente me arrependo de tomar atitudes como essa. Sempre aceito o risco e, confesso, encontro títulos interessantes com certa frequência. Faz um tempinho que li este livro, com a falta de tempo não deu para postar a resenha, mas antes tarde do que nunca, gente!

 

Ali Shaw assina A Garota dos Pés de Vidro que é um misto de conto de fadas com uma pitadinha de romance que me fez suspirar e sorrir com carinho ao me deparar com personagens tão bobos que dava vontade de apertá-los. Na época em que comecei a lê-lo, estava à procura de um amor sutil, leve, sem aquele clima desesperador de “eu te amo” ou “você é tudo na minha vida”. Nada com carinha de Nicholas Sparks que tem a mesma temática e o mesmo requinte para tragédias o tempo todo. Eu queria um livro que me fizesse lembrá-lo com carinho e que, futuramente, pudesse relê-lo. Shaw conseguiu essa tarefa ao criar o universo de Midas e Ida, a garota com os pés de vidro.

 

Ida é uma personagem influente para toda a trama do livro, mas Midas é a figurinha que se destaca. A história começa com o personagem em meio à atividade que ele ama fazer: fotografar. Ele é introspectivo, focado apenas na arte que venera e que serve de meio para expor muitos de seus sentimentos que ficam trancafiados a 7 chaves. Sem contar que Midas não faz questão de ter amigos e nem gosta de falar sobre si mesmo. O rapaz acredita ter herdado esse comportamento do pai, um homem que se suicidou, que o atormenta em lembranças nada agradáveis (especialmente quando ele acha que ler é uma tolice), que sempre foi muito distante e nada amoroso. Porém, quando Ida entra na vida de Midas, as coisas começam a ficar mais coloridas e a vida do solitário rapaz sai do preto e branco.

 

Em um belo dia muito frio, Midas encontra Ida e sente muita vontade de fotografá-la. Ambos trocam uma pequena conversa, mas o que chama a atenção dele nesse encontro proporcionado pelo tão querido (ou não) destino são as botas da menina, maiores que os pés, totalmente desproporcionais ao tamanho dela. Por meio dessa curiosidade, a história se inicia, onde diversas formas de amor são trabalhadas, desde dois amantes até o drama familiar, que nos guia até o dilema principal que são os pés de vidro de Ida.

 

 

Midas e Ida aparentam não ter nada em comum, mas, conforme a trama avança, a história deles se conecta. O livro apresenta flashbacks que podem tornar a leitura um pouco cansativa, mas é como se eles fossem uma pré-ideia para o próximo capítulo, o que funciona como uma explicação do porquê os personagens se comportam de determinada maneira, especialmente Midas. O que ajuda a tornar o livro ainda mais bonito são as comparações do amor do rapaz por fotografia e como isso se enquadra em cada atitude tomada por ele, que vê o mundo através de um negativo de foto.

 

Shaw escreveu umas sacadas muito boas, tais como comparar o coração de Midas com uma máquina fotográfica e afirmar que as pessoas são feitas de camadas. Tudo porque o personagem não tem nenhum envolvimento com outras pessoas até conhecer Ida, que o tira da bolha de querer viver sozinho e de se esconder do mundo, onde as pessoas só o conhecem por meio da fotografia. O único elo de sociabilidade de Midas é Gustav, pois eles são BFF desde a escola e sempre compartilharam histórias.

 

Enquanto Midas se interessa pelo mistério em torno da garota e da bota maior que os pés, Ida quer encontrar Henry Fuwa, o único que parece ter a solução para o problema dela. Nesse ínterim, Midas e Ida se encontram algumas vezes, o que dá brecha para o que eles virão a sentir um pelo outro. Ida quer confiar em alguém para contar o segredo que a atormenta e Midas tenta contornar o caminho, mas se apaixona, mesmo relutante. Porém, o rapaz não sabe lidar com isso e tem muito medo de cometer alguma bobagem, algo que ele faz no decorrer da leitura e dá vontade de dar uns tapas nele por ser tão enxerido.

