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28/out

Eu não sei o que me deu para reler Triste Fim de Policarpo Quaresma. Encontrei-o em uma daquelas faxinas em que você coloca o guarda-roupa abaixo, sabem? Ele estava todo tímido e esquecido, atrás de todas as coisas, junto de outros títulos nacionais, em um compartimento que fazia muito tempo que não mexia. É lá que ficam minhas pastas dos Backstreet Boys e do Harry Potter – e o negócio todo pedia uma limpeza daquelas por causa do pó acumulado.

 

A minha edição é tão velha, mas tão velha. A capa é gasta e todas as páginas são amareladas, daquele jeito que dá a impressão de que se você não manuseá-las direito, elas se desmancharão entre seus dedos. Pior que quando o reencontrei, gostei dos efeitos do tempo – por assim dizer –, mas não da poeira concentrada que me fez espirrar horrores enquanto lia.

 

Tentei recordar os motivos de tê-lo, mas sei que o comprei em um sebo lá em Santo André. Por mais que tenha associação com meu período no ensino médio, sinceramente não me lembro de tê-lo lido de cabo a rabo, e resolvi dar uma 2ª chance.

 

Triste Fim de Policarpo Quaresma foi escrito pelo pré-modernista Lima Barreto. O livro é centrado na jornada nada animadora de Policarpo Quaresma, conhecido como Major Quaresma, uma figura extremamente patriota. Daqueles que seriam bem capazes de aterrorizar o povo que fez protestos contra a Copa. Ele não vê sentido em uma pessoa nascida no Brasil vangloriar tanto a Europa ao ponto de adotar a respectiva cultura. Ele vai contra a maré, retrucando e defendendo a própria Nação em alto e bom som. Isso não o faz um rebelde. O personagem é inofensivo. Ele gosta do isolamento, especialmente na companhia dos livros, sua grande fonte de aprendizado sobre sua nacionalidade. Tem alguns contatos, mas não faz tanta questão de estar na companhia deles.

 

 

Por causa do patriotismo, digamos, excessivo, ele vira uma ameaça. Todos acham que ele é meio doido. A paixão pelo Brasil o inspira a tomar iniciativas não tão bem quistas pelas outras pessoas do seu círculo social que aderiram à cultura estrangeira (a Inglaterra era a superpotência na época em que o livro foi escrito). Ao longo da história, o Major tenta impor tipos de culturas nacionais para barrar qualquer costume europeu. Tudo isso porque o personagem se vê diante de uma incógnita: como você vive por aqui e vangloria outro país?

 

É essa a ideia que Policarpo não consegue compreender e é isso que o faz abraçar questões que poucos se importam. O desejo de mudanças vira uma obsessão aos olhos daqueles que vivem muito bem aos moldes nada abrasileirados, e não demora muito para ele ser tratado como louco. Sabe quando você fala de uma coisa tão maravilhosa que não faz o menor sentido para os outros? Policarpo faz parte desse time e a incompreensão do seu amor o torna uma piada.

 

O enredo de Policarpo Quaresma se desenrola no século 19 (1915) e compreende os primeiros anos da República, durante o governo de Floriano Peixoto. Ele é dividido em 3 partes e cada uma delas representa um desejo de Policarpo que desencadeia resultados nem um pouco positivos. Cada passo vem com uma desavença, o que o obriga a refletir sobre o seu papel na sociedade, tendo como base as outras pessoas do seu convívio. Tudo o que o personagem faz é por amor à Pátria: tocar violão para aprender as modinhas brasileiras, idealizar um projeto para que o tupi se torne língua nacional, morar em um sítio para tirar o sustento da dita “terra tão fértil” e participar de uma revolta para contribuir em uma transformação nacional.

 

Cada passo o norteia para o triste fim. Cada empecilho encontrado o atormenta e o sentimento de pessimismo com relação a tudo o abate no desenrolar da história.

 

 

Para aumentar a chacota que persegue Policarpo, a falta de formação acadêmica também o condena, um tema muito bem pontuado ao longo das páginas por ser uma questão que, na época, era motivo para se gabar. Ele é caçoado por ter livros e por lê-los, algo que só os universitários faziam. Só porque faz mais sentido. Como uma pessoa sem formação poderia ser útil, mesmo lendo? A falta do diploma reforça que o Major Quaresma não é de muito crédito. Por mais que domine muitos tópicos sobre o Brasil, isso não o faz inteligente ou digno de confiança. Inclusive, Triste Fim de Policarpo Quaresma dá uma ênfase bem interessante sobre o papo de leitura ser coisa para doidos, outro ponto que compromete o protagonista.

