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17/mar

Sabe aquele papo de que nada acontece por acaso? Aquela sensação de que o universo sempre conspira para que algo bom ou ruim aconteça? Essas indagações fazem parte da obra escrita a quatro mãos por John Green e David Levithan, Will & Will – Um Nome, Um Destino. O livro é popular por ter dois adolescentes homossexuais, mas saiba que ele pode ser carregado embaixo do braço com extrema segurança.

 

Os autores abordam o assunto de um jeito sutil, sem desvalorizar os personagens que se encaixam nesse quadro. Não é uma obra que garante sérias doses de drama já que o humor ácido é extremamente valorizado. Logo nas primeiras páginas, não tem como segurar a risada, mas isso não quer dizer que o livro seja piadista. Ele não só diverte como também garante uma reflexão sobre o quanto nos amamos e o quanto somos inseguros ao ponto de acreditarmos que nada do que fazemos importa para alguém.

 

Will & Will é narrado em primeira pessoa com dois pontos de vista que funcionam devido à ambientação da história – ensino médio, paqueras e, claro, anseios e medos. Um universo do qual os autores já estão bem acostumados a escrever. A obra é dividida em 2 arcos, onde John foi responsável pela escrita dos capítulos assinados por Will Grayson (letra em caixa alta) e David pelos capítulos que pertencem ao will grayson (letra em caixa baixa). Os dois escreveram a história separadamente tendo apenas o plot definido: fazer com que Will & Will se encontrassem e que essa situação criasse um impacto tremendo na vida deles.

 

É fácil imaginar pelo título que a história se trata de um casal gay, mas não é. Os dois Will se conhecem por ironia do destino, sendo que um é heterossexual e o outro homossexual, e começam a lidar de maneiras separadas com Tiny Cooper, o responsável em impactá-los. Tiny se torna o ponto de atrito entre os xarás e a relação com ele é o maior desafio para Will e will, pois, enquanto um se sente um lixo perto dele, o outro se apaixona e não é capaz de demonstrar o que sente. As narrativas seguem um caminho a parte, mas se encontram em um momento crucial.

 

Will Grayson – aquele que abre a história

 

 

Este Will Grayson é detentor de um humor difícil, com direito a patadas bem suaves dosadas com sinceridade extrema. Ele é totalmente desconfiado com o próprio destino, aquele tipo de pessoa que quando se sente muito feliz pressente que algo ruim vai acontecer em breve. Para contornar isso, Will tem muitas regras de convivência e uma delas é não se importar. Depois do encontro com will, o personagem passa a se sentir como a sombra de Tiny, o melhor amigo homossexual que tem grande dificuldade em falar de outra coisa que não seja ele mesmo. Por se sentir um joguete, a jornada de Will é uma avaliação interior como também da amizade com Tiny.

 

Logo nos primeiros capítulos, ambos rendem momentos muito engraçados e eu simplesmente não conseguia parar de rir, especialmente quando Will investe em muitas tiradas que são muito a cara do John Green. Tiny tem lá o seu valor, mas confesso que ele conseguiu me irritar quando o papo do musical que conta a vida dele entra em cena. Porém, é uma parte da história que testa o poder da amizade, do quanto ela pode se perder por causa do egocentrismo do outro.

 

O grande dilema de Will Grayson é lidar consigo mesmo, especialmente porque Tiny o torna personagem do musical. Assim, ele confronta tanto com a própria faceta descrita pelo melhor amigo no roteiro, cheia de defeitos, como com o tipo de amizade que ambos possuem até ali.

 

will grayson – aquele que conclui a história

 

 

Eu me identifiquei muito com esse will, especialmente porque ele tem as melhores frases. Nunca me senti tão representada quando ele critica certos hábitos da internet. Ele também vive dentro da bolha de não se importar, mas as defesas dele são destruídas quando começa a gostar de Tiny. Ele é um balanço de realismo com negativismo, praticamente um personagem retirado da Segunda Geração do Romantismo. Isso acontece porque ele sofre de depressão e um dos melhores conselhos – de muitos – que will oferece é o fato de detestar resmungo alheio sendo que a solução é só tirar a traseira da cadeira. Ao contrário do xará que tem muitas regras de boa vizinhança, will tem apenas uma: não se permitir querer as coisas.

