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02/out

Cada pessoa tem um método de escrita. George R.R. Martin usa um programa em DOS. J.K. Rowling usou uma máquina de escrever. Hoje em dia, muitos vivem colados em seus notebooks. Óbvio que essa diferença não influi em nada na hora de criar um outline. Se é uma coisa que nunca cansarei de repetir é: não adianta ter uma ideia e não saber como desenvolvê-la. Afinal, escrever não requer apenas que você sente e digite. Para muitos, é planejar, uma atitude que acompanha o ritmo da produção de um livro.

 

Planejar também varia de pessoa para pessoa. Há gênios que não precisam de um pedaço de papel para ter noção do que escreverá. Outros precisam de milhões de anotações. Há aqueles que conseguem se virar sem um outline, mas há outros que precisam de um bloquinho de notas embaixo do braço. Você só precisa escolher o que é melhor para engatar a escrita.

 

Antes de chegarmos na parte que interessa, é bom repetir o aviso: as dicas que dou aqui são inspiradas em experiências próprias. Minha palavra não é lei. Minha função é só dar o insight ou esclarecimento com base no que aprendi (e continuo a aprender) com o WP.

 

o que é o outline

 

Quando comecei a escrever o 1º manuscrito do We Project, eu não fiz um outline. Mas o que é isso? É o planejamento da sua história com plot, subplots, personagens, lugares e muitas outras coisas que precisam estar muito bem alinhadas para que a escrita flua. É um esboço que pode ser feito em tópicos, em post-its, enfim, em qualquer lugar. Eu ignorei essa estratégia, não por achar que não precisava, mas porque tinha certeza de que o WP não iria tão longe. Eu simplesmente acreditei que era uma vibe do momento e que a febre logo passaria. Como fui tolinha! Agora, não consigo escrever nada sem um outline, especialmente quando estou prestes a começar um novo capítulo.

 

Para quem escreve, o outline é visto como um processo de escrita essencial. Por mais que o nome seja chique, ele é motivo de choro para muita gente. É fácil se irritar na hora de sentar e rascunhá-lo. Esse esboço não passa de um sumário que começa humilde e que tende a se transformar nos cabelos da Medusa. Falar assim parece até coisa de outro planeta, mas saiba que você, eu e o resto do mundo fazemos um outline todos os dias. A diferença é que ele se chama brainstorm (que traz inúmeros tópicos que são anotados fielmente em algum lugar).

 

Literalmente, o outline é um vomitar de ideias antes de pensar em escrever o 1º capítulo.

 

Em uma agência de publicidade, um outline soa como uma estratégia de marketing. A turma do planejamento senta, define o target e as campanhas a serem feitas. No mundo da escrita, é o famoso roteiro da história. Basicamente, esse esboço hierarquiza as ideias do brainstorm que moldarão o enredo. Admiro os pacientes que usam variadas cores para cada fileira do outline. Eu sou muito adepta ao post-it, às agendas e aos bloquinhos. Taí exemplos de presentes que vocês podem me dar no Natal. Não precisa ser espalhafatoso, ok?

 

O outline reúne todos os pensamentos de um escritor, de um publicitário, de um jornalista, de um roteirista, etc.. Até mesmo dos blogueiros que, geralmente, costumam ter um plano de posts e um cantinho para anotar insights repentinos no meio da noite. Alguns escritores o tratam como um meio de fazer com que o processo de escrita seja mais eficaz, focado e organizado. Parece chato elaborá-lo, mas, acreditem, é muito legal. Você acaba criando uma fonte de apoio, especialmente para combater os tais bloqueios criativos.

 

Como disse há alguns dias, o outline é o seu plano de ideias. Geralmente, é com ele que você descobre mais sobre a história que quer escrever. Esse esboço é muito útil para quem quer criar um universo de fantasia, onde um plot se amarra no outro, o que requer minuciosas anotações para nenhuma ponta ficar solta e para não deixar nada pra trás. É um índice que fará com que o escritor visualize melhor os personagens, a trama, os cenários e afins. Há quem o use apenas como roteiro para cada capítulo com o intuito de não fugir tanto do que foi pensado. Isso é preferência de cada um.

 

De novo: outline é planejar. Você organizará cada processo do livro. Não custa repetir o exemplo do sumário de uma monografia. Nele, há títulos e subtítulos, tudo bonitinho, que não passa de uma estratégia que norteia o universitário a não se perder da ideia original. O mesmo vale para os escritores. Assim, ao abraçar o esboço, você pensará no que deve escrever. Você terá controle sobre o que escreverá no começo, no meio e no fim. Ao fazer isso, você tende a não ampliar a narrativa e evita o poxa vida não era isso que queria. Já aconteceu tanto comigo no começo do WP que me vi deletando uma penca de capítulos. O outline evita esse trabalho dobrado. De reler e apagar passei para o releio, edito algumas coisinhas e sigo em frente. Não perco mais milhões de páginas como antes.

