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16/maio

Quem é que, quando era adolescente, nunca quis se encaixar? Esse é um dos dilemas de Rae Earl a protagonista de My Mad Fat Diary. Como sempre, algumas das minhas resenhas estão bem atrasadas, esta principalmente porque a 2ª temporada já terminou faz um tempinho, mas é aquela minha velha mania de escrever aos montes e depois não dar conta do recado. O que importa é que esta série maravilhosa precisa ser compartilhada com vocês.

 

Para quem tem aquela saudade danada dos anos 90, My Mad Fat Diary é um prato cheio de referências culturais desse período, justamente por se ambientar nele. Transmitida pelo canal E4 (o mesmo de Skins), a série foi inspirada no livro My Fat, Mad Teenage Diary, uma compilação dos diários escritos pela verdadeira Rae Earl ao longo da década de 80. Lá constam os relatos atribulados de uma adolescente (que atualmente é uma adulta) que sofria com muitos impasses, especialmente o de estar fora do peso. As diferenças entre livro-série começam pelos gostos da Rae original, como a paixão por Morrissey e os problemas com a mãe e seu namorado de Marrocos, ideias que compõem a trama da série, mas em uma época diferente.

 

O seriado britânico foi lançado em 2013 e conta com duas temporadas já finalizadas. A protagonista foi preservada, mas ela vive em 1996, período em que a música pop começou a ficar no auge, competindo atenção com o rock de bandas como Oasis – que é a paixão avassaladora da Rae da série. Já no primeiro episódio, me identifiquei com toda a proposta de My Mad Fat Diary, pois os anos 90 representam uma fatia nostálgica de muito, muito peso na minha vida. Ao contrário da Rae, ostentei duas gangues, mas me enfiei em incontáveis apuros, decepcionei e fui decepcionada. Quem nunca?

 

A trama não envolve personagens perfeitinhos e maquiados diretamente do Upper East Side. My Mad Fat Diary trata a adolescência tendo apoio de figuras de fácil identificação e que podem ser encontradas em qualquer vizinhança. Todos os personagens são sufocados dentro de uma fase que é ótima para alguns e desesperadora para outros. Os dilemas são muito reais e a dramática muito profunda de um jeito que a história de Rae pode muito bem ser a de qualquer garota. Ela é um exemplo de que, mais cedo ou mais tarde, tudo ficará bem.

 

My Mad Fat Diary chamou minha atenção não só pela trilha sonora formidável, mas por mostrar situações muito similares as que vivi quando tinha 14, 15 anos. A cada episódio, a trama causa uma verdadeira bagunça emocional e eu não poderia ter ficado mais grata em ter sido apresentada – créditos a minha sister – para uma série que representa perfeitamente uma década que muitos bateram de frente com o agridoce de ser o que é, sem a proteção de telas de computadores para disfarçar os defeitos com filtros, como acontece hoje em dia.

 

Por que My Mad Fat Diary é awesome?

 

A trama se desenrola na década de 90. Isso é o suficiente. Por mais que agrade diferentes faixas etárias, é obrigação de quem viveu nesse período conferir o seriado, pois ele dá um banho de nostalgia. Espere muitas referências culturais da época, especialmente de bandas como Backstreet Boys, Spice Girls, Blur, Oasis e Weezer. Há também as bagaceiras que eram a cereja do bolo de qualquer festa, como Macarena e Gangsters Paradise. Tem até Bombastic na trilha sonora, minha gente! Só este parágrafo deveria ser o bastante para vocês providenciarem a série para assistir.

