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14/jun

Encerro esta semana do Dia dos Namorados com uma dica de filme que não tem como foco principal o romance (mas tem muito amor!). The Normal Heart tem como background o início do surto da Aids em 1981. Não pensem que a premissa segue o mesmo estilo de Clube de Compras Dallas, pois, neste caso, os anos são diferentes, bem como o objetivo da trama. Sem contar que, por ser produzido pela HBO, não há pudor algum. Então, aviso: não assista se você tem desconforto com cenas bem (bemmm) quentes entre pessoas do mesmo sexo. Esse é um recado que depende do ponto de vista de cada um, claro, mas digo que é de boa.

 

The Normal Heart (2014) foi dirigido por Ryan Murphy. Estou até surpresa por este ser o segundo filme dele que resenho aqui no blog. Esse nome sempre diz muito, especialmente quando entoamos a palavra polêmica. Murphy é famoso por ir direto ao ponto em seus projetos, sem poupar nada, e é exatamente isso que acontece neste longa que gira em torno de uma história real. O roteiro foi inspirado na peça de Larry Kramer (que reconta a vida dele) e Murphy teve contato com ela na época da faculdade. Para deixar tudo mais interessante, ainda houve uma ajudinha de Brad Pitt no processo, uma parceria inusitada que trouxe um resultado bem positivo.

 

Ponto de partida

 

Ned Weeks

Há muitos personagens em The Normal Heart, mas o principal deles é Ned Weeks (Mark Ruffalo), um escritor homossexual. O filme começa com ele desembarcando em um lugar que chamaria de Olimpo por causa dos homens sarados, lindos, gays e cheios de amor para dar. Parecem até modelos de uma propaganda. Para infelicidade do próprio Ned, ele é uma péssima companhia por desaprovar certos comportamentos que acontecem por lá. Dá até para imaginar que é a 1ª vez que ele embarca nessa aventura, mas, na verdade, ele não vê sentido em fazer sexo só por fazer. O personagem é contra essa ostentação de ninguém é de ninguém, esse “espírito livre” que impulsiona qualquer um a uma dose de libertinagem. Na maior parte dessa cena, Ned fica de canto, desconfortável com a desinibição, e isso fica evidente quando ele vê, por acidente, uma orgia a céu aberto. Esse é um detalhe que deveria passar batido por causa da política gay da época que era o sexo, mas ele se preocupa, especialmente depois de ler uma matéria nada legal sobre “uma doença de gays”.

 

Por ser a apresentação da trama, vê-se o quanto as atitudes dos anos 60 e 70 continuaram enraizadas no começo da década de 80, onde o ato de explorar a própria sexualidade se manteve em alta. Isso deu espaço para um inimigo que parecia um tipo de castigo para os homens que tinham preferência pelo mesmo sexo: a Aids.

 

As coisas para o lado de Ned ficam intensas quando o namorado do seu melhor amigo passa mal no paraíso, dando os primeiros indícios da contaminação pelo vírus. Mais tarde, a morte dele causa o choque e o desejo de fazer alguma coisa. Isso faz o impacto causado pelo sentimento de perda o gatilho para muitos personagens caírem na real sobre o que acontece, porém, não é o bastante para gerar uma comoção de prevenção contra uma doença que foi chamada de “câncer gay” (termo usado no filme inteiro). Assim, a trama se divide entre os que reconhecem o dilema e os que continuam com as vidas sexuais ativas sem proteção e com diferentes (ou com vários de uma vez só ou só com o namorado) parceiros.

 

Mesmo com essa divisão, Ned e Bruce, bem como outros amigos próximos, desencadeiam a premissa central de The Normal Heart: fazer o governo reconhecer que esse “câncer” é uma pandemia e que a comunidade gay precisa de ajuda. Claro que essa missão não é simples, nem mesmo ao fundarem o Gay Men’s Health Crisis, organização com intuito de educar a comunidade sobre a Aids e de batalhar por um apoio governamental.

 

Adendo: no começo da década de 80, rolavam informações imprecisas sobre a Aids, pois não existiam provas sobre o que acontecia no sistema imunológico. Por causa do tipo de paciente, o rótulo de “câncer gay” foi até meados de 1985.

