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10/out

Infelizmente, este filme não pertence fisicamente a minha locadora aleatória, mas não deixa de ser um xodó daqueles que nunca cansarei de assistir. O Expresso de Xangai (Shanghai Express) foi lançado em 1932, estrelado pela minha rainha Marlene Dietrich que repetiu pela 4ª vez a parceria com o diretor Josef von Sternberg. A princípio, o filme passa a sensação de uma viagem sossegada durante a Guerra Civil. Apenas aparências.

 

Tudo parece tranquilo até a chegada de Xangai Lily (Dietrich), cuja fama de colecionadora de fortuna não agrada nem um pouco os passageiros. Isso acontece por causa das personalidades marcantes e distintas, desde o homem religioso até a mulher mais tradicional, de cada um, o que causa desconforto. Ela acarreta uma divisão de opiniões que rebate no Capitão Harvey (Doc), o homem que a personagem ama verdadeiramente. Quando os dois entram em cena, o amor é reavivado e o sentimento atinge o ápice quando o vilão se revela e os coloca em situações delicadas.

 

No começo do filme, todos os passageiros são apresentados, um a um, aparentemente com a vida nos conformes, o que, em tese, lhes dá o direito de julgar e evitar a protagonista ao máximo. Claro que ela não faz por onde: Xangai Lily não esconde o seu luxo e sua desinibição ofende.

 

O Expresso de Xangai tem um enredo bem ensaiado que se desenrola em uma única locação. Parece um teatro, pois as cenas transitam conforme a necessidade da aparição de um personagem. Tudo se torna uma “apresentação” única quando Xangai Lily firma presença entre eles. Na maior parte do tempo, todos ficam no trem e só sabem falar da mulher de má fama. O filme não tem uma trama central, mas conta com pequenos empurrões que geram conflitos, inclusive, entre aqueles que embarcaram na viagem com atenção mais especial no quesito moralidade.

 

O atrito preocupante só ocorre perto do fim da história, quando a locomotiva é sequestrada em uma das paradas por um rebelde (darei spoiler se citar o nome, embora seja muito óbvio quem é o traidor). A tensão se discorre com as entrevistas em que ele busca a melhor opção para usar como chantagem para resgatar um dos seus seguidores. É nesse dilema que Xangai Lily e Doc extirpam quaisquer dúvidas sobre o que sentem um pelo outro.

 

Xangai Lily é a personagem mais interessante dessa aventura. Marlene está maravilhosa, toda trabalhada no noir e no blasé. Sua personagem de péssima fama é julgada o tempo todo pelas experiências e pelo estilo de vida. Fatores que pesam muito mais que o sequestro do trem que só serve de impulso para ela revelar que não é tão ruim assim. A situação faz Xangai Lily passar por um conflito moral, como todos os passageiros que não confiam nela. Um conflito que se intensifica com o vilão que atua como lembrete sobre como essa dama costuma agir. Ele se insinua de um jeito tremendamente imundo e, para fazê-la ceder, cutuca o coração.

 

De fato, a atriz rouba a cena sem um pingo de dificuldade. Xangai Lily é sexy, arteira, sagaz. Os diálogos dela são puro flerte. Suas expressões são divertidas, o que tornam as investidas contra o Capitão Harvey graciosas e simplistas. Ela é charmosa e cheia das poses.

 

Por mais que a atuação de Marlene em O Expresso de Xangai não seja audaciosa, Xangai Lily foi ensaiada para agir como uma bonequinha de luxo, cheia dos olhares e dos sorrisinhos de canto que encantam. Uma cena maravilhosa (de muitas) da Marlene nesse filme é quando sua personagem faz uma oração pela vida do amado e só as mãos dela ganham o foco da câmera. Esse é um ponto de partida para ela ser vista de um jeito diferente. É nesse momento que vemos a transformação da personagem que deixa de ser cínica para ter um pouco de fé.

 

A parte emocional do filme começa como plano de fundo e, no fim, passa a ser o plano principal. No começo, não há muito que se esperar. É possível aceitar logo de cara que, independente do que acontecer, as resoluções viriam por meio do entendimento entre Xangai Lily e Capitão Harvey que, sempre que se encontram, lavam a roupa suja. Enquanto o rebelde causa terror, tudo o que vemos são esses dois personagens que lutam um pelo outro. No fim das contas, o plano emocional é o amor que pisa em cima do pânico de estar em perigo.

 

O Expresso de Xangai é uma viagem com altos e baixos. Até arrisco a dizer que é um filme que valoriza o pulso firme da mulher graças à parceria entre Xangai Lily e Hui Fei. Ambas se protegem e a resolução final (que não deixa de ser bizarra) ostenta o poder que possuem juntas. Elas são apresentadas na trama no mesmo patamar, fortes e dominantes, que não abaixam a cabeça. Elas se respeitam. A conclusão do filme é crucial para vermos até que ponto a dupla não aceita humilhação em meio ao caos instalado pelo rapto do trem.

 

Filmes clássicos me impactam, pois não há como não criar um comparativo entre o cinema de agora e o cinema de antes. O Expresso de Xangai não é um dos melhores exemplos, claro, mas o que fica de aprendizado é o ótimo entretenimento com um plot simples, produzido com pouca grana. O longa foi exibido na época da Depressão Econômica, um colapso que começou nos Estados Unidos graças aos altos investimentos de ações na bolsa de valores. Isso causou um desequilíbrio no mercado, pois as pessoas viam nisso um meio fácil de lucrar. A Terra do Tio Sam entrou em recessão e as dívidas pegaram todo mundo no susto (a tal da quebra da Bolsa de Valores de Nova York). Era bom quando se tinha pouco e se fazia muito cinema, né?

 

E, claro, Dietrich foi afetada por isso. De origem alemã, ela negou suporte ao Hitler e migrou para os Estados Unidos. Nada como uma bela fama de traidora.

 

O Expresso de Xangai é aquele filme que só presta em preto e branco. Ele jamais pode sofrer uma remasterização colorida, pois perderia o brilho e o charme, especialmente no que condiz à atuação de Dietrich. Afinal, o filtro incolor faz parte da dança de seus trejeitos. A luxúria e a violência andam juntas nesse filme, inclusive a paixão. Muitos críticos pontuaram a trama como uma ilusão, desmerecendo a conclusão que calhou como inacreditável. Nisso concordo, porém, o longa foi feito para ser apreciado, degustado e admirado. Ele é visualmente cativante e sexualmente perigoso. Ele é um dos meus milhões de xodós.

 

PS: só para avisar, como não quer nada, que o filme tem dois remakes, mas não se rendam, ok?

 

Apreciem o vídeo abaixo e entendam o meu amor:

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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