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18/jan

Isso é mais uma carta que uma resenha…

 

Querida Morte,

 

O céu estava cinzento quando comecei a escrever este texto e eu poderia dizer que a chuva representou muito bem minhas lágrimas quando assisti A Menina que Roubava Livros. Dentre todos os sentimentos que poderiam ficar impregnados dentro de mim, o que se enraizou foi o vazio. Quando saí do cinema, achei que chorava mais por dentro. Preferi economizar nas lágrimas, não por estar rodeada de pessoas supostamente mais maduras, mas por não ter conseguido decifrar os efeitos que o longa baseado no livro de Markus Zusak tinham me causado. Esperava algo devastador, mas esse não foi o caso.

 

Parecia o silêncio, onde eu era capaz de sentir o vácuo no centro do peito. Só sei que eu podia sentir cada parte do meu corpo doer e muitos se perguntarão os motivos disso. Afinal, eu tenho que confessar que a história que você contou no papel ficou meio carente nas telonas. Os sentimentos arrebatadores que me fizeram se contorcer foram eliminados ou reinventados para o cinema, de um jeito que não fiquei tão satisfeita. Isso não quer dizer que fiquei extremamente infeliz com a adaptação, pois as palavras, a razão dessa narrativa ser tão querida, honesta e tocante, não foram esquecidas. Porém, admito que meu vazio foi causado em grande maioria pela falta de outros sentimentos que me deixaram conturbada conforme avançava as páginas do livro. Eram as cenas que marquei como preciosas e que tinham obrigação de migrarem para a tela. Mas não. Boa parte delas foram deixadas para lá.

 

Quando digo que terminei vazia, não foi de um jeito ruim, mas de um jeito extremamente positivo, pois, quando li A Menina que Roubava Livros pela primeira vez, fiz a famosa pausa reflexiva e sorri por ter encontrado um novo título para amar. Era 2007 quando isso aconteceu, eu acho, e, naquela época, ainda não sabia o quanto as palavras se tornariam a parte mais intrínseca de mim. Em meio aos pensamentos confusos, degustei de uma história maravilhosa, cuja protagonista mostra que todos nós temos razões para viver e paixões para se agarrar. Detalhes que nos mantêm estranhamente vivos, mas não de uma forma apática. É uma vida cheia de nuances e de cheiros, de experiências e de descobertas.Assim como o universo da roubadora de livros. Foi com essa ideia que o longa se moldou, onde o peso do holocausto não surtiu o efeito claustrofóbico acompanhado daquela sensação de levar o mundo nas costas. O assunto fez falta por ser parte da narrativa que fez o mundo de Liesel e dos outros moradores da Rua Himmel ser engolido por escombros, tendo como testemunha um céu manchado de vermelho.

 

O longa pode não ter sido tudo o que imaginei, mas foi o bastante para me fazer voltar para casa pensativa, fungando o nariz, associando que Liesel crava as palavras como mecanismos de ação e de defesa. Ela e eu poderíamos ser melhores amigas. O vazio que me dominou foi de um jeito que Liesel jamais conseguiu explicar quando perdeu o irmão na viagem de trem que mudou sua vida. Ela não sabia o sentimento que a dominava, mas sentiu algo se abrir em seu peito, aos poucos. Com a 2ª Guerra Mundial no encalço de uma Alemanha nazista, Hans e Rosa se tornam as duas metades do coração de uma garota que chegou desnorteada, confusa e abalada. Mal sabia ela que ganharia tanto amor que a sufocaria.

 

Quando os Hubermann aparecem pela primeira vez no filme, o amor por eles acontece à primeira vista. Emily e Geoffrey agarraram esses personagens e os encarnaram da melhor maneira possível, com atuações puras e sinceras. Ambos ficaram perfeitos como Rosa e Hans, dois atores dos quais sempre admirei e que raramente me decepcionam. Ao lado de Liesel, o casal tem uma história que se desenrola de uma maneira apaixonante, onde até a implicância é um ato de amor comedido, mas escancarado em um olhar ou em um sorriso. Sophie Nélisse conseguiu ser a Liesel que sempre imaginei, silenciosa quando está com medo, sapeca quando está na companhia de Rudy, e devota aos pais até o derradeiro final.A atriz transmite por meio daqueles olhos grandes e curiosos a mágica da personagem, sempre atenta às palavras em busca do desconhecido, sempre forte em meio à ingenuidade que não deveria existir em uma época em que todos estavam de alguma forma condenados.

