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23/maio

Então, 28 anos de carreira, certo? Sei bem o quanto o peso da idade lhe preocupa. O reflexo disso está do lado direito da sua cabeça, onde há dezenas de fios brancos. Faltam dois anos para o tal auge aos 30 e espero que tenha muitos planos para provar que essa tese é verdadeira. Ficarei muito magoada se você não fizer isso. Pode apostar que irei!

 

Muito bem. Quando você pensou nesta ideia de jerico que deu origem a este post, achei que sua cabeça tinha ido de encontro à quina da pia. Desacreditei! Parecia algo vindo de um transe. Juro que tentei ser breve, mas sofremos do mesmo problema: escrever demais por achar que as palavras estão em pouca quantidade. Bem… 4 páginas sempre foi nossa média.

 

Lembro-me exatamente do momento em que esta data foi bloqueada. As pessoas devem achar que isso é recente, mas o repúdio pela data de nascimento veio aos 15 anos, ao som de How Did I Fall In Love With You dos Backstreet Boys. Não, gente, esse desprezo não nasceu por causa de uma desilusão amorosa, mas a palavra desilusão em si fez parte do conjunto da obra. A pessoa dona deste blog assistiu o casamento dos pais se desmantelar, teve que cuidar da irmã como se fosse uma filha e assumiu os perrengues de casa. Era muita coisa para uma garota de 15 anos que sempre viveu dentro de muitas regras. Claro que isso é suave em comparação ao que muitas meninas sofrem nessa mesma idade, mas cada um tem seu fardo, e o desta garota aleatória não foi dos mais leves de carregar.

 

Ainda não é.

 

Assim, foram 11 anos pulando o aniversário como se fossem ondas. A atitude criou um alerta vermelho e qualquer um que se atrevesse a dizer o tal “parabéns” corria o risco de levar um soco na boca. Nunca critiquei. Sempre imaginei que isso passaria. O que você fez no ano passado, lhe dando liberdade de ganhar presentes, bolos e felicitações, me encheu de orgulho. Afinal, você mudou um ponto fixo do tempo, algo que nem o Doctor se atreveria.

 

Como você mesma diz: nada é por acaso.

 

Uma das coisas que eu gostaria de lhe dizer… Na verdade relembrar, é que você nasceu cheia de limitações. Eu queria que você não tivesse me calado em uma época tão crítica, pois lhe diria que muitas coisas boas viriam depois da tempestade. Queria lhe dizer que você iria ao show dos Backstreet Boys, que aquela sua inimiga de classe lhe apresentaria Harry Potter, que as mudanças radicais lhe dariam independência e maturidade… Queria lhe dizer que as tais limitações colocariam uma jornalista (que não tem nada de jornalista) no mercado, com um senso divertido de frustração que viraria um blog para compartilhar coisas malucas e para inspirar outras pessoas. Queria ter lhe dito para ir com calma, que não se apressasse impulsionada por todas aquelas palavras doloridas que um dia lhe foram ditas.

 

Aquelas palavras que não a definiram.

 

Uma prova de que você é ótima com limitações veio muito cedo. Você nasceu com um probleminha nas pernas, lembra? Você corria o risco de nunca andar. O problema real nem foi isso, mas o quanto você foi solitária no decorrer do seu crescimento. Seus pais ficavam muito tempo fora, as babás não eram legais e, com o tempo, você teve que aprender a se virar. Da criança que adorava perseguir os meninos para dar-lhes uns belos murros, você se tornou uma adolescente leal às amigas, mas não leal consigo mesma. Você era a primeira pessoa que todo mundo recorria para chorar, mas ninguém tinha o tato de perguntar o que você sentia. Talvez, não por erro deles, mas porque você não dava liberdade.

 

Os 15 anos vieram com muitas provas, mas a grande questão foi: você seria ninguém ou seria alguém? Você preferiu ser alguém. Mesmo com tantos sonhos e expectativas esmagados por causa das limitações, os refúgios foram úteis para torná-la mais focada.

