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13/out

Se este fosse um pré-season finale, não teria dúvidas sobre Clara ter embarcado na sua última viagem na companhia do Doctor. Não sei se essa abordagem do episódio é algo a se preocupar – especialmente quem gosta muito dessa companion –, pois os boatos com relação à saída da Jenna, ainda este ano, continuam em alta. Se o viés da trama do último final de semana tinha como pretexto reforçar ou remover esse rumor, tenho que dizer que fico com a primeira opção. Digo isso por causa da intensidade com que o assunto foi trabalhado e a maneira como se concluiu, com o aviso dela ao Time Lord de optar por viagens seguras. Claro que isso é um desejo impossível de ser concretizado. Mal sabe ela que deveria ter voltado pra casa.

 

A nova aventura ocorreu no Orient Express. As expressões tristes de Clara realmente me convenceram de que iria embora. Uma sensação que já vinha do episódio anterior e fiquei bem surpresa de tê-la visto ao lado do Doctor (por não tê-la visto na promo). Afinal, deu a impressão de que um dia se passou depois do surto da companion. No caso, passaram-se semanas, tempo suficiente para negociar uma viagem de despedida.

 

Confesso que senti uma tremenda estranheza quando ambos saltam da TARDIS, como se nada do barraco do episódio passado tivesse acontecido. Achei que Clara não estaria presente nessa aventura, cuja personagem principal foi uma múmia nem um pouco bonitinha.

 

Eu senti puramente o gosto da despedida de Clara. A companion estava linda, simplesmente adoro quando ela abraça cada viagem e faz cosplay (e que figurino neste episódio, hein?). A cena do encontro com o 12º no corredor antes de ir dormir me deixou bem triste, especialmente por causa da expressão desolada dos dois personagens. Um mais contido. Outro nem tanto. Ambos amargando o possível adeus. Não deixou de ser um baque, mesmo que temporário. A história transmitiu perfeitamente o peso da decisão dela em abandonar o Doctor. Pelo bem ou pelo mal, não deve ser nada divertido pensar em uma vida pós-Time Lord. Até porque as últimas companions não tiveram essa reflexão (nem muito menos opção).

 

Os mistérios do Foretold não passaram de um plano de fundo para enaltecer os conflitos de Clara sobre terminar o affair com o Doctor. Por fora, ela queria ficar de boa, beber alguns drinques, mas não hesitou em buscar ação por estar entediada. Por ter xeretado o que, em tese, não devia, a companion se viu de novo em uma tremenda saia justa: mentir para uma pessoa que praticamente estava jurada de morte a mando de um Doctor que – aparentemente – pouco se importava. Tenho que dizer que esse conflito entre os dois personagens tem sido um balde de ouro. Porém, o repeteco de inconformismos da Clara precisa ser interrompido antes que se torne um disco arranhado. Acho que agora esse drama acabou. Oremos!

 

Ao longo da trama, a personagem ficou isolada para refletir sobre querer ou não pular da TARDIS. Achei bárbara a confiança que ela tem no Pink, uma ligação tão forte e genuína que a faz se sentir à vontade para desabafar um perrengue que, a olhos humanos, não é nem um pouco comum. Danny é um fofo, não há como negar, o problema é que a namorada mentiu sobre o fim dessas aventuras. Nos minutos finais do episódio, Clara volta atrás, o que era óbvio, e eu não gostei tanto do discurso de chegar em casa a tempo e escolher pontos seguros. É fato que, ficando, Clara não está nem um pouco segura. Já prevejo mais drama.

 

O interessante do episódio foi Clara ter saído de cena para que o Doctor tivesse o palco só para ele. A frieza incômoda. Os ímpetos de decisão um tanto quanto injustas. Perkins assumiu o posto de Clara e o ajudou (personagem mais do que adorável) a entender o caos instalado no trem que, na verdade, não passava de um laboratório e boa parte dos passageiros não passava de hologramas. Adoro quando a trama de Doctor Who tem uma pegada professoral, o alienígena empenhado nas loucuras das suas caraminholas, dando uma belíssima lição de casa. Destrinchar o mito do Foretold por meio de questionamentos e do uso dos passageiros como experimentos deixaram a trama densa e excitante. Um detalhado trabalho de um pesquisador extremamente calculista e racional chamado The Doctor.

 

Na solidão da problemática, outra característica do 12º foi enaltecida: a dificuldade de ouvir. Simplesmente, ele atropela todo mundo por achar que tem razão ou por não estar disposto a lidar com o emocional alheio. De fato, esse Time Lord só chega a um acordo falando consigo mesmo. A cena em que ele dá uma de Gollum e discute com os próprios botões me fez cair para trás. Foi bárbaro! Essa nova fase do personagem é meio centralizadora, tem uma pitada de egocentrismo e de arrogância. Ele não tem limites, não é a primeira vez que demonstra isso, mas é bem fato que essa versão se acha a 12ª maravilha alienígena de Gallifrey. Esse comportamento de não querer ouvir, especialmente lorotas sentimentais, um detalhe que Clara bem tentou chamar atenção várias vezes, perdurou no decorrer da trama. Vê-lo sozinho coordenando o espetáculo serviu para dar destaque a essa suposta falta de emoção, ao ponto dele soltar fogos de artifício por cada morte.