 

Os rostos desconhecidos escolhidos para dar vida ao longa fez tudo valer a pena, pois não há cobranças em cima da atuação de ninguém. Todos foram muito bons e passaram o dramatismo que faz o coração ficar pequeno. Para arrebentar, a escolha de Emily e Geoffrey foi certeira, ambos representaram muito bem os pais de Liesel. A personalidade temperamental de Rosa ficou na medida certa e, se ela fosse histérica demais, isso poderia desvalorizá-la. Afinal, era preciso amá-la, independente se havia uma colher de pau na mão dela. Hans era o único que eu sabia que estava em boas mãos, pois sempre confiei em tudo o que Geoffrey faz. Ele fez meu coração doer tantas vezes que perdi as contas, muito mais que a pequena Saumensch.

 

Quando Rosa e Hans arrastam a majestade para casa, um menino de cabelo limão aparece. Rudy, aquele que doeu para você arrancar a alma, abobalhado com a chegada da nova vizinha. O menino faz rir, sem se esforçar, e não tem como segurar a ansiedade à espera do momento em que ele pede o primeiro de muitos beijos para a Saumensch. Morri de amor quando ele incorpora o Jesse Owens para correr pintado de preto, na ânsia de sair vitorioso, mostrando a delícia do imaginário infantil, um sentimento comprovado por causa das bochechas ruborizadas do corredor. No final do filme, quando acontece o último suspiro de Rudy para Liesel, confesso que queria rolar pelo chão do cinema até encontrar a saída.

 

Tudo parece bem, mas o plano de fundo logo se abre: cortinas vermelhas, a suástica e o coro de patriotismo à Alemanha. A Era Hitler. O holocausto. A fase em que os alemães achavam que o nazismo seria a solução para a humanidade. Eu esperei o desenvolvimento desse background e a falta dele me deixou meio decepcionada, pois ele representa o peso da narrativa de A Menina que Roubava Livros, um detalhe que faz todos os personagens se moverem. É esse fato que impulsiona o comportamento de todos eles ao longo da trama. No final das contas, o nazismo apenas serviu para localizar a trama, pois o foco total ficou na roubadora de livros e no doce e amargo da infância representada por um meigo Rudy que não compreende o quanto aquele partido era sinônimo de crueldade gratuita.

 

E quanto a você, Morte, digo que até senti sua falta, pois a sua participação foi diminuta para apresentar os personagens e a transição ano a ano. Você foi a surpresa quando abri o livro e continuou a ser quando o filme começou. Você foi importante, especialmente nas frases-chave que geram arrepios.

 

Em meio à inocência, vem o caos, e os judeus logo começam a ser dizimados em uma cena que agita o coração. Entre o medo, eis que surge a história de Max que cai como um paraquedas na casa de Hans. Infelizmente, o personagem não cresce muito, o que é uma pena, pois adoraria vê-lo lutar contra o Fuhrer. Ele aparece mais cedo que o esperado, com os olhos alagadiços e temerosos com medo de ser capturado e eliminado em um campo de concentração. Mesmo com as aparições curtas, a significância dele na vida de Liesel estava presente, não só para me fazer chorar, mas por incitar na menina a habilidade que ela tem de contar histórias. Max é quem dá o livro sem pautas para Liesel no lugar de Ilsa, e deixa o recado para que ela escreva.

 

Ao fundo, o mural das palavras desconhecidas pintadas na parede do porão reforça o antro particular desses dois personagens que nunca precisaram dizer muito ao outro, pois a valorização da proximidade de ambos vem do silêncio, do farfalhar das páginas e do imaginário. As cenas do porão são preciosas e eu bem queria brincar de guerra de neve com os Hubermann.

