Menu:
02/dez

Há um tempinho, encontrei um texto bem bacana, cujo título (em tradução literal) é 23 coisas que as mulheres se desculpam o tempo todo. Isso me fez refletir por alguns instantes e analisar a quantidade de vezes que pedi desculpas para o mundo por ser quem eu sou.

 

Sempre me achei meio diferente no grupo de amigas que tinha na escola, mas me dava bem com elas. O peso desse diferente aconteceu quando meus pais se divorciaram. Nunca falei sobre isso e dificilmente falaria com meus belos 28 anos. Minhas neuras nunca foram compartilhadas, mas sempre me perseguiram. Na época, sentia tudo com mais intensidade justamente por estar na fase crítica da adolescência (a partir dos 15 anos) que me fez abraçar o rótulo de aborrecente. Aquele status de rebeldia fulminante.

 

Claro que me sentia meio inferior no quesito aparência porque meu cabelo não era liso como o de fulana, minha família não era de um comercial de margarina, minha mochila não era da moda como a de ciclana, era meio gordinha, e assim por diante. Enquanto a maioria das meninas da minha sala só pensava em garotos, minha panelinha colecionava amores platônicos. Era sofrível, mas não infligia em nada. Divertíamo-nos mais, sempre tive certeza disso, pois não nos entregávamos às cobranças de parecermos perfeitas com tão pouca idade.

 

Uma usava óculos enormes. Outra era alta demais. E eu era cheinha e usava aparelho. Isso não nos impediu nem um pouco de sermos melhores amigas até a vida chegar e nos separar. Fato é que nos anos 90, não tinha essa pressão desesperadora como há hoje de parecer incrível.

 

Claro que, até eu me aceitar, briguei muito comigo mesma, passei pelo velho dilema da adolescência em me sentir mal por achar que não me encaixava e tive aquele momento estranho de querer ser o que não era. Isso porque pertencia a uma panelinha diminuta de 3 meninas. Não me sentia bonita, mas sabia que eu era engraçada. Sempre tive ótimas relações com os meninos até eles me tirarem a paciência e eu querer socá-los. Na amizade, claro. Essas meninas e eu não éramos populares e nem fazíamos questão. Nós nos divertíamos com momentos pequenos e simples, como as tais permanências uma na casa da outra ou ficar na fila em plena madrugada friorenta para pegar um bom lugar no show dos Backstreet Boys.

 

De alguma forma, vivemos conforme as nossas idades.

 

Pensei e pensei, e é fato que nós, meninas e mulheres, pedimos desculpas desde cedo pelo que somos e não fazemos ideia de quando isso se torna tão intrínseco do nosso ser. As meninas se sentem mais pressionadas que os meninos e pedem desculpas por não se acharem boas o bastante. Às vezes, nem por si mesmas, mas pelos outros. Alguém me disse que o sexo feminino se arruma pelo ponto de vista alheio e não para si mesmas. Essa afirmação mudou minha vida, pois aprendi, duramente, que sou a pessoa que preciso satisfazer em 1º lugar. Desde cedo, nos sentimos mal de graça, um piloto automático arrastado até a vida adulta. Na maior parte das vezes, esse mal-estar é acarretado pelo meio, e não pelo que se vê no espelho.

 

Na adolescência, temos a impressão de que tudo que dá errado é nossa culpa. Até mesmo o fato de sermos o que somos. O jeito como nascemos, por assim dizer. Há muitos complexos nessa fase da vida por ser um período de adaptação insuportável, pois o corpo está em mudanças e o cérebro exige um amadurecimento conforme o desenrolar das circunstâncias. Esse sentimento não diminui tanto assim quando a menina se torna mulher.

 

O pedido de desculpas cresce na transição para o âmbito profissional, pois há um combo de fatores que nos deixa desconfortáveis, desde aparência até ser mais inteligente que a chefia. Porém, muitas mulheres carregam os medos da adolescência para a vida adulta, o resquício de um antigo caos que pode virar um tornado. Sei bem disso! Nessa fase, você passa a ser julgada pela quantidade de trabalho realizado, pela blusa que não combinou com a calça, pelo homem que tem se envolvido, pelo fato de não fazer questão de ir ao happy hour, etc., etc., etc….