 

Ao contrário do medo que gera a passividade e até mesmo a ingenuidade de Midas, Ida é completamente ativa. Mesmo com os pés de vidro, ela não perde o bom humor, o que é ótimo. Isso a faz uma protagonista que dá vontade de torcer, pois não choraminga o tempo inteiro que morrerá ou que não é correspondida pelo garoto que tem interesse. Ida é divertida, o que rebate contra a melancolia de Midas, e agrega mais cor a vida opaca dele. A personagem seria perfeita para sentir medo por causa dos pés de vidro, mas dá para notar que ela ama viver. Essas diferenças entre os personagens torna o romance diferente e inusitado. Ambos têm dilemas particulares que, normalmente, faz qualquer um se isolar, ainda mais quando no background estão envolvidos complexos pessoais.

 

O mais importante é que Midas e Ida se apoiam um no outro para solucionar o problema dos pés de vidro. Os protagonistas começam a se envolver gradativamente e Ida sempre questiona Midas pelas atitudes dele já que, em tese, ele entra mudo e sai calado. Especialmente quando ela é quem toma a iniciativa de jogá-lo na parede. A amizade inicial entre os dois é de suma importância para o que acontece ao longo do conto de fadas, que revela um romance tão doce que dá vontade de desejar um para chamar de seu.

 

O romance entre os protagonistas não é daqueles que pipocam do nada. O autor se preocupou em apontar a insegurança de ambos os lados, bem como os possíveis impasses que os impediriam de ficar juntos. Narrado em terceira pessoa, o leitor é levado para o lado mais obscuro dos personagens, o que dá respaldo para saber se eles merecem ou não um final feliz. O tempo inteiro, Midas não faz ideia de como se sente por Ida, mas tem medo dela e do que pode vir a acontecer entre eles. O rapaz não sabe ser afetuoso, um detalhe que só reforça o quanto ele é agarrado à memória do pai. Por outro lado, Ida contrabalança cada encontro com autoestima e sorrisos, o que comprova que ela quer aproveitar cada segundo da vida como se fosse o último, sem dramalhão.

 

Todos os personagens são muito complexos e é fácil odiá-los de início. Faz parte da transição para amá-los, especialmente Midas. Cada um tem motivações bem implícitas, o que nos dá uma parcela de compreensão seguida de reflexão. Midas e Ida formam aquele velho casal que estava predestinado a se encontrar e é isso o ponto mágico da obra. Todas as pessoas que ambos conhecem se interligam com a história que o casal vive no momento. No final das contas, são todas elas que ajudam a explicar as causas dos pés de vidro de Ida, cuja verdade é revelada pouco a pouco e é de partir um coração gelado, especialmente a parte do pai de Midas.

 

A Garota dos Pés de Vidro é bastante focado na fotografia e faz uso constante de figuras de linguagem sobre o assunto. Quem for aquele leitor que não gosta de monotonia por causa dos flashbacks, saiba que algumas passagens são bem chatinhas. O livro pode até ser considerado como detentor de uma trama fraca, mas a camada essencial desta obra de Shaw é a mensagem, onde cada um interpretará de maneiras diferentes.

 

Em meio a tantos sentimentos, há uma garota que só pensa em viver o máximo que pode enquanto o garoto apenas quer quebrar os elos com o passado e se tornar alguém mais digno de ser apaixonante. Assim, o livro nos leva a pensar no tipo de amor que nós temos a oferecer e como certos complexos são capazes de nos mudar. Somos fotografias e cada um tem suas camadas, cada uma mais intrínseca que a outra, e até mesmo extremamente profunda, de difícil acesso a qualquer um.

 

Ali Shaw fez um conto de fadas belíssimo, onde, no final das contas, o amor é um sentimento que sempre nos levará ao limite, ao encontro de muitas coisas, como fé e redenção. É um livro que nos leva a crer um pouco mais de que é possível encontrar alguém especial que pode mudar nossas vidas com reviravoltas mágicas. O autor não dá ao leitor um amor carnal, mas algo dócil, diferente. O livro é acima de tudo ingênuo, digno de ler embaixo de um sol fraco ou em um dia de chuva embaixo do edredom.

 

A Garota dos Pés de Vidro ao invés de dar soluções práticas, nos dá um final realista com base em personagens palpáveis, que cometem erros, que são capazes de sentir os altos e baixos e que estão dispostos às duras penas a aprender com eles. Não tem como não fechar o livro e olhá-lo com extremo carinho.

 

 

Na Prateleira (versão nacional): 
Nome: A Garota dos Pés de Vidro
Autor: Ali Shaw
Páginas: 288
Editora: LeYa

Stefs
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