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22/abr

Quando fiz meu primeiro post sobre Jornalismo, frisei bastante meu descontentamento com a área, como também os motivos errados que me fizeram escolhê-la. Citei que gostar de escrever não indica vocação para ser jornalista, um dos pontos mais delicados e que ainda faz muitos serem ludibriados, o que culmina naquela decepção básica após a graduação. Afinal, nessa profissão, a escrita é um meio para ganhar dinheiro e isso quer dizer que nem todo mundo escreve o que gosta. Isso só acontece se você tem um blog ou um portal e tem a sorte de faturar com eles. Daí, muda-se o lado do disco. Desde meu pedido de demissão, resolvi vasculhar as vagas de emprego dessa área para analisar o quanto estarei de mal a pior quando realmente correr atrás de um. Dei-me conta de que o Jornalismo pode muito bem mudar o nome para Choralismo (sem o n mesmo).

 

Eu poderia culpar a síndrome de que “todo mundo agora é jornalista”, pois basta “saber” escrever. Porém, na minha opinião, a área perdeu o brilho. Para mim, trata-se de uma profissão que, com o passar dos anos, se torna mais desvalorizada e, me desculpem, detentora de “profissionais” irresponsáveis. Hoje, os afortunados a serem jornalistas são aqueles que realmente amam a área ou que contam com o QI – Quem Indica. Quem não vê futuro – como eu – dificilmente abraça a profissão. O resultado: mudar de carreira. Eu tenho uma visão muito pessimista com relação a tudo que envolve o Choralismo, algo fomentado durante meus anos na universidade. Para ser bem sincera, eu indicaria essa profissão só para os inimigos.

 

O Jornalismo tem gerado muita choradeira – demissões em massa, descuido na publicação de artigos, arrogância para todos os lados (algo que sempre teve, mas parece que, por causa dessa coisa linda chamada internet, meio mundo se acha dono da razão), desemprego, falta de responsabilidade em cobrir determinados assuntos e assim por diante. Motivos fáceis para desencantar qualquer um. Eu poderia culpar a queda do diploma, um assunto tão velho e tão usado como desculpa para todos os deslizes jornalísticos que me cansa. Há 6 anos, quando comecei minha jornada acadêmica, não me ative a esse pedaço de papel, mas sim a ideia prazerosa de que escreveria. Uma tremenda iludida. Se eu tivesse escutado o professor de Jornalismo Impresso, que riu da minha cara quando disse que escolhi ser jornalista por querer me aventurar textualmente, eu teria me poupado da decepção.

 

Sim, eu poderia ter trancado a matrícula, mas eu não gosto de coisas inacabadas. Havia certas nuances do jornalismo que me atraía (e me atrai), como o online. Levei o curso até o fim e não posso dizer que saí em desvantagem. Tive muitas oportunidades legais por ser jornalista, mas com foco naquilo que gosto. O resquício da aparente escolha errada vem do fato de me sentir desnorteada profissionalmente. Ao contrário de muitos que se demitem e sabem o que virá a seguir, eu não sei. Isso ganhou um peso a mais quando li o artigo “ Os jornalistas que nunca chegarão a ser jornalistas”, que bateu lá no fundo e só aumentou o realismo de que não quero seguir esse caminho. O texto comenta que nem todos os formados chegam às redações, o que é bem verdade. Alguns amigos dos quais ainda converso da faculdade simplesmente mudaram de área. Ultimamente, é difícil exercer o papel de jornalista, pois não há tantas oportunidades.

 

Alguns colegas se renderam ao mercado efervescente do marketing digital e outros emendaram outra graduação. Outros nem precisaram dar uma reviravolta profissional, pois se mantiveram seguros nos antigos empregos e conseguiram se consolidar. Eu fui daquelas que abriu mão de tudo pela carreira, mas não fui bem-sucedida. Minha salvação foi terminar como webwriter, uma mudança automática e inesperada, pois achei que morreria em uma redação. Essa reviravolta me fez ver que era uma jornalista que não era jornalista. Amo a Websfera, mas não com o pensamento jornalístico – embora tenha bastante disso aqui no RG.