 

A história de Liesel não segue a ordem cronológica do livro, o que dá a sensação de que algo se perdeu ao longo da trama. Tudo parece correr. Uma hora, ela acaba de tirar os sapatos e, na outra, Max aparece. O que aconteceu foi a reunião dos pontos mais importantes, uma mistura que tentou ser fiel na medida do possível. Outras situações foram alteradas e outras esquecidas, o que pode altear algumas sobrancelhas. Há falhas no roteiro, como toda adaptação de livro tem. Para deixar de exemplo, Hans não era para ter ido para a guerra do jeito que foi no filme. Outro exemplo, o desfile dos judeus foi uma mera passagem que não causa o efeito de tensão, de desconforto e de apreensão presentes no livro. Liesel não encontra Max e Hans não ajuda um judeu. Para quem se apega aos mínimos detalhes, essas passagens que citei podem gerar certo descontentamento.

 

E os furtos? Bem, eles aparecem quase no final da história, quando Max fica doente. Liesel não faz entrega de roupas de casa em casa, pois o centro dos roubos ficou focado na mansão do prefeito. A biblioteca é espetacular e Ilsa tem a dureza de um coração atormentado que sensibiliza. Teve a celebração do aniversário de Hitler, aquele dia em que a menina encontra o seu livro de fogo, mas não passa disso. Para compensar, temos muitas interações entre Rudy e Liesel que formam o elo essencial dessa história sem final feliz.

 

No final das contas, A Menina que Roubava Livros se tornou uma irmã de O Menino do Pijama Listrado, adaptações que trabalharam em cima da inocência infantil durante o holocausto. Um período onde as crianças que não tinham filhotes do nazismo na família questionavam as pretensões de Hitler, mas eram condenadas a um mundo sem respostas. Trata-se de uma perspectiva jovem com relação ao que aconteceu na Era Hitler. Os furos da trama se tornam mínimos perante a opção de reforçar os elos de amizade, a sutileza das paixões pessoais, o humanismo e a esperança.

 

Afinal, para que reviver o holocausto? Ainda mais quando se tem personagens que possuem mensagens particulares tão bonitas para serem compartilhadas? O longa preserva, acima de tudo, o aprendizado e a descoberta de si mesmo pelos olhos de Liesel. Enquanto a roubadora de livros narra que a vida não promete nada, você, cara Morte, avisa que não viveremos para sempre. Em meio a uma guerra diária, as pessoas vivem conforme o tique do relógio, ou melhor, à espera da bomba que selará um futuro que não acontecerá mais. Um fato real em pleno século 21, onde muitos imploram pela morte ao invés de batalharem pela vida.

 

Quando se nota, as lágrimas escorrem com o final arrebatador de A Menina que Roubava Livros, como um dia de garoa, insistente, sem saber como controlá-las. Você tenta interrompê-las, mas elas simplesmente continuam a cair. Assim, desse jeito. Entre lágrimas, fico feliz que a adaptação não tenha se apoiado no nazismo. Por mais que tenha eliminado cenas de valor inestimável, acho que não estaria pronta para ver Hans e Liesel receberem chicotadas. O filme é especial, feito com carinho, mas pode deixar quem leu o livro semanas antes de conferir o filme (como eu) meio atordoados por causa da ausência de coerência. Porém, os contextos que fazem Liesel se mover estão presentes de forma minimalista, com informações suficientes, mas sem se esquecer de que cada um tinha seu acordeão para sobreviver ao holocausto.

 

De Hans era a música. De Liesel eram as palavras. De Max era imaginar histórias. De Rudy era ser Jesse Owens. O seu, as cores. Em meio ao desespero, precisamos nos agarrar àquilo que nos mantêm vivos e essa é a mensagem principal de A Menina que Roubava Livros. Literalmente, as palavras salvaram a vida de Liesel e essa é uma história que precisa continuar a ser contada.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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