 

Sem sombra de dúvidas, você é mais julgada. Na adolescência, é até fácil tolerar alguém dizendo que sua banda favorita é uma porcaria, mas, anos depois, isso é desimportante. Na vida adulta, o que rola é a expectativa que cresce por causa da receita de exigências tradicionais que enlouquecem uma mulher. Isso resulta em doses de frustração. Com certa idade, a mulher precisa casar e ser mãe. Ai de quem quebrar esse ritual de passagem.

 

Se a menina de 15 anos sentia o drama de ser o que é, a mulher da minha idade, que bota os desejos acima do que a “sociedade exige”, não se sente menos pressionada. Daí vem àquelas dezenas de desculpas por você querer se priorizar, mas fica na neura de como as pessoas ao redor reagirão. Afinal, pensar em si mesma não é autoestima para alguns. É egocentrismo. Está certo que há mulheres e homens que não olham além do umbigo, mas são meros detalhes.

 

Conforme a menina se torna mulher, ela passa a pedir desculpas por outros motivos. Motivos mais voltados para si, como o fato de um relacionamento não ter dado certo ou uma falha em um relatório da empresa. É de praxe ver uma mulher pensar no sentido inverso por se achar a errada, sendo que está correta. Mas pede desculpas mesmo assim. Como se isso trouxesse algum tipo de alívio. Geralmente, a mulher se volta para si para encontrar defeitos que não existem, uma neurose que gera uma sequência de desculpas e uma lista tremenda do que precisa ser mudado. Sendo que não há nada para ser mudado ou desculpado.

 

Um bom tempo atrás, diria até que foram nos primeiros anos de faculdade, me indaguei como aquele novo universo me mudaria. Amadureci mais e aprendi a colocar meus sentimentos à frente de qualquer pessoa. Sem desculpa. Sem chorumelas. Conquistei um tremendo individualismo, pois não tenho paciência para trabalhos em grupo. Isso, na faculdade, claro, já que a maioria das pessoas é contrária em gostos e afins, o que gera um combate um tanto quanto insuportável. Um detalhe que também aconteceu em jobs anteriores, e aprendi a ter jogo de cintura e assumi muita coisa sozinha.

 

Nunca se acomode por menos do que você merece

 

Lembro-me do dia em que chorei largada para o professor de rádio, aquele momento de desculpas épicas sobre largar o curso e tudo mais. Achava-me incapaz. Achava que o mundo me achava incapaz também. Fiquei tão neurótica ao ponto de achar que meio mundo ria pelas minhas costas (o que sei que acontecia). Esse professor simplesmente olhou na minha cara e perguntou o que eu queria. O que realmente queria. A partir daquele momento, jamais deixei meus desejos para depois. Até porque, ele tocou o terrorismo para cima de mim. Nada como um impulso. No meio do nada, encontrei alguém que não queria que eu desistisse. Pessoas assim são raras.

 

Mais tarde, vieram novos ambientes de trabalho que bem tentaram me deixar na fila do desespero. E claro, conseguiram. Todo emprego novo é um Jogos Vorazes para mim. É difícil demais. Já contei aqui que criei trauma da minha escrita e, mais tarde, veio àquela crise de chegar perto dos 30 e não ter metade do que o almanaque da sociedade exige. Tive um curto relacionamento que botou isso em cheque, pois eu era a garota fangirl e dos amores platônicos com um cara wannabe culto, jornalista chato, e eu quis estar morta.

 

Eu sinto sim a pressão de não estar nos ditos moldes tradicionais, mas não o suficiente para pedir desculpas. De lamentar de não ter isso ou aquilo. Gosto do que sou, do que faço. Como este blog que é metade do que sou.

 

Cobrei-me demais na adolescência, quis fazer tudo às pressas, e conquistei a calmaria que só me trouxe coisas boas no momento certo. Nunca tive uma visão da Stefs, a adulta, mas houve pessoas que tentaram mensurar isso por mim. Colegas de trabalho usavam meus gostos como chacota. Até eu aprender a externar isso, passei um bom tempo acreditando que era uma aberração. Quando estava na faculdade, sentia essa pressão de ser “mulher adulta”, de querer aparentar seriedade. Ainda mais quando você escolhe jornalismo como sua profissão, área em que todos pagam o tempo todo de cult sendo que não manjam metade do que transparecem.

