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18/jul

Hoje, a dica de filme vai para When Calls the Heart (2013), adaptação produzida pelo canal Hallmark. Ainda tento entender porque a Maggie Grace está no pôster, sendo que a história que envolve a sua personagem é apenas um plano de fundo. Inspirado no livro de Janette Oke (que faz parte da série Canadian West), há outros rostos conhecidos como Stephen Amell e Daniel Sharman (uma pessoa que também pertence a minha lista de amores platônicos). No geral, trata-se de um romance mamão com açúcar que parece uma costela da Jane Austen. Digo isso por causa da premissa que denuncia o apoio em pontos-chave que fazem parte do universo da escritora de Orgulho e Preconceito (e tantos outros títulos sensacionais). A premissa traz um romance gentil e dócil, e uma pausa para reflexão sobre o que queremos ser e qual caminho devemos seguir.

 

A história de When Calls the Heart se desenrola em 1910. Logo, conhecemos a nossa protagonista, Elizabeth Thatcher, uma aspirante a professora que não gosta da ideia de ser controlada, especialmente por homens. Honrando o nome que tem, ela quer quebrar as amarras com os pais, acha a irmã e o mundo literário dela uma insolência e acredita piamente que mulheres não dependem do casamento para serem felizes. Elizabeth só tem foco na carreira e no desejo incessante de ser independente, mas o problema é que ela não passa de uma filhinha do papai que não se garante fora do ninho muito bem podado pela família. Logo na primeira cena, a personagem se vê em uma entrevista para abocanhar uma vaga de professora, mas se dá mal por causa da recusa perante o atrevimento de Wynn. Isso influencia na vingança que desencadeia a história, cuja proposta muda e ela se vê encaminhada para dar aula no meio do nada, no oeste, em um lugar cheio de perigos chamado Coal Valley.

 

Literalmente, o tal chamado é o “atrito” sutil da trama, como uma pincelada de tinta em uma folha em branco. Para uma pessoa que quer independência, a oferta poderia ser uma bênção, mas o filme retrata uma época em que a mulher, especialmente muito jovem, ainda era controlada pelos pais. Porém, vale lembrar que muitas começaram a quebrar as amarras nesse período por causa da promessa do novo século. Elizabeth poderia simplesmente dizer sim, mas ela lida com o desafio de ir ou não para Coal Valley por causa da inabilidade de se virar sozinha e do receio dos pais. O que contribui para o filme envolver um pouquinho, em meio à baixa oferta de conflitos, é o diário que Elizabeth encontra perdido no fundo da estante assinado pela tia de mesmo nome que reconta o seu dever na mesma região, também como professora.

 

Por causa da Elizabeth do flashback, When Calls the Heart ganha sua entonação amorosa. Vale dizer que a relação dela com as crianças é de fazer chorar. O flashback causado pelo diário traz cenas de romance e de aprendizado, representado pelos personagens da Maggie e do Stephen que servem de reprise para o que Elizabeth passa quanto às próprias decisões e ao que começa a sentir por Edward. O encontro entre passado e presente funciona, um recontar de pura meiguice. O diário se torna um reflexo de tudo o que acontece na história, mas cabe à Elizabeth do presente optar pelo que bem entende. Enquanto esse plano de fundo é revelado fragmento por fragmento conforme a leitura, a protagonista aprende que nem tudo é como imagina. A cada revirar de página, ela quebra a cara, especialmente no que condiz ao amor. Basicamente, a vida de Elizabeth se torna um repeteco do que aconteceu com a sua xará, mas de um jeito destrambelhado e cômico.

 

As palavras do diário se tornam um conselho de tia para sobrinha. É uma relação bem sonhadora, como quando lemos um livro. When Calls the Heart se revela como uma história dentro da outra e a entonação reflexiva aparece nos minutos finais na voz do pai de Elizabeth. Embora haja o romance e o dilema simplório da personagem em tentar provar que é capaz de se mandar e se virar, a mensagem final não tem foco romântico, mas no que queremos para nossas vidas. Tudo gira em torno da decisão de Elizabeth em uma época em que a mulher não era “totalmente livre”, pois não era “permitido” seguir as rédeas do próprio destino e quebrar as regras tradicionais da sociedade da época.

 

When Calls the Heart é um filme sensível e não totalmente romântico. As duas Elizabeth não almejaram a independência longe dos pais por causa de um amor arrebatador, mas por quererem abraçar um desejo que o coração dizia ser o caminho certo. As personagens se assemelham não só no nome e na vocação, mas no desejo de fazer a diferença. Ambas acreditam no sonho. A adaptação brinca com expectativa e realidade, e aproveita para conflitar o que elas querem e o que os outros esperam. A Elizabeth do presente poderia ficar em casa, na zona de conforto, mas ergueu o queixo em recusa por estar convicta do próprio destino. Ninguém sabe o que há além da linha se não ultrapassá-la, e é isso que a protagonista combate consigo mesma. Elizabeth tem muito da Elizabeth Bennet de Austen. Claro que nem vale a comparação, mas ela simplesmente é cabeça dura e energética para defender suas crenças. E há aquela “antipatia” pelo amor…

 

A adaptação não se esquece de mostrar o quanto a vida tem mais valor com um propósito. Há muita reflexão sobre a providência divina, ou seja, a temida vocação. Esse viés é um chacoalhão bem de leve, mas o bastante para rebater em todos os personagens que se entrelaçam na trama. É um ponto essencial que transparece o pensamento de que não somos fadados a viver da mesma maneira para sempre, pois há o contraponto que causa a reviravolta que nem esperamos. Esse detalhe calha no personagem de Sharman que, de um adolescente imprudente, se torna um soldado e se redescobriu na carreira.

 

Vale um adendo sobre a relação das irmãs, ambas bem diferentes no jeito de verem a vida. Enquanto Julie tem uma mente romantizada e uma imaginação fértil por causa do excesso de leitura, Elizabeth é racional, cética e boca dura. Infelizmente, a repetição desses estereótipos que remetem muito a personagens como as de Austen não garantem performances fortes. Porém, ambas são engraçadas e rendem as melhores cenas do filme.

 

No final das contas, cada um precisa viver o seu propósito. Não tem como não rir e não se emocionar nem que seja um pouquinho com When Calls the Heart. Infelizmente, eu não tenho conhecimento do livro para debater a fidelidade. Mesmo fraco, acredito que só quem goste muito desse gênero terá mais facilidade de se encantar e de sentir o coração aquecido. A adaptação me cativou por causa da simplicidade, sem grandes reviravoltas. Enfim, é um filme muito amorzinho e tá na lista de preferidos.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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