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03/jan

Toda vez que me emociono profundamente com algum episódio de Doctor Who, sou dominada por uma dificuldade tremenda de escrever, especialmente quando os olhos estão cheios de lágrimas. Confesso que essa emoção custou muito a aflorar, pois achei este especial de Natal fraco em comparação aos anteriores. A princípio, não consegui captar aquele sentimento natalino toda vez que estou diante desta temática na companhia do Senhor do Tempo e achei a trama muito morna. O que senti foi uma pressa em tentar terminar da melhor maneira possível o arco do Eleventh e isso ficou evidente no processo de regeneração, onde senti falta daquele mimimi que tinha que ter, daquela demora para o novo Doctor surgir e das piadinhas (não só sobre os rins!). Porém, o que fez deste episódio especial foi a mensagem sobre mudança, um fator que trouxe ao Senhor do Tempo uma nova bagagem de experiências.

 

O episódio abriu com o Doctor na companhia da cabeça de um Cyberman. Empolgado, piadista e arteiro, as cenas dele na TARDIS fizeram meu coração ficar pequeno. Entre tantas aterrissagens, esperei que Trenzalore aparecesse logo, mas o percurso foi desviado para uma pausa na casa de Clara. Confesso que esse reencontro me deixou bem infeliz. Jogadinhas sexuais são legais e engraçadas, mas não para este tipo de episódio. O papo de fake namoradinho me irritou desde a liberação da promo do especial e, na apresentação real da coisa toda, esse era um assunto que não tinha necessidade de estar ali.

 

Mas nada ganhou do fato do Doctor aparecer pelado (o que me fez rir, claro) na frente da Clara. Eu quis me asfixiar com o travesseiro para ser bem honesta. Se é uma coisa que me tira do sério é companion babando pelo Senhor do Tempo. Achei tudo muito impertinente, só isso. Por mais que Clara seja brilhante em certos momentos, ela me lembra a Martha (cujo brilhantismo só foi reconhecido no final da trajetória dela na série) que foi insuportável com o crush para cima do Tenth. Só espero que a garota impossível (tem como mudar esse nome?) tenha mais significância na Era Capaldi, pois está difícil suportá-la.

 

A partir disso, a história começou e não começou. Começou porque houve a apresentação de Tasha e a presença de todos os inimigos do Doctor, o que deu certa pressão para os fatos conseguintes crescerem, mas isso não aconteceu. O Senhor do Tempo decidiu ficar na cidade chamada Natal aka Trenzalore, e a história ficou presa à narrativa de Tasha que nos direcionou para mais de 300 anos da vida do Senhor do Tempo. Nesse período, foi pontuado o quanto ele envelheceu e acumulou respeito e aprendizado na comunidade. Daí, tudo encalhou. Não aconteceu mais nada, a não ser a continuidade da batalha constante do Doctor contra aqueles que o querem mal.

 

Daí que chegou a polêmica pauta sobre a regeneração. Confesso que achei o bônus muito poético, como se Clara tivesse uma boca santa, mas achei bem emocionante essa nova tentativa dela em salvar o Doctor. Amei o fato do Time Lord implodir ao receber o direito de se regenerar, um brinde misterioso da rachadura na parede que foi revelada como o maior medo dele. Na minha opinião, a maneira que ele explodiu os Daleks foi o ponto mais alto do episódio. Foi simplesmente incrível! O início do processo foi sensacional, com direito a ironias de um homem cheio de rugas que não aceita perder a pose diante dos principais inimigos. Fiquei com o coração na mão com medo de que o Capaldi fosse surgir nesse momento, mas a surpresa ficou bem segura para o final dentro da TARDIS.

 

O final sempre é a parte mais dolorosa de assistir. Solucei como uma criança, especialmente com a aparição da pequena Amy e depois da adulta Amy que simplesmente partiu meu coração em mil pedacinhos. Só achei meio nonsense o Capaldi simplesmente pipocar em meio a uma cena com teor emocional bastante intrínseco. Ele quebrou o ritmo da despedida – e da choradeira – ao aparecer daquele jeito, de maneira tão brusca, impedindo que o adeus do Eleventh fosse mais sentido. Foi, literalmente, um riso entre lágrimas.

 

Adendo: não sei o que dizer sobre o Capaldi com base na curta aparição, mas, desde que ele foi anunciado, meu coração se encheu de esperança, pois sinto falta da maturidade do seriado e parece que tudo voltará aos conformes. Se há uma coisa boa na saída do Matt Smith é o fato de que os ares juvenis finalmente darão um descanso para dar espaço a uma jornada, digamos, mais adulta. Sem contar que Clara precisa de um Senhor do Tempo mais velho para se colocar no lugar e agir como uma companion de verdade. Cansa vê-la ser quicada de um lado para o outro o tempo inteiro.

 

 

Ignorando tudo isso, o foco do episódio foi dar o melhor para que os fãs se despedissem apropriadamente de Matt. Este especial não chegou nem perto da qualidade dos antecessores, mas acredito que o trabalho de Moffat girou em torno do adeus e não no quesito de se apoiar em alguma temática, uma ideia que seguiu os Pond até o derradeiro final no primeiro arco da sétima temporada. Ele deu a despedida dos antigos companions sem se preocupar com o peso da trama, justamente por não fazer o menor sentido abrir um leque de informação sendo que Clara estava à espreita.