 

A parte do romance que citei no começo do post fica garantida com o relacionamento entre Ned e Felix (Matt Bomer). Ambos representam a parte mais humana da história. Li algumas resenhas que criticaram esse namoro, especialmente como ele começa. Eu não vi nada de errado. O que pode ser um pouco bizarro é o flashback que explica o interesse de Felix nele, mas esse momento é esquecido quando os dois começam a se envolver. Eles rendem muitas lágrimas dentro de um belíssimo plot, ainda mais por soar como um amor predestinado. Inclusive, há uma cena de sexo com todos os ângulos possíveis e inimagináveis – que também foi criticada. Para mim, o ato mostrou o compromisso tremendo de Murphy em mostrar a verdade nua e crua. Nada em preto e branco. Pode ter sido exagerada, mas o diretor nunca se poupou de nada. O que deslumbra é que o amor não é forçado, mas honesto e natural.

 

O interessante do filme é que ele traz pautas que pertenceram às mesas de debate da época sobre o “câncer gay”, e uma delas está amarrada com a Dra. Emma, interpretada por Julia Roberts. Ela representa a única pesquisadora empenhada em descobrir a causa do vírus, o que impulsiona vários atritos. A treta também rola solta com Bruce, o melhor amigo de Ned, aquele que representa a fatia “enrustida” da comunidade gay, aquele que impede muitas coisas por ter vergonha. Emma representa uma fonte de energia na vida desses homens, mas é falha ao tentar convencer um grupo sobre algo que não tem provas. As mortes causavam o alerta, mas nem todos retrocediam. Afinal, quem pararia de dormir com outra pessoa sem uma confirmação de que é um ato perigoso? Os únicos resquícios do “câncer gay” eram as marcas na pele, a perda de peso e a suposta contaminação por meio das relações sexuais. Porém, nada que constatasse tudo isso.

 

A timeline do filme vai até 1983, 2 anos depois dos primeiros sinais que começaram a preocupar Ned. Clube de Compras Dallas aborda o ano de 1986, período em que o governo já havia confirmado a existência do vírus. No caso de The Normal Heart, a visão é que os gays só tinham o sexo como diversão naquela época. Tirar isso era o mesmo que condená-los.

 

The Normal Heart abarca justamente o período em que a pandemia foi ignorada e os homens homossexuais foram vistos como anomalias. Para que a premissa funcionasse e convencesse, nada como um elenco compromissado (e renomado) – até nas mudanças do visual, como a perda de peso –para viver personagens agressivos e ao mesmo tempo tocantes, sem soar dramático de um jeito mamão com açúcar. Todos são destemidos, mas não escondem as inseguranças. Há muitos empecilhos, especialmente para Ned, cuja vida além da causa é mostrada, com abordagens que vão desde a crença dos pais na terapia para “curar” o homossexualismo até o sermão para que todos se aceitem como são.

 

Assim, a história perambula, ao som de uma trilha incrível, entre os embates e os desafios da comunidade gay da década de 80 que queria auxílio para combater uma praga que custou a ser levada a sério. Os debates energéticos trazem na medida do possível os medos e as esperanças dentro desse quadro caótico. Ao contrário de Clube de Compras Dallas, The Normal Heart amplia discussões, especialmente políticas. Os atores garantem uma atuação implacável ao se agarrarem na paranoia trazida pela existência da Aids, como se o inimigo estivesse o tempo todo a espera para dar o bote.

 

Considerações finais

 

O filme pega justamente o arco em que a Aids não tinha nome e nem causa. É tudo muito chocante. Ainda mais quando se lembra de que a propaganda de sexo seguro só aconteceu em 1985/86, motivada também pela constatação de que o vírus contamina homens heterossexuais e mulheres. Foi uma iniciativa tardia para aqueles que já estavam debilitados. Por abordar o começo da década de 80, The Normal Heart mostra muito bem a despreocupação da comunidade gay com relação à saúde sexual. Esse comportamento, alimentado nas décadas de 60 e 70 por causa da vibe de que o sexo era a maior demonstração gratuita de amor, trouxe um inimigo que a ciência ainda busca uma melhor compreensão. Naquela época, a situação era mais drástica, ao ponto dos contaminados serem vistos como bombas atômicas andantes.

 

Não tem como negar que a história do filme é inquietante. É bem fácil se indignar com certas coisas que acontecem. E nem tem como dizer que é mentira, pois, para mim, Murphy tentou ser suave (do jeito dele, uma porcentagem de 80%). Os outros 10% é minha crença de que a atitude da sociedade foi ainda mais baixa. Não dá para presumir tanto sem ter vivido.