 

Eu adorei minha experiência como “a garota do conteúdo”, pois era um universo que não conhecia. Ao menos, não no formato que pede que você escreva em nome de um cliente. Um Ghost Writer. Muitos jornalistas não se submetem a isso por causa da ausência dos créditos, mas isso é uma questão de humildade. Quem quer aprendizado, não fica triste por que o nome que vai naquele trabalho é do cliente e não do autor original. Só é frustrante por causa do portfólio, pois são meses ou anos de trabalho que não são “seus”.

 

Jornalista x Webwriter

 

 

A minha experiência em agência de publicidade me deu muito conhecimento, talvez, não o suficiente, mas adquiri uma noção do que é o marketing digital e de todas as áreas que o engloba – planejamento, redes sociais, conteúdo, SEO, etc. É uma área que aprendi a amar durante meu primeiro emprego depois de graduada. Porém, o que acabou comigo foi justamente a monotonia e a falta de novidades. De repente, o trabalho se tornou automático. Acho que o mesmo acontece com quem atua há muito tempo na mesma editoria em uma redação grande. O trabalho fica engessado. Redatores não possuem tanta chance de crescer a não ser que mudem de área ou virem gerentes/editores-chefe. São conquistas de longo prazo que, muitas vezes, dependem da quantidade da mão de obra e do tempo de casa.

 

Eu me considero integrante do grupo de jornalistas que nunca chegarão a ser jornalistas. Ser Webwriter não tem nada a ver com Jornalismo, mas a graduação nessa área é um peso na hora de procurar emprego. Agências pedem comunicadores e isso quer dizer que elas exigem pessoas formadas. O diploma pode ter “caído”, mas nenhuma empresa quer botar a mão no fogo por um blogueiro que não passou pela faculdade. É dinheiro na roda. Eu trabalhei para o veículo online por quase dois anos, sem entrevistas, sem câmeras, sem laudas. Eu fui muito feliz, pois não gosto desses trâmites. Eu gosto de criar, o tempo inteiro, e isso quer dizer que sou aquela pessoa que funciona conforme o estado de espírito. Não sei como explicar isso, mas percebo facilmente quando um texto está legal ou quando a vontade de escrever é mínima. Eu preciso estar inspirada ou a coisa não flui, o que me fazia produzir pancadas de textos em determinados dias para não ser pega de surpresa.

 

Eu sou jornalista, mas nunca chegarei a ser uma, não só por causa da rotina que não me atrai, mas porque sou exigente e gosto de textos aprofundados. Se eu tivesse mais esperança com a profissão, acho que me daria bem com revistas de História por causa da pesquisa e do comprimento dos textos. Eu não consigo resumir um tema em 6 parágrafos, algo que aprendi a duras penas no meu antigo trabalho. Essa sempre foi minha maior dificuldade, especialmente na faculdade, pois, quando sou limitada, minha escrita fica confusa e com a sensação de que está incompleta. Eu sou muito intensa com as palavras, sou daquelas que se é para escrever, tem que escrever direito, e tenho um complexo eterno de que as informações precisam ser dadas nem que sejam em 10 laudas. Ninguém lê, mas quando publico sei que fiz um bom trabalho.

 

Ao longo do meu duelo com o Choralismo, aceitei que a área não é para mim. É muito difícil assumir isso depois das experiências na faculdade e tudo mais. Eu amei/odiei meu estágio, mas contei com uma pessoa em específico que me ensinou muitas coisas. Porém, vi que não tinha vocação para trabalhar com revistas, nem mesmo por ter prazos maiores, o que era um alívio. Pode ser fruto da minha imaginação, não sei. Nesta área, ninguém gosta de dar elogios a não ser recebê-los, então, é raro saber quando o seu trabalho está bacana. Se eu for culpar alguém por meus traumas na escrita, essa “pessoa” é o Jornalismo. Já disse que fiquei meses sem escrever.

