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28/mar

A dica de filme de hoje vai para Correndo com Tesouras (Running With Scissors – 2006) dirigido por Ryan Murphy. Inspirado nas memórias de Augusten Burroughs, o drama gira em torno de duas famílias cujas relações entre os membros que a compõe são disfuncionais e distorcidas. Literalmente, é um longa para loucos. Contudo, não espere nada mirabolante que possa deixar uma pessoa perturbada, artimanhas que ajudam Murphy a ser muito popular, mas sim uma história sobre como um lar desequilibrado pode destruir sonhos. A trama que norteia os personagens mistura um pouco de imaginação que mostra o quanto nossa mente é capaz de pregar peças ao ponto de não sabermos mais discernir o real da fantasia.

 

Resenha

Correndo com Tesouras foi uma empreitada antes dos maiores sucessos da carreira de Murphy – Glee e American Horror Story – que não foge da ideia de um mundo dissimulado e despedaçado. Ambientado na década de 70, a história de Augusten começa na infância. Ele parece um garotinho comum se não fosse o interesse precoce pelo mundo feminino, cuja inspiração é a mãe, Deirdre. A musa dele logo se revela uma mulher desequilibrada que fica aos frangalhos quando o sonho de ser uma escritora de sucesso não se torna realidade. A frustração inspirada pela falha rebate no casamento que culmina em divórcio. Esse detalhe poderia ser banal, mas abre brecha para o já adolescente Augusten ser colocado para escanteio ao mesmo tempo em que Deirdre perde o senso da realidade. Entre as vontades particulares da mãe que não a levam a canto algum, o desespero ganha espaço e traz o excêntrico Dr. Finch.

 

A fantasia é o que destrói a família de Augusten e é ela que faz Deirdre uma viciada em medicamentos, na desculpa de que ela se sente bloqueada o tempo inteiro. Quem impulsiona a ruína dela é o Dr. Finch que só aparenta ser um homem bacana, mas tem caráter duvidoso. O imaginário é o ponto forte do longa e isso torna a storyline de Deirdre muito interessante, pois ela confronta a realidade e a expectativa, os dois lados que são detonados por ela mesma.

 

Resenha

A transição de Augusten da infância para a adolescência é baseada nas aspirações de ser como Deirdre. Ele é um personagem passivo que absorve tudo o que acontece ao redor e a mãe é o agente provocador que o faz se mover em meio à dramatização. O tratamento se dá em um sentido contrário, pois é o filho que toma conta da mãe. Ao menos, até quando é possível. Conforme cresce, Augusten vê o lar desmoronar e já não é surpresa quando ele anuncia sua opção sexual. A reviravolta acontece quando Deirdre já em um nível de nem saber o próprio nome dá a guarda do filho para o Dr. Finch.

 

Resenha

A jornada do personagem se inicia a partir desta mudança radical propiciada por uma mãe desnaturada que se rende ao tratamento com o Dr. Finch por pensar no próprio umbigo. Ela quer reencontrar o seu talento e sacrifica qualquer um que estiver no meio. Augusten não tem muito que fazer por ser menor de idade e é transferido para um lar desorganizado controlado por pessoas que nem parecem reais de tão esquisitas. A casa dos Finch é puro reflexo dos que lá habitam: uma bagunça. O que resta ao personagem é engolir essa nova condição e tentar sobreviver. Para isso, ele escreve as experiências no diário e, durante todo o processo, sente a necessidade de amadurecer antes que o mundo o engula. Dos alicerces que encontra para encarar um novo dia, Augusten arranja um namorado maluco e cria uma amizade com Natalie, muito bem interpretada por Evan Rachel Wood, que parece ser a única moradora com um pouco de sanidade por querer sair de casa e correr atrás dos sonhos.

 

Correndo com Tesouras pode não ser um filme grandioso, mas ele tem uma mensagem até que forte, que deixa a pessoa meio desnorteada. Afinal, o que fazer quando sua mãe te larga em um lar qualquer? O que chama a atenção é justamente a questão das experiências que nos moldam ao longo da vida. Augusten poderia virar um traficante por causa do abandono da mãe, mas ele encontrou uma forma de dar a volta por cima ao acreditar nos sonhos. A situação o faz enxergar muitas coisas sobre si mesmo, como o talento para escrever. Assim, a história dele na casa dos Finch é uma lição de como amadurecer da forma mais difícil.

 

A mansão dos Finch é o cenário principal da história e, estranhamente, é lá que Augusten conhece o verdadeiro significado do que é ter uma família. O ambiente representa uma perfeita bagunça emocional com objetos espalhados em todos os cômodos da casa, maquinarias antigas e uma árvore de Natal fora de época. O bacana é ver como cada detalhe reflete perfeitamente no que os personagens passam em determinados momentos. Durante os diferentes surtos, a trama se aprofunda e nos faz questionar a sanidade mental deles.

 

O filme também trabalha as questões dos sonhos que aparentam estar fora do alcance quando se vive em um ambiente assustador, sem apoio de ninguém, onde até os adultos não possuem expectativa de nada. Quem representa bem este papel de se sentir presa, sem ponto de fuga, é Natalie. A mãe dela tem um universo mental paralelo que só reage à menção do marido. A irmã mais velha é uma lunática religiosa e o pai é tão doido que nem consigo descrevê-lo. As aspirações de Natalie é querer sair de casa por não aguentar levar todo mundo nas costas. O único que a compreende é Augusten que a inspira a abandonar o barco.

 

Resenha

Uma das melhores frases do personagem é o desejo por uma vida regrada e com limites, algo que ele não teve. Eu tive esse problema quando era adolescente, de um jeito reverso, pois lidava com regras demais e comecei a quebrá-las. Elas nunca deixaram de existir na minha vida e ainda são importantes, pois ajudaram a moldar o meu caráter. Você só aprende quando algo de muito ruim acontece e Augusten desvenda isso no sentido inverso. Regras não são ruins quando bem delimitadas. Por mais que os pais precisem entender que criam os filhos para o mundo, as regras devem ser para o bem, um apoio, algo que muitos adolescentes não possuem – ou quebram por se acharem donos do próprio nariz e se dão mal. É um saco ter que descobrir certas coisas sozinho sendo que, nessa fase, são os pais que precisam dar suporte. Um lar disfuncional e sem limites fez Augusten encontrar tudo o que precisava no inesperado. Por causa de experiências que ele mesmo buscou.

 

Fora do convívio da mãe, Augusten começa a ver a vida diferente, cansado demais de viver na expectativa. Correndo com Tesouras é um filme que não me espantaria se algum psicólogo tivesse sido responsável pelo roteiro, mas Murphy já é um maluco por si só. Sem contar que o real Augusten é envolvido em polêmicas e há quem diga que o livro que inspirou este filme só tem mentiras. Independente disso, a trama une pessoas loucas à sua maneira que se destacam e que de alguma forma se confrontam. Desde Deirdre até o namorado com quem tem as primeiras experiências homossexuais, Augusten busca por rotas de fuga enquanto assiste a mãe liberar os demônios internos.

 

É um drama com uma pitada de humor negro que faz refletir sobre a importância da família e o valor dos nossos sonhos em meio a uma vida conturbada.

 

I want rules… and boundaries… because… what I’ve learned is that… without them… all life is… is a series of surprises.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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