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19/nov

Extraordinário é um livro que não dá vontade de largar assim que você termina a leitura. É aquele tipo que você procura por mais páginas até cair a ficha de que a história acabou. A obra assinada por R.J. Palacio, nos leva para a vida cheia de altos e baixos de um garotinho chamado August Pullman ou simplesmente Auggie.

 

A principal característica dele é o rosto que possui uma deformidade genética, um detalhe que o torna assustador à primeira vista – os olhos dele ficam quase no meio das bochechas, esbugalhados, o da esquerda mais baixo que o direito, e ele não tem sobrancelhas e cílios. Isso incomoda as pessoas que o veem e cria momentos constrangedores. Todos que o encontram, acham que o menino sobreviveu a algum incêndio, pois a aparência dele parece que derreteu.

 

Mesmo com esse impasse que pode muito bem afetar a vida e a sociabilidade de uma criança, Auggie quebra o paradigma por não ser descrito como coitadinho e é um perfeito exemplo de superação, coragem e humildade. Ao contrário do que se imagina, ele não é uma criança apática, que se esconde e que se sente ameaçada o tempo inteiro. Ele é carismático, tira sarro do próprio dilema e tenta ter uma rotina normal. Por causa do rosto, os casos de bullying acontecem, mas ele não abaixa a cabeça, pois escolheu ser gentil com todos aqueles que caçoam, literalmente, da sua cara.

 

A jornada de Auggie começa quando os pais o informam que ele não estudará mais em casa, mas na escola. Por nunca ter saído da proteção de algum parente ou amigo, esse é o momento de tensão e de preocupação. Ele hesita, mas acaba por topar o desafio. Ao ingressar em uma instituição de ensino, Auggie precisa contornar muitos obstáculos, especialmente a dificuldade de se encaixar no contexto escolar, um universo que só te aceita se você for igual a todo mundo. Um detalhe que faz parte de qualquer sociedade atualmente. Além disso, Auggie tem que aprender a aceitar o próprio rosto e fazer com que as pessoas o aceitem do jeito que ele é.

 

Contudo, o rosto o impede de ter, a curto prazo, qualquer amizade duradoura até encontrar apoio em Summer e Jack Will, companheiros que tornam a história do personagem muito mais bonita e inspiradora. Auggie vence os empecilhos ao se apoiar em alicerces verdadeiros e, ao longo da jornada, ele desenvolve um amor de dentro para fora, que contagia e atrai aqueles que não se importam com sua condição, aqueles que o respeitam por ser tão valente em meio à bagunça preconceituosa que a vida dele se torna. Para uma criança de 10 anos, Auggie tem personalidade forte e não age dentro dos moldes e dos padrões que todo mundo segue. Claro que o menino sofre, afinal, ele é muito novinho e precisa de convívio social para amadurecer.

 

Extraordinário é narrado em primeira pessoa e é dividido em 8 arcos de pontos de vistas diferentes e todos pertencem ao convívio de Auggie. A primeira é Via, a irmã, que expõe os sentimentos com relação ao irmão e do quanto se sentiu chateada inúmeras vezes por não ser colocada em prioridade por conta das preocupações dos pais com ele. Há também os relatos de Summer e de Jack Will, como também do namorado de Via, Justin, e da melhor amiga dela, Miranda, que tem participação muito relevante para a história.

 

Todo esse combo torna o mundo de Auggie mais interessante, pois, mesmo em primeira pessoa, a autora se preocupou em nos dar um parecer do ponto de vista de cada personagem envolvido com o menino. Só senti falta da opinião dos pais, pois acredito que deixaria a obra ainda mais especial.

 

Não julgue um menino pela cara

 

Não julgar. Esse é um dos primeiros mandamentos que os pais ensinam aos filhos e deveríamos carregá-lo para a vida adulta. Quantos de nós não apontaram o dedo no rosto de alguém para julgar? É uma atitude que gera chateação, mas ela é tão ordinária que, sem ao menos percebermos, julgamos, seja pelo cabelo ou pela roupa. É um ato que faz outro alguém se sentir mal, mesmo que seja automático. Isso é um ponto que poderia muito bem ser aderido ao que chamam de natureza humana, como os sete pecados que não são contidos diante da tentação, mas existem na personalidade de algumas pessoas de forma mais intensa que em outras.

