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01/mar

Se era um filme que eu sabia que me apaixonaria logo de cara era Ela (Her). Por mais que não botasse toda minha fé na atuação de Joaquin Phoenix como um homem sensível, Theodore, seu personagem, cativa logo na abertura do longa com palavras dóceis de amor. Eu fiquei com uma vontade louca de me pendurar na televisão e dar um aperto naquelas bochechas. Todas as cores pastel que lembram um recorte vintage compõe o romantismo deste filme dirigido por Spike Jonze, que concorre ao prêmio de Melhor Filme no Oscar deste ano. Não tem como evitar o suspiro, como também achar tudo muito estranho, pois Ela retrata um tipo diferente de amor, aquele sem toque, mas que é tão verdadeiro para o personagem que chega a ser bonito.

 

Theodore é o personagem principal de Ela. Ele se sente vazio o tempo todo e o único momento que parece preenchê-lo é o trabalho. O personagem é romântico, escreve cartas para ter um salário e tem uma grande habilidade de formar frases que derretem o coração. Um escritor nato. Por mais dócil e prestativo que seja, Theodore tem um problema: a ausência de contato social. Digamos que ele é muito na dele, especialmente por enfrentar o divórcio da única mulher que até então se apaixonou verdadeiramente. Por não saber lidar com os próprios sentimentos, ele tapa o buraco do peito com tecnologia que se torna seu maior refúgio (eu quero o videogame dele). Basicamente, o comando de voz é o que resolve a vida das pessoas, onde até o movimento das mãos é poupado. O universo de Ela é formado por pessoas isoladas, muito semelhante ao que vejo pelas ruas de São Paulo.

 

Phoenix nos guia sozinho por meio do seu personagem pela tortuosa vida informatizada, onde tudo soa muito louco e testa nosso ceticismo. Theodore sente de forma cada vez mais incômoda a necessidade de amar e ser amado e usa alternativas para suprir as próprias necessidades que podem ser vistas como bizarras para algumas pessoas. Porém, se formos pensar bem, não estamos tão longe de ser condenados a esse tipo de vivência por acharmos que a tecnologia e o clique do mouse são o bastante. Afinal, só vai até a livraria quem quer, pois há lojas online que resolvem o problema. Esse exemplo é apenas uma ponta minúscula de um problema que pode ser real, pois Ela dá uma visão agonizante de um universo onde as pessoas se isolaram. Não é à toa que uma das soluções propostas pela história foi a criação de um sistema de inteligência artificial programado para compreender o dono, de modo a suprir a solidão.

 

Theodore até que participa de alguns eventos. Ele tenta sair com uma mulher. Tenta manter contato com a vizinha. Tenta superar a falta da ex-esposa que é responsável por inúmeros flashbacks ao longo do filme que ajudam a compor a história que envolve o amor real e tátil e o amor virtual e imaginário. Theodore vive sozinho em um mundo simulado. Ele sente falta daquele tipo de amor que faz sorrir e chorar. Aquele que consome. Ele sente falta do toque, do suspiro, do sexo propriamente dito, mas parece que ninguém mais está com vontade de um amor real e genuíno. Daí, ele adquire o programa de inteligência artificial, cuja voz é narrada por Scarlett Johansson, e tudo vira de ponta cabeça. Ao descobrir as maravilhas da companhia da voz que se chama Samantha, Theodore vive em função dela e, quando percebe, se apaixona e passa a tratá-la como uma namorada real.

 

Seria bizarro se no contexto do filme não fosse algo muito natural. Isso me fez lembrar o filme A Garota Ideal com o Ryan Gosling, onde ele dedica todo seu amor por uma boneca de silicone encontrada via internet. Uma situação não muito diferente do que acontece com Theodore.