 

Por mais que não pareça, você bem que tentou ser amiga de muitas pessoas, até exagerou para poder se enquadrar. Por não se sentir querida em casa, você procurou ser querida em outros lugares. Tudo bem que a falsidade rolou solta – e você estava bem ciente disso –, mas aceitou. Você tinha sua turma, mas seu poder de barraqueira a fez ser aceita em outros grupos que não tinham nada a ver com sua personalidade. Todos sabiam seu nome, mas você não era o que Carson chamaria de clichê, aquela que subia a calça bailarina até o útero para chamar a atenção dos boys. Você nunca precisou disso, embora se apaixonasse com uma facilidade…

 

Que não existe mais, claro.

 

Eu fui calada durante muitos anos, pois sua vida se tornou uma camuflagem. A escola e a casa das amigas se tornaram perfeitas fugas. Daí veio a música e a escrita, fatores que ajudaram na sua sobrevivência. Há circunstâncias que vão para o bem, mas a vida dual sempre a deixou confusa. Você passou a ter duas vidas, mas a 2ª que envolvia a gangue do mal, aquela do antigo prédio que morávamos, era minha maior preocupação, pois liberava o seu pior. Toda sua ingenuidade foi destruída. Chantagem e manipulação se tornaram seus mecanismos de defesa. Eu a vi prestes a se tornar a pessoa mais amarga do universo por não se comover nem um pouco com a dor alheia ao ponto de apertar mais o machucado para ter prazer. Afinal, se ninguém se importava, por que você deveria, né? Ogra, mesmo! #Tapa

 

Nessa época, você honrou a dualidade do seu signo. Não dava para saber se o seu sorriso era bondoso ou um sinal de que a víbora logo se manifestaria. Juntas, aprendemos a arte da chantagem e da manipulação. Não porque queríamos, mas porque as circunstâncias nos forçaram. Isso nos ajudou a sobreviver. Vivemos sozinhas e precisávamos de uma dose de malandragem. Aprendemos a nos defender pelo ponto fraco alheio. Por isso, nunca mostramos nossas falhas. O gosto agridoce foi bom, até que eu a vi receber uma chamada de atenção que lhe marcou por muitos anos, mas que surtiu mudanças. Confesso que minha consciência ficou muito pesada, pois eu a deixei seguir por aquele tortuoso caminho para, no fim, escutar o que não merecia.

 

Isso virou uma fissura permanente.

 

Se é uma pessoa que entende da montanha-russa chamada adolescência é você. Mesmo com tantos momentos atribulados, você tem memórias incríveis. Lembra-se quando as amigas se juntaram para fazer cover das Spice Girls? Foi no aniversário de 15 anos de uma delas, vocês foram largadas sozinhas em casa, e começaram a cantar Who do You Think You Are. E aqueles momentos de vergonha alheia por causa do gato do colegial que deixava você e as amigas fora de órbita, mesmo que a panelinha fosse formada por um bando de pivetes? A cantoria na fila do show dos BSB? As viagens com a turma da escola? E os passinhos do axé decorados para arrasar na festa (sendo que ninguém notava nem você e suas amigas)? Eu a definiria como uma loser popular que foi tratada muito bem e que escandalizou na hora das tretas, especialmente quando a bola de Handebol parava em suas mãos de cavala. Eh, vida!

 

Você saiu da gangue do mal diferente. Você se tornou uma pessoa assertiva e racional. A situação na sua casa lhe tornou mais fria, mas houve a troca do prazer na dor pelo conforto das palavras. Você aprendeu a mostrar e não a falar. Conforme as mudanças aconteciam, você amadurecia, mesmo com o espírito de vilã. Você escolheu os bons amigos. Claro que isso não durou muito, pois as limitações sempre existiram, e eu a vi abandoná-los em desespero porque a grana ficou curta. Mas você conheceu outro lugar, uma nova cidade, teve uma única amiga que escreveu contigo uma fanfic a 4 mãos. Essa reviravolta que você tanto odiou moldou sua identidade. A identidade de uma garota que chorou horrores com uma nota baixa em Contabilidade. Tolinhos eram aqueles que achavam que você nunca ligava para nota. Que dó! Eles ativavam seu lado Spencer Hastings toda vez que a menosprezavam…

 

Ao longo dos anos, vi você lutar dentro das suas limitações. Muito lhe foi dito com apenas 15 anos, como sua provável incapacidade de ser alguém na vida. Enumere o que você é agora, como a Arya de Game of Thrones enumera os inimigos. Você foi mais longe do que sempre acreditou e eu gosto de ver através dos seus olhos o quanto isso bom. Por mais que se esconda na penumbra, há um orgulho contido por todas essas conquistas. Só quero que pare de esconder os seus talentos. Você tem muitos dons que podem sim ser compartilhados.

