Menu:
08/set

Irmandade. Aquela que vem de sangue. Aquela que nasce basicamente do mesmo DNA.

 

Irmandade. Aquela relação por vezes difícil por causa da pilha de qualidades e de defeitos.

 

Irmandade. Aquele confronto constante.

 

Considerando o que dizem, não há elo mais forte que o de irmãos.

 

Geralmente, a irmandade nasce com um cala a boca ou tira a mão das minhas coisas para se alguém mexer com você, espanco o filho da mãe ou vamos tomar uma breja e bater um papo.

 

Porém, há irmandades que nascem da indiferença. Esse é o caso de Sally e de Harriett.

 

Essa é uma história baseada em fatos reais.

 

Personagens de Pretty Little Liars usadas como inspiração para criação da imagem. Infelizmente, elas não são minhas, mas a edit sim.

 

De longe, elas poderiam muito bem fazer parte do grupo de irmãs que não se suportam. Daquele grupo de irmãs que não consegue respirar o mesmo oxigênio e nem fazer a gentileza de ajudar a tirar a mesa depois do almoço de domingo. Ainda bem que existem casos raros em que irmãs são sinônimas de melhores amigas.

 

Sally cresceu sozinha, na companhia de incontáveis amigos imaginários. Sua mãe sempre aparecia de surpresa em seu quarto para saber com quem ela tanto conversava. E ela sempre parava de chofre, os olhos castanhos arregalados, as bochechas queimando de vergonha pelo flagra. Para disfarçar, metia um sorriso amarelo nos lábios e emendava a explicação que virara sua defensiva automática: estava cantando.

 

Mentira, óbvio!

 

Aquela desculpa durou por muito tempo até Sally perceber que alguma coisa faltava. Não era sua Barbie bailarina, nem muito menos o disco da dupla Sandy & Jr. Não era um urso na prateleira. Nem muito menos aquele pacote de bolacha largado em cima da escrivaninha que sempre sujava sua sequência de tabuadas.

 

Era falta de companhia.

 

Sally queria uma companhia. Estava cansada de olhar para as paredes e falar com elas. De brincar com as bonecas que não tinham mais a menor graça.

 

Como se fosse Natal, a menina se esgueirou pela mesa da cozinha, apertou os dedos miúdos e gorduchos na borda dela e falou em alto e bom som para a mãe: eu quero uma irmã.

 

Pedido atendido. Um pedido que se chamou Harriett.

 

Com 8 anos, Sally caminhou por aqueles corredores horrendos do hospital até chegar à maternidade. Viu o seu desejo ali, dentro de um embrulho cor de rosa, entregue a um sono profundo. Piscou, incontáveis vezes, como se estivesse diante de um alienígena. Tentava entender se aquilo era sua irmã.

 

Mente de criança é uma coisa um tanto quanto esquisita…

 

Ela não soube formar uma opinião sobre o seu pedido atendido. Deveria ficar feliz? Agradecida? Deveria pular? Pegar aquele embrulho e jogá-lo para o alto? Ou desempacotá-lo? Ao invés disso tudo, Sally ficou atônita diante da sua irmã, os pensamentos embaralhados por não saber como reagir. Estava feliz e ao mesmo tempo não estava.

 

Por qual motivo?

 

Sally concluiu que teria que esperar anos para brincar com ela.

 

Como toda boa convivência entre irmãs, o ciúme se torna aquela sobremesa repetitiva, mas que nunca perde o sabor. Birras, caras de choro, revirar de olhos… Sally começava a se arrepender do seu presente que se tornou de todo mundo. Ela bateu de frente com o impacto de ninguém querer saber da sua existência.

 

Não era proposital, claro, mas mente de criança é uma coisa doida.

 

Essa situação atordoou Sally. Infelizmente, não há receita para encarar uma rejeição da melhor maneira possível, ainda mais com 8 anos de idade.

 

Isso a revoltou. E a tornou meio maligna.

 

Os 8 anos de diferença pesaram entre as irmãs. Harriett crescia a passos lentos e Sally mergulhava na fase popularmente conhecida como inferno na terra. Ou seja, a adolescência.

 

As regras dessa fase são muitas, porém, únicas: curtir as BFF, dormir fora, paquerar, caçoar da cara de alguém, etc. O presente passou a ser o maior empecilho de Sally. Ela se viu empacada. Não podia fazer muitas coisas porque a irmã tinha se tornado a sua responsabilidade. E isso incluía trocar as fraldas e buscá-la na creche.

 

Ambas não tiveram tempo de brincarem juntas.

 

Nem muito menos de se conhecerem.

 

Sally não queria saber de Harriett.

