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05/jul

Geralmente, assisto filmes de terror muito bem acompanhada, mas, dessa vez, resolvi assistir O Espelho (Oculus) sozinha. Achei que morreria do coração, mas a boa nova é que sobrevivi, sem ter pesadelos ou medo de apreciar meu reflexo em qualquer coisa feita de vidro. Esse é um filme que não chamaria muito bem de terror (o trailer engana), pois o considero um suspense psicológico. É aquele tipo de filme que intriga por brincar com quem assiste. Mike Flanagan é o diretor, mas quem chama atenção é o produtor executivo Jason Blum, famoso por ter se empenhado em Atividade Paranormal e Sobrenatural (Insidious). Por causa disso, é fácil pensar que este filme tem a mesma montagem e a mesma premissa, mas nada disso acontece. Por mais que haja o uso de artifícios que já vimos – como filmar o sobrenatural – o espetáculo fica por conta dos efeitos psicológicos causados pelo espelho nos protagonistas.

 

Oculus

O Espelho não é um documentário e nem foi inspirado em fatos reais. Ele é comum, com uma storyline e um objetivo. Dois irmãos nos guiam pela trama por serem marcados pelos acontecimentos causados por um acessório comum das nossas casas que é dito como responsável em matar qualquer ser humano durante 200 anos. Assim, a história começa com Tim que, depois de 11 anos, sai de uma clínica psiquiátrica. O primeiro e único contato dele é Kaylie, a irmã bem-sucedida que espera ansiosamente a oportunidade de confrontar o antigo inimigo: o tal espelho. Tim não faz ideia que está incluso no plano (contra a sua vontade) e, ao estar diante da probabilidade de reviver uma situação que o marcou profundamente, nada resta a não ser bater de frente com o impasse. Kaylie é bem persuasiva nesse quesito.

 

Oculus

Quando Kaylie nos apresenta ao cenário em que a trama se desenrolará, logo somos tragados por cenas que se ramificam entre o presente e o passado desses dois personagens. Esse é o ponto do filme que li muitas reclamações, pois se trabalha bastante com flashbacks, de um jeito que é difícil reconhecê-los logo de cara, mas não impossível. Esse artifício é muito intrínseco da trama, um auxílio para entender o que realmente aconteceu com os irmãos. Admito que não fiquei confusa e considero essa empreitada a razão do filme ter funcionado tão bem. Inclusive, esses paralelos oportunizam um confronto de falsas memórias que colocam Tim e Kaylie em uma posição cética quanto ao que o outro presenciou no passado. Um enigma que até dá a entender que a família tem histórico de problemas mentais.

 

Esse reencontro e a imersão dentro de um fato que destruiu a família dos irmãos soam como a razão de Kaylie viver, pois ela quer “matar” aquilo que domina o espelho. É nessa hora que a trama falha, pois o roteiro não se aprofunda. Nesse quesito, a escrita é muito rasa, como se bastasse pendurar o espelho e esperar a noite rolar para o tal sobrenatural se manifestar. Nem mesmo as cenas que recontam o que aconteceu com a família ajudam a compreender o que de fato é o espelho. Sabemos que ele tem uma força poderosa, que suga as boas energias ao ponto de tornar uma família feliz totalmente disfuncional e irresponsável. Há muita paranoia, muito caos, muita ilusão típica de um espelho, mas não sabemos o que de fato ele é e os motivos dele provocar tanta coisa ruim.

 

Oculus

Em contrapartida, o que torna O Espelho interessante é a brincadeira mental que beira à ilusão. No decorrer da trama, os irmãos não sabem o que é real de um jeito que prende quem assiste. Eu fiquei totalmente envolvida. Praticamente, o que aconteceu antes começa a se repetir. Em meio aos sussurros, às sombras e ao medo claustrofóbico de não saber o que acontecerá – justamente porque não há uma explicação para o espelho –, as cenas do passado começam a colidir com as do presente, e vimos o que de fato aconteceu com a família dos irmãos e como tudo terminou. É esse desenrolar que mexe com o psicológico dos personagens que torna o filme atraente e dá um pouco da vivência do terror. Isso abre espaço para as suposições em meio a uma brincadeira muito bem amarrada e que propicia a enganação dentro do conflito entre real e sobrenatural. A tensão não torna a história tão previsível e se apoia em incontáveis saltos a cada cena, simplesmente impossível não mergulhar no que acontece. A ideia central do espelho é provocar ilusões e ele se sai bem-sucedido.

 

Porém, isso não faz O Espelho um filme que chamaria de terror. Ele é um suspense que não oferece respostas suficientes para o que acontece, mas conquista por causa do apelo psicológico. É isso que o torna muito bacana. Não tem como não ficar vidrado, sério. Rendeu até alguns sustinhos e expressões de choque. Muitos acharam que a trama não linear foi motivo para deixar o longa ruim, mas achei que essa sacada o tornou interessante e que o salvou da ruína total. A montagem do filme é o que o sustenta, bem como os cortes e os rodopios da câmera, e a ausência de um ponto de vista fixo. Os irmãos são tudo o que o espelho tem para destruir. Não é à toa que só os dois ficam no foco da trama.

 

Oculus

Vale dizer que O Espelho também se distancia um pouco do que foi apresentado nos últimos anos no que condiz ao universo do suspense e do terror. Há muitos clichês herdados desde Atividade Paranormal, como filmar o ambiente para confrontar o sobrenatural, mas isso não faz parte do plot central. Os irmãos se saem como marionetes de um espelho, cujos efeitos na casa são notáveis, dando irrelevância para as gravações. O roteiro trabalha diretamente na briga contra algo invisível e os personagens combatem o que quer que seja. É o que o torna um bom filme apesar das falhas.

 

A parte negativa é a falta de respostas, o que deixa o filme sem profundidade. Mesmo com tanta riqueza de detalhes e com tensão suficiente para nos tragar, a trama se esqueceu do crucial. E isso é uma pena, pois, já que não tem terror escancarado, a mitologia do espelho foi ignorada. Mesmo com um final arrebatador, as perguntas do por que e como continuam amargas quando os créditos sobem. O Espelho seria 100% se respondesse essas questões, o que pode dar aval para uma continuação, o que não é uma boa pedida.

 

Oculus

Dessa vez, deu pra sentir mais a atuação da Karen. A melhor cena dela é quando Kaylie narra as mortes daqueles que conviveram ou desafiaram o espelho com uma entonação incisiva, de um jeito que consegue convencer sobre a gravidade do objeto. Kaylie ainda não é desafiadora o bastante, mas distancia a atriz da doce Amy Pond em Doctor Who. De uma aparente louca e apaixonada pelo espelho, ela se revela uma garota que não se dá por vencida e que só quer respostas. Karen conseguiu trazer as várias nuances da personagem de um jeito que cheguei a admitir o quanto Kaylie é irritante e intrusiva.

 

O bacana é que, por mais que não haja certas conclusões, o filme foi bem recebido, detalhe que me surpreendeu bastante. Eu adorei O Espelho, de verdade, especialmente o final que me deixou bem chocada. Alguns dizem que foi um encerramento óbvio, mas eu estava tão imersa que me vi dando um pulo da cadeira.

 

Vale a pena assistir O Espelho. Até porque tem James Lafferty, o Nathan Scott de One Tree Hill.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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