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07/out

Sabe aquele tipo de livro que você lê em menos de uma semana? É isso que aconteceu durante a leitura da Trilogia Irmãos Wolfe assinada por Markus Zusak: O Azarão, Bom de Briga e A Garota que eu Quero. Os três me roubaram 4 dias na sequência.

 

Sabe aquele tipo de livro que faz a gente morrer de rir? É isso que também aconteceu durante a minha leitura. Queria muito que Cameron Wolfe e Ruben Wolfe fossem meus vizinhos para tirar uma onda da cara deles. Acreditem: os 3 títulos são ótimos entretenimento.

 

O Azarão é o primeiro livro de Zusak, escrito em 1999. Nele, conhecemos Cameron Wolfe, 15 anos, o mais novo de 3 irmãos (Ruben, Steve e Sarah). Ele nos norteia em uma narrativa em 1ª pessoa, um tipo que achei muito semelhante a de um diário por ter indagações que convidam o leitor a refletir. O adolescente não tem a autoestima elevada, acha que é um zero à esquerda, um lixo… Sensações que se intensificam conforme os insucessos.

 

O que o deixa meio enraivecido, mas na esportiva, é a perfeição que vê em Ruben, o irmão, companheiro de aventuras e ditador das regras. Cameron o segue fielmente, sem pestanejar. Porém, ao contrário de ser um influenciado de primeira, o personagem tem uma língua afiada e poderosa que tira Ruben do sério, solta diversos palavrões, zoa de si mesmo e se embaraça na hora da conquista. Cameron é muito esperto, bem como o brother, e, juntos, mostram os prazeres e os desprazeres dessa fase cheia de molecagem. Sem limite algum.

 

Sob o ponto de vista de Cameron, também conhecemos a rotina da família Wolfe, que se altera no decorrer dos três livros, bem como o amadurecimento da relação dos membros. Ruben e ele formam o elo que faz essa trilogia cativante. Embora não haja um plot central em cada título, o que pode causar a sensação de não ter absorvido nada, Zusak criou uma história com base em experiências pessoais e o que tirei de mais importante é a lição de irmandade.

 

Por serem as primeiras obras de Zusak, não esperem algo como A Menina que Roubava Livros. Não chega nem perto. A trilogia da família Wolfe não obedece uma storyline, os fatos são narrados com uma ordem cronológica meio bagunçada e não há aprofundamento de trama. Cada livro mais parece um desabafo no papel que relata experiências, incidentes e acontecimentos do menino que tenta se aceitar e aniquilar os complexos.

 

O Azarão

 

 

Tudo começa no inverno e com a pretensão de assaltar o dentista. Cameron nos apresenta o irmão Ruben, mais famoso como seu controlador. Ambos são figuras inseparáveis, cujas ideias mirabolantes fariam qualquer pai ter um AVC. No debut de Zusak, conhecemos com detalhes essa família de lutadores: Ruben e Cameron são os filhos mais novos que sentem o peso de não serem como os irmãos mais velhos, Sarah e Steve, nem como o pai e a mãe. Basicamente, conhecemos a rotina deles. Não há uma trama e o segredo é se ater à mensagem que, nesse livro, é a busca pelo eu. Pela individualidade, algo que Cameron e Ruben não possuem por agirem como uma só pessoa. Ambos possuem a ideia do que são, mas não de quem são, e perambulam com muito senso de humor e muitas reflexões que os preparam para o 2º livro.

 

O que bate forte nesse livro é que Cameron passa metade dos capítulos se sentindo um lixo. Ele não se acha bonito, inteligente e valente como Ruben. Ele concorda com tudo que dizem sobre o seu caráter. A palavra “lixo” é praticamente um rótulo que o personagem veste e que ganha força conforme se vê diante de pequenos fracassos. Isso porque o adolescente só tem 15 anos e parece que carrega um elefante. No caso, Ruben, o irmão que não passa de reflexo/exemplo para tudo.