 

Quem tem problemas para escrever, o outline é um oráculo. Especialmente para quem concilia mil coisas em um dia e só tem míseras horas para escrever. Tendo em vista um roteiro sobre o próximo capítulo, escrevê-lo pouco a pouco diminui o desespero. Ele também serve para visualizar o que tem dado certo ou errado na história, e é totalmente alterável. Com o tempo, se percebe que alguns pontos da narrativa não funcionam e isso é normal. Você só precisa ter coragem para abrir mão deles. Ou, quem sabe, esperar um momento adequado para introduzi-los de novo, o que já aconteceu comigo incontáveis vezes. Há também como ver determinadas falhas de continuidade. Enfim, com o outline é possível ver e controlar X coisas.

 

A tendência é você ver como a história fica mais forte. E dá um orgulho danado, viu?

o que colocar no outline

Bem… Isso depende da necessidade da história. O pontapé inicial – que tem funcionado comigo – é considerar o objetivo. Tem gente que começa pelos personagens, não tem problema, mas o plot central precisa ser pensado. Ele sinaliza o percurso da trama. Esse é o pote de ouro que fará o protagonista, junto com outros personagens, se movimentar e conquistar o que deseja (ou não). É o ponto que afeta tudo, que desencadeia uma sequência de eventos que pedirão uma resolução (ou não).

 

Usando Harry Potter como exemplo, em a Pedra Filosofal o objetivo é a pedra filosofal (duh!). A pergunta que calha é: como faço para o personagem chegar até ela? Daí vem os subplots que ajudam na transição: apresentação do personagem, inclusão dos secundários, Hogwarts, mais antagonistas, rotina escolar, etc. Harry passou por uma ponte até chegar no Fofo. Uma ponte cheia de empecilhos, outro detalhe que é destrinchado em um outline, pois eles anunciam quando a consequência ou a conquista estão prestes a acontecer.

 

Eu penso também nos empecilhos na hora de montar meu outline que dá aval para pensar nas consequências e nas conquistas que os personagens encontrarão no meio do processo. Obstáculos têm a ver com tensão. É o atrito/conflito. São eles que dão a sensação de que tudo dará errado, de que alguém morrerá antes de se dar bem. Eles são a carga emocional. Para mim, essa é a parte mais frustrante. Dependendo da situação, os empecilhos se alteram e isso rebate nas consequências e nas conquistas. Às vezes, aquilo que você pensa ser uma consequência não funciona tão bem quanto à ideia que pipoca na sua mente na hora da escrita. O segredo é se permitir. Surpresas podem acontecer, sério!

 

No quesito consequência, pense: o que acontecerá com o personagem e os arredores se o objetivo não for conquistado? (e se for conquistado?). No caso do Harry, ele descobre que algo terrível acometerá o mundo bruxo se não impedir o Quirrell. Antes de ter a recompensa (a pedra filosofal), o personagem não só enfrentou o teacher gaguinho, como viu Voldemort pela 1ª vez e aprendeu a lição de amor. No quesito conquistas, pense no que o seu protagonista ganhará quando combater os empecilhos (o que você quer que o personagem conquiste?). Nesse caso, não se atenha apenas ao resultado final. Como na vida, sempre há pequenas recompensas/obstáculos que servem para nos motivar e nos amadurecer. Harry quase se deu mal, mas conquistou ótimos amigos e ajudou a Grifinória a ganhar a Taça das Casas.

 

Assim, o casamento entre consequência e conquista cria a tensão e a dramatização da história.

 

Há quem fale sobre custos, aquilo que o protagonista perderá ao ganhar. Eu adotei essa parte no meu outline. Harry Potter e Katniss Everdeen são os maiores exemplos de sofredores antes de conquistarem o sucesso. É aqui que você precisa ser meio maligno com os seus personagens. É o dilema de ter que abrir mão de algo ou ver pessoas queridas morrer. Pense: nada vem de graça. Nem todo sucesso é lindo. Não existem pessoas imunes no mundo. Assim, se pergunte o que o protagonista precisará largar para conquistar o objetivo (também vale: quem morrerá para dar a ele força de vontade para continuar).

 

Há muitos pontos que podem ser inclusos em um outline, algo que depende sim do tipo de gênero que você escreve. Esses são alguns de muitos exemplos que podem ser inclusos no esboço que também pode ser útil para delinear situações que precisam acontecer (os desafios, impedimentos, novos personagens, perdas e assim por diante).

 

Dica macabra: tenha uma lista de morte para saber até que ponto determinado personagem será importante para desenvolvê-lo daquele jeito que todo mundo se apaixona e depois te xinga quando ele morre.