 

A música embala as problemáticas de Rae, mas é o diário o coração de tudo por ser o grande suporte da trama. Por meio dele, a protagonista fica sempre na corda bomba, pois uma hora ela ganha todo nosso amor e na outra toda nossa raiva. Ela é adolescente e, como uma velhota, fiquei indignada com certas atitudes dela, mas logo a consciência avisou que não agi tão diferente. Que atire a primeira pedra quem nunca bateu a porta aos berros, quem nunca discutiu com os pais por razões ridículas, quem nunca se ofendeu quando a mãe lhe chamou de criança por não ter idade para ir à Matinê do Cabral (descavei essa, hein?), quem nunca mudou o visual para se encaixar no grupo dos populares… Tudo isso que pontuei está presente em My Mad Fat Diary, não só na storyline da Rae, como do cast adolescente que a acompanha.

 

O melhor de tudo é que sempre há uma lição em cada episódio, o que é muito bacana, pois faz parte do amadurecimento da Rae.

 

Balanço das temporadas

 

A 1ª temporada começa com a saída de Rae do hospital psiquiátrico por causa de um incidente. É a temporada de pertencer, de se redescobrir e de confrontar os fantasmas do passado. Os problemas de autoestima, de sobrepeso e de automutilação faz Rae tomar medidas drásticas, cuja consequência maior é a readaptação na vida real. Fora da zona de conforto, a personagem tem muito que lidar, pois sua rotina foi abalada, especialmente as relações com a mãe. Logo nas primeiras cenas do primeiro episódio, conhecemos Chloe, a melhor amiga popular e linda, e é por intermédio dela que conhecemos a gangue que, aos olhos de Rae, é uma passagem secreta ao paraíso.

 

Rae nunca foi popular e sempre se escondeu por se achar feia e gorda. Chloe se torna a chave para ela se adequar. Por meio da melhor amiga, a personagem tem acesso à gangue que é totalmente diferente de tudo o que ela viu na vida antes de ser internada – o que é muita coisa, pois as experiências dela são abaixo de 0. Aos poucos, Rae ganha o respeito da turma e sua vida passa a ser limitada a ela. Isso não é totalmente ruim, pois a panelinha a mantém equilibrada e feliz. Porém, nem tudo é arco-íris. Como qualquer relação, os problemas acontecem e Rae precisa lidar com eles, ainda mais quando as novas amizades começam a testá-la meio que indiretamente, especialmente no quesito autoestima.

 

Izzy, Archie, Finn e Chop dão mais graça ao seriado e exercem uma influência importantíssima na vida de Rae, especialmente quando ela desabafa sobre eles no diário de um jeito divertido e, por vezes, bem azedo. Pouco a pouco, conhecemos cada membro da gangue e toda a problemática que os envolve. Logo, a protagonista se sente especial por fazer parte do grupo. Tê-los por perto a inspira a se respeitar e a ser melhor consigo mesma. Por outro lado, Rae sente dificuldades de manter as relações por medo do que eles pensarão quando souberem do seu pequeno incidente.

 

Assim, Rae passa boa parte da 1ª temporada dedicada a uma vida dupla: uma com a gangue e a outra na terapia com Kester, o grilo falante que é nada mais, nada menos, o gaguinho do Prof. Quirrel. Rae bate de frente com uma nova realidade e precisa unir as duas partes de si mesma para abandonar a versão depreciativa. Com as paredes prestes a colidirem com ela no meio, os dilemas de ser ou não ser, de mudar quem é para se adaptar a um grupo descolado, de achar que não é boa o suficiente, testam a personagem.

 

Na 2ª temporada, Rae está em negação por motivos de spoilers que não serão dados neste post. O problema agora é o retorno à escola. A cabeça dela entra em parafuso só de pensar nas possibilidades de reviver episódios que impulsionaram o seu incidente mal-sucedido. Ao contrário da 1ª temporada, ela tem tudo o que uma adolescente almeja – o respeito da galera e um namorado gato –, mas as coisas despencam com rapidez. Não só para Rae, como para todos os membros da gangue. Por mais que tenha a turma para salvaguardá-la, as coisas começam a sair do controle a partir do momento em que decide ficar fora do radar para não ser motivo de piada por causa de experiências antigas que a traumatizaram.