 

Devagar, descobri que meus comportamentos, meus gostos e minhas insanidades me fazem muito felizes e que não há razão para sentir vergonha disso. No meio dessa bagunça toda, encontrei minha originalidade. Firmei minha personalidade. Não que eu tenha complexo de ser como todo mundo, mas me cansa ver as pessoas moldadas no mesmo esquema (vide Geração Y que parece caixas de pasta de dente da mesma marca na prateleira do mercado). Posso não pensar como a maioria das mulheres de 28 anos, mas sou feliz assim. Foram meus gostos que abriram um leque de oportunidades. Jamais teria conquistado e conhecido tanta gente legal se tivesse pedido desculpas e me conformado a ser o que não sou.

 

A partir do momento que entendi que sou o suficiente, bem como as minhas escolhas, meu nível de decepção com as pessoas caiu demais, porque aprendi a me colocar à frente. Muitos tentaram provocar o sentimento de que sou um zero à esquerda no passado, como se eu estivesse de passagem ou levando tudo na brincadeira. Só lamento!

 

Antes, me sentia mal por muitas coisas, agora não. Tenho muito orgulho do que me tornei com o passar do tempo. Ainda tenho minhas neuras, mas isso é humano. Nunca puxei tapete de ninguém. Nunca fiz questão de ser a top das tops. Sempre faço o que posso e, se não der, não me atenho mais aos sinto muito. Como mulher, que aos olhos de alguns não cresceu, parei de pedir desculpas. Juro que tentei me mudar, mas isso me deixava extremamente infeliz. Justamente porque queria mudar pelos outros e não por mim. Isso é frustrante.

 

No artigo que citei, há o questionamento se esse pedido de desculpas por parte da mulher vem da falta de confiança. Não acho. Não totalmente. Há muitos motivos que podem fazer uma mulher se sentir insegura ao ponto de pedir desculpas. Como disse, é algo intrínseco. Há mulheres brilhantes que pedem desculpas por serem brilhantes. Onde está a justiça? De certa forma, há mulheres satisfeitas com o que possuem, e isso não significa satisfação à base da riqueza. Muitas possuem trabalhos que não pagam metade do salário de uma multinacional e estão muito contentes.

 

Acredito que o principal dilema é que a mulher pensa muito na confortabilidade do próximo. Somos maternais. Como também a mania de se adaptar a um estilo por temer chacota, algo que tentei, sem sucesso. Faz parte do drama chamado vida.

 

 

Eu e muitas vivemos no ciclo vicioso das desculpas. Há mulheres que pedem desculpas por não quererem filhos. Há mulheres que têm receio de buscar a correspondência de pijama por causa da aparência. Há a tese de que mulheres não podem ficar bêbadas porque é comportamento de “uma qualquer”. Há o absurdo de que aquela blusinha justinha é usada para chamar a atenção do homem (algumas até agem assim, eu sei). Mulheres precisam até mesmo pedir desculpas se a roupa dela, aquela que tanto gosta, não está dentro dos padrões fashionistas. É muita desculpa, né? E isso inclui as pautas mais graves, como assédio e estupro, em que a mulher tem que se sentir na obrigação de “pedir desculpas” também.

 

O machismo e a inveja feminina não dão like quando uma mulher é inteligente, vivida, solteira, alegre e confortável na própria pele. Acima de tudo, independente. A sociedade gosta de moldes e, por causa disso, os pedidos de desculpa são constantes. É século 21 e a mulher brilhante é uma ameaça, sendo que ela deveria ser admirada.

 

No fim e acima de tudo, o que realmente importa é como você se sente. Nem todo pedido de desculpas aliviará o que a corrói por dentro. Não é justo pedir desculpas indo contra ao que você é, ao que você sente, ao que é literalmente justo ou injusto.

 

Como mulher, não vejo motivos de me desculpar o tempo inteiro pelas coisas que faço.

 

Por isso, nunca cansarei de dizer que sou, unicamente, o bastante. Isso não quer dizer que vivo no bloco do eu sozinho, mas admito que gosto da minha companhia. Tenho amizades, poucas, mas o bastante também. Minhas desculpas se tornaram limitadas. O máximo de desculpas que peço é por ser uma cretina ausente na maior parte do tempo, mas só quem conhece sabe lidar com esse meu outro lado da moeda.

 

Já tive vergonha do meu corpo, do meu cabelo, dos meus dentes, de ser fangirl… Já tive vergonha até da minha inteligência por causa das pessoas. Duramente, aprendi a ser fiel a mim mesma. Sem desculpite!

 

Inspiração do Post: aqui.

Stefs
Postado por:       

       
Aproveite para ler também
Escreva seu comentário antes de ir <3