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05/set

Sabe aquele tipo de filme que a cada cena você pensa: poxa vida, não é que é assim mesmo? Minha cabeça repetiu essa indagação (em forma de afirmação) enquanto assistia Confissões de Adolescente – O Filme. Como muitos brasileiros que tiveram contato com a série lá na década de 90, lá na TV Cultura, fiquei com receio de assisti-lo por causa da pegada modernizada aos dias atuais, mas, no fim, compreendi a necessidade da bela repaginada. Por ser um longa que fala com o jovem, nada mais sensato que se inspirar nos moldes do século 21. Não sei, mas acho que não agradaria se os personagens permanecessem como nos anos 90. Haveria um impacto de geração muito grande e acho que dificilmente vingaria.

 

Para quem não sabe, o filme é inspirado no livro de mesmo nome assinado por Maria Mariana (que fez parte do elenco da série) que já ganhou não só uma adaptação para TV, mas para o teatro também. Em formato cinematográfico, o contexto é diferente, bem como o nome das personagens principais. Dirigido por Daniel Filho, a trama ainda gira em torno da vivência de Paulo com as 4 filhas que se chamam Tina, Bianca, Alice e Karina. Elas seriam Diana, Bárbara, Natália e Carol, respectivamente. Antes de ir ao que interessa, a trama pontua uma crise familiar causada pelo aumento do aluguel. Paulo explica a necessidade de mudança e as adolescentes batem o pé. Motivo? Aquele que todo adolescente resmunga: a vida delas é ali por causa da escola e dos amigos. O ali é na Barra da Tijuca. Esse assunto é só um background que abre uma reflexão sobre economizar e é engraçado ver a reação delas porque é como acontece na vida real.

 

O desperdício de dinheiro e a falta de tato das filhas, tormentos na vida de muitos pais, vira a arma de Paulo para fazê-las entenderem o valor do dinheiro. Desesperadas, as irmãs se comprometem a diminuir os gastos e até assumem o trabalho doméstico. Esse plot logo é esquecido por causa das outras histórias que se desenrolam separadamente, cada uma focada em experiências que provocam os altos e baixos típicos da adolescência.

 

As 4 irmãs representam 4 perfis diferentes de adolescentes que podem ser encontrados em qualquer estação de metrô. Tina terminou o ensino médio e está na faculdade, desesperada por um emprego para ter uma vida independente (que continua dependente) do pai. Alice fica presa ao tema virgindade. Karina se vê em um romance à la Crepúsculo e fatura uma graninha extra ao consertar computadores. Bianca é a apaziguadora da turma da escola, aquela que nunca tem problema com alguém, a não ser com o pai que quer porque quer que ela seja advogada como ele. No filme, o quarteto lida com diversos conflitos comuns dessa idade.

 

Assim como na série, o longa brasileiro preserva a relação fraternal entre as irmãs. Uma se preocupa com a outra. Juntas, elas compartilham vivências e se auxiliam em meio às intempéries pessoais. As histórias se preocupam em mostrar os conflitos, os dramas e as delícias da adolescência do ponto de vista de cada uma delas. Nem é possível lembrar que elas estão em meio a uma crise financeira, pois as storylines ficam bem envolventes.

 

Quando disse que o contexto de Confissões de Adolescente – O Filme era diferente dos anos 90, me referi ao tema conectividade. É assim que os jovens se comunicam hoje em dia e, ao assisti-lo, você percebe que essa readaptação no roteiro foi necessária. Claro que quem acompanhou a série gostaria de ver o filme nos moldes antigos (e, quando veem, resmunga por falta de ler a sinopse e de ver o trailer), mas a ideia funciona e garante dramas e risos na medida certa. Os conflitos até que cativam. Honestamente, não esperava que fosse gostar tanto dele. Foi divertido ter uma visão parcial de como é a adolescência de agora e fazer um comparativo mental com a minha. Percebi que vivi momentos semelhantes, com a diferença de não ter curtido essa fase com redes sociais, e me senti ainda mais velha.

 

A pegada de conectividade foi uma grata surpresa, pois a ideia funcionou. A edição de imagem do filme brinca muito com isso: as SMS e as páginas no Facebook no canto da tela, vídeos em formato do YouTube e a abertura com cara de Windows 8. O uso desses artifícios não deixou o filme frio por causa da tecnologia, algo que poderia acontecer facilmente. Isso o tornou visualmente mais interessante. O filme é sensível mesmo com a presença das redes sociais e é embalado por uma trilha sonora incrível. A internet e as redes sociais não possuem tanto foco quanto aparentam e, quando ganham atenção, servem de adendo à narrativa. Os vídeos parecem diários que as meninas costumavam ter nos anos 90, por exemplo, só que falado.

