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10/mar

Este post é uma tentativa funesta de resumir o que tem acontecido desde a minha decisão de sair do trabalho para tentar correr atrás do meu sonho de ser escritora. Eu deveria ter publicado este texto em janeiro, mas ainda não tinha tanta noção dos meus sentimentos para falar dessa empreitada. Bem, agora eu tenho.

 

Quando assinei minha homologação, minha liberdade se tornou oficial, como também o realismo do que viria logo a seguir. Tudo o que comentei no ano passado sobre fazer o que ama se tornou verdade. Faz dois meses que saí do emprego e não estou arrependida. A partir do momento em que pedi demissão, dei início ao meu plot twist.

 

Eu sempre digo que vivo em um seriado e o mês de janeiro foi uma temporada tortuosa.  Decretei mais um season finale com o coração na mão, mas com a cabeça erguida. Não foi fácil “jogar tudo para o alto”, mas foi uma das melhores coisas que fiz por mim nos últimos anos.

 

O que me levou a fazer isso?

 

Eu pesei o fato de nunca ser reconhecida e de não ganhar o salário do mercado. Sem contar que estava cansada de revirar os olhos para a infantilidade das pessoas. No meu antigo local de trabalho, eu era uma das mais velhas e era muito tenso assistir certos comportamentos, ainda mais de quem tinha cargo de importância.

 

Sem contar que o ambiente já afetava minha criatividade e já não ia trabalhar por prazer. Quando a situação ficou impossível, revi alguns conceitos, pois ninguém merece fazer algo sem se sentir bem.

 

No decorrer de dezembro, a ideia de sair do trabalho grudou em mim como uma sanguessuga. Não era um fator real até que fosse dito, e isso aconteceu depois das férias coletivas. Estufei o peito e anunciei a saída. Esse foi o momento agora sim. O momento que me deixou mais leve, porém, mais desesperada, porque não via a hora de receber minha liberdade.

 

Os dias se passaram e eu já sentia a fadiga de um ano que mal tinha iniciado. Foi então que comecei a perceber melhor meu comportamento ao longo de 30 dias que mais pareciam 365 e procurei de forma incansável a sensação de que me arrependeria de ter pedido demissão. Isso não aconteceu, pois, de certa forma, eu tinha em mim a sensatez de que fiz algo certo.

 

É fácil indagar se chutei o balde sem um plano de fundo, mas, por enquanto, tento freelas para ter uma grana extra. Até cogito trabalhar em uma livraria, mas isso é uma possibilidade remota. A meta agora é evitar o quanto posso o retorno para uma redação. Volto a pensar naquele momento em que prestei vestibular para Jornalismo. Como eu queria que alguém me fizesse contornar o caminho, mas há males que vão para o bem. Neil Gaiman foi parar no mesmo curso para poder escrever e o mesmo aconteceu comigo. Então, não tenho do que reclamar. Ser webwriter foi a luz no final do túnel para mim, uma área da qual gostei muito, pois me fez sair da rotina jornalística.

 

O que impulsionou minha saída do trabalho com extrema força foi o fator escrita propriamente dito. Eu quero passar mais tempo com meus projetos literários, esse é meu maior plano para 2014. Muitos me perguntaram se tinha conseguido outro emprego e foi meio estranho dizer que não, como também ter que lidar com pessoas que nunca olharam na sua cara para dar bom dia e, de repente, “se importarem”. É engraçado como certos cidadãos se comovem falsamente só para saber se o seu destino é melhor que o deles.

 

Devo eu sair do título de pseudo-escritora para escritora?

 

Uma das pessoas que sempre me inspirou a escrever foi minha irmã. A diferença de 8 anos não a impede de ser sincera comigo e nunca esquecerei quando ela simplesmente jogou na minha cara: não está na hora de escrever algo seu?

 

Não me lembro se comentei isso em algum post, já peço desculpas pela repetição, mas foi algo tão marcante que devo a ela os primeiros esboços do que chamo de We Project, algo que aconteceu em julho de 2012. Em meio ao TCC, apenas tive tempo de fomentar a ideia.

 

Uma das coisas que ficou enraizada na minha mente nesse período decisório da minha vida foram as seguintes palavras de Neil Gaiman:

 

I hope that in this year to come, you make mistakes. Because if you are making mistakes, then you are making new things, trying new things, learning, living, pushing yourself, changing yourself, changing your world. You’re doing things you’ve never done before, and more importantly, you’re doing something.

