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03/out

Em uma noite de sexta-feira, fui arrematada por um cantarolar que vinha da sala da minha casa. Minha irmã assistia a um filme e imaginei logo de cara de que se tratava de um musical. Não cheguei a espiá-lo, mas me encantei com a sonoridade, o ponto de partida que me fez correr para saber do que se tratava. Eis que God Help the Girl, estrelado por Emily Browning, Hannah Murray e Olly Alexander, bateu de frente comigo e não pude deixá-lo pra depois.

 

Se o nome Stuart Murdoch lhe diz alguma coisa, é sinal de que você assistiu Juno e (500) Dias com Ela, dois filmes que ninguém gosta tanto assim, muito menos das respectivas trilhas sonoras que tem a assinatura dele. Ou então é fã de Belle & Sebastian. No caso de God Help the Girl, Murdoch não só dirigiu, como foi responsável pelo roteiro (fator inédito). Como de costume, ele se envolveu em mais um projeto em que a música é o coração da história e foi amor à primeira vista.

 

God Help The Girl é um musical com selo Sundance de qualidade (ganhou pelo júri) que nos convida a conhecer Eve, uma jovem que está internada em um hospital psiquiátrico por motivos emocionais. O filme já abre com uma canção que nos adianta como essa personagem se sente e como a trama se desenrolará. Mesmo com essa segurança em soltar a voz, Eve conflita consigo mesma dentro desse dilema que afetou muitos âmbitos da sua vida, especialmente a fome. Ela não tem ânimo para fazer absolutamente nada, passa boa parte do tempo apática, sem falar com ninguém. Graças a uma escapulida sem autorização, a personagem passa por um tratamento rígido que tem como objetivo inseri-la de novo ao convívio social. Em meio às consultas, Eve leva ao pé da letra o conselho da psicóloga em escrever para desbravar seus sentimentos, o que libera seu lado compositora, explorado ao longo da trama.

 

James é um garoto que tem um ideal musical quase semelhante ao de Eve. Juntos, ambos discutem a importância da música em suas vidas. Com o encontro (que na verdade é um reencontro), a musicalidade começa, cujas letras precisam ser interpretadas para o filme ser compreendido. A trama se desenrola por meio das composições de Eve, que são coreografadas, e elas recontam sua história, desde a internação até a decisão final do que fazer com a própria vida. O longa nos embala e nos norteia com canções autobiográficas que possuem uma sonoridade tão gostosa que é possível ouvi-las em qualquer momento (mesmo sendo um pouco tristonhas).

 

O filme se ambienta em Glasgow e peço que não sintam estranheza com a ausência de sotaque. Cada personagem vem de um canto diferente, o que me fez amargurar por amar a puxadinha de R dos escoceses. Acreditem, isso não é um problema. Eu sou muito suspeita para falar de filmes que se desenrolam na Escócia, pois sou muito apaixonada por esse país. Amo as lojinhas, aquele plano de fundo cheio de árvores e o tempo constantemente nublado. Os personagens passam por lindos lugares que deixaram o visual do filme adorável. Sem contar os figurinos, especialmente os de Eve, que me fizeram morrer de inveja.

 

Por mais que tudo seja fofo e carismático, Eve tem problemas emocionais e, ao menos para mim, esse é o principal ponto de atrito do filme. Ela vive em uma constante montanha russa. Qualquer pessoa tem um método para não ter um colapso emocional e a protagonista faz da música sua razão para não desistir da vida. Ela tem um apego tremendo ao rádio, tem um Q teatral, um estilo digno de cantora indie e uma necessidade estarrecedora de fazer sua arte com e por amor. Não é à toa que há muita veracidade nas letras dela, justamente por simbolizarem os mais variados conflitos que viveu ou vive.

 

A ambição de fazer música para o mundo a faz tropicar em péssimos momentos que realçam suas emoções. Pouco a pouco, vemos essa garota evoluir e encontrar um ponto de equilíbrio. Ela só quer ser ouvida e tem esperanças de que isso aconteça. Não só por uma questão de sucesso, algo que a amedronta, mas por uma questão pessoal.

 

Olly está uma gracinha no papel de James. Seu personagem confronta os ideais de Eve, mesmo que ambos tenham alguns pensamentos em comum. Com ela, o personagem engata o sonho juvenil de ter uma banda e, em meio a isso, as diferenças entre ambos ficam evidentes. Não de um jeito negativo. Eve quer compor e cantar para ser ouvida. James não quer ser um produto e se conforma com uma música de sucesso para ter reconhecimento eterno. Enquanto Eve quer o mundo, James quer ficar na garagem.

