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15/fev

Blue Jasmine é um filme a cara da riqueza e da ostentação. Assinado por Woody Allen, a história de Jeanette mais conhecida como Jasmine tinha tudo para ser engraçada se não fosse trágica. Literalmente, é tudo muito “blue”. Como sempre, as ironias e a acidez do diretor estavam perdidos em cada pedacinho da trama e Cate Blanchett merece todas as honrarias por mais uma atuação sensacional. A atriz foi a escolha certeira para arrematar um roteiro que conseguiu ser bastante humanizado, ainda mais por ser um filme de Allen, com uma leve pitada de amores e corações partidos, e menções nada honrosas à Paris. Digo isso porque Jasmine tem bastante alergia quando essa palavrinha é mencionada, mas isso é um spoiler.

 

A premissa gira em torno da história de Jasmine, uma mulher classuda que chega em São Francisco e procura abrigo na casa da irmã, Ginger, pois simplesmente perdeu toda a riqueza por causa de Hal, o marido. A estadia é na realidade por tempo indeterminado, mas Jasmine acredita piamente que dará a volta por cima. No começo, ela parece bem, pisa em qualquer um com seu gosto e trejeitos requintados, mas, por detrás da beleza nobre, a mulher é uma montanha russa emocional. Para deixá-la ainda mais interessante, ela fala sozinha. Por mais que o problema particular dela seja dado logo de cara, isso é parte do que compõe a storyline da protagonista. Logo nos primeiros minutos, ficamos por dentro da sua vida mentalmente dual, dois universos que colidem na cabeça dela. Dessa forma, o longa é muito bem recortado entre o presente e o passado, onde os flashbacks servem de apoio para dar mais informações sobre a versão rica da personagem, sem quebrar o ritmo do filme.

 

Jasmine e Ginger representam duas realidades que se confrontam no decorrer da história. Enquanto a primeira é uma ex-socialite de Nova York, perdida e que não faz a mínima ideia de onde começar para se reajustar, a segunda leva uma vida simples, mas não esconde o quanto está infeliz. O que as une é um pedaço da storyline de Jasmine que nos leva a conhecer melhor o papel de Hal nessa bagunça toda. Logo de cara, sabemos que ele avacalhou os planos de Ginger e do ex-marido dela, Augie, de serem bem-sucedidos financeiramente. Essa é uma informação que rebate em Jasmine o tempo inteiro e ela sempre dá um jeito de sair pela tangente quando o assunto é mencionado. As duas mantêm a irmandade em um nível de compreensão equilibrado, mas Chili, o atual pretendente de Ginger, é a parte que não tem receio nenhum de desequilibrar a cunhada e joga sempre que tem oportunidade os podres na cara dela.

 

Sem a riqueza e a ostentação, Jasmine não perde o charme, nem mesmo o pouquinho da arrogância que ainda lhe sobra dentro de uma nova vida sem luxo. Ela leva a história de um jeito engraçado e destrambelhado, o que tira um pouco o peso do dramatismo em torno dela. A personagem é tão exibida que nem sente vergonha em dizer que viajou na primeira classe por gostar de esbanjar mesmo estando falida. Outro dilema dela (dentre tantos) é se encontrar, uma das mensagens principais do longa. Em meio a um problema que não consegue reconhecer em si mesma, Jasmine prolonga seu mundo de ilusões ao decidir voltar para a faculdade, aspirando ser uma decoradora. Contudo, ela é um total desastre e o trabalho que consegue em um consultório de dentista serve para mostrar que a dondoca não tem aptidões e que está totalmente desestruturada emocionalmente.

