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21/fev

Este é um daqueles posts que custou muito para ser escrito e eu não poderia deixá-lo de fora do quinto dia da Semana Esther. Cada palavra deste texto doeu, como se eu estivesse sendo cutucada por uma faca de ponta cega, mas espero que este relato sobre um episódio que aconteceu na minha vida, e que eu dei um pontapé inicial no post referente à importância das palavras, transmita algum tipo de mensagem que toque o coração de vocês.

 

Era 2006 e eu tinha 19 anos quando tudo aconteceu. Um amigo muito próximo foi diagnosticado com leucemia. Antes disso, eu ainda lutava para sair dos moldes do colegial, comecei a procurar um novo emprego e brigava para entrar na faculdade. Por assim dizer, eu ainda era uma adolescente cheia de dúvidas e inseguranças. Ainda não me sentia madura para ingressar nas aventuras de gente grande e me contentava com o universo potteriano, especialmente fanfics. Quando tudo finalmente se acertava, conheci essa pessoa que trouxe um tsunami junto com ela.

 

No começo, foi tudo muito lindo. Eram só risadas, falatórios até tarde da noite. Eu comecei a ficar mais segura por ter conquistado algumas coisas e esperançosa com a ideia de juntar dinheiro para ser uma garota universitária. Infelizmente, tudo na vida acontece sem aviso. Uma amizade que era extremamente contagiante foi reduzida a momentos difíceis, tristes e dolorosos. Ainda me pergunto como consegui sobreviver sem ter ficado louca. Afinal, não tinha equilíbrio para lidar com isso, ninguém tem, e, para quem ainda lutava por um espaço no mundo, a notícia apenas me fez retroceder muitos passos.

 

Quando a notícia veio, eu passei um bom tempo em negação. A ficha só foi cair em 2007. Por mais que estivesse feliz pelas conquistas pequenas, inclusive a amizade dele, eu me recuperava de uma anemia bem trash que me deixou fraca, sonolenta e com um baita sopro no coração. Com a descarga emocional causada pela notícia sobre o câncer, ainda mais envolvendo uma pessoa muito querida, ingressei em um período de apocalipse total. Uma escuridão contínua que não tinha data para acabar.

 

Eu não fazia ideia do quanto estava deprimida até essa realidade dar duas bofetadas na minha cara. Para quem não sabe, a anemia já profunda consegue deixar a pessoa bem deprimida e cansada, ao ponto de querer só dormir. Ela traz uma indisposição tremenda e eu fazia tratamento para melhorar. Mesmo com a minha recuperação, meu emocional não teve tempo de se “regenerar” quando recebi a notícia. Eu estava sensível e foi muito fácil mergulhar de cabeça no dilema todo.

 

Em 2007, essa pessoa me avisou que ficaria ausente para se cuidar e foi horrível assistir tudo à distância, sem ter com quem conversar. Eu não queria ficar sentada, imaginando como essa pessoa seria consumida pela leucemia todos os dias, mas foi a única opção que tive. Quem sabe, se eu fosse rica, a situação seria diferente.

 

Por estarmos em países diferentes, minha imaginação foi muito cruel comigo. As indagações também se tornaram cada vez mais estúpidas e eu passei um bom tempo centrada na raiva. Acredito que uma das principais perguntas que fiz a mim mesma quando me deparei com essa situação foi: como viveria com essa lembrança assim que terminasse?

 

Além de estar muito preocupada, eu chorava demais e isso não passou despercebido pela minha mãe. Aquilo tudo seria algo que me marcaria para sempre e, durante todo o sofrimento, eu não queria nada daquilo na minha cabeça. Eu queria as partes boas, mas elas eram esmagadas pelas ruins. Pensar em morte se tornou um hábito. Câncer, como qualquer enfermidade, causa uma reação em cadeia que cria um buraco entre os envolvidos.

 

Esta é a capa da fanfic. O blur foi porque apaguei o nome.

A ausência dessa pessoa por causa do tratamento me fez pensar bobagens. Foi um baque entender como é fácil as pessoas serem arrancadas de você. E isso doeu, doeu tanto, que tinha vezes que eu não sabia se ainda era capaz de respirar. Daí, você começa a pensar: como vai ser quando sua mãe se for? E sua irmã? E sua melhor amiga? Pensar negativo se tornou algo automático, acima da minha vontade. Havia a tentativa de escapar, mas ao menor sinal de silêncio, especialmente na hora de dormir, dementadores me circundavam.