 

Nessa época, a Aids se tornou um divisor de águas, realçou homofóbicos e arrogantes, criou zonas de quarentena por algo que ainda era incompreensível e alarmou a sociedade por causa dos mitos. O longa é desconcertante e o resultado é uma choradeira sem fim. Conforme o cerco fecha, a agonia cresce, e é impossível não ficar abismado. Não digo isso só por causa das cenas explícitas de sexo, mas pela preocupação de Murphy em perturbar, algo muito dele.

 

Só sei que fiquei estarrecida, especialmente com Mark Ruffalo. Ele deu energia ao personagem e surpreendeu com a atuação barulhenta e, ao mesmo tempo, sensível. Ned é caótico, voraz, agressivo, mas tem um coração enorme. Sendo bem sincera, eu não dava nada para ele. É fato que o elenco ralou para dar vida a personagens ardilosos e que despendem muita carga emocional para convencer e serem convencidos. Digo isso, especialmente, pela Julia Roberts, atriz que não gosto, mas que está excepcional. Algo que se nota bem no final é que não há figuras heterossexuais influentes na trama e nem tantas mulheres. O filme é fechado na proposta de centralizar tudo na comunidade gay.

 

Achei esse projeto muito superior a tudo o que Ryan Murphy já fez. O filme transmite sua mensagem por meio de diálogos fervorosos, cheios de significado. O diretor só mostrou verdades sobre um assunto que sacudiu a indústria farmacêutica da década de 80. Acima de tudo, mostrou que um relacionamento homossexual é igual ao de um heterossexual. Pode haver semelhanças de contexto com Clube de Compras Dallas, mas cada história segue seu curso (e acho que nada ainda vence a atuação do Matthew McConaughey em um enredo inspirado nesse tema).

 

The Normal Heart é profundo, um trabalho audacioso, com rostos conhecidos, sem regras, sem chorumelas e sem meias palavras. Trata-se de uma história furiosa, mas de muito coração.

 

Aviso importante: não se esqueçam dos lenços. Eu chorei like a baby.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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  • "The Normal Heart"(EUA,dir.Ryan Murphy, 2014), que acabo de
    assistir,um filme sobre a gênese da AIDS/HIV na Nova Iorque dos anos
    1980 é uma das experiências estéticas mais contundentes que tive em
    minha vida.

    Baseado numa peça teatral escrita por Larry Kramer
    em1985, nos narra as lutas políticas sobre o então "câncer gay". Os
    regimes de verdade produzidos sobre a epidemia; as dificuldades da
    comunidade gay em abdicar de sua liberdade sexual tão duramente
    construída, em prol da contenção da doença; a negligência do poder público diante da questão proposta pelas lideranças gays protagonistas do filme.

    É preciso sublinhar que "naquele momento histórico, silêncio, armário e
    vergonha significavam morte", lembra o diretor, a partir das conversas
    que teve com o roteirista Larry Kramer, que fez a obra com tons
    assumidamente biográficos.A atuação do Comitê da Crise da Saúde dos
    Homens Gays, fruto dos movimentos sociais pelos direitos civis
    homossexuais estadunidenses na década de 1980.

    "Os tempos
    mudaram, mas a discussão sobre a epidemia global da Aids é ainda tão
    importante e contemporânea quanto o debate sobre o casamento entre
    pessoas do mesmo sexo e a luta por termos, todos nós, o direito de
    sermos amados e aceitos como cidadãos, independentemente da afetividade
    sexual. A História provou que Larry estava certo. De herético, ele se
    transformou em um dos heróis do movimento pelos direitos civis dos gays
    nos EUA", nos diz Murphy."

    "The Normal Heart" é uma sequência de
    imagens sobre a vida, a morte, a vulnerabilidade, o governo e os
    governamentos dos corpos, da saúde coletiva … mas também dos
    silêncios, dos "armários" que sujeitam, das lutas dos movimentos sociais
    e as tensões dentro dos próprios grupos societários com "identidade" de
    gênero e de orientação sexual… não bastasse tudo isso, é uma bela
    narrativa sobre o amor que OUSA dizer seu nome, fazendo um trocadilho
    com a célebre citação de Oscar Wilde.