 

O passado de Jasmine funciona como se fosse a imaginação dela. Recebemos poucas informações que se unem no final da história e que revelam o que aconteceu, especialmente entre Hal e ela. O que marca a personagem é o impasse de falar sozinha, um episódio que acontece por causa dos flashes da vida anterior que lhe geram crises inconscientes de raiva. Isso a faz trocar o presente pelo passado. Conforme a história transcorre, percebe-se que Jasmine não conseguiu abrir mão do mundo da riqueza que se torna uma ponte imaginária e responsável pelas suas quedas emocionais. Quando há a troca de temporalidade, Blanchett leva a personagem ao limite em uma briga particular consigo mesma.

 

Além dos problemas particulares de Jasmine, há também a chance de analisar como as irmãs se dão em seus respectivos relacionamentos. Uma ostenta e a outra se sente inútil. Ginger tem uma fatia bem importante na trama, pois ela representa uma ilusão próxima do real, aquele gostinho de ingressar em uma vida tão glamorosa quanto da irmã. Claro que é um erro, pois tudo em torno de Jasmine é sinônimo de fiasco. As duas representam um dos grandes dilemas do filme e isso implode atrelada à questão de pensar sobre o que fazer da vida quando se perde tudo. A trama dança nessas duas vidas que foram abaladas pelo mesmo assunto, onde viver outra realidade soa como uma boa maneira de sobreviver. Um delírio, claro, pois tudo em Jasmine é ilusório, o que compromete o que ela chamaria de final feliz.

 

Quando você acha que ela vai se dar bem, você se lembra que se trata de um filme de Woody Allen, onde os finais felizes são superestimados. Quando tudo indica que o fracasso será o resultado final, lá vai Jasmine ganhar uma quase reviravolta ao conhecer Dwight em uma festa. O cara é importante e endinheirado, o que a faz mentir sobre o verdadeiro status atual da sua vida, ou seja, ela mente e diz que é uma decoradora bem-sucedida. Isso a faz mergulhar em uma nova teia de ilusões, mas muito consciente do que faz. É aí que se começa a desconfiar sobre a verdadeira índole dela, pois, mesmo ela falando sozinha e tendo crises ao trazer o passado para o presente, Jasmine está bem atenta ao que acontece, especialmente diante de uma oportunidade que pode lhe garantir um novo salto na vida.

 

Assim, os flashbacks são partes que pontuam no final o tipo de caráter dela. Enquanto Jasmine nos dá pedaços de uma vida mergulhada na riqueza, não sabemos o que de fato aconteceu, pois simplesmente não dá para confiar em uma mulher desestruturada. Hal é visto com repúdio e é com ele que moram os principais por quês do filme de Allen que fez um ótimo joguinho mental entre o passado e o presente de Jasmine. A todo o momento, percebe-se que a mente da personagem é banhada de ilusões e de mentiras. Mesmo com o consumo de álcool e de remédios para tentar afastar as lembranças, a fragilidade dela é meio caminho para lhe dar algum crédito de vítima, mas a dondoca não é tão santinha assim. Cate Blanchett representou muito bem a anti-heroína com uma atuação extremamente forte, presente e intensa. Ela simplesmente conseguiu transmitir o dilema de se viver duas personalidades e isso favoreceu e muito para mostrar que Jasmine, acima de tudo, também é humana.

 

Muitos críticos mencionam que Blue Jasmine teve o roteiro inspirado na peça A Streetcar Named Desire (o que Allen descartou), onde temos Blanche, uma personagem com a mente ilusória que também vai buscar apoio na casa da irmã com a desculpinha de que ficará por pouco tempo, sendo que na verdade não tem data para ir embora. A razão para ela procurar apoio moral foi a perda da casa seguida da morte dos familiares. As similaridades com o longa não param por aí, pois Blanche acarreta a antipatia do marido da irmã, algo que acontece com Jasmine e Chili. Há também os dilemas com a bebida e o fato de todo mundo notar que há algo de errado com a personagem, mas isso é assunto para, quem sabe, outro post.

 

A peça proclama: the lady who lives for illusion has never felt more real e eu não poderia concluir esta resenha com uma frase que se encaixa perfeitamente com a premissa do longa de Allen.

 


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Stefs
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