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15/jan

Quando eu era criança, o que me definia na maior parte do tempo, especialmente no ponto de vista de parentes, eram minhas bochechas. Elas sempre eram apertadas e só Deus sabe como ficava de extremo mau humor com essa falta de bom senso, com vontade de arrancar os dedos de quem fazia isso. Se não bastasse, quando entrei na escola, a perseguição continuou, mas os apertões diminuíram. Chegou um momento em que eu não sabia o que me incomodava mais: os apelidos ou os dedinhos nervosos nas minhas bochechas. Resolvi que era a primeira situação e isso gerou uma onda de complexos. Os “elogios” não eram dos melhores, ainda mais quando se tem no mundo a existência do cachorro da raça buldogue, que também representou um dos milhões de “carinhos” que recebi por ter sido bem bochechuda. Porém, aprendi a me defender dando tabefes em quem se atrevia a mexer comigo.

 

Eu me esqueci das bochechas no colegial. Afinal, havia garotos para babar e fofocas com as amigas para colocar em dia. As bochechas não eram mais o centro das atenções, mas meu aparelho dental. Sobrevivi a esse dilema também. Sei bem que não sou a única que sofreu com situações desconfortáveis na escola, alguns as tiram de letra, mas outros sabem o quanto as implicações machucam. Porém, nada se compara ao fato de ser chamada de mulher mais feia do mundo, algo que aconteceu com Lizzie Velasquez, a personagem deste post. Ela foi vítima de bullying na infância por ter uma síndrome que a impede de ganhar peso, lhe rendendo uma aparência extremamente ossuda. Sem contar os outros impasses que a jovem de 25 anos tem que lidar, como não ter a visão perfeita do olho direito.

 

A primeira vez que Lizzie foi para a escola, ela teve a esperança de que faria muitos amigos por se considerar a pessoa mais legal do mundo. Porém, logo no primeiro dia, ela sentiu a rejeição, pois as crianças começaram a evitá-la por sentirem medo da sua aparência. Isso me faz lembrar do Auggie, personagem do livro Extraordinário. O pequeno fez de tudo para esconder o rosto com máscaras e com o cabelo, mas, no primeiro dia de aula, o momento em que ele finalmente teve que enfrentar o mundo, os colegas não perderam tempo em zombá-lo devido à condição genética de suas feições. Lizzie se encaixa no mesmo exemplo por ter passado boa parte da infância presa aos questionamentos e à falta de respostas sobre o comportamento das pessoas que simplesmente fugiam dela.

 

Como sempre acontece, ela começou a se odiar e, conforme crescia, as piadas se intensificaram. No colegial, fizeram um vídeo dela de poucos minutos que se tornou viral. O título? A mulher mais feia do mundo. Dentre muitos comentários, um foi mais marcante: por que você não aponta uma arma na cabeça e se mata? Esse é o tipo de comportamento que certos indivíduos supostamente “perfeitos” tomam contra pessoas como Lizzie antes de saber o background para poder discutir e alfinetar. Deixar opiniões tacanhas online é um dos milhões de males do século, pois todo mundo se acha no direito de dar opinião, sendo que, nem tudo, precisa de resenha. Vale ressaltar que a Websfera se tornou um local onde beleza, magreza e futilidade reinam, e o diferente não é bem quisto.

 

Infelizmente, somos malignos por natureza. Não adianta dizer que vocês, meus lindos leitores, nunca caçoaram ninguém, porque todos já fizeram isso na vida, até eu. Porém, o que está em falta são pessoas que façam uso do velho e bom ditado: não faça aos outros o que não gostaria que fizessem com você. Mais amor e menos crueldade, por favor!

 

Agora, que tipo de pessoa pede para outra se matar por causa da aparência? Desde quando ser bonito ajuda a definir quem você é?

