Menu:
18/mar

Sometimes we must fight in order to be free

 

Jared Leto é um dos artistas que mais me inspira e, quando a voz dele se une à bateria do Shannon e à guitarra de Tomo, é impossível não sentir o coração bater na garganta. Cada acorde e cada letra são certeiros em muitos momentos em que só quero uma boa música para refletir sobre os mais diferentes assuntos. Thirty Seconds To Mars possui uma mágica inexplicável que sempre me cura e, a cada dia, de um jeito mais intenso. O que mais me admira na personalidade do Jared é o quanto ele trabalha duro em cima daquilo que acredita (ele ganhou o Oscar for Christ’s sake) e isso foi registrado da melhor maneira possível no documentário Artifact.

 

Oficialmente lançado em dezembro do ano passado, o projeto aborda a produção do álbum This is War enquanto a banda enfrentava um processo de suaves 30 milhões de dólares cobrados pela gravadora EMI por quebra de contrato.

 

Ao longo do documentário, é impossível não ser arrebatado pelas frases que se tornaram meus novos mantras: lutar pelo que é certo. Lutar para ser livre. Artifact reconta o que aconteceu em 2008, ano em que o 30STM sentia o gosto e o peso do sucesso estrondoso depois do lançamento de A Beautiful Lie, o segundo álbum que arrecadou em torno de 3,5 milhões nas vendas. A banda não esperava o auge tão imediato, mas isso não quer dizer que ela não conseguiu ser bem-sucedida desde o álbum de estreia e com uma formação diferente. Porém, o impacto veio 1 trabalho depois e mudou toda a história de Jared, Shannon e Tomo.

 

Os irmãos Leto sempre acreditaram no poder da música para tocar as pessoas. Independente da porcentagem do público que escuta o que é produzido pela banda, Jared nunca deixou de ser conciso naquilo que queria transmitir. Em meados dos anos 2000, período que o pop tinha dado uma folga depois de tanta girl e boy band, o mercado acirrado da música pedia novidades. O emo e o rock alternativo, por exemplo, começaram a ganhar força. Em 2002, o 30STM lançou o primeiro álbum, mas até aí foi uma batalha competir por atenção, ainda mais quando se tinha Linkin Park, Evanescence, My Chemical Romance, entre outros, na jogada.

 

Em Artifact é contado que os executivos da EMI não engoliram muito bem esse papo de quebra de contrato. A banda alegou problemas de cláusulas que não os beneficiava, especialmente nos lucros, pois o trio não recebia quase nada de retorno. Foi um péssimo negócio e, depois de revisarem o documento, foi decidida a saída depois de 9 anos trabalhando com a gravadora. A EMI fez o jogo sujo e uma das justificativas para cobrar um valor tão abusivo foi o fato de que não houve a produção dos 5 álbuns que o contrato exigia. Sem contar o papo de saldo devedor que o 30STM também foi acusado. Os três se depararam com um processo que cobrava uma fortuna que nenhum dos integrantes tinha.

 

A injustiça vem daquele velho comportamento ganancioso de grandes empresários que sugam o artista até sair dinheiro pelo nariz, algo que aconteceu com muitos outros que assinaram com a EMI e que, mais tarde, quebraram as amarras. Por causa do lucro, especialmente o gerado com as vendas de A Beautiful Lie, a gravadora simplesmente resolveu entrar com um processo por uma quantia exorbitante. No documentário, pontua-se muito bem que, se a banda tivesse fracassado, os termos poderiam ser outros, mas o pensamento tacanho de pressionar e gerar estresse jamais mudaria. Se o 30STM não tivesse lucrado, haveria uma saideira tranquila, mas isso não queria dizer que a banda estaria livre. Todo o material produzido ainda pertenceria à EMI e a liberdade criativa continuaria calada.

