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26/fev

Eu ainda não consegui entender o alvoroço em cima de Trapaça. Criei tanta expectativa por causa do falatório e dos prêmios conquistados para me deparar com uma simples comédia. O longa dirigido por David O. Russell não é tudo isso que comentam e o que realmente importa nele é o elenco. Afinal, é difícil reunir muitos atores nas mesmas cenas e a adaptação conseguiu muito bem transmitir esse senso de camaradagem. Sei bem que muitos só tiveram interesse em conferi-lo por causa da Jennifer Lawrence, mas saibam que ela tem poucas cenas. Quem arrasa do começo ao fim é Amy Adams que tem seguido os mesmos passos de Bradley Cooper há um tempinho: o de sair do mito de péssima atriz por causa dos trabalhos antigos – dignos de vergonha alheia – para interpretar personagens mais interessantes.

 

Situado na década de 70, Trapaça é um filme longo para uma comédia, mas que garante certa diversão. Porém, há trechos em que a história se arrasta muito e, quando se acredita que o final está próximo, a trama nem chegou na metade do caminho. Tudo começa com a típica incitação à curiosidade: Irving (Christian Bale) se embeleza para participar de algo que ainda não está muito claro. Basicamente, essa é a fatia principal da trama que ajuda a desencadear todo o resto. Logo em seguida, Sydney (Adams) e Richie (Bradley Cooper) entram em cena e abrem uma discussão atrapalhada. A cena inconclusiva dá brecha para o flashback de Irving e de Sydney, os personagens principais dessa trapaça.

 

Irving aprendeu a se virar desde criança enquanto Sydney é uma perdida na vida, dona de altas aspirações com taxa zero de concretização. Parece até destino quando os dois se conhecem e descobrem as semelhanças de quererem sobreviver a qualquer custo, o que os torna uns perfeitos trapaceiros. Em meio a tantas declarações de amor e aventuras na calada da noite, Irving faz o impensável: chama Sydney para participar do seu negócio, uma falcatrua que lucra em cima da desgraça alheia por meio de empréstimos que não garantem retorno monetário para ninguém. Ao aceitar, ela vê a chance de se reinventar e passa a ser identificada como Lady Edith, uma britânica com contatos bancários influentes em Londres.

 

Com a persuasão de um e a cara de pau do outro, ambos trapaceiam até caírem no radar de Richie, o agente do FBI que ata as mãos do casal desafortunado com a proposta de auxílio na apreensão de 4 fraudes em troca da soltura deles. O que poderia ser uma prisão em flagrante se torna uma inusitada parceria, cuja pergunta principal é quem passará a perna em quem.

 

A partir daí, começa a parte divertida, uma competição silenciosa entre diversas pessoas na conquista do prêmio de melhor trapaceiro. Quem se torna o alvo da tramoia é o prefeito Carmine, um homem de bom coração que não faz ideia do círculo de cobras que foi inserido. Ele cria uma simpatia por Irving, o que dá espaço para uma inusitada amizade. Enquanto a trama se desenrola, Richie demonstra o lado explosivo e ambicioso para ser reconhecido dentro do FBI ao ponto de massacrar o chefe, Irving mantém o dilema da vida dupla com o acréscimo da amizade com Carmine, e Edith se rende ao posto de amante traída que busca uma vida sem mentiras e um homem que a ame pelo que ela é.

 

Trapaça trabalha muito bem em cima da vida dual dos personagens e da necessidade que eles têm de aparentarem ser o que não são. Ninguém tem o pé no chão, pois a fachada é o que lhes dá segurança. Irving era o cara do empréstimo e Edith soa como a esposa perfeita, mas o protagonista tem uma família verdadeira. O mesmo vale para os conflitos da personagem de Adams que não consegue se separar da imagem falsa e tenta se reencontrar com seu verdadeiro eu quando algo mais começa acontecer entre Richie e ela. Essa falsa aparência ajuda os personagens a sobreviverem. Conforme a trama avança, é fácil ver como todos são fúteis dentro de um estilo de vida que não condiz com a realidade. Isso facilita a trapaça.