 

Eu vi muitos olhares de descrença ao seu redor, o sentimento de inferioridade lhe deixando maluca, mas você conseguiu provar muitas coisas, especialmente que não depende de ninguém para conseguir o que deseja. Nem puxar o saco, nem se humilhar. Você tem personalidade forte e detesta ser paparicada sem motivo.

 

Você não teve a sorte de ser norteada enquanto crescia. Você se norteou sozinha. Sua mãe foi uma doida e histérica com toda razão. Sua rebeldia teve até uma causa, mas quase a distorceu. O divórcio foi ruim, mas eu queria ter lhe dito que ele seria a maior revelação da sua vida. A sua fase ogra quase lhe destruiu. Você não era amiga de ninguém, nem de você mesma. Você machucou muita gente, especialmente as pessoas que a admiravam. Você queria que ninguém gostasse da sua pessoa e se empenhou fortemente para que isso acontecesse. Lembro-me da Hannah de Girls – uma de suas milhares fontes de inspiração – que disse que odiava as pessoas que a amavam. Você também detestava isso. Isso a fez ser temida, quase uma mini-Voldemort. Pior é que você não foi bem-sucedida. Quanto mais você repudiava, mas as pessoas se aproximavam. Dizem que as coisas ruins trazem coisas boas. E trouxeram. Você tem amor suficiente para sobreviver qualquer obstáculo.

 

Você continuou um bom tempo na rebeldia, pois era a máscara favorita que escondida sua fragilidade. Você criou refúgios, onde cada entrada lhe deu rendeu descobertas, boas e ruins. Mesmo com o apelo de Stefs DiLaurentis, você foi uma ótima amiga, se divertiu com o melhor dos anos 90 e tem memórias que deixariam qualquer um cheio de inveja. Você teve que viver muito cedo. Isso lhe rendeu uma alma anciã – apenas copiando o que deu no teste do Facebook, ok? Porém, o que importa é que você encontrou força em meio às paredes que estavam prestes a lhe esmagar.

 

Você ama os vilões por ter achado durante muito tempo que era uma arqui-inimiga, mas, na verdade, o problema estava nessa sua cabeça de vento. Vilões… Aqueles que escondem sentimentos com maldade. São racionais, assertivos, metódicos e focados. Escondem muitas coisas embaixo do tapete. Você é uma vilã. Você gosta de ser do contra. Gosta do anti-heroísmo. Você não gosta de ser fraca. Todo vilão sofre com as limitações, sente vontade de ser como o herói, mas prefere detonar tudo o que encontra no caminho. É o que disse lá em cima: o seu desejo era fazer com que as pessoas sentissem o que você sentia. Isso lhe dava aval para ser vilã. No seu filme adolescente, ninguém podia ser feliz.

 

Até que veio o plot twist e você percebeu que as coisas não funcionam assim. Isso se refletiu nas relações com a sua irmã que teve uma infância infeliz enquanto você tinha uma adolescência mais infeliz ainda. Vocês sempre tiveram uma a outra, e espero que continue assim. Lembro-me que foi difícil essa irmandade se estabelecer, achei piamente que ambas se odiariam. Eu achei que você nunca amaria sua irmã verdadeiramente por tê-la recusado muitas vezes em meio à rebeldia.

 

Há muitas coisas que eu gostaria de lhe dizer neste dia tão importante. Eu gostaria de ter sido mais presente na vida daquela adolescente que só queria ser a namorada do Leonardo DiCaprio. Eu queria ter dito que o aparelho nos dentes não importa, nem muito menos ter mais curvas que outras garotas… Queria dizer que você se arrependeria de anular toda aquela juba cheia de cachos só por achar que madeixas lisas a tornariam mais bonita… Mas há certas descobertas que acontecem ao longo do caminho e sem o apoio de ninguém. Mas eu só queria ter avisado que nada do que acontecia naquele momento lhe definiria para sempre. Você aprendeu que o que fazemos é o que nos define.

 

De novo: você achava que não seria nada, mas provou em todos esses anos que basta sua mente e seus sentimentos para driblar qualquer tipo de limitação. Você sabe que tem apoio dos melhores e o resto é uma corrida de Fórmula 1.

