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24/out

Sabe aquele tipo de filme que fica na cabeça? Que impregna e que não dá descanso? Embora soubesse da história, Garota Exemplar (Gone Girl) me fez sair do cinema como se tivesse assistido algo inédito. O impacto foi tremendo! O filme conseguiu me engolir, por inteiro, e deixou aquele gostinho agridoce de indignação e, claro, de querer mais da dose de traquinagens psicológicas. Passei o resto da minha noite remoendo o que vi, a força da trama me rodopiou. Foi uma grata surpresa. Tremenda, na verdade, pois não esperava que a adaptação fosse ficar tão boa. Ainda mais por se tratar de um plot vindo de um livro.

 

Aviso importante: este é aquele filme que se contar muito estraga, então, poupei tudo o que queria contar para vocês. Foi difícil, ok? Analisem o tamanho do meu amor.

 

No sábado (18), Mônica, colaboradora linda do Random Girl, e eu, na companhia das outras lindas de Marte, encaramos a sessão de Garota Exemplar. Sinceramente, não sabia o que esperar, pois estava na corda bamba com relação à adaptação inspirada no livro de mesmo nome assinado por Gillian Flynn (que foi responsável pelo roteiro). As críticas internacionais ovacionaram o filme, então, pelo menos, imaginei que não estaria de todo ruim. Qualquer spoiler pode arruinar a experiência de ser tragado pela história de Nick e Amy, um casal feliz e apaixonado. Ambos se conhecem em Nova York, começam a se relacionar, se casam e aparentam ser aquela dupla promissora de causar inveja. Até os problemas de matrimônio começar. A transição para Missouri traz mais dores de cabeça e o casal é tão clichê – à primeira vista – ao ponto de você esperar, ansiosamente, para o castelo desmoronar.

 

Isso acontece, mas de um jeito, digamos, atípico. Em uma bela manhã, no 5º aniversário de casamento, Nick dá de cara com um pequeno caos instalado na própria casa. Tudo indica uma briga e a pessoa afligida é Amy. Logo, é dado o desaparecimento dela e, dentre os principais suspeitos, claro que o marido está incluso. No começo, o que pega é o fato dele ser bonitão e boa pinta, o que o faz ser açoitado por todos os lados, especialmente pela mídia, por parecer bem demais com o ocorrido. O personagem também não ajuda, pois a falta de interesse em tudo que envolve Amy começa a condená-lo. Assim, a partir disso, a história brinca com o passado e o presente de ambos, em meio às narrativas do diário da esposa, que criam dúvidas sobre em quem confiar. Nela ou nele?

 

O que aparenta ser um crime passional ganha um revés de tacar a cabeça na parede. Sério! Quando você acha que o ser humano já fez de tudo, alguém prova que ainda dá para apertar mais o calo e pensar em outras formas estarrecedoras para prejudicar o próximo. Por amor, por prazer, por doença… Enfim. Garota Exemplar une as mais variadas motivações.

 

Os personagens são muito palpáveis, bem como a situação em si que, a meu ver, não é nem um pouco surreal. Porém, não deixa de ser chocante, como um pai que comete uma brutalidade contra a família. É impossível não pensar no que diabos essa pessoa tem na cabeça para agir de tal forma e é isso que Garota Exemplar provoca. Claro que há outras incontáveis sensações que o longa transmite, mas o impacto de certas atitudes e de certas tomadas de decisões, bem como os reveses, coloca quem assiste em uma posição difícil.

 

O filme tem muitos pontos altos. O peso da mídia é uma delas, que torna o desaparecimento de Amy um circo. É mais ou menos o pique do Datena que simplesmente impulsiona uma pessoa a parecer culpada, sendo que não há provas suficientes. Afinal, é muito fácil acreditar que o marido tirou a esposa do mapa. É algo comum, certo? Textos jornalísticos e programas de TV o condenam, especialmente por ser simpático, distante e meio frio.

 

Gostei das passagens de tempo, com datas e horários que situam a trama, algo vindo do livro. Sem contar os flashbacks. Introduzi-los em uma história, ainda mais no cinema, é sempre perigoso, mas Fincher dominou muito bem esse recurso. Nem dá para sentir a quebra da trama para mostrar como Nick e Amy eram antes do desaparecimento. Achei brilhante como os retrocessos casaram tão bem com a narrativa do diário da esposa (também do livro), contribuindo com um conflito mental sobre quem são essas pessoas que pareciam se amar tanto. Em contrapartida, fiquei bem preocupada com esse quesito, pois o livro trata os pontos de vista dele e dela e, espremê-los no roteiro, ainda mais quando tudo parece ser importante para se encaixar numa versão cinematográfica, deve ter sido uma tarefa tremenda. No fim, funcionou.

 

David Fincher, o diretor, deu incontáveis pitacos no roteiro, inclusive na conclusão (que gerou polêmica por motivos que não entendo, mas tudo bem). Acredito que o sucesso de Garota Exemplar se deu por causa do envolvimento da escritora, como também na escolha de Fincher. O cara sabe dar contraste em dilemas psicológicos e em emoções obscuras, detalhes vistos em O Clube da Luta e Seven (dois filmes que amo).