 

O que basta dizer é que, nesse quesito, estou satisfeita. O background não foi tão importante quanto à mensagem. Foram as pequenas coisas que tornaram este especial especial. Ele não foi péssimo, mas também não diria que foi maravilhoso, pois fiquei com a sensação de vazio o tempo todo. Não fui incitada nos primeiros minutos do episódio e isso só aconteceu quando chegou a hora da regeneração.

 

O que foi dado neste episódio foi um revival rápido do que esta versão do alienígena de dois corações trouxe para o arco dele. O retorno dos inimigos não era para uma batalha, mas para mostrar a influência deles nesta versão do Doctor. Os Daleks ganharam mais foco não só por serem a pedra no sapato do Senhor do Tempo, mas por eles terem ganhado o direito de se relembrarem do maior inimigo que possuem entre o tempo e o espaço. Considero a curta aparição dos weeping angels como a mais relevante, pois foram eles – e o Silence – que marcaram a transição do Eleventh ao lado dos Pond, e foram eles os maiores pesadelos dessa reencarnação dele. A menção à River Song, ao fatídico Eleventh Hour, à dança da girafa bêbada e muitas outras coisas apenas fecharam o episódio como uma perfeita (ou não) ode de despedida ao 11º Doctor.

 

Raggedy Man, goodnight!

Tudo termina. E antes do que você imagina.

 

A chegada de Matt Smith foi um rebuliço para o seriado, pois não houve apenas troca de Doutores, como também de showrunner e de companions. Doctor Who ganhou novos ares e tinha como um dos principais objetivos trazer novos fãs, o que justifica um ator jovem acompanhado de um elenco mais jovem ainda. Não é à toa que muitos começaram a assistir Doctor Who pela quinta temporada, o que não acho um absurdo, pois pensei seriamente em fazer isso quando decidi me render à série. Matt começou inexperiente, meio perdido, mas ele amadureceu e conseguiu moldar a sua personalidade trazendo um Doctor infantil, empolgante, divertido e profundo. A cada episódio, ele simplesmente conseguia superar muitas das minhas expectativas. É muito bom ver um artista tão querido crescer na tela e foi exatamente isso que aconteceu com ele.

 

A meu ver, a trama do especial não teve tanto peso sobre mim, mas sim os detalhes escondidos em cada cena. Não tem como não olhar com carinho a figura de um homem que lutou contra muitos inimigos e que aceitou envelhecer, sem perder o lado brincalhão e por vezes rabugento. Se essa fosse a temporada final de Doctor Who, eu não imaginaria um término mais bonito que esse, onde houve a oportunidade de um guerreiro usar pijamas e pantufas para envelhecer e morrer naturalmente. A parte boa é que a personalidade do Eleventh foi respeitada até o derradeiro final, em meio a desenhos e brinquedos, coisas que combinam com seu temperamento de homem com alma de criança.

 

O reaparecimento de Amy Pond foi a joia deste episódio. A versão pequena, correndo pela TARDIS em meio aos desenhos, com as roupas que ela usou quando ficou à espera do amigo imaginário ajudou a impulsionar a entonação de despedida, do final de um ciclo, por meio de duas pessoas que encerram este arco para dar espaço ao Capaldi e à Jenna. Desde o especial de 50 anos da série, achei meio absurdo os Pond ficarem de fora por serem os primeiros companions do Eleventh, como se menções honrosas fossem o bastante, sendo que não é. A presença de Amy apenas ajudou a concluir um círculo que foi ao seu modo marcante e inesquecível. Ela foi o primeiro rosto que ele viu e nada mais certo em ser o último.

 

Tudo o que você é se vai em um momento, como a respiração em um espelho. Todos nós mudamos. Nós somos pessoas diferentes durante nossa vida. E tudo bem, isso é bom, você tem que continuar se movendo desde que se lembre de todas as pessoas que costumava ser.

 

Como disse, eu sempre me atenho à mensagem e o fato do Eleventh ter envelhecido não foi um apelo pós-morte, mas da questão de evolução da vida. Os momentos passam, mas as experiências se acumulam. Nós crescemos e evoluímos. Tornamo-nos pessoas diferentes a cada dia. Ninguém é o mesmo se olhar o próprio reflexo de anos atrás e, provavelmente, não será o mesmo no futuro. E como disse o Eleventh, isso é bom. Você amadurece, você vê a vida de um ângulo diferente, você passa a aceitar melhor determinadas circunstâncias. Tudo isso te move para frente, para que nós possamos abraçar novas aventuras. A base disso é o aprendizado, não com as outras pessoas, mas com nós mesmos, onde a personalidade e o caráter são dois dos muitos itens que prevalecerão em meio às diferentes facetas daquelas pessoas que costumávamos ser e que, feliz ou infelizmente, retornam por serem provas do quanto mudamos. Do quanto queremos continuar a nos mover ao encontro de algo cada vez mais especial. Todos os dias!

 

O Eleventh nos ensinou que há beleza nas coisas pequenas. Que não há problema de ser quem você é. Que é bom ser um adulto com alma de criança e acordar em um rompante para criar mudanças. Que não é errado apreciar um Fez, usar gravata borboleta e fazer a dança da girafa bêbada em meio a tantas pessoas, onde a maioria ainda está presa aos moldes da sociedade e estagnaram com medo das mudanças.

 

A mensagem que fica é simplesmente única: mude, mas nunca se esqueça daquilo que você realmente é.

 

Thanks Matt Smith pela incrível jornada.

Stefs
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