 

O que me deixou bastante inconformada ao longo do documentário é a maneira fria com que a EMI lidou com o pedido do 30STM, sendo que ela é famosa em “escravizar” seus artistas. A EMI-Virgin foi a gravadora que mais engoliu os new faces do pop, tais como os Backstreet Boys e, mais tarde, o N’Sync, o que deu em barraco. Ela não é a primeira e nem a última a amarrar o artista para que ele pense e aja como uma perfeita marionete. Os maiores reflexos disso foram Britney Spears e Christina Aguilera que, no começo da carreira, emplacaram nas paradas musicais com os mesmos moldes: loiras e magérrimas. Isso influenciou no aparecimento de outras, o que gerou o olho gordo, pois era uma fonte de lucro fadada a dar certo. Por estar na moda, era mais fácil manipular qualquer uma que estivesse desesperada em ser como Britney ou Christina.

 

O maior exemplo é Mandy Moore que revelou em muitas entrevistas que a função dela era apenas botar a voz nas músicas que lhe eram dadas. Nada era discutido com ela. Inclusive, Mandy não gostava do pop music chiclete da época. Ela cedeu para depois cair fora. Enquanto muitos aceitam se submeter a isso, Kate Nash, Joss Stone, Metric, Radiohead e tantos outros simplesmente pularam do barco ao sentirem insatisfação com a gravadora.

 

Ser músico independente passou pela cabeça do Jared, pois a EMI não facilitou nem um pouco durante o processo. This is War corria o risco de nem chegar às lojas, pois a gravadora era detentora dos direitos. Até mesmo Artifact recebeu o carimbo EMI. Se a banda não entrasse em um acordo, o documentário não teria sido disponibilizado, mesmo com briga. Eles estavam sozinhos, pensaram seriamente em pagar pelo álbum. Quem segurou as pontas foi o produtor musical Flood, figura renomada que foi responsável por todo o processo de criação do terceiro álbum do 30STM. Nenhum deles sabia o dia de amanhã e o estresse foi descontado na música.

 

Durante o processo contra o 30STM, a EMI pediu todos os arquivos que pudessem fazê-la perder no júri.  É de se ficar chocado como a gravadora cobrava os lucros até mesmo em cima da capa do álbum. Artifact mostra muito bem como funciona o ramo musical e as questões contratuais de um artista que pertence a uma grande gravadora. A ideia que se dá é que muitos ainda não conseguem imaginar o sucesso sem um nome influente, pois é o label que dá apoio para divulgação e banca a turnê, itens complicados de garantir ao se optar por ser um artista independente. Jared poderia ter levado a banda pelo mesmo caminho, mas optou por bater o pé até conseguir um contrato que atendesse o que ele queria.

 

Eu sempre fui meio indignada com essa opressão das gravadoras, pois sou a favor da criatividade. É muito fácil apontar o dedo na televisão ou no YouTube e sinalizar quem é o produto musical e quem não é. Gosto do artista que escreve e produz as próprias músicas e que, acima de tudo, não foge daquilo que acredita por causa do dinheiro. Gosto do artista que se nega a se rebaixar para garantir lucro, algo muito comum desde os primórdios. Os enlatados da indústria fonográfica sempre recebem um apelo mais especial e, quando alguém resolve quebrar as amarras, é um insulto. Afinal, a gravadora faz um grande favor de tornar o artista parte do universo musical dela. Por que abandonar tudo?

 

Jared decidiu lutar pelo contrato que queria e foi isso que ele conseguiu no final da história. O 30STM ainda está na EMI, mas eles podem trabalhar de maneira mais livre, onde o processo criativo se tornou a cláusula mais importante. Jared sempre quis fazer um trabalho que valesse a pena. Ele sempre quis algo que vivesse para sempre, que tocasse o coração por ser puro e verdadeiro, sentimentos que gravadoras roubam do artista por causa do famoso controle criativo. This is War foi produzido em meio a uma luta cansativa e o que nasceu foi um álbum forte, diferente e marcante.

