Menu:
15/fev

Depois de assistir Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club) entendo perfeitamente o porquê das atuações do Matthew e do Jared terem sido ovacionadas pela crítica e reconhecidas nos prêmios mais importantes do circuito do cinema que antecedem o Oscar. Além de conseguirem os papéis, os dois atores tiveram mudanças visuais drásticas, uma transformação que apenas comprova o quanto eles abraçaram os personagens e do quanto se empenharam e se dedicaram para fazer com que o longa passasse a sensação de realismo sobre um dilema ainda muito complicado de lidar nos dias de hoje.

 

De fato, eles conseguiram trazer diferentes sentimentos com extrema excelência. Logo nos primeiros minutos do filme, Matthew impacta com a fisionomia física abatida, que o fez perder 30 quilos e mais um pouco para encarnar Woodroof. O emagrecimento também deu a impressão de que ele é mais velho do que realmente é e isso choca porque dá a clareza do quanto o personagem está doente.

 

Assinado por Jean-Marc Valleé, o filme foi gravado com muita rapidez, especialmente por ter sido adiado centenas de vezes. Isso se refletiu na condição dos atores em ter que emagrecer para acompanhar o ritmo da doença na trama. Ron Woodroof é o personagem principal cuja história verídica inspirou o longa, um eletricista heterossexual rabugento, mal-educado e preconceituoso. Além de ser arrogante, ele faz sexo a torto e a direito com prostitutas e se diverte com apostas durante as competições de rodeio. Até aí, uma rotina considerada normal para um homem dos anos 80. Porém, tudo desmorona quando ele é diagnosticado como detentor do vírus HIV, codinome Aids. Por ter a mente bem fechada, a notícia é recebida com chiliques homofóbicos, pois, nessa época, a doença ficou chamada por muito tempo de “câncer gay” por causa dos primeiros diagnósticos que englobavam homens homossexuais.

 

Após a descoberta, a trama se desenrola em fases, dentro do prognóstico de Ron: uma vida em 30 dias. Com o organismo debilitado e o vírus em uma condição já avançada, ele bate de frente com o período de negação à doença. Assim, o personagem corre contra o batuque do relógio, onde o dilema inicial é aceitar a contaminação e o fato de estar casado com o vírus que até hoje não tem cura. Ao longo da jornada de Ron, mostra-se o quanto é difícil para ele deixar de lado muitos preconceitos e isso começa a acontecer quando ele se interessa mais sobre a Aids.

 

Esse é o momento em que ele descobre que se trata de uma doença transmissível não só por meio de relações com pessoas do mesmo sexo, como também pelo compartilhamento de seringas com sangue, algo muito comum da época que foi marcada pelo crescente uso de heroína, e relações sexuais desprotegidas. Com um clarão mental e um momento de pausa dramática, Ron reconhece onde errou e o que sobra a ele é a luta pela vida.

 

O ultimato não faz Ron baixar a guarda e, por causa disso, a trama fica mais interessante. Especialmente porque ele se revolta em uma década que também ficou marcada pelo boom da Aids, o que impulsionou muitas pesquisas desesperadas da indústria farmacêutica que queriam porque queriam encontrar uma cura. A trajetória dele contra a doença começa em 1986, o que coincide com a época em que o AZT, visto como o primeiro remédio a tratar pacientes detentores do vírus, entrou em cena. Eve, a médica engajada nesses estudos, tenta ao máximo aliviar o desespero de Ron, mas ele não se cala diante das recusas de ser um “projeto de pesquisa”. Espertinho, ele encontra meios de obter o medicamento cobiçado por muitos, mas a decisão vem com o primeiro custo: seu sistema imunológico é ainda mais comprometido.

 

O filme trabalha muito bem no interesse de Ron pela doença em uma época em que a internet não é como se vê hoje. Era muito difícil obter uma informação de imediato nos anos 80, o que justifica o quanto as pessoas foram contaminadas pelo vírus e nem se preocuparam com as mudanças no corpo. Um detalhe que acontece com Woodroof. Quando alguém procurava por algo, as bibliotecas estavam lá para ajudar. Depois da recusa do AZT e do fato do remédio ter lhe feito mal, Ron ainda não vê motivos para parar de procurar meios para sobreviver e isso é encontrado em uma estadia no México, onde ele é atendido pelo Dr. Vass, uma luz no final do túnel. O médico lhe mostra outros meios para tentar enganar a propagação do vírus, o que dá a Ron uma nova perspectiva de combate e um meio fora da lei para ajudar outras pessoas.

 

Não demora muito para que Rayon, a transexual muito bem interpretada por Jared, entre em cena. Ela representa aquilo que Ron cogitou no começo da doença, de ser uma “cobaia” dos estudos com ingestão de AZT. A personagem também consegue impressionar, especialmente por causa da transformação. Para os curiosos, o ator fez uma dieta rígida de 400 calorias para perder peso em tempo hábil, como também depilou o corpo inteiro. Essa não é a primeira experiência dele com grandes transformações, pois isso já aconteceu em Chapter 27, onde ele interpretou Mark David Chapman. Com o encontro inusitado entre Ron e Rayon a trama de Dallas começa a crescer e não tem como não torcer pelos personagens.