 

Na infância, o período em que muitos pais afirmam que não há maldade alguma, julgar é arrebatador. Extraordinário pontua que as crianças podem ser cruéis sim e, atualmente, isso não está muito longe da verdade. Qualquer comentário para um pequeno que é mais sensível machuca, é marcante e pode mudar muitos âmbitos da vida. Auggie preferiu vencer e deu a volta por cima. Ele sofre no percurso por causa do rosto deformado. Ele não se acha bonito. Nas horas de desespero, ele queria usar uma máscara para que ninguém mais olhasse para ele. Auggie é uma criança como qualquer outra, que tem inseguranças e medos, mas o impasse da deformidade facial o torna mais forte.

 

Auggie curtiu a primeira aventura na escola e ela poderia ser a pior da sua vida. Crianças tendem a odiar o lugar de ensino com todo o coração devido ao péssimo relacionamento com os colegas de classe, por exemplo. Porém, não Auggie. Ele é humilhado, posto como foco central para ser motivo de chacota, mas em nenhum momento ele age como vítima. Auggie troca qualquer sentimento de raiva pela gentileza, e isso o torna um belíssimo exemplo de personagem que precisa com urgência ser apresentado para qualquer criança.

 

Ao contrário de muitos pais que tentam a todo custo amenizar os problemas da criança, os de Auggie sentem receio, mas o permitem enfrentar a nova realidade. Afinal, faz parte do aprendizado. O personagem tem consciência das próprias limitações, o que torna esse fator importantíssimo para que ele saiba lidar com um dilema que pode durar a vida inteira.

 

Opinião da Random Girl

 

Eu acredito que todas as crianças podem crescer e aprender com problemas particulares e serem adultos extraordinários. Não cabe à sociedade moldar ninguém, pois também acredito que a base de ensinamentos, tais como educação e respeito, se aprendem dentro de casa. É muito vergonhoso ver meninas de 11 anos se portarem como garotas de 18, bem como meninos que se entregam a fase de pequenos MCs apoiados pelas mães. É um absurdo, mas é real.

 

Porém, não adianta culpar a economia ou as desigualdades sociais, pois, cada um adere, digamos, o estilo que bem entender e também somos capazes de mudar um comportamento por meio da influência, seja ela positiva ou negativa. Se os pais não são bons exemplos, quem dirá o que a criança terá como referência assim que sair de casa para enfrentar o mundo.

 

Seja de maneira indireta ou direta, nos inspiramos em alguém e, no fundo, queremos um dia inspirar o próximo. É triste ver crianças e adolescentes arredios, que acreditam que a vida é fácil, e agem com hostilidade contra pessoas que são muito diferentes ou especiais. Todo mundo nasceu a partir da mesma criação, todo mundo será velho um dia, não adianta renegar o óbvio.

 

A infância é a fase que nos molda e rebate no que seremos no futuro. Claro que isso também inclui as opiniões e os desejos individuais, pois de nada adianta ter uma ótima educação e agir que nem panaca. Todo mundo tem livre arbítrio, ou seja, capacidade de decidir o que é melhor para si e para os outros, e não adianta em nada colocar a culpa em totalidade naqueles que são (ou deveriam) ser responsáveis pelo crescimento de cada um.

 

A mensagem que Extraordinário nos deixa é a opção de sermos sempre gentis, de aceitarmos o próximo e, quem sabe, julgar menos. Auggie é uma criança sensível e que leva os pais ao ápice da preocupação, mas ele aprendeu e amadureceu conforme enfrentava os altos e baixos escolares em meio a pessoas que não compreendiam o seu estado. Ele tinha tudo para ser dramático ou marrento, mas ele escolheu a humildade, além de tratar todos como seus iguais.

 

August é um menino forte, engraçado, adorável, que percebe que, no final das contas, não é o rosto dele que importa, mas a maneira como se trata as pessoas. Por mais que possa ser surreal para alguns, há crianças que aceitam as próprias condições e batalham para fazer a diferença. Extraordinário é detentor de um personagem inspirador, uma leitura que superindicaria para qualquer pessoa.

 

 

Na Prateleira:

Nome: Extraordinário
Autor: R.J. Palacio
Páginas: 320
Editora: Intrínseca

Stefs
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