 

Affleck leva boa parte do filme sozinho até entendermos o que aconteceu com Amy. Não botava fé nele, não o acho um exímio ator desde O Demolidor, e torci o nariz. Até que ele conseguiu me convencer na pele de Nick. Fiquei com dó, de verdade, isso considerando minha imparcialidade com relação ao livro. Não achava que Ben seria convincente por causa da eterna expressão de paisagem, mas até que fiquei satisfeita. As cenas dele com o advogado de defesa são sensacionais. Ri como se não houvesse amanhã, juro.

 

Uma salva de palmas para Rosamund Pike. Ainda fico chocada quando penso que ela não precisou de muito para ser poderosa na trama. Neil Patrick Harris me deixou no chão e ainda tento me recuperar do desempenho desse cidadão. Carrie Coon me fez morrer de amor como Margo, a gêmea de Nick. A atriz está maravilhosa em The Leftovers e repetiu a dose em Garota Exemplar. E, gente, tem o Lee Norris. Para bom entendedor, o Mouth de One Tree Hill. Pirei com a presença dele. Curta, mas o suficiente para me fazer morrer por alguns segundos.

 

Este filme que de amoroso não tem nada trouxe as mais distintas reações e isso inclui quem estava na mesma sessão que eu. As meninas e eu trocávamos olhares bizarros e a galera ao redor ria com um misto de choque e de indignação. Você percebe que um filme é bom pelas reações. Ainda mais por ter a pegada de noticiário que fala sobre o mesmo crime o dia todo. Neste caso, por mais de 1 hora. Quando saí do cinema, o povo não conseguia falar de outra coisa (e eu não consegui parar de pensar durante meu percurso para casa).

 

Garota Exemplar mexeu com meu psicológico. Por conseguir isso, já o considero favorito. Eu amo thrillers psicológicos. Ele é denso e, talvez, inacreditável. Acima de tudo, doentio e envolvente. Ele prende. O longa incita a curiosidade em saber como todo aquele escarcéu terminará deixando um rastro de dúvidas, cujo produto final mexe com as estribeiras. Há sim incoerências, mas isso é o de menos. Se você leu o livro e pretende assisti-lo, faça isso com pensamentos imparciais. O entretenimento é garantido. Você é tragado pela dúvida. Pelo medo. O que sobra é o choque. Talvez, a insatisfação com o final, mas sou grande fã de reticências, então…

 

Há algumas cenas fortes de sexo e de violência, então, não levem as crianças para conferi-lo (até porque a faixa etária não permite). É meio difícil escrever a resenha de um filme que não se pode contar demais. Só saibam que a loucura está em todos os lugares. Se não pensarmos no plot em si e isolarmos o papel da mídia para cima de Nick, é fácil notar que nosso dia a dia é banhado por histórias como essa. Por mais que reclamemos da quantidade de tragédias nos jornais da vida, somos atraídos para isso. Por mais que contornemos notícias negativas, elas continuam nos nossos calcanhares e, de alguma forma, damos atenção a elas.

 

Garota Exemplar é um filme de perspectiva. Há obviedades por todos os lados, mas será que é isso mesmo? Afinal, nem tudo é como aparenta ser. Reforçando, amei as reticências finais. Para qualquer um com a imaginação fértil, isso bastou.

 

Comentário da Mônica (do ponto de vista de quem não leu o livro)

 

Não costumo levar em conta sugestões de filmes de outras pessoas, por mais conhecidas e confiáveis que sejam, porque as minhas opiniões geralmente são bem diferentes do convencional. Pois bem, há alguns dias atrás pelo menos quatro pessoas vieram me falar que eu precisava assistir Garota Exemplar, que era o filme do ano. Fiquei curiosa, porque nunca tinha ouvido falar desse filme (nem do livro, shame on me!) e porque as pessoas que o indicaram não têm o hábito de me indicar nada. Talvez por isso eu tenha criado uma expectativa enorme e me decepcionado um pouco.

 

Tive a oportunidade de ver o filme com a Stefs no último sábado e, gente, que filminho ok. É bem isso mesmo, um filme bom, mas não tem nada de espetacular. Para ser justa, até metade da história eu estava achando demais, a narrativa te leva a torcer ora para a Amy, ora para o Nick e você acaba mudando de lado o tempo todo. Essa troca de ponto de vista me interessou o suficiente para me deixar com vontade de ler o livro algum dia da vida, mas na tela eu achei que toda a dinâmica acabou se desgastando. Apesar da genialidade de usar a mesma cena para abrir e fechar a história, causando impressões totalmente opostas nas duas situações, eu achei que o filme não teve final nenhum. Passei os momentos finais esperando que alguma coisa muito surpreendente acontecesse, e nada. Espero que a adaptação não tenha sido muito fiel e que o livro acabe de um jeito melhor.

 

Com relação às atuações, destaque para a Rosamund Pike e o Neil Patrick Harris, porque o Ben Affleck ainda não conseguiu me convencer. De qualquer maneira, é um bom motivo para ir ao cinema, contanto que suas expectativas se mantenham nulas.

 

Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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