Menu:
25/abr

Como grande admiradora de Hitchcock, Bates Motel estava na minha lupa há muito tempo, mas só nas férias coletivas do ano passado tive tempo de deitar e rolar para conferir o que fizeram com Norman, o maluco de dupla personalidade mais apreciado da história do cinema. Isso quer dizer que este post está bem atrasado. Já na segunda temporada, confesso que o seriado me deixou bem temerosa, pois acho extremamente perigoso mexer com os clássicos. Sem contar que virou modinha fazer esse tipo de adaptação/remake, o que me dá a plena sensação da falta de criatividade televisiva. Fiquei bem preocupada com o tipo de abordagem que dariam ao personagem, pois não há muito que inventar. Afinal, tudo está no livro Psicose, assinado por Robert Bloch, que foi adaptado por Alfred Hitchcock. Não havia um background para se apoiar e os envolvidos teriam que ser muito criativos e sensatos para recontarem uma história que causou frisson nos cinemas em 1960 com a mesma excelência nos dias atuais.

 

A boa notícia é que a série conseguiu me cativar.

 

Para quem ainda não conhece Bates Motel, o piloto da série é bem arrastado por causa das introduções aos personagens, mas a trama inicial não se esquece de mostrar o potencial da dupla dissimulada Norma e Norman, mãe e filho, cujos nomes formam um casamento perfeito quando pensamos em pessoas loucas. Eu não botava tanta fé no Freddie Highmore para ser Norman, um personagem tão sinistro e perigoso, por causa daquele rostinho fofo e dócil que sempre transmite a sensação do quanto ele é adorável. Esses trejeitos caíram como uma luva, pois Anthony Perkins, o ator que foi eternizado por dar vida ao mesmo personagem em Psicose, também parecia inofensivo até revelar sérios problemas mentais causados pelo tipo de relação com a mãe, uma figura dita como obsessiva e controladora. Vera Farmiga deu vida a uma mulher inimaginável – só ver o cadáver dela no filme não ajuda –, sendo sexy e dissimulada, rendendo uma excelente atuação em cada episódio. Sem dúvidas, ela é o ponto que mais empolga e que nos leva a um mergulho de cabeça na storyline que rende sustos e surpresas.

 

A primeira temporada tem 10 episódios e o piloto começa com o falecimento do pai de Norman que é um dos mistérios que rondam a família Bates. Com essa cena, começa-se o questionamento de quem é o mais doido nessa história, especialmente com a frieza com que Norma vê o corpo estatelado do falecido marido. A aventura deles começa com uma mudança radical, pois a mãe compra o hotel da estrada, o futuro Bates Motel, e as dores de cabeça dos dois começam a partir do momento que recebem a visita de Keith, antigo dono do estabelecimento. Ameaçada pelo homem, Norma não tem noção do perigo e cai na primeira emboscada ao ser assediada sexualmente, o estopim para tudo de ruim entre os Bates acontecer. Ao atrair os policiais da cidade por causa do ocorrido, Shelby é quem se destaca, sendo detentor de um segredo perturbador que move Norman na história.

 

Esse é um fator de muitos que perturba a família recém-chegada. Enquanto Norma defende o hotel, a rotina de Norman é bem comum. Ele não passa de um adolescente que virou novidade e que atrai a atenção de Bradley, a típica garota popular com o diferencial de ser legal demais para ser real. Norman também conhece a meiga, e por vezes irritante (as duas personagens tem seus momentos, na verdade), Emma, responsável em levá-lo a mais um pedaço misterioso da trama que nos guia ao submundo do tráfico sexual de mulheres. Esse assunto serve de reforço para as epifanias do personagem, pois ele tem sérias reprimendas quando o assunto é mulher e sexualidade. Esses são detalhes que Norma dita como errado e promíscuo, pois ela vê o filho como um bebê e Norman sente o doce e o amargo de ser privado de fazer algo como um adolescente normal, sendo que de normal ele não tem nada.

 

Claro que para adaptar a ideia para a televisão foi preciso enriquecê-la e torná-la atraente. Tenho certeza que os fãs mais hardcore de Psicose devem ter odiado a ideia do irmão mais velho de Norman, Dylan, o renegado por Norma. A história de Norman não deixa de ser o coração de tudo, bem como a ambientação com base no que foi feito em Psicose, mas, para a série se sustentar, foi necessário buscar fatores externos e mais modernos para atrair o público. Nos dilemas entre mãe e filho, há outros casos que se amarram até o final da história e que provocam a mudança de personalidade e de temperamento de Norman e Norma. Eles são altamente dependentes um do outro e não conseguem aceitar que um tenha uma rotina diferente, nem que se envolvam com outras pessoas. Todos os ares voltados para o drama psicológico e o quanto esses personagens são afetados por isso são bem realistas, e não tem como medir quem consegue ser o pior.

 

Foi realmente impossível não fazer um comparativo mental do que foi visto em Psicose com Bates Motel. Bati palminhas ao ver a escada famosa pela morte do detetive Arbogast, como também o quarto da mãe, uma locação extremamente importante para o desfecho desta história no cinema, um ponto que intriga do começo ao fim. O hotel ficou absolutamente impecável, um copia e cola do que Hitchcock montou no passado, com o grande diferencial de que agora tudo é colorido. Posso dizer que o lar dos Bates ficou do jeitinho que sempre imaginei quando assisti Psicose pela primeira vez. É meio nostálgico para quem tem esse conhecimento anterior. Eu fiquei o tempo todo mimando o cenário como se fosse meu, bem como o figurino e qualquer ponto de semelhança com o filme. O que mais gostei em Bates Motel é que foram respeitados detalhes importantíssimos que tornam Norman quem ele é, como o interesse pela taxidermia, um detalhe que faz/fará parte da decoração do hotel.

 

A série tem uma entonação moderna que brinca com detalhes antigos, como o figurino de Norma e Norman que respira a década de 60, como se ambos não tivessem evoluído. Eu senti estranheza com os aparatos tecnológicos em meio a uma história que aconteceu em outra época, mas isso não é um problema. O hotel ganhou ares vintage, uma casa antiga amarronzada de ponta de estrada, mas a trama recebeu retoques atuais para funcionar.

 

Bates Motel acertou no mistério, no suspense, na amarração de cada plot que nos leva a entender melhor o que há com Norman. A tensão instiga a necessidade de saber o que acontecerá logo em seguida. Vera está excelente no papel da mãe possessiva, misturando perfeitamente o doce e o amargo de lidar com Norman, como também de lidar com as próprias inseguranças. Ela é cínica e chantagista. Não tem como não adorá-la. Freddie conseguiu transmitir os trejeitos de Norman, especialmente quanto à dualidade do personagem que perde a cabeça quando é atordoado pela imaginação que ganha a voz da mãe, um problema psicológico que começa a ter destaque a partir da próxima temporada.

 

A série não tem vergonha de mostrar o quanto o lar dos Bates é desestruturado e incoerente. Quando um mistério se fecha, outro se abre, cada um mais empolgante que o outro no decorrer da primeira temporada. E, o mais importante, todos se concluem.

 

Em breve, postarei comentários sobre a segunda temporada.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3