 

Por um longo tempo, Lizzie achou que o que a definiria para sempre era a aparência. Ela não tinha como remediar e isso lhe rendeu vários episódios de baixa autoestima. Ela não se amava, mas, quando enfrentou a repercussão do vídeo, a jovem simplesmente decidiu que não seria isso que a definiria. A família e o amor se tornaram os maiores alicerces que Lizzie poderia ter, o que a fez bater no peito ao afirmar para si mesma que a síndrome não seria a razão que a faria desistir de uma vida cheia de experiências positivas. A partir dessa reviravolta, ela fez uma lista de objetivos e de conquistas, e começou a correr atrás. Dentre eles, estava o desejo de ser palestrante motivacional. Uma aspiração conquistada, pois Lizzie se tornou uma pessoa que inspira e é figurinha presente em eventos como TEDx que recebe nomes extraordinários para falar de motivação, criatividade e boas ideias.

 

No vídeo que vocês poderão conferir abaixo, Lizzie afirma que a vida é colocada nas nossas mãos e somos nós que a definimos. Somos nós que definimos para onde queremos ir e o que queremos fazer. Não é culpa do universo se as coisas dão errado, mas do tipo de força que se aplica para causar mudanças. Com a temática em cima da questão do que nos define, Lizzie apenas parou de se preocupar com a síndrome e foi atrás dos seus sonhos que, até então, é uma coleção de conquistas bem-sucedidas.

 

 

O que Lizzie ensina no vídeo é justamente o que coloquei como meta para a minha vida este ano: Excelsior. Ao me deparar com este vídeo incrível, não poderia deixá-lo de fora do Random Girl. Ao longo da palestra, Lizzie diz que usou a negatividade para continuar a alcançar os próprios objetivos. Quando alguém a consternava, ela simplesmente provava o contrário. Isso a faz um grande exemplo de conquistas que muitas pessoas deveriam usar como referência. Toda a negatividade causada pela síndrome se tornou em atitudes positivas e, no final da apresentação do TEDx, ela deixa a questão em aberto: o que te define?

 

Volto a comentar das minhas bochechas que foram um perrengue na minha vida e nem chega perto do que Lizzie e outras pessoas enfrentam/enfrentaram todos os dias. Meu problema juvenil é até piada em torno de uma gravidade dessas, mas foi algo que me machucou muito e que desencadeou outros fatores que abalaram minha autoestima. Quando cheguei ao nível de não me importar, me deixei vencer por outras preocupações da adolescência que também não foram 100% geniais, mas todas contribuíram com o que sou hoje. Fui imprudente, imperfeita, maligna, mas terminei como uma boa amiga (ou ao menos tento ser). Tudo junto, misturado. No final, esse combo de experiências negativas e positivas moldaram meu caráter.

 

Além das bochechas, ainda enfrentei o dilema de receber o rótulo de péssima escritora. Não no sentido de criar histórias de forma terrível, mas no sentido jornalístico da coisa. Eu penei no meu estágio e vi muitos textos meus serem rabiscados. Aprendi muito, claro, mas, quando abandonei meu primeiro contato com a carreira que imaginava querer seguir para o resto da vida, saí com a sensação plena de incapacidade. Isso me fez ficar sem escrever por meses. Criei uma birra tremenda. Na faculdade, os trabalhos saíam nas coxas, pois criei a ilusão de que odiava as palavras e foi assim até eu apertar o botão para parar. Quando chegou a época do TCC, só tinha duas cartas na mesa: eu poderia deixar uma das editoras do meu estágio vencer ao me definir como péssima escritora ou arregaçaria as mangas e provaria o contrário. Resultado: fiz este blog, abracei meu TCC e terminei uma fanfic que existia há 5 anos.

 

Mas esse dilema em torno do que escrevo continuou a me perseguir e isso aconteceu no ano passado. Acho que esse será meu teste eterno nesta vida. Eu chorei tanto que vocês não imaginam, pois tudo o que aconteceu no estágio retornou com tudo. O resultado da novela: meu texto foi aprovado e o desafiante saiu da sala com o rabo entre as pernas. Não tem sensação melhor que vencer em cima daquele que quer te derrubar. Atualmente, lido melhor com palavras negativas, pois, assim como aconteceu com Lizzie, eu pego o recado ruim e tento torná-lo positivo. Isso me propicia aprendizado. Por causa de momentos como esse, percebi que escrever é o que devo fazer e minhas palavras, provavelmente, deveriam ter incomodado aqueles que tentaram passar por cima de mim. Aprimorei-me e continuo nesse processo.