 

A sacada mais legal do filme foi as cenas paralelas referentes à história de amor de Tina e de Lucas. Eles mostram como era diferente começar um relacionamento na época dela ao contrário das irmãs que resolvem tudo via internet. Ambos representam os casais que nascem em um encontro no cinema, daqueles que perduram por anos, enquanto das outras irmãs tem um Q de passageiro por causa da conectividade.

 

Confissões de Adolescente – O Filme tem muitos clichês, porém, isso não o faz ruim. Afinal, toda adolescência é cheia dos clichês, né? Há muita coisa no filme que não passa de processos repetitivos de qualquer geração. Toda menina passará pelo perrengue de ser empurrada pelas amigas para cima de um garoto. Todo garoto que se deprecia acha que não tem chance com nenhuma garota. Toda turma tem a megera que gosta de humilhar os outros para se sentir bem. Nele há mensagens bacanas que os jovens de hoje não estão preparados para ouvir ou para lidar, como é o caso de gravidez x aborto. Paulo representa aquele tipo de pai que tenta nortear as filhas, mas não passa de um homem protetor que só conhece uma fórmula do sucesso, totalmente tradicional e quadrado. As filhas percorrem caminhos cheios de espinhos, como qualquer garota na idade delas, mas tudo termina bem na medida do possível.

 

O filme ainda traz Deborah Secco, Georgiana Góes, Daniela Valente e Maria Mariana, as 4 adolescentes da série, em curtas aparições. Achei meio estranho o distanciamento da storyline delas, mas tudo bem. Cássio Gabus Mendes também não foi uma escolha aleatória, pois ele é sobrinho do ator Luis Gustavo que assumiu o posto de Paulo na série. Tudo ficou em família.

 

Às vezes, me pergunto quantas confissões já foram escritas e apagadas desses campos em branco do Facebook. Quantas declarações diretas de amor já foram substituídas por ctrl + V da letra de uma música, na esperança de que aquela pessoa, e apenas aquela pessoa, entenda o que você tá sentindo. Quantas piadas já foram cortadas no Twitter porque o autor não conseguiu reduzir o seu comentário a 140 caracteres.

 

De repente, aquela barrinha que fica piscando sem parar é quem mais sabe sobre você. Que sabe de todas as coisas que você não tem coragem de publicar pra todo mundo ver.

 

Eu vi muito de mim em cada uma dessas adolescentes. Quando entrei em contato com a série, não pude aproveitá-la porque meus pais não aprovavam. Eu só conseguia ver alguns episódios quando passava as férias na casa dos meus tios porque minhas primas eram viciadas. Como não tinha chegado ao ensino médio, foi meio chocante ver algumas coisas. Nunca esqueci – não me lembro com qual personagem isso aconteceu – que uma das irmãs fica grávida e quer recorrer ao aborto. Em uma das “soluções encontradas”, era preciso dar N quantidades de pulos para perder o bebê. Fiquei tão abismada com isso que não consigo esquecer. Marcou muito. Até me lembro dos pulinhos da personagem no pátio da escola.

 

Literalmente, Confissões de Adolescente – O Filme fala com o jovem de hoje, aquele que cresceu com a internet e que consome os best-sellers das livrarias. Porém, ele mostra aquela parte boa e simplista que faz parte da vida de quaisquer adolescentes: os passeios no busão, a amiga invejosa e insuportável, aquele vício de chegar atrasado na escola (porque você ficou até tarde ao telefone e aqui é porque você ficou até tarde na internet), as matinês, o medo da 1ª vez, as dúvidas quanto a própria sexualidade, a baixa autoestima… Tudo isso e mais um pouco que traz peso ao roteiro que se revela um baú de pura nostalgia para quem não tem mais essa idade.

 

Eu recomendaria esse filme para qualquer jovem que passasse na rua. Mesmo não fazendo jus à série, não tem como não gostar dessas meninas que tentaram ao máximo trazer o lado bom e ruim de ser adolescente. Acreditem quando digo que Confissões de Adolescente – O Filme é diversão garantida do começo ao fim. Juro que ele não é nenhum bicho de 7 cabeças. Para um filme brasileiro, ele foi produzido com bom gosto. É uma perfeita distração.

 

PS: Nem chegue perto dele se você estiver a fim de dar pitaco. Estragará a magia da coisa toda.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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