 

Harriett criou um mundo particular com seus amigos imaginários, como a irmã mais velha tinha feito quando se sentia sozinha.

 

Era um saco lidar com Harriett, Sally resmungava. Era um saco ser impedida de qualquer coisa por ter que ficar com a irmã. Quem é que nunca passou por isso, certo? Como todo aborrecente sem limites, o lado maligno de Sally aflorou. Teve até direito a defensiva causada pelo medo de alguém pará-la na rua por pensar que ela seria a mãe de Harriett. Bizarro, sim, claro.

 

As ondas de descasos começaram. Sally sabia lá no fundo que certas decisões inspiradas pela rebeldia dos seus hormônios eram erradas. Mas isso não a impediu de ser um pouco megera.

 

E esse lado megera foi intensificado quando chegou a hora do divórcio dos pais.

 

As coisas mudaram bruscamente quando Harriett tinha 6 anos e Sally 14. Foi com esse soco no estômago que Sally percebeu que, de todas as pessoas no mundo, sua irmã era a que mais precisaria dela. Porém, ela estava em um círculo que muitos chamariam de destrutivo, justamente para se esquecer do que rolava em casa.

 

Harriett se tornou a esponja. Absorvia tudo, sem entender nada.

 

Sally assumiu o escarcéu familiar como uma perfeita adolescente drama queen.

 

Esse acontecimento, e tantos outros, poderiam fadar a irmandade para sempre.

 

Ainda havia o peso dos 8 anos de diferença. A salvação da irmandade ocorreu por causa de uma nova mudança inesperada de cenário. Um movimento digno de blefe em um jogo de pôquer. Os 8 anos de diferença foram responsáveis por muitas desavenças tortuosas que poderiam separá-las para sempre. Sem notarem, uma se tornou o escudo da outra. Sem notarem, criaram um muro contra qualquer impacto que pudessem tirá-las do eixo.

 

Sally não brincou com a irmã, mas virou conselheira de Harriett. E vice-versa. Ambas criaram um mundo particular, um mundo inatingível. Elas falam a mesma língua, têm os mesmos gostos, e até o mesmo timbre de voz. O que as separaram deu aval para uni-las, e essa irmandade se tornou intolerante aos impactos externos. Daquele jeito, mexeu com você, mexeu comigo.

 

Há males que vão para o bem. Os problemas diminuíram, os resquícios e as marcas cicatrizaram à sua maneira. Anos mais tarde só restaram as duas, em um jardim secreto chamado Amas Veritas, donas de uma irmandade inquebrável.

 

Não havia mais o peso dos 8 anos de diferença.

 

As diferenças as tornaram duas estranhas isoladas em cômodos separados que só tinham contato na hora de dormir por dividirem o mesmo quarto. O passar dos anos tornou esse quarto, sempre digno de tretas separatistas, o antro para as irmãs serem elas mesmas.

 

Há muitas diferenças quando o assunto é irmandade. Sally e Harriett preferiram ficar com aquela versão que se fortalece nos resultados de impasses. Os problemas as amadureceram. Ao olhá-las, é fácil notar que elas não seriam boas amigas com pouca idade.

 

Sally e Harriett são irmãs. Melhor que isso, são melhores amigas.

 

Elas encontraram um meio-termo, um solo comum que ainda é minado por causa da vida. De mãos dadas, como uma boa dupla, ambas sabem o momento certo de dar o salto. Ambas se tornaram o alicerce uma da outra. Ambas sabem o que a outra sente. Ambas sabem quando precisam alfinetar ou jogar umas verdades na cara da outra. Ambas sabem quando é o momento de ficarem no mesmo quarto, estiradas na cama, projetando o que farão com a própria vida, como também o momento em que precisam ficar em cômodos separados.

 

Elas conquistaram uma amizade que nasceu da indiferença. Uma tem a outra, e isso basta.

 

Hoje, ambas compartilham sonhos, medos e um casaco de frio. Ambas podem passar horas e horas sem se falarem, mas não conseguem ficar em silêncio por muito tempo. Ambas ainda se pentelham, brigam, se estressam, mas, no final do dia, é possível vê-las em algum canto, lado a lado, assistindo a vida e sendo assistida por ela.

 

Elas começaram com vou te queimar com a chapinha para vamos no Mc pra falar da vida?

 

Aquela foto velha que a gente tanto gosta…

 

N/A: este texto é para a minha irmã, a razão do meu pavor de ser chamada de mãe tão cedo. Porém, foi ela quem me ameaçou com a chapinha. Só queria dizer que você é preciosa e linda, e eu te amo muito. Feliz aniversário! <3

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3