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24/mar

Há muito tempo não encontrava um livro que me propiciasse uma identificação completa. Daquele tipo que não só a personagem, como toda a situação, é um recorte perfeito de uma parte da minha vida. Daquele tipo que parece que o autor te entrevistou para coletar os detalhes para transcrevê-los da melhor maneira possível. Eu tenho muitos apegos literários, já compartilhei muitos aqui no blog, mas Fangirl, assinado pela fofa da Rainbow Rowell, é a história da minha fase de garota do fandom e ficwriter (não que esses dois itens tenham mudado, pois ainda sou desse jeito).

 

Este livro me fez reviver com muita emoção e nostalgia uma das partes mais lindas da minha vida: minhas experiências com Harry Potter na companhia de fãs maravilhosos que liam minhas histórias bobas, que comentavam e aumentavam a minha pressão por causa do altíssimo número de visualizações – que me deixavam desesperada de um jeito que não conseguia parar de escrever.

 

Não é segredo para ninguém que J.K. Rowling foi a pessoa responsável em me dar um chute na traseira para me fazer escrever. Com 16/17 anos, escrevi minha primeira fanfic a quatro mãos com uma pessoa que se tornou uma das minhas melhores amigas por causa de Harry Potter. Todos os dias depois da aula, sentávamos na lanchonete da esquina com muitas folhas de sulfite e canetas coloridas que representavam as falas dos diferentes personagens. Nós escrevíamos desesperadamente e nenhuma das duas sabia exatamente o que fazia.

 

Era uma empolgação que valia por todas as chateações do ensino médio e, quando as aulas acabaram de vez, ficamos bem chateadas, pois nossos encontros também terminaram. Nós tentamos manter o ritmo, mas a vida adulta nos chamou, e aquela história divertida que nos uniu por causa da magia do mundo criado pela Rowling ficou na memória e foi revivida com muito carinho conforme lia pela segunda vez – e com mais atenção – Fangirl.

 

A primeira vez que li Fangirl, praticamente engoli o livro, pois foi bem na época em que ele foi lançado (ano passado). Recentemente, reli de novo, em um tempo de duas semanas, e degustei cada palavra. Só agora pensei em escrever uma resenha para falar da minha nova Bíblia, pois o mundo de Cath, a personagem principal, é o meu, mas com ideias da Rainbow.

 

Cath é a protagonista, meio introvertida e sem muitos amigos, que está em transição do ensino médio para a universidade. É 2011 e ela não sabe muito bem o que esperar dessa empreitada que, para ela, tem tudo para dar errado. Na mente de Cath, essa experiência só tem um meio de dar certo e é por causa da presença da irmã gêmea, Wren, que também ingressa na mesma aventura. Essa expectativa de que as duas terão uma vida na faculdade juntas é aniquilada por Wren, pois, ao contrário de Cath, ela quer aproveitar tudo e separar a identidade das duas.

 

Logo, Cath se vê sozinha, não se esforça em fazer novos amigos e nem para conhecer o seu novo “lar” por não gostar de pedir auxílio para ninguém. Os únicos contatos humanos que ela possui são com Reagan, a companheira de quarto, que também a trata no começo como um ser invisível, Levi, o namorado de Reagan, o único que demonstra interesse em conhecer Cath, e Nick o parceiro de escrita.

 

Enquanto Wren começa a se aventurar nas festas das fraternidades, pagar peitinho e encher a cara até se esquecer do próprio nome, Cath preserva a própria invisibilidade, mas tem um segredinho que é incompreendido pelas pessoas “normais”: ela escreve fanfiction sobre a saga The Simon Snow, um universo mágico criado pela fictícia Gemma T. Leslie. Essa parte do enredo proporciona uma volta no tempo para quem escrevia fanfics de Harry Potter. O mundo de Simon remete ao do menino bruxo, especialmente no quesito de ser uma saga longa, com um fandom forte e fanfics espalhadas ao redor do globo. Cath é uma fangirl que assina a história Carry On, Simon, a mais popular entre os fãs da saga de Leslie.

 

Rainbow faz um jogo incrível de palavras ao coincidir excertos do que viria ser do livro sobre Simon com a rotina da protagonista. Tudo escrito por ela! Parece até que a escritora contratou os serviços da Rowling para criar um mundo mágico, mas foi a autora que fez tudo como uma ótima ficwriter.

 

 

Fangirl é um livro que foca no quanto a escrita pode ser usada para diferentes fins. O maior impasse da Cath ao longo da história é se soltar da fanfiction para enfrentar a realidade que lhe pede para escrever algo próprio. As aulas de Fiction Writing tem tudo para serem as melhores da grade dela, mas se tornam um pesadelo. A Prof.ª Piper – que eu morreria para ter como orientadora – capta o talento de Cath e a impulsiona a quebrar as amarras além da fanfiction. Por ser muito teimosa e devota ao mundo de Simon Snow, a protagonista começa a cometer erros que a fazem sentir o peso de ser ficwriter. Ela se acha ótima nisso, mantém a paixão pela história dentro do dormitório, e não larga Carry On, Simon só porque está na faculdade.

