Menu:
15/out

Mas à noite, quando a cidade inteira dormia, ele escrevia…

 

As Palavras também pertencia à lista de filmes que eu queria muito assistir por tratar a temática “escritor”. A primeira vez que vi o trailer foi por acaso, graças àquelas lindas recomendações do YouTube. Eu fui notá-lo bem antes de saber da sinopse, tudo por causa do Ben Barnes que tem uma participação bem curta no longa, mas muito essencial para o desenvolvimento de mais uma linda história que envolve o universo de escritores. No elenco principal temos Bradley Cooper (que é produtor executivo), a belíssima Zoe Saldana e o enigmático Jeremy Irons.

 

O filme é dirigido e escrito por Brian Klugman e Lee Sternthal, cuja storyline se divide em 3 arcos de personagens: Clay, o autor do livro que dá nome ao longa (The Words), o casal Rory e Dora e o “velho homem” (ele não tem nome mesmo, gente!). Clay abre a narrativa do filme e nos leva aos altos e baixos da vida de Rory e de Dora que são mais reais do que podemos imaginar. Ambos se destacam por estarem entremeados a uma trama que nos mostra o conflito daquilo que queremos ser e das nossas decisões para que certos sonhos possam se tornar realidade.

 

Clay nos guia para a história de Rory, um homem otimista quanto ao próprio talento de ser escritor. O personagem almeja ser um autor como aqueles que aprecia, capaz de influenciar as pessoas por meio de palavras honestas. Ele não quer ser mais um nome em uma vitrine de livraria. Para isso, Rory abandonou a vida estável para escrever em período integral, pois ele quer fazer a diferença. Para se sentir inspirado a conquistar o próprio espaço, o homem conta com o apoio da esposa. Porém, temos o agente desmotivador que é o pai, mas ele nem força tanto a barra.

 

Ao finalizar o tão sonhado livro, inicia-se o processo de recusas e, nesse ínterim, para se esquecer do pesadelo de não ter sido publicado, Rory se casa e embarca em uma lua de mel em Paris. E é por meio de uma maleta desgastada encontrada em uma lojinha de antiguidades que a história do personagem começa de verdade.

 

Ao longo da trama, Rory se apresenta como uma pessoa muito dedicada e focada no que quer. Ele divide as manhãs e as tardes com a esposa e a noite ele não sai da frente do notebook. Impulsionado pelo sonho de ser publicado, o personagem não tem descanso. Em meio a esse desejo, o filme mostra perfeitamente como Rory age diante dos prós e dos contras quanto às incertezas de ser o que quer: um autor. O pai não deixa de apontar o quanto é meio vergonhoso não ter uma responsabilidade, ou melhor, um emprego que mantenha o filho estável enquanto ele escreve. Dora age diferente e sente orgulho da predisposição do marido em não desistir. De maneira geral, Rory esboça muito bem o dilema daqueles que querem viver daquilo que ama e lidam com a frustração de não conseguir.

 

Vamos falar sobre Rory

 

Rory representa o momento do qual vivo: de querer largar tudo para me dedicar ao que mais prezo. O personagem nos guia para o realismo de abrir mão de uma vida confortável para lidar com incertezas em nome daquilo que se ama. Como escritor, Rory ainda enfrenta a dinâmica mordaz do mercado literário que, geralmente, não publica o que o autor quer, mas o que está na moda. Tudo bem que a história se baseia no ramo editorial americano, mas não me espantaria se alguém me dissesse que no Brasil acontece o mesmo tipo de seleção, onde poucos e os sortudos são beneficiados.

 

Eu leio tantos blogs cujos autores comentam que chutaram os empregos para fazerem o que amam, e morro de inveja quando eles afirmam que estão felizes. Eu não tenho nada do que reclamar do meu job, mas seria melhor se eu não me sentisse vazia o tempo todo. Escrever histórias fala mais alto que qualquer coisa para mim e me preenche de um jeito que não tem como explicar.

 

O pai de Rory age como minha consciência, que desperta o alerta de que não posso abrir mão de certas coisas, pois nem todo sonho é possível de se realizar. Mas será? Rory tem economias, mas a situação dele apertou e o pai lhe concede uma graninha extra. Embora ele dê um conselho desmotivador ao filho, vejo o ato de dar dinheiro como uma forma de apoio. Porém, o homem lança ao Rory o que já escutei algumas vezes: leve a escrita como passatempo e se mantenha onde está até ter algo concreto.