 

meios para fazer um outline

 

Eu uso o MindMeister, folhas de sulfite, agendas vencidas, bloquinhos e caderno com folhas sem pauta. Também uso o Excel, tenho uma planilha com os nomes dos personagens, cor de cabelo, profissão, relacionamentos, etc. Para vocês terem ideia do quanto um outline ajuda, tive um sério problema com o meu protagonista por causa do nome. Fiquei travada! Parece frescura, mas juro pra vocês que, assim que escolhi outro, a coisa fluiu que foi uma beleza (o que vale de dica, pois nem sempre a travadinha na hora de escrever é por motivos de falta de inspiração, mas isso é pauta para outra conversa).

 

No caso do MindMeister, a parte negativa é que ele permite na conta gratuita apenas 3 brainstorms. Calma, não precisam chorar! Conforme você os faz, é possível baixá-los em PDF (e em outros formatos), deletar e continuar a usufruí-los (a última vez que o usei, isso ainda rolava). Há também o Scrivener que libera 30 dias gratuitos de uso. Depois, é preciso comprá-lo. Outro lugar que serve e muito para anotar ideias, até no celular, é o Evernote.

 

A escolha depende da confortabilidade e da acessibilidade. Há muitas ferramentas de brainstorm espalhadas na web (quem sabe eu até faça uma lista pra vocês).

 

exemplo de outline

 

Como o Help, Escritor! tem o objetivo de ajudar escritores aspirantes (como eu), darei um exemplo bem basicão. Vamos pensar no filme Titanic que tem uma história bem fechada e acredito que todo mundo que chegar (ler) neste post o tenha assistido.

 

Jack Dawson é o protagonista. Temos a Rose que é a outra protagonista.

 

A dinâmica: o personagem precisa chegar até Rose para termos a história de amor. No começo do filme, o vemos ganhar a passagem para viajar no Titanic em um jogo de pôquer. Conquista e recompensa. Em um belo dia de sol, Jack a vê no convés e se sente atraído. Porém, ambos pertencem a dois mundos diferentes – ela da 1ª classe e ele da 3ª. Como os dois poderão se encontrar? Daí vem Rose e a ideia de se matar por não estar feliz com o casamento que é mais um elo de segurança financeira moldado pela mãe que não aceita, em hipótese alguma, assumir a falência. Quem a salva? Jack. Conquista e Recompensa.

 

Para não fazê-los se apaixonar logo de cara, outras circunstâncias os aproximam. Cal tem a ideia de convidar Jack para jantar na 1ª classe como forma de agradecimento. Como Jack poderia impactar e atrair ainda mais a atenção de Rose? Moldá-lo como cavalheiro. Assim, o personagem passa de salvador para ameaça. Como fortalecer a união desses personagens? Jack a arrasta para a festa da 3ª classe e lhe apresenta um novo mundo. Confortáveis um com o outro, ambos se apaixonam, mas como fazer Rose se convencer disso? Jack joga na cara o quanto ela está infeliz. Relacionamento consumado.

 

Durante o naufrágio: como manter esse amor interessante ao mesmo tempo em que ocorre uma tragédia? Cal, o noivo, se torna o empecilho, a consequência, a razão de tentar separar os dois enquanto o Titanic é consumido pelo oceano.

 

Mais ou menos, o outline ficaria assim:

 

 

Vejam, há empecilhos, conquistas, recompensas, consequências, tudo misturado. Lembrando que o romance do Titanic se desenrola em 3 dias. Qual foi a moral? Rose aprendeu a se dar mais valor e passou a encarar a vida de um jeito diferente.

 

Em livros, temos A Culpa é das Estrelas. Hazel só precisa conhecer Gus para a história se desenrolar atrelada ao drama do câncer. Green deu mais atenção ao romance ao invés da doença que se tornou apenas o peso real que poderia separá-los. Já havia uma consequência, o que precisou foi desenvolver as recompensas para os dois personagens verem que a vida é maravilhosa, mesmo com um status de saúde extremamente delicado. No caso de Harry Potter, o que adia o plot central são as atividades em Hogwarts, onde cada capítulo solta, sutilmente, dicas do que será encontrado no final.

 

Temos Orgulho e Preconceito, da Jane Austen. Elizabeth não entende como algumas mulheres veem o casamento como a coisa mais importante do mundo. Ela reluta contra isso durante todo o desenrolar da história. Mr. Darcy é quem a muda, o solteirão que jamais pediria uma mulher rude como Elizabeth em casamento. O orgulho é dela e o preconceito é dele. Esses são os atritos principais que os dois tentam se desvencilhar até o fim.

 

O outline é um roteiro. Lembrem-se disso! É um material de apoio importantíssimo para qualquer aspirante a escritor. Juro que não é chato fazê-lo, só é trabalhoso.

 

Quaisquer dúvidas, basta depositá-las nos comentários!

Stefs
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