 

O livro tem muitos pontos interessantes além do drama de Policarpo, como o conhecimento ser um meio de ascensão social e o conflito feminino simbolizado por Ismênia que faz do casamento sua razão de viver. Olga se tornou minha personagem favorita por debater mentalmente os benefícios que teria se tivesse nascido do sexo masculino.

 

É possível perceber nas primeiras páginas o nível do patriotismo de Policarpo. Ele desiste de tocar violão quando descobre que foi uma inserção estrangeira no Brasil. Conforme a história avança, mais chateado o personagem fica, pois ele se acha a única pessoa que realmente se preocupa com o País. O personagem é relutante a qualquer estilo estrangeiro e isso começa a isolá-lo ainda mais, justamente por ver o quanto as pessoas ofendem sua Nação que, no ponto de vista dele, é a melhor em todos os sentidos. A vivência no sítio chamado Sossego é outra experiência cheia de atritos, onde ele se empenha em mais um projeto, dessa vez agrícola, na tentativa de manter “suas culturas”. Os desejos dele passam dos limites por causa da sua ingenuidade e Barreto aproveitou para brincar e muito com a ironia. Independente do local onde se encontra, Policarpo é tachado como um doido, sem chance de “cura”.

 

Policarpo começa bem e termina diante de um grande abatimento moral. Ele acredita piamente que pode fazer “suas culturas”, mas Murphy trabalha de um jeito impiedoso na vida dele. Quando você acredita que tudo ficará bem e que dará certo, o personagem é sabotado. É cômico se não fosse trágico. As reflexões que antes eram otimistas se tornam amargas, o que o leva a compreender que ser patriota não serve de nada. É de dar pena o quanto o Major Quaresma não passa de um tolo, guiado pela ingenuidade, sendo que o País já apresentava naquela época problemas sociais e administrativos, detalhes não resolvidos até hoje. No fim, o personagem encara duramente que seu empenho e sua dedicação foram em vão.

 

 

Por mais que haja essas reflexões amargas, o leitor é o responsável em tirar as próprias conclusões sobre as atitudes de Policarpo. Conforme lia, me perguntava como era possível o personagem ser tão otário. Todos os erros e os problemas do Brasil sambavam debaixo do nariz dele, mas, cego de amor, e um engajado de primeira em querer mudanças, o personagem tapou o sol com a peneira e pagou muito caro.

 

O livro preserva algumas características do pré-modernismo como a denúncia da realidade brasileira. Os defeitos do País estavam evidentes, mas Policarpo vivia em uma bolha que o impedia de enxergar a verdade. Ele não passa de um idealista apaixonado, que acha que tem todas as razões do mundo para ser ouvido e compreendido. Sabe quando você se acha mais inteligente que o cargo de trabalho que lhe oferecem? Policarpo passa por isso. Mesmo sem um diploma, o protagonista é um ótimo conhecedor do Brasil, mas isso é calado pelos personagens que possuem formação superior, o que impossibilita o acesso a cargos públicos. A elite com diploma poderia apoiá-lo, mas ninguém se importa. Isso o enfurece por ver seus projetos negados em sequência.

 

Assim, o Major Quaresma chega até a debater consigo mesmo que nenhum deles entende o seu País. O problema é que o conhecimento que tem não lhe dá ascensão profissional. No fim, o personagem continua tão invisível quanto no começo da história.

 

Não tem como não sentir pena dele. Em alguns momentos, pensei como seria se o personagem vivesse no século 21. Por ser tão patriota, acho que Policarpo se afundaria na depressão. Literalmente, este livro é a vida imitando a arte, pois Lima passou por apuros semelhantes ao da sua criação. Em pesquisas na web, o fim do autor foi igualmente triste.

 

Adendos finais

 

 

O Brasil não cultiva o patriotismo. Digamos que abraçar a bandeira é uma opção. Não é como nos Estados Unidos, lugar onde as pessoas têm orgulho de hastear a bandeira, têm orgulho de servir no exército, têm orgulho de votar, etc.. Aqui, você é obrigado a fazer muitas coisas e, se não o fizer, enfrenta consequências que vão desde uma multa até a impossibilidade de assumir um cargo público. É difícil ser patriota em meio a tanta desordem e a tanta desconsideração vinda não só dos políticos como das pessoas. Eu não me julgo patriota, pois a desilusão pisa em qualquer sentimento positivo, mas reconheço o que há de bom por aqui.