 

A tensão final, quando Maisie se torna a última isca do Foretold, até estranhei o fato de não ter ficado temerosa. Sinal de que as reviravoltas dos últimos minutos precisam de uma mudança. Contudo, a diferença notada foi o pretexto enrustido do Time Lord em dar um tabefe na Clara pelo discurso do episódio passado. Só que com mais classe ou não seria o 12º. Para isso, nada como colocar a crença da companion em cheque de novo.

 

Ao assumir o lugar de Maisie, o 12º provou que não é 100% maligno. Como se meio mundo não soubesse, só Clara pagou de besta. Ele só é mais racional que emocional, algo que a professorinha não compreendia, ao ponto de dizer no começo do episódio que não poderia continuar com essas aventuras do jeito que ele faz. Literalmente, o Time Lord mexeu com a companion de um jeito tão forte que a fez repensar e entender que ele só trabalha com prioridades. O resto que se exploda. Se as pessoas precisam morrer para uma situação ser compreendida, que seja. Citando-o, às vezes só restam escolhas difíceis e precisamos escolhê-las mesmo assim. Esse foi o recado que deve ser absorvido por aqueles que resmungam que o 12º não é tão amável quanto o Eleventh. E não é pra ser, ué.

 

Ser racional é uma das maravilhas do 12º. Ele não passa a mão na cabeça, mas isso não quer dizer que seja tão frio ao ponto de chutar o balde, como bem aparentou. O Time Lord continua a abraçar seu lado alienígena e é isso que prevalecerá até o final da temporada. Ele foi o chefe, o gênio e o arrogante. E eu o amei de novo. Se eu já achava esse Doctor dual, este episódio deixou isso escancarado. Ele é muito mais complexo. Da mesma forma que Clara não sabe o que esperar dele, nós também não sabemos. Eu ri e me indignei (de um jeito saudável) como o personagem levou tudo – de novo – numa boa, algo que aconteceu com grande intensidade no episódio passado. Eram vidas que estavam em jogo e ele continuou a não dar a mínima. Por ser uma caixinha de surpresas, o personagem tem conseguido impactar com as súbitas decisões finais. Gosto de figuras imprevisíveis.

 

No final, o 12º reforçou o senso de prioridade. No caso, foi Clara. Ele não a deixou para morrer no trem, o que mostrou sua preocupação. Foi desconcertante o momento em que o Doctor abre o coração com absoluta sinceridade para a companion. Diante disso, ela só tinha duas opções: ou continuava a viajar conformada com as decisões dele ou continuava a viajar na poker face, pronta para se indignar a qualquer momento. São confusas essas colocações, mas foram duas opções que o Doctor deu a ela. Ou continua convicta ou continua pensando em algo para externar a frieza do Time Lord. Clara tem o instinto de querer mudanças. Se ela não aceitasse a real, era bem provável que a fase de pitis não teria fim, o que seria um saco. Acho que agora a confiança prevalece e a garota impossível terá que lidar com essa personalidade do Doctor. No fim, o gesto e as palavras dele derrubaram a linha tênue que ainda existia entre ambos.

 

Por ser altruísta e por ter aprendido com o Eleventh a força de não arredar o pé até que todo mundo ficasse a salvo, a companion teve uma grande lição que a fez compreender que nada é as mil maravilhas. Nem mesmo um alienígena que regenera quantas vezes quiser, que tem uma nave maior por dentro, entre outros benefícios.

 

Eu achei o episódio bem arrastado, porém, teve cenas geniais e um encadeamento muito inteligente. Diria até que ele foi meio brutal por causa da sequência de mortes que o Doctor assistia como se fosse um filme. Foi maligno o posicionamento do 12º, vamos combinar. Adorei a contagem regressiva no canto da tela, uma brincadeira sensacional que contribuiu para aumentar a tensão. De novo, o trabalho de edição foi de encher os olhos. Melhor que isso foi ver a minha linda da Foxes que deveria ter aparecido mais e interagir com o Capaldão.

 

A trama trouxe à tona as mais variadas emoções e acredito que arrematou de vez a lealdade de Clara pelo Doctor. A personagem retrocedeu, talvez, por ter compreendido como as coisas funcionarão daqui para frente. Espero que os berros dela tenham terminado aqui, pois não aguentarei outra lavagem de roupa suja. Que continuem nas alfinetadas de leve que geram os melhores comentários alienígenas.

 

PS¹: cadê a Missy? Não é possível que todos os segredos serão jogados no final da temporada.

 

PS²: Doctor salvou um soldado. Entendo isso como uma das milhões de indiretas do que está por vir.

 

PS³: atenção para o tique do Doctor em “desenhar” em qualquer canto. Ele doidinho com o graveto no final do episódio, fervido em alguma ideia.

Stefs
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