 

Porém, como já diria Carson, a vida a morde na traseira e Cath cai na burrada de entregar uma fanfiction para a Prof.ª Piper que a acusa de plágio. Assim, ela se sente pressionada por querer escrever e não conseguir, e começa a contornar o problema.

 

O chacoalhão não é o suficiente para Cath encarar a possibilidade de ser uma escritora de verdade e, durante a história, ela foge disso o tempo inteiro. Ela não abraça o chamado dela. As experiências universitárias começam a ser um empecilho enorme para Cath, mas não tanto quanto os problemas familiares que se seguem. Em meio aos trabalhos e a atualização da fanfic, ela ainda é o elo que segura o pai e a irmã.

 

A família logo se apresenta com um emocional desestruturado, até mesmo ela, e cada membro possui formas de refúgio por terem sido destruídos, ao mesmo tempo, pela mesma pessoa: a mãe. O pai e as gêmeas ainda remoem as marcas do súbito abandono e possuem formas distintas para não pensarem sobre o assunto. Uma escreve, outra bebe e o outro se afoga no trabalho. A única que parece sã é Cath, mas ela tem problemas de segurança no entorno dela.

 

Por que escrevemos ficção? Para desaparecer.

 

Cath é detentora do pódio da minha lista de spirit animals. Ela é a Suprema e o Carson e a Troian estão com completo ciúmes. Eu nunca esperei que fosse encontrar um novo personagem para dizer que sou eu ou que determinado livro foi feito sob medida para mim. Fangirl é. Em tudo. Enquanto lia, revivia muitas situações bem semelhantes as que a personagem passou e tive muitos rompantes de alegria e de lágrimas saudosistas. Parece que foi há muito tempo que comecei a escrever fanfics, mas só faz suaves 10 anos.

 

Rowling foi a responsável em me fazer escrever e Leslie inspirou Cath. Nós duas pegamos emprestado os mundos criados por elas para estender a magia nas nossas vidas. Enquanto muitos se empenhavam em cosplays e lançamentos à meia-noite, minha base no fandom foi construída em fóruns de discussão e no FanFiction.net – dentre outros que existiram na época como o Edwiges Home Page. Quando descobri que minha história a 4 mãos na mesinha da lanchonete era uma fanfic, não parei mais e continuei. Minhas duas primeiras histórias foram feitas a mão, no papel amarelado do meu trabalho, e assim que chegava em casa digitava tudo.

 

Tinham erros grosseiros de português, a construção de frases e diálogos me fazem chorar quando releio, mas não tenho vergonha disso. Acho que nunca revisei minhas fics anteriores para que quem lesse pudesse ver que fui propensa a erros como qualquer iniciante. Meu relacionamento com as palavras vem desde muito cedo, mas Harry Potter impulsionou isso e, protegida por um nickname, escrevi muitas fanfics e transformei minha realidade.

 

É como ter uma vida secreta, às vezes. As pessoas acham isso tão estranho…Fanfiction. Slash. Você sabe.

 

Depois de reler Fangirl, noto que Rainbow tem o mesmo poder da Rowling em chutar minha traseira para escrever. Eu encontrei um novo título para dormir abraçada, algo que acontecia com Harry Potter. Este livro me trouxe altas dosagens de nostalgia. Era como se eu passasse pelo mesmo que Cath de novo e eu entendi tudo. O medo de revelar que escreve fanfic, o embaraço de ter que explicar do que se trata, do fato incompreensível de ter objetos e pôsteres de Harry Potter espalhados pelo quarto. De ter uma relação incondicional com a irmã que é o alicerce principal, como também do interesse amoroso que quer conhecer o que você escreve – eu tive até direito a comentários, own. Parece que Rainbow invadiu minha vida para escrever este livro. Fazia muito tempo que não me sentia tão representada no mundo literário.

 

Eu me refugiei durante muitos anos em fanfics, pois jamais acreditei nos meus textos fora do universo HP. Quando Cath diz que não consegue criar algo próprio, tive um pequeno surto. É difícil se desvincular do papel de ficwriter, pois não há pressão. Você faz, respeita sua criação, e aceita os elogios e as críticas. Nada profissional. Em meio a tantos questionamentos da personagem, o que mais chamou minha atenção é o fato de escrever para desaparecer. Eu, o Word e o iTunes somos um triângulo amoroso e simplesmente me esqueço de tudo o que acontece ao redor e dos problemas quando dou voz aos meus personagens.

