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10/fev

Existem muitas lendas urbanas em torno de Psicose e o livro Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose, assinado por Stephen Rebello, teve o intuito de tentar desmitificar o que aconteceu por detrás da produção de um dos maiores clássicos de terror do cinema assinado pelo mestre do suspense. Psicose fez parte de um arco muito importante da arte de “fazer cinema”, representante incondicional das mudanças que começaram a ocorrer no ramo da sétima arte no início da década de 60. Esse foi um período do qual diretores e artistas queriam quebrar as regras dos costumes da época para darem vida a projetos desafiadores.

 

Hitchcock não se sentia muito querido e nem muito estimulado pela indústria cinematográfica. Acredito que o descrédito e a falta de confiança que grandes nomes do ramo tinham com relação ao trabalho dele serviam para que o diretor não parasse de criar, falassem o que fossem, o que o fazia trilhar caminhos tortuosos para encontrar boas ideias. Não só ideias diferentes, mas que o fizessem único, cuja sua assinatura fosse facilmente distinguível.

 

Mesmo por trás de tanta genialidade, Hitch era um homem pacato, comum e que não gostava tanto de socializar. Por detrás de uma suposta antipatia, havia um artista com a visão precisa, que capturava possibilidades que ninguém enxergava. Ele era famoso por ser duro na queda na hora de trabalhar, de ter saturado a produção e o elenco, por ser teimoso e genial por não dar o braço a torcer quando encontrava algo que acreditava que valia a pena, e tudo isso tornou a produção de Psicose uma das maiores provas de seu esforço e um baita desafio.

 

Psicose: o filme de 30 dias

 

 

Psicose é baseado no livro de Robert Bloch e se tornou uma obsessão de Hitch que, ao se deparar com a história da família Bates, viu que uma adaptação tinha tudo para dar certo. Porém, os grandes estúdios fecharam a porta na cara dele, mas isso não foi o suficiente para fazê-lo desistir. O diretor arregaçou as mangas e abraçou o projeto com tudo o que tinha em mãos para que ele se tornasse real. Literalmente, Hitch teve que se virar, até mesmo no quesito monetário. A produção do longa tirou dinheiro do próprio bolso dele, cujo apelido inicial foi o “filme de 30 dias” de Alfred Hitchcock. O prazo estipulado era curto e o orçamento apertado, o que o fez agir minuciosamente para poder finalizar o filme a tempo.

 

O livro conta que, entre altos e baixos, Hitch não desanimou de produzir Psicose. Ao longo da sua carreira, ele sempre manteve a mesma equipe de trabalho, um detalhe facilitador, mas até isso calhou como empecilho inicial quando ele abraçou a nova ideia. O que restou a ele foi a equipe de TV o que, a meu ver, se deu mil vezes melhor para fazer os jogos de câmera. Afinal, trabalhar com séries de televisão não exige tanta amplitude, mas Hitch viu a vantagem de um time que sabia lidar com prazos curtos, o que coincidia com o processo corrido que seria a produção de Psicose.

 

O que mais o preocupou ao longo da produção de um filme que mal sabia que quebraria paradigmas no cinema foi o roteiro. Hitch, muito esperto, antes mesmo de começar a roteirizar o seu filho de 30 dias, pediu para que todos os livros fossem retirados das livrarias, justamente para conseguir trazer às telonas o final impactante que Psicose realmente possui.

 

Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose ainda conta a persistência do diretor e os problemas que ele costumava ter com produtores e até mesmo com atrizes. A obsessão pelas mulheres que trabalhavam com ele foi bem pontuada pelo autor, mas em forma de Vera Miles, atriz que se tornou fonte de rancor do diretor. Porém, o foco dado foi ao trabalho e esse material reconta detalhes enriquecedores, como o trabalho de câmera de Hitch que sempre foi muito delimitado para evitar muitos cortes, o que facilitava no momento da edição. Trata-se de um título que relata um trabalho formidável que tinha tudo para dar errado em meio a inseguranças de um diretor que chegou ao ponto de não saber mais se Psicose era algo que valia a pena. Hitch até cogitou levar o roteiro para a TV e deixá-lo à mercê da indústria de entretenimento. Algo que aconteceu anos depois, pois temos Bates Motel como exemplo.

 

 

A busca por algo novo para trabalhar sempre foi um dos muitos diferenciais de Hitchcock. As escolhas para adaptar Marnie, Os Pássaros e até Vertigo foi na busca pelo inédito, por algo que contribuísse no sentido criativo como também no desafio de realizar coisas antes não vistas no cinema. Tudo com uma excelência em uma época que o cinema já carecia de novidades e que não tinha o aparato tecnológico de atualmente. Com Psicose, Hitch e a equipe foram ao limite e lutaram até contra a censura extremamente forte da época, que insistiu em mudar dezenas de vezes a fatídica cena do banheiro. Foi com este longa que uma privada foi filmada pela primeira vez, como também cenas de violência explícita e insinuações sexuais. Isso não era bem quisto na época e era facilmente barrado, atitudes que também aconteceram com A Bonequinha de Luxo, filmado na mesma década (1 ano depois).

 

O livro também relata aquilo que acontece com artistas o tempo inteiro: a dura crítica. O mais bizarro foi entender a maneira como as respostas negativas à Psicose foram dadas por jornalistas em maioria revoltados porque não tiveram uma cabine exclusiva para assistir ao filme. Eles reclamaram da regra crucial de Hitch que exigia o básico: chegar pontualmente. Caso contrário, a entrada não seria possível. Sem contar o aviso de não contar o final para ninguém, um efeito que deu muito certo. Foi Psicose que mudou também a cara da publicidade cinematográfica, onde Hitch fez um pequeno grande trailer em que ele apresenta o cenário, com frases que geram reticências sobre algo extremamente relevante da trama.

 

Eu sou uma grande fã de Hitchcock, não daquelas bitoladas que tentam levantar a bandeira e arrancar os olhos de quem fala mal dele. Acredito que a obra do diretor deveria ser mais apreciada que criticada ou aprofundada, mesmo que ele tenha oferecido mudanças significativas no que condiz à arte de “fazer cinema”. Assim como Bonequinha de Luxo que ultrapassou limites ao trazer para as telonas uma meretriz independente e moderna cheia de estilo na pele da dócil Audrey Hepburn, o thriller de terror do mestre de suspense marcou história e uma década, dando uma nova percepção de liberdade criativa, mesmo com uma censura dominadora.

 

 

Hitch sabia das suas capacidades, sabia que era talentoso e que o mundo não o achava nem um pouco inovador, mas ele foi até o fim e eu gosto desse sentimento de artistas que fazem o que querem, custe o que custar, e que, no final do dia, se apresentam extremamente inspiradores e inovadores. Este livro vale muito a leitura e aproveito para recomendar o filme que foi inspirado neste título.

 

 

Na Prateleira:

Nome:  Alfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose

Autor:Stephen Rebello

Páginas: 256

Editora: Intrínseca

Stefs
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