 

Eu encontrei um pouco de paz quando comecei a escrever a fanfic (post: importância das palavras) e aprendi mais sobre esse tipo de câncer. Porém, quando o mundo real me pegava pelos tornozelos, eu me sentia vazia e impotente, uma barata tonta tentando se encontrar no escuro.

 

Foram quase 4 anos dentro da montanha russa emocional. A cada dia, tudo ficava mais intenso. Eu me sentia impotente o tempo todo. Como já disse aqui no RG, a escrita me ajudou muito, pois me impediu de pensar tanto no que acontecia. Não havia nada que eu pudesse fazer, porque essa pessoa foi se cuidar no exterior. O que pude oferecer foi palavras de conforto para eu mesma e para ele. Eu não dividi o fardo.

 

Era difícil dizer que ficaria tudo bem quando nada estava, mas foi uma das pontas que tive que me agarrar. Eu fiquei tão mal que parecia que eu estava condenada a uma gripe eterna: olhos pesados e cansados, rosto pálido e a necessidade continua de ficar sozinha jogada na cama por me sentir indisposta e febril. Era difícil esconder o que eu sentia, pois meu estado falava por mil palavras.

 

Teve vezes que simplesmente chorava, do nada. Comecei a entrar no piloto automático e deixei de lado muitas coisas, como a presença dos amigos. Só cheguei a comentar sobre isso com uma amiga do colegial, mas nem acrescentei detalhes.

 

Não sei de onde tirei forças, mas parece que essa energia te encontra, mesmo em momentos insustentáveis. Eu queria entender porque aquilo aconteceu comigo. Senti-me meio punida por ter que assistir tudo de longe, como se eu fosse a pessoa mais ausente do mundo. Não conseguia entender como uma pessoa tão legal estava com câncer. Conforme a doença dele avançava, o desconforto aumentava e um muro cresceu entre nós dois. Simplesmente, paramos de falar um com o outro.

 

Eu tinha receio de perguntar como iam as coisas, pois não queria criar nenhum incômodo e sempre pensei que o último assunto que uma pessoa nesse estado quer discutir é o estado de saúde. Apenas deduzi que falar sobre isso não era pertinente. Por mais que quisesse saber o que acontecia, me conformei só com o fato de ainda conversar com aquela pessoa. Era o suficiente. Eu ficava feliz.

 

All you need is one #OneTreeHill

 

Eu não fui santa durante o período por mais que passasse metade do tempo injuriada. Afinal, sou humana. Tomei muitas atitudes egoístas, como desaparecer. Estava tão, mas tão chateada e irritada que simplesmente dei uma de louca e fiquei incomunicável. Em meio ao desespero, a insensatez me fez “deixar a coisa rolar”. Na minha mente, eu não estava realmente lá, então, não fazia diferença. Tinha que continuar a viver. Nessas horas, parece que ninguém está disposto a nada e eu demorei a entender que isso é normal. Que sentir raiva é normal. Que querer chutar o balde também. Mas você sempre volta.

 

Eu acho que criei muitos bloqueios mentais por causa do impacto do ocorrido. Algumas partes são muito claras outras parecem inexistentes. Um exemplo: não lembro onde estava nas festas de final de ano entre os anos de 2006 a 2009. Outra coisa: só lembro que fiz outra faculdade antes de jornalismo quando o assunto vem à tona. A única coisa que me lembro com clareza foi da tristeza contínua. Eu não retive nada do que aconteceu ao meu redor nessa época e isso é bem estranho. Parece até que foi meu medo que bloqueou tudo. O medo de não querer carregar as lembranças daquele momento para sempre. Mas eu me lembro das partes mais tensas, o que serviu para que eu conseguisse superar tudo o que aconteceu.

 

O tempo passou, tudo terminou bem. Depois de passear pela internet e ver alguns vídeos do John Green sobre a Esther, o sentimento de impotência que sempre me incomodava ganhou um sentido diferente. Em um deles (vou dever o link porque fui burra e não guardei), o autor diz algo assim: o importante é estar lá.