 

will é homossexual e começa a namorar com Tiny depois do encontro inusitado com o outro Will. É por intermédio desse relacionamento que o personagem reafirma a homossexualidade devido às experiências reais. Ele é assertivo quanto à opção sexual, mas entra em pânico quando é colocado na parede para desabafar o que sente. Enquanto o outro Will tem o carma chamado Tiny, o dele se chama Maura, aquele tipo de amiga que se acha tão amiga que não passa de uma enxerida que só quer saber dos assuntos dos outros sem ser convidada. Ela é simplesmente odiosa.

 

A partir do encontro com Will e do relacionamento com Tiny, a vida dele vira de ponta cabeça, cuja proposta é fazê-lo sentir o que sempre se privou. Enquanto o outro se sente a sombra injuriada, o outro Will não espera pelas coisas e não dá oportunidade para nada acontecer.

 

O destino

 

Além do destino que coloca Will e will frente a frente, a história se apoia na produção do musical de Tiny que começa engraçada e depois se torna irritante. Tiny é o ponto de impacto e criador da tensão entre os dois Will. Ou você o ama ou o odeia. O personagem é o ponto de partida para as mudanças que se seguem na vida dos xarás que passam a questionar e pesar a importância que possuem para Tiny. Por mais que ele se mostre confiante o tempo todo, o personagem possui dolorosas verdades sobre si mesmo, mas que não foram suficientes para me convencer a gostar dele. Não pelo modo como ele trata o Will, mas por ele ser centralizador.

 

Digamos que ele é um tanto quanto fútil, talvez, por ser endinheirado, mas o que pega com Tiny é a necessidade de mudar o ponto de vista das pessoas na tentativa de fazê-las enxergar o verdadeiro eu dele. Isso o faz colocar o coração no musical. No final das contas, você entende os motivos que tornam Tiny um desesperado por atenção, pois, no começo, rola a crença de que ele é seguro de si. Porém, o adolescente é tão perdido quanto os dois Will.

 

 

Nada mais funcional que criar uma história focada na adolescência, especialmente quando se tem dois personagens que estão confortáveis com a própria sexualidade, mas não escondem as inseguranças comuns da idade. Não há bullying, nem chacota. Apenas um ensinamento básico de se aceitar como é e se amar. Ao longo da jornada, os três personagens buscam por uma única coisa que jamais se permitiram sentir ou nunca receberam de ninguém: serem apreciados. Em meio a uma rotina caótica, até mesmo para quem está na escola, é muito comum se sentir desvalorizado e os dois Will e Tiny tiveram que aprender com os altos e baixos do destino para perceberem que são importantes e únicos no mundo.

 

Eu acredito piamente que o destino não gera encontros por acaso. A vida não nos dá pessoas só porque precisamos preencher a rotina diária, mas porque elas têm algo para nos ensinar. Sem contar que esses encontros funcionam como uma válvula para nos redescobrirmos. Eu acredito que certos acasos possuem hora para acontecerem e conseguem mudar nossas perspectivas. É exatamente isso que acontece com os dois Will e Tiny. As linhas de Green e de Levithan são direcionadas a um dos dilemas da adolescência que é a sexualidade, mas isso não é a razão central dos personagens se moverem, mas sim, o fato deles se sentirem depreciados. Tentar mudar a mente das pessoas foi a meta de Tiny e o final da história é um espetáculo para ser aplaudido.

 

Para quem se preocupa com qualquer linguagem baixa ou que nunca teve experiência com uma obra que aborda personagens gays, pode ficar tranquilo, pois John e David usaram uma linguagem jovial. Eles enquadram dois personagens dentro do mesmo dilema da forma mais cuidadosa possível, sem se apoiar nas questões de preconceito ou bullying, por exemplo. É como se fosse uma conversa entre amigos, onde todos têm muito a oferecer e a ensinar, independente da opção sexual. Não há melodrama, nem escandalização desse tópico que sempre é muito delicado de abordar.

 

Will & Will joga limpo e mostra como o destino adora pregar peças.

 

 

Na Prateleira: 

Nome: Will & Will – Um nome, Um Destino
Autores: John Green & David Levithan
Páginas: 352
Editora: Galera Record

Stefs
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