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20/jan

Quando peguei A Menina que Roubava Livros para reler, me vi em um novo momento mágico de retirar um título antigo da prateleira. Ele estava meio empoeirado, encontrei uma manchinha de tinta azul na capa e, conforme lia, algumas páginas estavam meio amassadas. Eu deveria ter surtado com isso, mas, depois que desgastei todos meus livros de Harry Potter, aprendi que essa é uma parte especial que indica que a leitura foi consumada com muito afinco. Sem contar que deu uma nostalgia danada!

 

Como comentei na resenha do filme, tenho a impressão que li a obra de Markuz Zusak em 2007, mas tenho a impressão que foi há mais tempo. Quando joguei no Google que o livro é de 2006, voltei no tempo e foi uma delícia relembrar certos momentos vividos por Liesel. Claro que a releitura se deveu por causa do filme, mas este post não tem como objetivo ser uma resenha. Afinal, todo mundo sabe o valor que A Menina que Roubava Livros tem, do quanto à leitura é longa, cansativa, mas que compensa por cada palavra inspiradora. É um título maravilhoso que só traz sensações positivas em meio à carga emocional e foi primoroso reviver tudo isso ao longo da minha viagem casa-trabalho e vice-versa.

 

Eu não lembrava que uma das maiores fontes de inspiração de Liesel eram as palavras, pois é fácil associar a capa e o título com a temática de livros, o que não é errado. Foi surreal dedilhar cada página, relembrar como o autor brinca com a narrativa, o que acarretou em uma formatação inusitada ao livro, ritmada e engraçada. Isso permite que o leitor se sinta incluso na trama, guiado pela Morte, a narradora inusitada dessa história que ainda consegue me fazer chorar depois de muito tempo. Mal sabia que Liesel seria uma das dezenas de personagens que combinam comigo pelo simples fato de amar as palavras.

 

Para refrescar a memória, o livro se ambienta na época da 2ª Guerra Mundial, onde o holocausto tinha se agarrado nos calcanhares da Alemanha. É nesse cenário que a Morte apresenta uma personagem um tanto quanto interessante, Liesel Meminger, a roubadora de livros. A questão principal da obra não é apenas o deguste pela leitura e como o ato proporciona o conhecimento de novos mundos, mas do enfoque especial para a importância das palavras, um conjunto inestimável de letras capazes de inspirar qualquer pessoa, até mesmo em um período aterrorizante. Ri sozinha com muitas passagens e senti vontade de chorar com outras, especialmente quando tudo chega ao derradeiro fim.Hans me fez querer de novo ter um pai como ele e até topava levar uma surra da Rosa para depois agraciá-la com um abraço apertado. Lembrei-me também do quanto suspirava com as aparições do pequeno Rudy, pois sou grande fã de amores que começam na infância.

 

 

Não tem como não voltar a ficar apreensivo quando as situações do holocausto são expostas. Foi choroso relembrar de Max, um personagem que tem uma preciosidade indescritível, tanto para o contexto da obra quanto para Liesel que passa a compreender melhor o que é certo e o que é errado sobre o assunto, associando o eles que tiraram a mãe dela em Hitler. Conforme virava as páginas, percebi que era como se lesse o livro pela primeira vez. Não me lembrava de muitas coisas e apreciei cada linha, cada palavra, cada farfalhar da página, como se eu o tivesse, literalmente, roubado.

 

Apaixonei-me mais uma vez por algo que ficou esquecido em meio a tantos livros de uma prateleira empoeirada. Percebi que, quando o li pela primeira vez, não captei a mensagem principal da obra e fiquei extasiada quando percebi por meio da segunda leitura a maior questão proposta pelo autor: o que fazemos para fugir daquilo que nos incomoda? Daquilo que nos machuca?

 

A Morte diz no livro que cada um possui um acordeão. Isso pelos olhos de Liesel. A roubadora de livros é apaixonada pelas palavras, um amor que sempre foi responsável em lhe incitar curiosidade. Foi com elas que a menina conseguiu superar a morte do irmão, como também foi o passe para ela ter uma união profunda com Hans e um pretexto inocente de salvar Max em meio ao estado febril dele. Foram as palavras que agiram como colete salva vidas de Liesel durante o último bombardeio da Rua Himmel, que lhe rendeu uma dolorosa página em branco para escrever um novo capítulo da sua vida.

 

 

Liesel é uma das poucas personagens que eu consigo me identificar quando o assunto é escrita e eu não fazia ideia do quanto até reler A Menina que Roubava Livros. Às vezes, reviver algo é o mesmo que se redescobrir, e foi exatamente isso que aconteceu comigo. A roubadora de livros se tornou minha mais nova melhor amiga e, juntas, nos daríamos bem por compreendermos o doce e o amargo de dar sentido às palavras.