 

A depreciação de Cameron vai ao auge quando conhece Rebecca, um amor platônico que lhe dá consciência do quanto trataria bem uma garota.

 

Ri demais com O Azarão. Cameron e Ruben me mataram com a “linguagem de moleque”, as cutucadas e os resmungos. Nesse livro, Zusak dá início ao esquema de, a cada intervalo entre capítulos, pontuar uma narrativa à parte. Como um pensamento. Nesse caso, são os sonhos de Cameron inspirados no que ele vive a cada dia.

 

A descoberta do “eu” como indivíduo é o suficiente para provocar um atrito entre os irmãos que começam a ver um ao outro como inspiração. Um detalhe que rebate forte no 2º livro. O Azarão é mais simbólico, cuja conclusão é ser alguém.

 

Bom de Briga

 

 

Esse é mais intenso que O Azarão e A Garota que eu Quero. É apaixonante, do começo ao fim, por mostrar a força de se ter um irmão e de agir como irmão. De novo, Cameron nos norteia pela história na companhia de Ruben. Tudo começa com uma corrida de cães que termina em uma luta de boxe clandestina. Logo, os dois se tornam boxeadores, motivados pelos problemas financeiros do lar. O clima feliz visto em O Azarão não existe, pois o Sr. Wolfe está de molho, Sarah faz horas extras e a Sra. Wolfe trabalha demais para cobrir as dívidas.

 

A palavra-chave desse livro é transição. Cameron e Ruben se veem no meio dessa bagunça financeira e se sentem meio incapazes. Assim, aceitar a proposta de lutar por uma grana soa, de novo, como uma busca interior. É uma nova brecha de autoconhecimento para a dupla dinâmica. A mensagem perdura entre admiração vs. vitória, tratar uma garota bem vs. ser o cara que só faz sexo, e, o mais importante, lutar para ganhar vs. lutar para perder. Ruben e Cameron embarcam nessa aventura e aprendem com as porradas (literalmente).

 

Ruben atinge a glória nesse livro por querer se provar enquanto usufrui do sucesso nas lutas. Cameron continua cabisbaixo, porém, isso não quer dizer que ele não sente o peso de ser um fracassado. Essa palavra praticamente se torna o pavor da vida dele.

 

Os capítulos finais deixaram meu coração minúsculo, pois a questão de lutar não é apenas uma opção individual dos irmãos, como também da família. Cameron não esconde o valor que dá a mãe, do quanto o papel dela é importante. Ele não consegue suportar o pai na derrota, nem Sarah enchendo a cara, nem muito menos a obstinação que tornou Ruben mais fechado e amargo. O livro bate na tecla da luta em meio às dificuldades. Enquanto metade dos Wolfe lida com a crise financeira, Ruben e Cameron brigam individualmente para descobrirem quem são e o quanto são importantes nessa zona.

 

Como o próprio livro diz, nós nos levantamos em cada briga porque é isso que fazemos. É o que o define. Em O Azarão, os irmãos eram duas figuras únicas, que agiam no mesmo compasso. Aqui, eles se separam, o que dá aval para conhecê-los fora das peripécias.

 

Eu chorei com esse livro, vencedor do CBCA Children’s Book of the Year Award. Virou xodó! Preciso comprá-lo, pois li em PDF.

 

A Garota que eu Quero

 

 

Esse título é muito errôneo, pois não orna com o livro. No começo até que vai, pois Cameron quer ter uma garota para chamar de sua, para tratá-la bem, e é aí que conhecemos Octavia, a namorada de Ruben. Em cada página, o nosso narrador repete que o irmão não trata bem o sexo oposto e isso se torna um minúsculo conflito. Praticamente, imperceptível. Não, ele não fura o olho do irmão. Digamos que a sorte vem com as circunstâncias.

 

O protagonista retorna nesse último livro ainda com complexos que estão mais focados em ter uma garota. As personagens que perambulam pela trama não passam de um meio para os irmãos descobrirem quem são um pouquinho mais. Elas os afetam, especialmente a nova namorada de Ruben pós-Octavia que traz o teste final aos Wolfe.