 

Quem equilibra os dois é a personagem da Hannah Murray que para meu próprio espanto se chama Cassie. Sua personagem não traz nada para a trama a não ser o desejo de compor e de ser parte de uma banda. Cassie rende alguns momentos engraçados, só. Por mais que adore a atriz, ela passa despercebida. Confesso que não curti o vocal dela também e nem a caracterização. Acho que está mais do que na hora dela sair da vibe eterna da Cassie de Skins, pois foi isso que vi na Cassie de God Help the Girl.

 

Você precisa escrever por alguma coisa, precisa ter uma razão.

 

Não é novidade que sou uma pessoa que espreme tudo que assisto/leio para encontrar a mensagem. Eu sou uma pessoa que sempre faz uma pausa para encontrar e identificar os meus sentimentos diante do que vi/li. No caso de God Help the Girl, a ideia de desabafar o que sente no papel, de fazer disso um alicerce para segurar as pontas, me aproximou de Eve. A protagonista encontra equilíbrio emocional na música. Eu encontro equilíbrio emocional em histórias. Nós duas fazemos isso por amor e por necessidade de manter os sentimentos no lugar. Esse foi o ponto de identificação que me fez aceitá-la e compreendê-la.

 

Filmes que usam música para contar uma história, como Across the Universe, são basicamente como livros em 1ª pessoa. Se as primeiras páginas ou os primeiros frames não convencem e não cativam, seguir adiante é impossível. God Help The Girl conquista assim que Browing se apresenta. O filme aborda os conflitos da sua personagem por intermédio da música. Quando as coisas dão errado, Eve se sente mal, perdida, desestruturada. A pressão de concretizar uma ideia lhe rende mais altos e baixos emocionais que a fazem perceber que precisa se agarrar a essa paixão. Uma paixão que é o seu cerne, sua estrutura. Eu acredito muito que tudo na vida precisa de amor e foi esse ponto que mais admirei na protagonista. Ela luta por isso, por querer que as pessoas a entendam e a vejam. Essa é a ideia central do filme.

 

É muito difícil lidar com o emocional. Ainda mais quando não se tem esperança de muita coisa. Literalmente, isso afeta o seu apetite, o seu sono… A vida fica cinza. Esse é o mundo anterior de Eve que ganha nuances coloridas ao abraçar a música. Cada um de nós precisa acreditar em algo. Precisa acreditar no propósito. Eve abraçou o seu chamado. Essa é a mensagem. No fim, ela quer ir além. Em alguns momentos, a personagem é meio fria e mandona, mas não passa de uma reação quando descreem do seu sonho. Eve não quer a garagem. Ela quer o mundo.

 

God Help The Girl engana por meio da música justamente por não haver um poderoso plot central. É um filme para pessoas sensíveis, que se permitem ver além do que os personagens supostamente propõem. Nem todas as pessoas creem que problemas emocionais podem destruir uma pessoa. Muitos acham que é frescura, sendo que não é. Há pessoas que lutam todos os dias como Eve e que não conseguem vencer por falta de motivação. Problemas emocionais afligem em tudo. Não é uma brincadeira. Ainda mais na adolescência. É um duelo constante de si contra si mesmo e o filme trata isso de um jeito bem sutil.

 

Sem pestanejar, o filme pertence à Emily Browning. Saibam que não é a primeira vez que ela canta. Quem assistiu Sucker Punch sabe bem do que digo. Vale citar Plush, outro longa que a atriz também assume os vocais. Ela dá um show à parte e é a razão desse filme ser tão cativante. Eu amo o timbre da voz dela.

 

Ao assistir God Help the Girl, você se sentirá diante de uma biografia. Até mesmo de um documentário graças a algumas tomadas que tem cara de vídeo caseiro. Ou de um videoclipe. O filme tem muito ritmo, cores e sentimento. Tenho que admitir que não há uma trama atormentadora porque o peso é na mensagem. No caso, a música. Se você não se identificar com Eve logo de cara é bem capaz que não goste tanto assim, nem da trilha sonora (que é fofa demais).

 

God Help The Girl é um filme que parece um abraço quente em um dia ruim. Você é envolvido pelo cenário, pelo clima, pela musicalidade… É aquele tipo para os dias de cão, que lhe deixa com o coração mais aquecido quando sobem os créditos.

 

PS: o título do filme corresponde a uma banda fundada por Stuart Murdoch só com vocais femininos, cujas canções objetivavam o caminho de um musical. Este é o resultado.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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