 

Com o tempo, percebi que o que me definia não eram as resenhas ruins ou as pessoas que esquadrilharam minhas palavras à procura de erros. Eu tornei as palavras meu instrumento de trabalho. Escrever é o que me move e é onde contorno a negatividade com coisas positivas. Bem que tentaram me tirar do percurso, mas isso me fez endurecer.

 

Com o tempo, você não abaixa mais a cabeça para aqueles que só te querem mal, que só servem para pontuar o seus defeitos, que limitam as suas capacidades e zombam dos seus sonhos. Só acho que somos capazes de tudo e, como disse Lizzie, quem passa por cima de pessoas negativas, sempre vence.

 

E eu acredito nisso, pois venci até aqui.

 

Como Auggie disse, nós merecemos ser aplaudidos de pé uma vez na vida. Agora, me contem, o que os define?

Stefs
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  • heyrandomgirl

    Ultimamente, Excelsior está impraticável, verdade seja dita. Foi mto estranho retornar a esse post e ver como minha vibe estava completamente diferente. Sei lá, acho que estava mais otimista, pois estava prestes a dar um grande passo. Agora, parece que tudo parou e não sei explicar os motivos ><'' Ainda bem que tem nosso lindo IATG, porque acho que estaria no buraco negro pedindo HELP! hahhahahaha

    Mas se apegar é bom. Eu queria me apegar mais as coisas/pessoas, não que não seja apegada, mas demoro até me sentir confortável/segura. Ainda tenho a defesa e a paranoia de que tudo e todos vão me machucar, então, já dou uns passinhos para trás #SendoKlaus hahahahahaha Mas é a vida. Umas pessoas ficam outras vão embora, mas isso não significa que perca a conexão. Como costumo dizer: às vezes a passagem dessa pessoa na sua vida acabou, e vcs contribuíram uma com a outra e não há mais uma história. Por isso people always leave #Peyton kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    As pessoas que não querem sentimentalismo são troushas. Deixe elas com suas troushices hahahahaaha <3

  • Isis Renata

    EXCELSIOR > "assim como aconteceu com Lizzie, eu pego o recado ruim e tento torná-lo positivo"
    amém sua linda! e que seja assim mesmo!
    sabe que ontem teve um acontecimento que ainda estou a lidar, e tenho muito que aprender : o fato de que as coisas mudam, as situações mudam e as pessoas crescem e seguem sua vida
    eu sou DEMAIS de apegada a tudo, e um amigo se mudar de cidade, mesmo eu quase nem falando com ele, me trás uma viravolta de sentimentos. eu fico matutando quem vai, quem fica, quem ainda vai querer fazer parte da minha vida. meu deus, quanto sentimento
    e aí eu tento segurar de alguma forma > tolice minha, isso não existe
    mas como sou insegura, tento explicar com meus mimimis o quanto as pessoas são significativas mim e quanto gosto de tê-las na minha vida
    a real é que (infelizmente/ou felizmente) as pessoas já não querem tanto sentimentalismo. vem e vão sem muitas amarras, (talvez seja melhor e mais fácil) e quando aparecem alguém como eu, que quer estar 100%, aí é o fim dos tempos, o fim da picada, o absurdo.
    tenho muito que aprender a relevar certas palavras, atos,
    espero não me machucar tanto no processo…

  • heyrandomgirl

    Ownn *_* vc não sabe como me fez pular de alegria quando li esse seu comentário <3 Mas isso realmente aconteceu na minha vida e me abalou de um jeito que não está escrito no gibi @_@ Obrigada pelo elogio, isso fez meu dia tãooooo feliz, sério <333333 Mto, mto obrigada! 😀

  • Karohane Fonseca

    que texto mais perfeito! ñ consigo imaginar alguém dizendo que seus textos são ruins porque eu te acho incrivelmente talentosa :)