 

Assim, Artifact manda a mensagem de que é possível lutar pelo que deseja. É um reflexo de que qualquer um pode se impor para ter liberdade criativa sobre o próprio projeto, não só musical, como qualquer outro, sem limitações. Ao longo do documentário, Jared afirma que espera que a atitude tomada por ele em nome da banda inspire outros que acham que a arte deles não importa. Que ainda acham que é suficiente se manter embaixo da asa de uma gravadora sem criar um trabalho que condiz com aquilo que traz satisfação pessoal.

 

Por mais que Artifact tenha sido lançado em 2012, foi em 2013 que ele foi liberado para exibição (e este ano terá sessões fechadas e pagas no Brasil como pacote da turnê Love + Lust + Faith + Dreams que começa em maio). Dirigido pelo pseudônimo do Jared, Bartholomew Cubbins, o documentário foi feito com baixo orçamento e tinha como ideia apenas mostrar o processo criativo na produção de This is War. Porém, o foco foi em uma luta que durou até 2009. Ele possui um rico material com informações bem pertinentes sobre a indústria fonográfica com entrevistas de pessoas conceituadas no ramo como também depoimentos de quem passou pelo mesmo problema de contrato.

 

Para Jared, Artifact é um pedaço importante da história da banda, bem como um reflexo do que continua a acontecer no ramo musical onde gravadoras como a EMI simplesmente calam a criatividade do artista e o torna um produto por meio de regras contratuais sem pé e nem cabeça. Fica o sentimento de que uma grande empresa não pode ter controle daquilo que você faz por amor, que não vale a pena ingressar em um contrato rechonchudo sendo que a ditadura musical do que é moda e do que “dá certo” dá vida aos enlatados que continuam a brotar de uma hora para a outra na mídia. É difícil crescer sem um grande “label” e o documentário bate justamente nessa questão: há sucesso sem gravadora? Compensa virar tudo de cabeça para baixo e se tornar um artista independente?

 

Artifact ganhou prêmios respeitados em 2012 como o BlackBerry Documentary Award no Festival de Toronto. Trata-se de um trabalho que deixou a banda mais forte, que oferece não só o dilema do processo, mas como lutar por aquilo que acredita com uma tremenda honestidade.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3
  • Mônica Oliveira

    Marida, eu tô tão quebrada por eles, que até chorei lendo esse post! Olha a situação da pessoa! Hahahaha

    Artifact é sensacional, não só por tudo que você pontuou lindamente no post, mas também porque mostra um pouco mais da reação de cada um deles ao longo de toda a confusão com a EMI, e como isso se traduziu em música. O This Is War é um cd incrível do começo ao fim, cheio de sentimentos e com uma puta história pra contar. Eu lembro que, na época em que ele foi lançado, eu colocava tudo aquilo no repeat do mp3 e passava o dia todo de fones de ouvido, com o som no máximo. Eu gostava do 30 Seconds to Mars desde o A Beautiful Lie, mas nem sabia da treta com a EMI, não imaginava que nada do que o Artifact mostra estava acontecendo. Só sei que, quando eu mais precisei, foram as músicas do This Is War que me salvaram. Eu sobrevivi aos piores momentos da minha vida ouvindo Closer to the Edge no volume máximo, vendo o clipe milhões de vezes seguidas e sentindo meu coração bater mais forte a cada "NO!" que era gritado.

    Esses três têm um jeito de tocar a gente com as músicas que eu nunca vi igual, por isso AMEI Artifact quando vi pela primeira vez. E cada vez que eu assisto de novo, me apaixono mais ainda. Uma hora ou outra sempre acabo chorando com o Jared e meu coração SEMPRE aperta naquela cena da primeira foto do post, Jared falando que Shannon não tava conseguindo tocar e Shann em silêncio, virando as costas depois. Cara, é muita emoção pra um coração tão bobinho como o meu, haha.

    Acho que AINDA não caiu minha ficha de que nós vamos ver essas coisinhas ao vivo. Eu travo toda hora que penso muito no dia do show, hahaha, não consigo acreditar!

    Parabéns pela resenha! Arrasou, como sempre.
    XO