 

Por mais que Bale esteja sensacional em Trapaça, especialmente por causa da transformação, Adams coloca o filme nos ombros e o leva até o final. Ela está sexy na medida certa, impulsiva e energética. Ela representa muito bem a dualidade da personagem, a Sydney inofensiva e a Edith persuasiva. A atriz conseguiu transmitir os duelos internos das duas vidas que a personagem leva e chama a atenção.

 

Em contrapartida temos a Rosalyn de Lawrence que representa um poder feminino diferente, mas ambas se assemelham por se sentirem traídas por Irving. Porém, a personagem de J-Law consegue encantar e divertir em poucos minutos de cena e dá para entender perfeitamente como um homem surtaria ao tê-la como esposa. Rosalyn tem um brilho contagiante que se protege com tom de deboche, pois ela é bem ingênua e emotiva. Por mais que ame a Jennifer, ainda não entendo os motivos que a fizeram levar tantos prêmios pela atuação em Trapaça, sendo que Rosalyn não tem nada demais e parece uma irmã mais velha de Tiffany, a causa que fez a atriz ganhar o Oscar no ano passado por O Lado Bom da Vida. Não me entendam mal, mas meu medo é que J-Law seja condenada a esse tipo de papel e ganhe prêmios pelos motivos errados, sendo que há atrizes que competem com ela com atuações mais fortes.

 

Trapaça manda a velha e boa mensagem de que as pessoas acreditam no que querem acreditar ou ver o que querem ver. Um sinal de conformismo. Apenas captamos o que achamos necessário e, por vezes, não vemos uma fraude escancarada. Quem amadurece bastante nisso é Irving, pois, ao longo da jornada com Carmine, ele percebe que lida com uma boa pessoa e que está prestes a puxar o tapete dela. Sem contar que o prefeito o respeita, algo que ele nunca bateu de frente antes, pois seu foco sempre foi lucrar em cima dos outros. Isso influencia no plot dele e nas atitudes finais de Trapaça.

 

Os fatos reais em Trapaça

 

O plot central de Trapaça é muito próximo do real tendo como inspiração a operação Abscam que se desenrolou entre os anos de 1978 até 1980. Seis membros da Casa dos Representantes dos Estados Unidos foram presos ao aceitarem suborno de agentes que fingiram ser intermediários de um sheik ficcional do Oriente Médio em troca de favores políticos. O ocorrido acarretou questionamentos da integridade da ação, um detalhe que foi usado para compor o personagem de Cooper que faz de tudo para capturar as fraudes. Richie é a mistura dos dois agentes que chefiavam a operação, John Good e Tony Amoroso, que serviram de consultores na produção do roteiro de Trapaça.

 

Irving é Melvin Weinberg. Parte da história dele foi mantida, como o fato de ter crescido no Bronx e de ter aberto uma firma chamada London Investors, cuja promessa era garantir grandes somas de lucro para os clientes que nunca se materializavam. Weinberg fez fama por causa da fila de amantes, e as personagens de Lawrence e de Adams existiram na vida real, mas foram colocadas no filme de uma forma mais interessante para dar sustento à adaptação. O. Russell dramatizou a história e acrescentou doses significativas de ironia e de ambiguidade moral nos personagens trapaceiros.

 

Trapaça é sobre se reinventar e sobreviver. De descobrir quem é o mestre trapaceiro. É um filme divertido, sexy, dono de uma trilha sonora sensacional e de um figurino de encher os olhos. O elenco é ousado, os diálogos são ácidos. Porém, isso não é o bastante para ele abocanhar tantos prêmios, pois não passa de uma simples comédia perto dos outros concorrentes. Uma salva de aplausos para Robert De Niro que consegue causar frisson em quase 10 minutos de cena e para o beijo entre Adams e Lawrence que não pertencia ao roteiro, mas foi de rachar o bico.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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