 

Depois de quase 8 anos do ocorrido, sempre há os assuntos mal resolvidos e, nesse ponto, a resolução era comigo mesma. A parte que faltava para colocar um ponto final nessa história era conforto. Enquanto essa pessoa era tratada, eu fiquei no mesmo lugar, na espera de notícias. Literalmente, um anjo da guarda. Sem hora para dormir, nem para comer. Nada. Eu fiquei concentrada nisso, e só! Fiz a minha parte na medida do possível. Eu fiquei lá por horas e horas e horas no aguardo de um recado no Orkut ou do barulhinho da janelinha do MSN.

 

 

Sempre achei que jamais superaria o que aconteceu, às vezes, acho que não superei, mas esta Semana Esther tem sido muito reveladora. Nunca falei nada disso com ninguém (tudo bem que é muita história para contar, mas o que vale é a intenção do relato). Agora, faço um post para todo mundo ler. Eu diria que isso é o fim desse plot. Aqui. Agora.Não importa o que você faça, apenas fique ou esteja lá quando uma pessoa especial precisar de você. É bem verdade quando dizem que uma pessoa pode não estar ao seu lado no dia seguinte e o máximo que se pode fazer – além de muitas outras coisas – é estar com ela. Esteja com ela. Às vezes, uma pessoa não quer falar. Apenas quer companhia. Eu estava lá com ele para dividir o peso, mas não tinha ninguém para partilhar o meu.

 

Assim como Esther se sentia sozinha, eu também me sentia. As palavras foram minhas melhores amigas, e elas também foram para a pequena Estrela. Depois de todos os posts da Semana Esther, percebo que passei pela fase final de superação e não poderia ficar mais agradecida por escrever sobre um assunto inspirada por uma história de puro amor. Esther, eu te amo!

 

É muito difícil lidar com o câncer (ou qualquer outra doença ou dilema que a vida traz de surpresa), justamente por ser uma doença que consome gradativamente, de dentro para fora. Isso afeta todo mundo. Sem contar que aumenta os graus de impotência e desafia a nossa fé. Não há muito que se fazer a não ser acreditar na recuperação e, claro, estar lá, seja onde for, no que for preciso, como for… Como um anjo da guarda.

 

 

#SemanaEsther: visitem os outros blogs participantes.

Stefs
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  • heyrandomgirl

    Seu comentário fez sentido sim e eu chorei de novo quando li no dia que vc postou <3 É como dizem, cada um tem sua luta todos os dias, mas ninguém sabe o quanto isso pode ser mais doloroso para alguns. Eu tive meu momento difícil, ninguém soube e me estripei para poder escrever tudo isso. Me sinto mais leve, sem dúvidas. E não deixou de ser emocionante e dolorido reviver tudo de novo. Foi um desafio e tanto <3

    Obrigada pelas lindas palavras, prima <3

  • Isis Renata

    novamente aqui a coragem (como comentei no post antes deste), desta vez coragem sua. não é aqui nenhum vangloriar seus atos, não é aqui um afirmar tua fidelidade. Este post é um tear de um longo tecido ao qual você teceu. um decido que somente você conhece os pontos altos e baixos. uma história de longa data. e você irá carregá-la para o seu todo sempre, e ela irá te dar forças e relembrar de superações por onde você for.
    acredito que todos nós temos momentos, meu querido padre os chama de GOLPES da vida, do qual tiram nossa realidade e parece que vivemos em um universo paralelo e que nada mais faz sentido.
    esses golpes nos transformam e transformam nossa força interior. Eles nos mostram caminhos e laços que permanecerão conosco como cicatriz, não de dor, mas de superação.
    não estou aqui dizendo que 'é preciso sofrer para ser feliz' mas de fato, os golpes e até mesmo o tão chamado 'fundo do poço' nos fazem voltar para o nosso interior para que aprendermos a nos reerguer.
    os sentimentos que ficam aflorados, sejam eles lágrimas, insônias etc são o nosso respirar para continuar. e você continuou, por ele e por você.
    eu não sei ao certo se o comentário fez algum sentido
    sentimentos são difíceis de se traduzir em palavras
    mas eu acredito que desta história restou tua força falando mais alto, e uma amizade inabalável.

    te amo. obrigada por compartilhar essa história tão incrível

  • heyrandomgirl

    Obrigada, Fernanda <33333 Sempre temos que ficar lá pelas pessoas que amamos. Acho que isso é tudo que importa, especialmente quando não se há mto o que fazer.

  • Fernanda Yano

    Sem palavras. Lindo post.

    "Não importa o que você faça, apenas fique ou esteja lá quando uma pessoa especial precisar de você"