 

Ao longo das minhas experiências, percebi que meu ritmo de trabalho não combina em nada com a profissão: eu combino os prazos com a chefia, ninguém me pressiona e não gosto de depender dos outros. Esses três itens já me expulsam dela. Eu encontrei toda essa liberdade como webwriter e, mesmo sozinha, as pessoas confiavam no que eu fazia. Elas poderiam não gostar do meu texto, nunca me disseram, mas jamais deixei cliente na mão.

 

Da mesma forma que ainda há os dinossauros que acreditam que o jornalismo impresso ainda vencerá o online, ainda há aqueles que só reconhecem o bom profissional se ele já sambou e fez balé em alguma redação de veículo conceituado. Um dos pontos mais interessantes do artigo que citei na abertura deste post é “não é demérito algum dizer para um jornalista que ele não será jornalista”. Quando alguém me pergunta sobre a área, eu tento ser imparcial, mas a vontade é dizer: não caia nessa, amiguinho. Claro que se a pessoa tem afinidade e ama a carreira, ela se dará bem (assim espero). No meu caso, não tenho um perfil marcante de comunicadora – por mais que meu signo geminiano afirme isso –, pois meu ascendente está em não quero depender de ninguém.

 

Fazer ou não fazer Jornalismo, Parte 2

 

A resposta que eu poderia dar para quem quer fazer Jornalismo é: não vale a pena. Porém, seria muito radical e insensível com o desejo dos outros. Assim, nada me impede de dizer – e repetir – que a área é dura demais. Se você acha que a escrita é tudo, reveja conceitos. Não há glamour, só se escreve o que o veículo manda e o salário é ruim para escutar muita lorota. Você pode ser a criatura mais popular da internet, mas o tratamento nada favorecido será igual para todos, até seu valor ser mostrado. Resumo da ópera: Jornalismo é para os apaixonados. Como qualquer carreira. É preciso ver todos os ângulos da profissão antes de decidir por ela. Não leve apenas em conta o fator escrita.

 

Repito: você não escreverá o que quer. Só fora da faculdade ou se tiver muita sorte. Ao encontrar um trabalho em um grande veículo de comunicação, você se portará aos moldes dele (se você não for Petista, terá que pagar de um, por exemplo). O Jornalismo só vale a pena se você amar a área e se importar com o mercado de trabalho. Há quem sai da profissão em depressão por causa do quanto se é exigido, do quanto se é humilhado. Digo por mim: chorei horrores quando abandonei o estágio por me sentir extremamente incapaz. Perguntei-me: como meu sonho se tornou um pesadelo?

 

Anos depois, descobri que vivia o sonho errado.

 

Eu queria ser como muitos que conheço que ainda veem magia no Jornalismo, mas é tanto processo antiético que prefiro continuar a dizer que sou webwriter. Muita coisa mudou no universo do Choralismo. Quem tinha o sonho de trabalhar em revista tem que concorrer com aqueles que possuem um currículo cheio de atividades extracurriculares (cursos e afins), o que torna impossível não se indagar como o cidadão adquiriu tanta experiência ao mesmo tempo em que estudava. As vagas de estágio, por exemplo, são uma pouca vergonha, pois pedem coisas absurdas aos candidatos, como se eles já tivessem experiência na área. Estágio é para se ter experiência, duh! Recrutadores não se lembram de que nem todo mundo tem grana. Muitos nem têm dinheiro para tirar xerox depois da aula (eu passei por isso). É revoltante e não tem como não chorar diante de uma situação tão desigual.

 

Eu acreditava que meu maior sonho era trabalhar em redação de revista e concretizei isso, mas não era o sonho da minha vida. Eu concretizei muitas coisas como jornalista, o que me impede de cuspir totalmente no prato. Eu tenho a graduação e, por mais que não exerça, preciso fazê-la valer de algo. Não é à toa que meus artigos jornalísticos foram feitos por vontade própria e sobre assuntos que gosto. Eu corro atrás do que quero cobrir. Não ganho nada com isso, mas, já disse, é satisfação pessoal e experiência. Infelizmente, o chororô sempre ficará por conta do idealismo da área, de pessoas chegarem à reta final e correrem o risco de ver que “não era tudo aquilo”. Todo mundo passa por alguma frustração e é importante se preparar para isso. Em qualquer âmbito da vida.