 

Esse quote me acompanhou durante as alegrias e os pesares da minha decisão no decorrer de janeiro. O que me impulsionou foi a vontade de sair da zona de conforto. De correr atrás do que eu quero. De tentar. Eu gosto de escrever, mas estava na hora de usar essa minha habilidade em benefício próprio, mesmo que a curto prazo. Eu não sei para onde irei ou o que me espera, mas isso faz parte de todo esse processo de transição. Por mais que soubesse que minha decisão poderia acarretar outros problemas maiores, tais como financeiros, não mudei de ideia. Com todo dinheiro que juntei, posso me dar ao luxo de focar só na escrita por um período até que excelente.

 

Por mais que muitos vibrem com trabalho fixo e salário no final do mês, saber que poderia escrever além do mundo das fanfics mudou minha perspectiva. Eu comecei a mergulhar em um universo literário que não conhecia e um deles é o NaNoWrimo. Essa aventura me mostrou que eu não estou inclinada a ter uma carreira. Quando digo isso, não me vejo como uma grande jornalista que ganha um Pulitzer (quem sabe na área de literatura, hum?), mas uma escritora que, em dado momento, lerá o que escreveu nem que seja para 5 pessoas. Minhas vontades em torno de ser escritora ainda são pequenas, mas gosto dessa sensação. Tudo bem que brinco com a minha metade sobre possível elenco, discurso do Oscar e assim por diante, e essa é a graça da coisa toda.

 

Eu tentei mudar de área e deixar a escrita para os finais de semana. Fiz cursos muito legais, mas sabe quando você sente que alguém lhe diz: amiguinha, você está fazendo isso errado? Aquele sussurro que apenas quer lhe falar que essa opção é boa, mas não para o momento? Eu tentei transitar da redação para outro departamento onde trabalhava, e não consegui. Isso foi o ápice do meu desânimo. Isso me fez focar mais na minha escrita. Com o passar dos meses, eu já não me dedicava tanto ao trabalho. Minha mente estava em outras coisas: no livro que precisava ler, no próximo post para o blog, no próximo capítulo do WP, em outlines e storylines, e assim por diante. Não era justo eu manter uma posição que não me deixava contente, ainda mais centralizada em outros assuntos.

 

Eu gosto das coisas certas e comecei a fazer as coisas erradas. Nunca chamaram minha atenção, mas eu sentia que decaía. Esse foi outro motivo que me fez sair. Não estava mais interessada. Não me empolgava mais com novidades. Meu trabalho se tornou mecânico, sem chance de crescimento. E não agregava mais conhecimento.

 

Stefs, você está feliz? Está tudo bem na empreitada de “escritora em tempo integral”?

 

Claro que não. Como disse, é uma transição. Nada está 100%, pois ainda estou na fase de adaptação. Já mudei minha rotina mil vezes para ver qual me encaixo melhor. Ultrapassei limites em que acreditei que meus dedos parariam de funcionar de tanto que eles ficaram doloridos. São detalhes que se aprende, especialmente quanto aos limites do corpo. O que pega pesado é o fato de estar sozinha. Não há suporte. Só você, sua mente e sua habilidade de externar qualquer pensamento negativo. Só o seu poder de acreditar com todo o coração na história.

 

Nessa aventura, já fiquei deitada por horas de pijama. Sem contar que não falo nada, pois os ares de deboche sempre aparecem e sou grosseira. Tipo: sério mesmo que você chutou seu trabalho para escrever? Ainda me choca a incapacidade dos outros em não compreender a mágica do que é ter um sonho.

 

É muito fácil ficar desmotivada, ainda mais quando se pensa que o mercado literário brasileiro é quase uma piada. Nem todas as editoras apoiam escritores do próprio país, pois vivem do lucro de traduzir best-sellers internacionais. As poucas que apoiam estão atoladas e não recebem mais manuscritos. Já me peguei deletando coisas que não eram para ser deletadas em meio a um momento de puxar os cabelos. Já aviso que posso ficar como o Jack, personagem de O Iluminado. Engana-se quem pensa que é fácil.

 

O que me inspira foi o que Neil disse: faça boa arte, feliz ou triste, faça boa arte. Eu descobri que minha vontade de escrever de forma profissional veio tarde, mas veio no momento certo. Sim, eu acho que não tenho talento para isso e que sofrerei demais, mas escrever é meu motor, bem como criar histórias. Eu não reconhecia essa habilidade, pois sempre a vi como passatempo. Afinal, sou ficwriter e por palavras no Word de um universo que não lhe pertence é mais fácil. A escolha de sair do emprego foi primordial, pois só agora consigo ver a situação por completo. Eu balanceei minha vida de graduada contra um sonho que não me dá garantias de nada. É como largar tudo e começar um negócio próprio. São riscos atrás de riscos.

