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01/mar

Eu fiquei largada na cama totalmente passada depois que assisti 12 Anos de Escravidão. Ele conseguiu mexer comigo, muito mais que Clube de Compras Dallas. O filme é muito intenso, chocante e real. Já nos primeiros 10 minutos de trama, a vontade de chorar queima na garganta e tudo que aflige os personagens principais parece que rebate no telespectador, pois é impossível não se contrair toda vez que algo implacável acontece. Assinado por Steve McQueen, trata-se de um drama histórico baseado em fatos reais, onde o verdadeiro Solomon Northup realmente era um homem livre quando foi sequestrado e vendido como escravo. O roteiro foi inspirado no livro de memórias escrito e publicado em 1853 por ele e, se você acha que o longa é bem levinho, que trata um assunto delicado com sutileza, tire o barquinho da chuva, pois o objetivo foi único: impactar.

 

12 Anos de Escravidão começa em 1841 e assistimos um pouco da vida próspera de Solomon em Saratoga. Para quem não sabe, esse período da história dos Estados Unidos foi marcado pelo mercado ilegal e lucrativo de escravos. Essa foi a época em que essa bagunça estava no auge, onde figuras como Abraham Lincoln se destacaram anos depois na tentativa de abolir a escravidão. É nesse contexto que Solomon se torna uma vítima das circunstâncias, ludibriado por dois supostos artistas que lhe propõem a chance de ser violinista em um circo. Claro que tudo não passa de uma emboscada, onde a proposta se torna uma viagem aparentemente sem volta, pois Solomon é enganado e vendido como escravo.

 

Quando Solomon acorda preso pelas canelas e pelos punhos, inicia o processo de esperar pelo pior. Você já vê o potencial do filme quando ele recebe a primeira surra e não tem como não contrair os olhos, pois a cena é forte e não poupa nada. O dilema só aumenta porque ele não tem como provar que é um homem livre e é vendido, sem chance de defesa. Ao se juntar com outros que se encontram na mesma situação, uma jornada dramática e desesperadora começa, onde a sujeira do tráfico de escravos ganha enfoque, bem como o tipo de tratamento que lhes eram dados. O filme traz à tona um dos piores lados da época da escravidão, onde o sequestro era comum e ilegal, pois havia muitos que tinham patrões e que conseguiam ser resgatados no processo. Como Solomon era livre, ele não teve a mesma sorte, e passou por todo o processo cheio de crueldade, não tendo direito de manter o próprio nome, sendo chamado de Platt para não atrair nenhum suposto dono.

 

A questão de 12 Anos de Escravidão é mostrar o interesse do personagem em viver e não sobreviver, especialmente porque ele não se sujeita a ser tratado como escravo, o que o faz se meter em apuros. Solomon luta pela liberdade dele e não mantém a cabeça baixa por saber da própria condição de homem livre. O personagem demonstra um desespero contido, pois ele sabe que precisa acumular força para passar por tudo aquilo com a dignidade que lhe é privada. No decorrer da trajetória, nada se poupa. Há o preconceito, as surras, o assédio sexual contra as mulheres. Muitas coisas horríveis acontecem durante a jornada de Solomon, um homem que vivenciou tudo aquilo sem opção.

 

Um dos pontos de conflito do filme é quando os dois senhores ou mestres de Solomon entram em cena. O Sr. Ford é o mestre bom, aquele que se comove até mesmo com uma mãe que é comprada sem os filhos. Ele reconhece os esforços da própria mão de obra escravizada e cria um vínculo de carinho com Solomon, ao ponto de lhe dar um violino. Porém, tratar um escravo com “carinho” não era bem quisto e, para isso, temos Tibeats, que não aceita esse afeto e não demora a ser um dos personagens mais enojantes do drama. Por inveja e por preconceito, Tibeats persegue o escravo querido do seu senhor, o que coloca a vida de Solomon em risco.

 

Assim, Solomon é transferido e começa a trabalhar para a família Epps, onde ele conhece o verdadeiro inferno na terra. Os novos senhores são extremamente preconceituosos e sem limites, daqueles que dão uma surra sem pensar duas vezes. Eles são assustadores e impõem medo, especialmente a Sra. Epps que parece uma personagem tirada de American Horror Story (não é para menos que é a Sarah Paulson que a interpreta), mulher tirana que tem sérios problemas com Patsey, a escrava favorita do marido. Por mais que haja dois senhores com supostas índoles diferentes, ambos escravizam em benefício próprio e criam uma linha tênue que divide opiniões sobre bondade e maldade. Uma hipocrisia que ganha reforço por causa da religiosidade que também entra em cena como justificativa plausível da escravidão.

 

Para não passar batido, vale a menção honrosa ao Brad Pitt que teve participação na produção do filme e faz uma pontinha que tem o peso de um rinoceronte para a trama.

 

Para quem se choca com facilidade, 12 Anos de Escravidão possui muitas situações desconcertantes. Não há pudor em mostrar as feridas dos maus tratos e nem as condições precárias que os escravos são submetidos. As cenas de enforcamento não são fáceis de assistir, nem a surra homérica que Patsey leva, uma das mais fortes do filme. Trata-se de uma história que não dá para ser forte por mais que se tente. Que não dá para esconder o desespero em meio a tanta coisa ruim. É um longa que se apoia em passagens de tempo silenciosas que prolongam a agonizante dor dos personagens, onde até o último suspiro de vida ganha relevância em meio ao medo calado de Solomon.

 

12 Anos de Escravidão trata o assunto em carne viva. É impossível não ficar impressionado e comovido. Acredito que o Oscar de Melhor Filme vai para ele.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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