 

Na minha experiência universitária, eu brigava para incluir Harry Potter em qualquer projeto, algo que Cath fez ao escrever uma short fiction inspirada em Simon Snow. Meu nível de estranheza na sala só aumentou quando abracei minha monografia sobre o menino bruxo e esse foi um dos poucos momentos – depois de 4 anos na faculdade – que senti que fiz algo para mim. Não com o desespero de ganhar nota, mas com o desejo de realização pessoal. Nunca tive sede de ser igual a todo mundo e me mantive assim até o fim. Eu poderia ter feito minha experiência universitária diferente. Eu poderia ter abraçado novas oportunidades. Fiquei no lado seguro, pois era algo que eu amava (e ainda amo) e sei que ter me mantido dessa forma tornou meus trabalhos mais reais e sinceros. Sem contar que respeitei minha personalidade. Cath levou Simon Snow na bagagem e eu levei Harry Potter em cada viagem de metrô rumo à faculdade.

 

Escreva como se sua vida dependesse disso. Escreva como se seu futuro dependesse disso.

 

Fangirl dá a impressão de que a história é sobre garotas que se descabelam pelos ídolos, mas não. Rainbow foi uma linda em escrever algo sobre ficwriters, o mundo do qual pertenci e ainda pertenço. Cada linha do livro conversou comigo. Eu me vi em cada atitude e pensamento da Cath, especialmente o drama de ser forçada a escrever em cima do medo de não se sair bem fora da zona de conforto. Lembrei-me das horas e mais horas em que escrevia sem respirar, capítulos atrás de capítulos para não deixar meus leitores na mão.

 

De todas as personagens que digo que me identifico por partes, Cath é aquela que me identifico por inteiro, especialmente quando ela diz que não quer uma carreira quando olha para a Profª Piper, autora de muitos livros. Ela quer ler e escrever. Quer fazer isso da vida por achar que não tem talento para mais nada. Queria eu que aqui tivesse licenciaturas em Literatura tão interessantes como há lá fora.

 

Nós duas sofremos do mesmo problema: acreditamos demais nas fanfics e não tínhamos coragem de fazer algo próprio por justamente não sentir as palavras da mesma forma. Cath e eu colocamos pitadas do nosso mundo mágico em uma experiência que muitos agem como Wren. Eu fico feliz de ter encontrado uma personagem que não perdeu a identidade por medo ou vergonha do que faz e que abraçou seu lado fangirl com orgulho.

 

Quando a professora Piper diz para Cath escrever como se o futuro dela dependesse disso, fiquei no chão, pois é a situação da qual me encontro. Agora, eu escrevo como se minha vida dependesse disso. Na verdade, até depende.

 

Eu conheço Simon e Baz. Eu conheço como eles pensam, o que eles sentem. Quando escrevo sobre eles, eu me perco completamente, e sou feliz.

 

Quem escreveu fanfics, ainda mais de Harry Potter, se sentirá como eu, pois Cath e o mundo de Simon Snow fazem referências indiretas e honrosas ao mundo de Rowling e ao fandom da época. Juro que terminei o livro aos prantos, acho que até chorei um pouco mais na segunda leitura, pois, além de reviver uma parte extremamente essencial e que impulsionou a minha vida na escrita, me fez relembrar da minha dedicação em usar os personagens da saga para dar a eles um novo plano de fundo. Rainbow me deu um livro para usar como referência para sempre. Se alguém quiser me conhecer na balada, darei este livro, assim poupo explicações.

 

O período em que Cath entra na universidade coincide com o final da minha aventura universitária, o período em que bati no peito para terminar uma fanfic que já existia há 5 anos. Eu encontrei uma personagem, depois de muito tempo, e um universo tão próximo do que vivi que não teve como não sentir que cada palavra foi destinada para mim. Eu entendi Cath do começo ao fim, pois tenho uma coleção infinita de pessoas que desmereceram meus textos e o mundo das fanfics era onde eu me sentia aceita e segura.

 

Fangirl é um livro maravilhoso. Acho que todo mundo que fez parte do fandom de Harry Potter como ficwriter ficará choroso e nostálgico. Digo de Harry Potter porque Rainbow criou a série The Simon Snow inspirada no menino bruxo. Cath não é real, mas é minha fiel BFF. Sinto-me órfã só de finalizar esta resenha e acho que vou reler o livro mais uma vez. Ainda bem que versão digital se preserva.

 

No Brasil, Fangirl teve os direitos comprados pela editora Novo Século. Agora é só aguardar ou ler em inglês. <3

 

 

Na Prateleira

Título: Fangirl

Autor: Rainbow Rowell
Páginas: 421

Editora: Novo Século

Stefs
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