 

A partir do momento que Samantha é inserida na trama, as coisas começam a ficar um pouco estranhas. Não em um sentido ruim, mas não tem como não se mover desconfortavelmente quando ela afirma que sente o que sentimos. Ela é uma máquina, oras! Porém, o convívio com Theodore faz o programa adquirir traços dele e as coisas ficam complicadas porque o personagem cria um imaginário em cima de uma mulher que nunca existirá. Dessa forma, não tem como não se perguntar como isso terminará. O romance vai além do esperado, pois ele carrega o aparelho com o programa para todos os lados. Ele faz passeios românticos e mimetiza o sexo. O amor é tão forte que Theodore convence outras pessoas de que Samantha é real.

 

Mesmo com a estranheza, especialmente a cena em que Samantha tem uma ideia de interação com Theodore bem anormal, os dois vivem os altos e baixos de uma relação. Sabe aquele papo de todas as formas do amor? Ela trabalha justamente nisso ao pegar uma fatia delicada da nossa atualidade para expor como poderemos ser no futuro, dependentes de programas para suprir nossas necessidades e para idealizar um outro mundo. É perigoso, mas não deixa de ser verdade. Nem todos podem ser como Theodore, mas a grande maioria já possui o perfil do personagem. O filme tira até um sarro bem delicado ao fazer da profissão dele um resgate às cartas, onde os textos eram mais humanizados. No filme, elas são escritas por comando de voz e as palavras são pagas por outras pessoas. Tanta tecnologia equivalente ao mesmo nível de frieza.

 

A tecnologia é atraente e não tem como não se perguntar como Theodore consegue viver à mercê disso, pois soa muito radical. Hoje em dia, as pessoas já trocam facilmente um contato pessoal por um virtual, onde um chat no Facebook ou uma mensagem no WhatsApp são suficientes e, para Theodore, esse comportamento é muito normal. Ele não é ótimo em relações interpessoais, é um pouco tímido, só se solta quando está bêbado, mas tem um enorme coração que clama por amor. O filme trabalha muito na rotina do personagem que é totalmente dependente da máquina e o fundo do poço se abre quando tudo gira em torno de Samantha. No mundo de Ela, cada pessoa vive em uma redoma e se isola. Falar com um programa de inteligência artificial é comum, pois todos usam. Ninguém parece se sentir mal ao falar sozinho com um aparelho, pois as relações virtuais são suficientes.

 

Por mais que a tecnologia seja absurda e incômoda, não estamos tão longe do universo de Ela. Estamos mais solitários. Encontramos tudo o que queremos com um clique. Quando somos jogados no mundo real, somos impacientes, estúpidos e não conseguimos esconder nossa infelicidade. Quando sentamos à mesa não largamos o celular. O amor é uma palavra universal e é isso que todo mundo quer, mesmo não sendo corajoso o bastante para admitir. Theodore quer amar e ser amado, uma necessidade encontrada em um programa de inteligência artificial. Porém, isso não anula a vontade dele tocar alguém, de ter companhia para dormir, de ter alguém para dizer que ama. A opção que ele encontrou foi em um aparelho que é carregado no bolso como se fosse uma pessoa real e que faz parte das aventuras que compõe essa história de amor puro. Quando se olha bem para o longa e acompanha a pouca variedade de personagens, o contexto apenas fortalece o quanto eles são solitários e não tem como não pensar em uma sociedade vegetativa.

 

Para alguns, Ela pode ser um filme estranho, pois soa bizarro uma pessoa viver dependente de um amor virtual, de maneira a surtar por ele. Ainda mais por saber que o ela não passa de uma voz perdida no espaço. O filme transmite o amor de um ponto de vista puro, sob a ótica de um protagonista profundamente romântico solitário assumido. Samantha entra em cena para mexer com o nosso ceticismo de que viver dependente da máquina é completamente impossível, sendo que na verdade é uma possibilidade muito real para algumas pessoas. Vivemos em um século solitário, onde alguns preferem ficar em casa, pois a internet dá tudo o que se precisa em pronta-entrega. Porém, não o amor, pois até a máquina é falha.

 

Em Ela o amor está em todos os lugares e a profundidade da história consegue tocar o coração.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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