 

Ron investe em combinações médicas com base nos “ensinamentos” do Dr. Vass e faz o próprio organismo como experimento. Ele começa a importar substâncias ilegais e abre um negócio por debaixo dos panos (que leva o nome do filme) tendo Rayon como ajudante para vender medicamentos que, de certa forma, lhe fizeram muito bem ao contrário do AZT que era praticamente enfiado goela abaixo daqueles que sofriam com a Aids. Ao longo dessa empreitada, Ron não demonstra nenhum receio em passar por cima do FDA e criou uma luta própria que ajudou e inspirou a sua clientela por meio da disposição de drogas que não eram aprovadas.

 

Quando tudo parece bem, o mundo de Ron e Rayon e o investimento promissor começam a ruir por causa das novas regras impostas pelo governo americano contra “medicamentos alternativos” que não fossem o AZT e outros aprovados pela indústria farmacêutica. E, claro, o estado debilitado que a doença causa, que os consome todos os dias.

 

Rayon quebra e muito o lado taciturno de Ron e é com a Srta. Homem que o eletricista aprende a deixar os preconceitos de lado, especialmente quanto à maneira de ver e encarar a doença. Ela é a parte divertida em meio a um drama muito sério. Além de ser um transexual perdido nas ruas, há uma história por detrás e o desejo “dela” pela vida é tão comovente quanto o desespero de Ron que chega até mesmo a pensar em suicídio.

 

Para quem começa arrogante e preconceituoso, Ron evolui ao longo da trama e se torna uma pessoa mais sensível e altruísta. É nesse momento quando ele aceita a doença, o que o faz bater de frente com o desespero de querer viver. Eve se torna um fio de esperança e também a pessoa que faz Ron ser mais otimista em meio à tristeza, um homem que, mesmo sendo muito casca grossa, tem sonhos e desejos. Ele desafia tudo e a todos, e termina com um saldo extremamente positivo. Afinal, a jornada com o vírus lhe ensinou muitas coisas.

 

Clube de Compras Dallas: uma visão geral

 

Depois de todas as liberdades sexuais dos anos 60 e 70, a década de 80 chegou acompanhada de uma doença incompreendida. Foi nessa época que o jargão de sexo seguro ganhou força, bem como a venda de preservativos. Um dos pontos que o filme trata perfeitamente é a questão do preconceito que é representado pelo grupo de amigos de Ron que não esconde o pensamento que o vírus é inteiramente homossexual. Quando a Aids começou a ganhar os holofotes, era dito que mulheres e heterossexuais estavam longe do grupo de risco, até esse quadro mudar. O fato da Aids ter contaminado no primeiro momento homens homossexuais ajudou a diluir uma suposta verdade que logo se provaria errônea. Conforme as pessoas contaminadas variavam, notou-se que a doença não era limitada a um tipo de grupo, mas que poderia atingir qualquer um.

 

A trama percorre muitos caminhos interessantes, não só para mostrar a batalha de Ron, mas para pontuar como a Aids era vista nos anos 80 e como as pessoas se comportavam quando descobriam que alguém foi infectado. Foi aqui que nasceu os mitos das chances de ser contaminado por um espirro ou por um aperto de mão. No Brasil, o vírus foi diagnosticado na mesma época, não sei dizer com precisão o tipo de caos, mas deve ter sido muito grande, como aconteceu nos Estados Unidos, cuja pandemia parecia um aviso do apocalipse.

 

Clube de Compras Dallas mostra a luta contra uma doença que era (e ainda é) extremamente assustadora e incompreendida, onde os tabus e os preconceitos eram altíssimos. A falta de informação era um dos grandes vilões entre aqueles que não sabiam se comportar diante de um infectado. Vale lembrar que a doença levou grandes artistas como Cazuza, Renato Russo e Freddie Mercury. Só em 1996 as coisas melhoraram um pouco por causa dos coquetéis antirretrovirais, o que dá uma vida teoricamente mais longa para os aidéticos.

 

Ron e Rayon batem na tecla de dar valor à vida um pouco tarde. Porém, ambos encontraram o sentido que tanto buscavam ao ajudar outras pessoas que sofriam do mesmo impasse. O verdadeiro Ron se considerava seu próprio médico e é isso que a trama esboça a partir do momento que remédios e até o experimento com a droga AZT lhe são negados. Ele queria fazer a mudança e conseguiu, tendo uma sobrevida que mudou a perspectiva daqueles que estavam na luta contra o vírus.

 

O filme tem justíssimas razões de ser coroado pelas interpretações impecáveis de Jared e de Matthew que dão vida a personagens que oportunizam reflexão. Estou bem otimista com a possibilidade dos dois levarem o Oscar.

 

Compras de Clube Dallas é um longa de se ficar impressionado do começo ao fim e comovido conforme a trajetória dos personagens se desenrola, repleta de altos e baixos, mas que não se perde ao mostrar o bom desejo de permanecer vivo, sem perder o realismo e o lado humanizado dos protagonistas.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3
  • heyrandomgirl

    AHHHH SOBRINHA, MORRI COM VC AQUI <3333333333
    Nossa esse filme É ÓTIMO! Nossa, um dos meus preferidos da corrida ao Oscar <3

    Eu tbm estou tentando entender o caos em cima de Trapaça. O filme tem um elenco foda, mas o resto é mto Q hahahahaahha. Uma boa comédia, nada mais :(

    Beijos sobrinha linda <3

  • Natália Farkatt

    ESSE FILME É MUITO MUITO MUITO BOM!!!!! Foi o primeiro das corridas ao Oscar que eu assisti e me surpreendi.

    No momento ainda tentando entender o motivo de Trapaça ter levado tanta coisa com aquele enredo zzzzzZZZZZZZZzzzzzz

    Beijo, titia <3