 

Ao longo da leitura, você vê onde cada personagem se agarra para sobreviver a um dos momentos mais tenebrosos da história, isso de uma maneira sutil e inocente. Rudy ama correr. Hans pinta e toca acordeão. Max era o roubador do céu. Rosa, bem, gostava de dar uma surra na Liesel, mas tinha um coração que valia ouro. O apego de Liesel era muito além de roubar livros, pois as palavras se tornaram a bagagem mais importante para o seu amadurecimento.

 

Com o passar do tempo, eu passei a acreditar que tudo o que somos é moldado quando ainda estamos na infância, pois o que seremos é construído nesta época. Alguns conseguem captar dotes nessa idade com mais rapidez que outros, algo que não aconteceu comigo, pois demorei demais para me convencer o que fazer da minha vida. Liesel era uma criança quando descobriu as palavras e tornou o interesse em ofício. Conforme a personagem crescia, ela aprendeu a amá-las e a odiá-las, sentimentos que também me dominam muitas vezes, a sensação pura e raivosa de frustração.

 

O livro mostra que são as palavras que movem nações e iludem muitas comunidades, como aconteceu na Alemanha. Hitler sempre foi apresentado como um ótimo orador, pois ele acreditava no poder verbal e conseguiu manter um império envolto de crueldade por ser manipulador. Ele fez isso por acreditar na própria ideia de que dizimar inocentes lhe daria a tão sonhada nação pura.

 

Enquanto alguns usam palavras para o mal, felizmente temos aqueles que usam palavras para o bem. Sorte de nós leitores que temos ótimos autores que nos influenciam e nos inspiram todos os dias. Sorte de nós que temos nossa fuga diária dentro daquilo que amamos fazer quando temos oportunidade. Seja uma foto, uma cantoria ou um filme, todos nós possuímos nossa válvula de escape para superar mais um dia e A Menina que Roubava Livros retrata justamente isso: o poder do nosso acordeão pessoal para sobreviver aos momentos mais inconsequentes e obscuros, aqueles sem esperança.

 

 

A Menina que Roubava Livros me fez lembrar nas páginas finais o quanto tenho uma relação de amor e ódio com as palavras, e isso foi muito bom. Fez-me analisar o quanto lutei de uma maneira inconsciente em querer mantê-las perto de mim, mesmo em meio a tantas intempéries. Eu desanimei tanto e descontava minhas frustrações por meio daquilo que odiei por certos momentos e que voltei a amar com mais intensidade. Liesel se revoltou ao notar que o mundo do qual vivia era totalmente errado. Como as palavras poderiam causar tanto mal? Ela tinha a crença de que fazia bem com a leitura, que isso a tornaria imune a muitas coisas, mas a caixa torácica do avião simplesmente lhe tirou tudo enquanto escrevia a história da própria vida.

 

Se Liesel usou as palavras do jeito certo, espero que sim, pois foram elas que a moldaram ao longo de uma história tocante, apreensiva e de certa forma brutal por não ter o final feliz que todos esperam. A Menina que Roubava Livros é uma obra humanizada, que causa proximidade, que causa dor com cada perda por meio de uma narradora inusitada e que consegue fazer isso com extremo sucesso.

 

Só acho que todas as pessoas que leram A Menina que Roubava Livros deveriam fazer uma releitura. Eu me redescobri em muitos momentos e espero que vocês também tenham essa mesma sensação mágica ao se deliciarem – de novo – com a obra.

 

 

Na Prateleira:

Nome: A Menina que Roubava Livros
Autor: Markus Zusak
Páginas: 476
Editora: Intrínseca

Stefs
Postado por:       

       
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Escreva seu comentário antes de ir <3
  • heyrandomgirl

    Vc que é uma linda <3

  • Livia Corigliano

    Que lindo Teté! <3

  • heyrandomgirl

    Hey, Keyko, tudo bem? Mil perdões pela demora em retribuir o seu comentário e adorei seu recadinho <3 A Menina que Roubava Livros é um título quase obrigatório de se guardar no coração, não tem como não ter um carinho especial. Foi mto mágico reviver todas essas emoções na releitura e espero fazer isso daqui 1 ano ahahahaha

    Beijoss e mto obrigada pela visita <3

  • Li A Menina que Roubava Livros na mesma época que li A Sombra do Vento. Ambos exaltam as palavras e a literatura. Lembro-me de ter sido varrida por uma enxurrada emocional, pois assim como amo livros, a Segunda Guerra Mundial me marcou de certa forma, mesmo eu não tendo vivido nela. A Menina… realmente tem um lugar especial no meu coração por tão linda performance e execução de enredo e narrativa e tudo o mais que compõe esse livro. Lindo, lindo!