 

O que também me inspira são os comentários que ainda recebo em algumas fics. Quando achei que estava prestes a cometer o maior erro da minha vida ao pedir demissão, meu celular avisou que um novo e-mail tinha chegado. Era uma review. Enorme. Dona de uma mensagem que fez meus olhos lacrimejar em horário de serviço. Eu só quero dizer que essa pessoa me deu mais coragem. Não é todo dia que alguém elogia o que você faz e, às vezes, palavras de estranhos conseguem ser mais influentes, pois, talvez, eles sentem o peso daquilo que foi produzido de uma forma diferente que amigos e familiares. Afinal, aqueles que te conhecem e te amam evitam ao máximo te magoar.

 

Há brechas porque apaguei o nome da fic, sou dessas.

 

O balanço de dois meses é: eu escrevo todos os dias e me sinto realizada. Muito mais que 1 ano de trabalho fixo. Claro que os dias deprimidos surgem. Quem acha que buscar o próprio sonho é fácil está redondamente enganado.

 

So that’s my wish for you, and all of us, and my wish for myself. Make New Mistakes. Make glorious, amazing mistakes. Make mistakes nobody’s ever made before. Don’t freeze, don’t stop, don’t worry that it isn’t good enough, or it isn’t perfect, whatever it is: art, or love, or work or family or life.

 

Essas palavras do Neil serviram de apoio em um momento conclusivo. Dá sim medo de abandonar tudo, especialmente quando a sociedade empurra pela nossa goela um estilo de vida que nem todo mundo quer. Ainda mais para quem quer viver de arte. No fundo, eu sempre soube que não queria ser uma pessoa sugada pela inveja e pela competitividade em ambiente de trabalho. Eu não suporto isso. Eu não quero ser inclusa nesse grupo e era o que via todos os dias. É frustrante, mas, infelizmente, em qualquer lugar esse clima existe, um com mais intensidade que outros.

 

Ao contrário do que pensam, a minha decisão não é daquelas que se toma de uma hora para a outra. Tudo na vida é difícil, ainda mais quando se quer abandonar tudo para seguir um sonho que ainda é muito distante. Desde que entrei na rotina de escrever meus livros, me sinto mais feliz, mesmo quando a vontade é só ficar na cama para enfrentar a recaída socorro, preciso de um emprego. Minha mãe entendeu essa minha necessidade e eu não poderia ter contado com um apoio maior que esse. Ela diz que serei “livrarista”. Uma mistura que ainda não entendi muito bem o que significa Hahaha.

 

Quem também tem me inspirado nessa jornada é meu tio. Ele abandonou um emprego de sei lá quantos anos (foram muitos, acreditem) no ramo comercial (como ele sobreviveu?), uma área que escraviza e consome, para abrir o próprio estúdio de tatuagem. Ele simplesmente largou tudo para se dedicar, até quando puder, ao que realmente ama. Ele torna desenhos em arte e eu imagino isso para minhas palavras também.

 

Whatever it is you’re scared of doing, do it.

 

Eu só sei que tudo na vida vem com um custo. Eu nunca cansarei de acreditar e dizer que o universo tem resposta para tudo. Em momento de desespero, sempre surge aquele sinal que te norteia para o caminho certo. Quando fechei a porta do meu trabalho pela última vez, eu abri outra, e eis que minha saga como es..es..es..critora começou. Vejam como quiser, mas meus momentos de felicidade em meio a tantos post-its apenas me deram a visão de que finalmente estou fazendo alguma coisa certa.

 

O medo nos impede de muitas coisas, mas chega uma hora que a necessidade de quebrar limites bate de frente e bate forte. Dizem que quanto mais se nega, mais dá vontade de fazer, e esse é o plot da coisa toda.

 

Eu queria um dia dizer que meu plot twist deu certo até o final. Por agora, o que realmente quero é que vocês, caros leitores, que possuem amores pessoais calados, façam o erro de dar voz a isso. É o seu chamado, seja ele qual for. Se planeje, sonhe alto e não desista daquilo que você quer.

 

Acima de tudo, não deixe ninguém rir dos seus sonhos.

 

Make your mistakes, next year and forever.

 

PS: aguardem mais updates sobre essa nova temporada bem estranha <3

Stefs
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