 

Por um lado, esvaziamos as redações, mas por outro engordamos a linha de jornalistas consultores, jornalistas programadores, jornalistas independentes, jornalistas designers, jornalistas professores, jornalistas digitais. Jornalistas.

 

O Choralismo tem uma penca de profissionais no mercado, mas poucos são ativos. É muito difícil arranjar emprego, especialmente quem acaba de sair da faculdade. Hoje em dia, um recém-formado precisa dominar até culinária. Sem contar que até o webwriter é desvalorizado, pois agências querem pagar um salário esdrúxulo ou optam por freelas para pagarem metade do valor. Se esse fosse um problema só dessa área, tudo bem, mas não é.

 

Hoje em dia, a maioria dos jornalistas é jornalista alguma coisa. Formar-se em Jornalismo não é mais o bastante. Antes de sair do meu trabalho, havia duas jornalistas formadas: minha ex-gerente e eu. Não exercíamos a profissão. Ela fazia Social Media e eu era webwriter. Mudamos de profissão, sem querer. São raras as pessoas que ainda insistem no Jornalismo de corpo e alma. Todo mundo é capaz de se formar, o desafio está em seguir adiante. Publicidade e Marketing são áreas que viraram os pontos de salvação para um formado que se convenceu de que viver só de Choralismo é o mesmo que pedir para sofrer de desgosto e para ficar estagnado. Literalmente, só quem tem vocação para aguentar os pepinos da área – e que são muitos. Tem que ter emocional para lidar com críticas à la Miranda Priestly.

 

Para aumentar a decepção (que já não é de hoje): o mais triste é ver que quem apresenta o noticiário do horário nobre nem formado em Jornalismo é. Basta procurar o currículo dos principais apresentadores da Globo. A maioria é formada em Publicidade. Por essas e outras razões que desencanei do Choralismo, pois, uma coisa que prezo é personalidade e muitos profissionais não são mais assim por aderirem os pensamentos dos veículos de comunicação.

 

Como diz o artigo, estamos em uma geração em que jornalistas nunca chegarão a ser jornalistas. Só sei que, se chegarem, é porque amam demais a carreira e estão muito a fim de se empenharem para abraçar o lado negro da força. Meu apoio está com vocês!

 

Vale a pena conferir o texto que inspirou o post: Os jornalistas que nunca chegarão a ser jornalistas.

Stefs
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  • Anônimo

    Estou numa situação bem similar. Sou formada, mas não sou apaixonada pela profissão. Agora estou sofrendo para encontrar um novo rumo profissional. Terminei a faculdade porque até gostava de uma coisa ou outra, mas a vida real é bem diferente. Queria jornalismo porque gostava de ler e escrever, e queria ajudar as pessoas. A vontade de ajudar as pessoas eu ainda tenho, mas não tenho muita certeza de como fazer isso. Vou arrumar um emprego qualquer por hora, e depois pensar na carreira. Estou numa crise maior do que aquele dos tempos do colégio. Cheia de dúvidas(risos).

  • heyrandomgirl

    Olá, Marina, obrigada pelo comentário!

    É sempre difícil controlar a emoção na hora de escrever sobre jornalismo, ainda mais depois de formada, onde a decepção tende a pesar mais que aquele sentimento de missão cumprida pós-faculdade. Mas, vamos que vamos.

    Obrigada mais uma vez e volte sempre. Beijoss!!

  • heyrandomgirl

    Olá, Jaqueline, obrigada pelo comentário. É bem difícil quando chega o momento a hora da verdade, mas é preciso sempre ter força.

    Beijos e volte sempre 😀

  • Jaqueline Lima

    É sempre difícil ler a realidade.
    Acho que vou passar a semana digerindo esse texto.

    Ótima reflexão.
    Vou tentar voltar aqui sempre :)

  • Marina Hortelan

    Que texto incrível, descreveu perfeitamente o que eu sinto sempre que penso na minha carreira. Parabéns!