 

Reler Triste Fim de Policarpo Quaresma me deu ainda mais essa certeza de que o patriotismo é quase uma utopia. Se crer no País já era complicado no século 19, dois séculos depois essa tarefa está perto do impossível. Continuamos governados por corruptos. Parte da sociedade só pensa no próprio umbigo. Não consumimos em grande parte do tempo a cultura brasileira. Somos manipulados o tempo inteiro e tratados como joguetes. Digo intimamente que é difícil demais defender uma Pátria que só lhe dá martelada na cabeça.

 

Existem raros Policarpos e eles são motivos de chacota. Como disse, não há um cultivo do patriotismo por aqui. É uma escolha e você amarga com ela. Triste Fim de Policarpo Quaresma transborda em realidades que continuam praticamente as mesmas no nosso tempo. É literalmente muito triste, não só para o personagem, mas para o leitor que bate com a lição de moral de notar que quanto mais se luta, dificilmente alguma coisa muda. Sem dúvidas, é um título que precisa ser lido com certa maturidade para captar melhor os sentimentos do protagonista e para lamentar as consequências. Sem brincadeira, Lima Barreto escreveu uma profecia dos dias atuais.

 

Eu não esperava que fosse gostar tanto de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Não foi tão difícil me adaptar à linguagem, não possui tantas palavras arcaicas (minha edição é tão velha que nem tem o ano). Minha sorte é que meu livro tem notas de rodapé que esclarecem alguns pontos bem pertinentes (e que evitavam parar a leitura para ir atrás de um dicionário). Muitas coisas me chamaram a atenção, especialmente a estrutura da narrativa. A fluência com que os fatos transcorrem e a mudança de ponto de vista parece uma dança. Você é guiado, sem se perder. Um caminho de várias curvas. Lima salta de um parágrafo a outro, mudando o rumo da história, sem quebras de linha ou uso de asteriscos, um estilo que achei formidável. A ideia nasce e uma é amarrada na outra, e tudo transcorre de um jeito bastante descritivo, e isso não me cansou em nenhum momento. Nunca imaginei que, depois de tanto tempo, essa obra garantiria uma leitura tão gostosa e cheia de valores para refletir.

 

Eu não pensei que fosse gostar tanto da história, até porque não me lembrava de nada dela. Meu contato com os clássicos da literatura só aconteceu quando fiz dois anos de cursinho e me apaixonei por muitos livros, como O Primo Basílio (não necessariamente nacional), Memórias Póstumas de Brás Cubas e A Hora da Estrela. Tenho que dizer, com toda a sinceridade do mundo, que agora entendo perfeitamente porque os jovens pulam esses títulos. É que nem rever certos desenhos da Disney já adulto e compreender momentos que uma criança dificilmente entenderia (como o fato do Dumbo encher a cara e ter alucinações com elefantes rosa). Você precisa ter uma experiência anterior. No caso, associar o Policarpo do século 19 com os acontecimentos do século 21. É tudo muito semelhante. Se não, igual.

 

Triste Fim de Policarpo Quaresma é um tapa na cara bem dado. Sem dúvidas, entrou para minha lista de favoritos (e que precisa de uma versão moderna na minha prateleira).

 

 

Na Prateleira

Nome: Triste Fim de
Policarpo Quaresma

Autor: Lima Barreto
Editora: Ática

Stefs
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  • heyrandomgirl

    Oieeeeeeeeeeee! <3 Eu tbm li esse livro nessa época, só que não me lembrava de muita coisa. Foi uma segunda experiência que pareceu a primeira, juro. Amei demais <3

  • gabrielle araujo

    olá de novo, olha eu aqui mais uma vez para lhe dar os parabéns por mais uma resenha maravilhosa, ja li esse livro na época do ensino médio e me deu uma nostalgia gostosa dessa época. Particularmente gostei desse livro, em primeiro lugar pela forma que ele foi escrito e em segundo pela realidade que ele aborda, a primeira vista não me pareceu interessante, mas como eu tinha que apresentar um seminário sobre ele na aula de literatura tive que ler até o final e me surpreendi por ter gostado tanto principalmente quando comecei a estudar a história do autor e vi tantas semelhanças com o personagem, enfim foi muito bom relembrar. bjos