 

Rory é um reflexo de muitas pessoas que querem escrever e querem ser reconhecidas por isso e, quem sabe, até mudar um pouco como funciona o mercado livreiro. Essa sensação de querer causar uma ótima impressão é debatida em As Palavras que frisa que nem tudo é como o escritor quer. Nem tudo o que se escreve é validado. Que todo o esforço de 3 anos ou mais pode ser simplesmente jogado na lixeira. Atualmente, as livrarias estão banhadas de livros YA e distopias e, se alguém tenta ser muito diferente disso ou muito igual a determinada obra já publicada, a taxa de rejeição é muito alta. Eu fiquei realmente tocada com o desespero de Rory nesse quesito. Doeu no peito quando ele leu todas as cartas de rejeição e quando escutou que a obra dele não era adequada.

 

Eu sou extremamente protecionista com meus textos. Eu relutaria demais para mudar algo só porque o mercado quer. Faz parte do jogo, mas, como pensar em expor opiniões e palavras sendo que um dos ramos que deveria ser aberto a aceitar novos e bons escritores passou a ser máquina de lucro? Eu não vou citar nomes, mas há uma editora que não aceita manuscritos, porque ela é detentora dos títulos internacionais mais cobiçados. Por que abrir oportunidade para os brasileiros, não é mesmo?

 

Eu não sou quem eu pensava que era…E estou morrendo de medo de que nunca venha a ser…

 

Rory tirou todas as palavras da minha boca e Bradley Cooper nessa cena me fez querer bater a cabeça na parede. Eu não cheguei à metade da jornada, mas tenho calafrios só de imaginar que meus esforços poderão servir de nada. Às vezes, acho que serei mais um Rory, frustrada na noite. Admiro pessoas que realmente chutam tudo para seguir o que querem. É uma atitude que ainda me acovarda, mas estou quase convencida de fazer isso no próximo ano. Nunca vou saber se foi a melhor atitude da minha vida se não tentar, certo?

 

A parte que me deu uma sacudida é quando Rory questiona como as pessoas conseguem levar suas vidas com tanta comodidade, teoricamente, satisfeitos com o trabalho, o salário, entre outros fatores. Eu olho ao meu redor e parece que ninguém tem expectativa de nada. É como se ninguém sonhasse. Daí, acrescento a síndrome Carson ao questionar: como as pessoas aceitam calar a própria voz imersos aos mesmos cargos, aos mesmos desaforos e a incessante falta de reconhecimento? Eu acredito que todo mundo tem poder de fazer aquilo que gosta, mas é preciso de muita coragem para largar tudo e trilhar o próprio destino. Sem direito a olhar para trás ou se arrepender.

 

É muito ruim saber que você tem capacidade para fazer determinada coisa por amor e se dedicar inteiramente a isso. O dinheiro é um item que pesa e muito na balança e é o motivo principal que faz muitas pessoas retrocederem do que realmente querem.

 

Opinião da Random Girl

 

Ele só queria sentir as palavras passarem pelos seus dedos, através de sua imaginação… Ele precisava saber o que sentia…

 

As Palavras mexeu muito com as minhas inseguranças. Ao longo da jornada de Rory, era como se eu estivesse diante de um espelho. O filme inteiro conversou comigo e foi uma tortura assistir o sentimento de fracasso, de descrença, de não saber o que fazer do personagem.

 

O filme vai fundo em questões cruciais da vida de um escritor: o momento de árduo trabalho, da tristeza de ser rejeitado, do drama de achar que não é bom o suficiente, da felicidade quando a glória chega, entre outras coisas. Ao contrário do que aconteceu com muitos longas sobre este tema, Rory foi desenhado como uma pessoa que poderia ser nosso vizinho, de bem com a vida, nada arrogante, que só queria viver sob uma perspectiva melhor.

 

Eu queria falar muito mais sobre As Palavras, mas ele é aquele tipo de filme que se contar demais estraga, porque, como disse, é uma história dentro da outra e as três se entrelaçam para dar um final com direito à pausa dramática. Bradley Cooper conseguiu captar a essência de Rory e transmitiu perfeitamente as inseguranças dele. O personagem é um escritor apaixonado e isso é sempre bonito de assistir.

 

O que fica de mensagem, além do amor por algo, é sobre as escolhas que fazemos para correr e conseguir aquilo que almejamos. Como diria o “velho homem”, a vida é cheia de escolhas, o difícil é viver com elas. As Palavras é um filme onde a vida real colide com a ficção. Vocês irão assisti-lo como se lessem um livro.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3