 

Todos os personagens sofrem um singelo afastamento, pois querem se destacar individualmente. Muitos mudam à mercê das oportunidades, e Rae não fica muito longe disso. Em um ambiente que os caçadores selecionam suas presas para sacanearem até o fim do ensino médio, Rae só quer entrar muda e sair calada. Ela continua com a terapia, dessa vez em grupo, o que proporciona a chegada de Liam que só traz mais dores de cabeça. O cotidiano escolar é o plot central e as relações da gangue ficam bem delicadas.

 

Rae ainda tem altos conflitos com a mãe e é muito fácil detestá-la nesta temporada. A trama é bem mais intensa, pois se apoia em altas verdades que servem para balançar a lealdade dos membros da gangue. A briga da vez é saber quem é mais cretino que o outro e quem sobreviverá à cretinice. Tudo sem perder o bom humor, claro.

 

Mais motivos para assistir My Mad Fat Diary

 

My Mad Fat Diary é uma série muito sensível e que cativa muito rapidamente. Eu fiquei baqueada em cada episódio, pois era como se assistisse minha fase adolescente que teve praticamente os mesmos dilemas, os mesmos chororôs, os mesmos ímpetos de raiva e os mesmos testes de fidelidade dentro da turma. Até mesmo o fator diário era algo importante para mim, pois eu tinha zilhões. O seriado também é banhado de extremo bom humor, com momentos engraçados narrados por Rae, com direito a desenhinhos que tornam tudo um pouco hilariante. As lágrimas não ficam de fora, pois rolam muitas.

 

Esqueça o mundo de adolescentes riquinhos e chatinhos, pois aqui o buraco é mais embaixo. Não pense em uma adolescência dentro de um universo como o da série Skins, pois não é assim também. My Mad Fat Diary é uma ode aos adolescentes da década de 90, especialmente para aqueles que tinham a música ou o diário como alicerces e válvulas de escape. É muito difícil seriados tão distantes da década atual engatarem, como The Carrie Diaries que foi cancelada pela CW, mas espere algo incrível de assistir.

 

A premissa gira em torno de situações que se encaixam em qualquer geração, umas mais intensas que as outras. Baixa autoestima, desvalorização do self, adequação, sexualidade, primeiro amor e muitos outros assuntos dançam junto com a trilha sonora que já falei – e não cansarei de repetir – é absolutamente perfeita. Não tem como não suspirar com qualquer coisinha relacionada aos anos 90, como também não querer pertencer à gangue de Rae que, a cada episódio, se torna mais apaixonante (Chloe rainha <3).

 

My Mad Fat Diary relembra como os encontros presenciais eram geniais, como as panelinhas eram uma questão de sobrevivência, do quanto pertencer a algo especial pode tornar uma pessoa mais forte. Acima de tudo, há a valorização da amizade, algo que não vejo entre os jovens de hoje em dia que mensuram lealdade ao número de likes no Facebook ou a popularidade de um cidadão no Twitter ao ponto de babar tanto o ovo que dá vergonha.

 

Foi nos anos 90 que minha adolescência transcorreu e My Mad Fat Diary só me fez lembrar o quanto sou grata por isso. Foi a época em que conquistei amizades verdadeiras, que a música tinha mais significado, que escrever era uma terapia constante (ainda é, mas não no diário), que as pessoas realmente se preocupavam com os problemas dos outros. Foi a época em que um ia à casa do outro, nem que fosse só pra ver filme em bando, ou ficar até altas horas na escola só para bater papo. Pequenos momentos eram mais valorizados na minha época, pois não contava com as facilidades que existem hoje. Afirmo que sou muito feliz por ter curtido uma das melhores décadas e ver isso em uma série tão bem feita é de aplaudir de pé.

 

My Mad Fat Diary é emocionante, real, profundo e muitas coisas mais. Cada temporada é bem curtinha, nada fica nas reticências.

 

PS: Ainda não há confirmação para uma 3ª temporada, mas assistam de qualquer jeito.

Stefs
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