 

O aprendizado aqui é mostrar que Ruben, o garoto perfeito, galinha, bom de lábia, nem sempre se dá bem. Esse viés é criado em Bom de Briga e recebe mais atenção nesse volume. No final das contas, o que importa é a irmandade e não a garota. Por isso, não entendi muito a tradução porque não faz jus à mensagem principal. Na capa, soa como uma treta, mas não há nada disso. A moral é a união de Cameron e Ruben, de como um é importante para o outro.

 

O que me deslumbrou nesse livro foi a preocupação de Zusak em dar importância para as palavras, o que pode até ter sido um insight para compor o enredo de A Menina que Roubava Livros. No intervalo de cada capítulo, Cameron cria uma história à parte que me tocou bastante por frisar essa relevância.

 

Por que gostei tanto da Trilogia Irmãos Wolfe?

 

Sendo sincera: os livros são fracos. Tudo transcorre sem freios. Porém, os achei sensitivos. Cameron e Ruben conseguiram me emocionar, especialmente em Bom de Briga. Porém, no término da leitura, é impossível não se perguntar: mas sobre o que é esse livro mesmo? Sem contar que há várias quebras de parágrafos e muito diálogo. Por isso a leitura foi bem rápida.

 

O que achei interessante, e que pode ser uma mera impressão, é que nesses livros há os primeiros indícios do que seria o estilo de escrita de Zusak. Um detalhe muito fácil de captar e difícil de esquecer depois que se lê A Menina que Roubava Livros.

 

A trilogia me fez rir e chorar por transmitir a mensagem de que não importa as diferenças, as dificuldades e as circunstâncias, ser irmão é o que importa. Ter uma família de lutadores é o que importa. Cameron queria ser como o irmão no quesito garotas e bravura, e Ruben como o irmão no quesito caráter e sensibilidade. Por mais que não tenha um pingo de aprofundamento na trama, lemos a evolução de dois adolescentes que começaram como uma única pessoa, pequenos vândalos, que, no fim, encontram a própria individualidade.

 

Cameron é um garoto solitário, tímido. Ele passa por uma das piores fases da adolescência em que as pessoas presumem seu futuro. O personagem é sensitivo e isso abre brecha para o aprendizado sobre si mesmo, o que de certa forma o amadurece. A cada leitura finalizada, senti como se o personagem estivesse sentado ao meu lado e tagarelasse sobre os últimos incidentes da sua vida aparentemente fracassada. A mesma sensação que tenho quando releio O Apanhador no Campo de Centeio.

 

Na Trilogia Irmãos Wolfe não há clima de apego. É preciso tirar o máximo de proveito da leitura para capturar a moral de cada um dos livros. Há mensagens que podem ser levadas adiante. Só não criem expectativa porque minha visão pode não ser a mesma que a de vocês.

 

Dá para lê-los separadamente? Até que dá. Os livros trocam menções de alguns acontecimentos, mas nada que exija decoreba. Não há necessidade de se agarrar a ideia anterior (até porque não há plot). Os conflitos são esparsos e aleatórios.

 

O Azarão, Bom de Briga e A Garota que eu Quero é uma trilogia sobre garotos. Para quem costumava acompanhar de longe os papos dos boys na escola, Cameron e Ruben representam uma ótima nostalgia. Vale muito a pena ler, não só para ver a evolução de escrita de Zusak, mas para rir e chorar por esses irmãos que serão impossíveis de esquecer.

 

Na Prateleira: 

Nome: O Azarão

Autor: Markus Zusak
Páginas: 176

Editora: Bertrand Brasil

 

Nome: Bom de Briga

Autor: Markus Zusak

Páginas: 208

Editora: Bertrand Brasil

 

Nome: A Garota que eu Quero

Autor: Markus Zusak
Páginas: 176

Editora: Intrínseca

Stefs
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