 

Por isso, quero que continue a pensar que o passado não define ninguém. Cada um é responsável pelas próprias escolhas. Seus pais se divorciaram, a situação tinha tudo para você ser uma perdida, mas você foi diferente, o que apenas afirma que nenhuma situação, por mais precária que seja, é totalmente responsável pelo que uma pessoa se transforma. A adolescência é o período da tentação, tudo se prova, tudo acontece, e é aqui que muitos se perdem. Você bateu na trave e voltou. Agora, é uma mulher de 28 anos, jornalista, blogueira, potterhead, whovian e afins… Um posto seu e de ninguém mais. Você ainda tem muitos medos por causa dos traumas, mas suas experiências lhe dão segurança para seguir em frente.

 

Só acho que você não merece carregar tudo sozinha. Nem sempre mostrar as fraquezas é sinônimo de vergonha. Você é humana. Tem direito de se sentir mal, não apenas 24 horas (essa sua lei de apenas 24 horas de tristeza… Oh! Uma bosta!). As circunstâncias a tornaram uma pessoa que, teoricamente, não precisa de outra. Mas você precisa sim. Em determinados momentos, não dá para carregar a vida louca sozinha. Eu até poderia dizer que odeio essa crosta que ainda há ao seu redor, essa defesa, mas é ela que lhe mantém no caminho.

 

Você passou por muitos bocados ao longo desses anos, engana-se quem acha que não há luta todos os dias. O que há dentro de você é uma livraria velha (sem ofensas!), com muitas folhas emboloradas de experiências. Você sabe quem realmente precisa de ajuda na hora que a depressão chega e o resto transfere para a lixeira chamada “drama desnecessário”. Isso lhe faz imune aos melodramas por causa do quanto viveu e do quanto penou para ser o que é. Você é um conjunto de vivências que ganham forma por meio das palavras.

 

Você sempre foi diferente. Você deixou de se preocupar com autoafirmação. Agora, você se acha o suficiente. Claro que há certos buracos a serem preenchidos, mas, no final, sabe-se que determinada coisa pode esperar, mas a jornada não. Tudo o que você fez ao longo desses duros anos a tornou incompreensível. E eu entendo, pois durmo, tomo café, escrevo, penso, respiro, revolto, entristeço tudo junto com você. Assim, o que posso desejar é que continuemos com esse trabalho mútuo. Quero que você trabalhe junto comigo para melhorar muitas coisas, especialmente como você se vê. Sei que você se gosta, mas há algo em específico que precisamos sentar e conversar, como duas damas.

 

Neste aniversário, conte suas bênçãos, e veja como sua vida é maravilhosa. Você é única. Em tudo. Por isso, não deixe de inspirar as pessoas. Há uma fonte imensurável dentro de você que precisa ser compartilhada. Sempre há alguém que precisa de um pouco de conforto…

 

Feliz aniversário,

Seu self.

 

If you can make it then the sun will rise. It doesn’t matter if you closed your eyes. Before you wake up, I’ll keep you safe tonight ‘cause I am a warrior and I’ll fight, I’ll fight, I’ll fight, I’ll fight
– Foxes, Warrior

Stefs
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  • Isis Renata

    incrível e pleno
    acho que é isso minha linda. conhece-te a ti mesmo. claro que a fundo somos um poço de descobertas que somente o tempo fará cada uma delas desabrochar, mas estar em paz e ter a certeza de que suas conquistas são passos firmes isso é tão bom! e é um respirar mais forte para mais uma jornada que se inicia.
    eu sempre amei aniversários, por N motivos. e eles causam reencontros e tantas outras coisas que amo. mas é bem isso, as palavras te consomem e que elas continuem te consumindo ano após ano
    meu querido padre, formado a 16 anos sempre gosta de dizer que entra ano e sai ano e ele aprende cada vez mais com a palavra de Deus.
    como você reconhecendo neste post tudo que aprendeu. e há sempre o novo, e novas conquistas e isso nos faz melhores.
    toda dor e todo amor são belos e efêmeros
    todos nós temos nossa cruz e nossa glória
    e esses momentos traçados são para compartilharmos de nosso bem maior que é o amor
    de amigo, de família etc

    que bom que tenho você!