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20/jan

Gente, que livro. Mas preciso começar já logo avisando que não tem o mesmo efeito em todos. Não importa se você gosta de Harry Potter (porque, né), gosta de YA ou gosta demais de alguma série/universo. Nada disso vai fazer diferença se você nunca escreveu, ou pelo menos leu fanfiction na sua vida. Parece exagero visto de fora, mas para quem passou a adolescência toda mergulhada (o) de cabeça em fanfic (acho mais bonitinho, licença) como eu, a Rainbow Rowell escreveu uma obra prima fofíssima, que dá vontade de apertar e não largar nunca mais.

 

Aproveitando a temática atual do Random Girl, Fangirl para mim é o manifesto das ficwriters.

 

Pensei em fazer uma simples resenha sobre o livro, mas eu sei que a Marida Stefs já falou e voltou a falar lindamente sobre ele aqui. Resolvi, então, aproveitar a storyline do livro para contar a minha experiência pessoal com o universo das fanfics, uma história de amor e paixão que dura até hoje, apesar de ter tido suas reviravoltas.

 

Como tudo começou

 

 

Essa era eu aos 13 anos de idade. Naquela época, o meu acesso à internet se limitava a entrar no chat da UOL escondida, quem nunca? Apaixonada por Harry Potter desde os 11 anos e falando que queria ser escritora quando crescesse desde os 8, um belo dia acordei com uma ideia tão brilhante que levantei como se tivesse descoberto a América: queria reescrever a série do ponto de vista do Draco, vejam só como eu era original. Beijos para a Cassandra Clare.

 

Tenho uma lembrança absurdamente vívida de sentar com a minha pastinha na mesa da cozinha na casa da minha mãe, enquanto ela cozinhava, rabiscando um diálogo provavelmente horrendo entre o Draco e a Hermione e tentando explicar para ela o que eu estava fazendo.

 

Alguns meses depois – e com mais acesso à web, – fui procurar sites de Harry Potter, porque sou fangirl desde o berço e não nego as origens. Foi numa dessas que descobri essa coisinha mágica chamada fanfic e meu mundo nunca mais foi o mesmo. Durante cinco minutos, fiquei meio chateada por descobrir que minha ideia brilhante de reescrever a história da Rowling não era exclusividade minha. Mas a minha felicidade por saber que as pessoas realmente escreviam fanfic, e que existia todo um mundo ao redor disso foi muito maior.

 

Eu continuava brutal e desesperadamente introspectiva, como a Cath, mas agora eu passava uma boa parte do meu tempo sendo assim no fandom, um lugar mil vezes mais mágico e brilhante que o mundo real.

 

Nós tínhamos somente um computador em casa, ao lado da TV da sala, e dividíamos o uso, eu, meu pai e meu irmão. Como eu tinha o hábito de acordar supercedo, passei anos vendo o sol nascer enquanto lia fics no Aliança 3 Vassouras (#saudades). Eram horas perfeitas do meu dia: enquanto todo mundo ainda estava dormindo, eu estava grudada em frente àquele fundo abóbora de doer os olhos do 3V, que eu amava, por sinal. Lembro da primeira fic que li: uma Draco/Ginny (meu primeiro shipper – casal – de coração!) que se passava em um universo alternativo, onde a Ginny era a Bela e o Draco a Fera. Gente, como não amar?!

 

Alguns anos depois, com uma bagagem de fics maior, achei de novo essa história e resolvi reler para matar as saudades. Maior roubada, aprendi a não cutucar memória afetiva!

 

O tempo passou e me tornei ativa no fórum com o nickname Faith, que me acompanhou durante muitos anos, e só larguei depois que entrei na faculdade. Pouco a pouco, a Faith fez até amizades, entrou pra Sonserina (que dúvida), e até chegou a moderar uma seção quando o 3V se tornou 6V. Eu não ganhei BFFs porque, ao contrário da Stefs, era um bicho do mato que morria de vergonha da minha sombra, mas tenho contato até hoje com amigas daquela época. (Se vocês estão lendo – e vocês sabem quem são, – se eu pudesse voltar e fazer alguma coisa diferente, eu seria mais sociável e me enturmaria mais com vocês.).

 

Como comecei a escrever

 

 

Eu rabiscava as minhas ideias de fics em vários cadernos e folhas de rascunho. Enchia minha escrivaninha com post-its cheios de diálogos que me surgiam do nada, mas não tinha coragem de escrever de fato, muito menos de postar. Até herdei um computador antigo que não tinha mais capacidade para fazer nada além de abrir o Word, e, aos poucos, fui me aventurando nele.

 

Mesmo assim, demorei muito para criar a coragem de postar a minha primeira fic no Fanfiction.net. Fui fazer isso em 2007, com o ensino médio terminado e um pé no cursinho. Tenho pavor daquela primeira postagem, só não apago porque, mesmo sendo ruim, foi uma conquista muito grande tornar aquilo disponível para todo mundo, superar um pouco da minha esquisitice e mostrar um pedaço de mim para o fandom. E ela abriu as portas para as outras, que saíram com cada vez mais facilidade.

 

Não conheci a Stefs naquela época, mas mesmo que tivesse conhecido nós não seríamos amigas. Além de termos diferenças religiosas quanto aos nossos shippers de coração e frequentarmos fóruns diferentes, ela devia ser toda popular, exatamente o oposto de mim! Outra diferença entre nós (Marida e Cath vs. Faith) é que eu nunca consegui escrever uma fic grande. A maior foi uma sobre os Malfoy, que ganhou primeiro lugar em challenge e que me deixa orgulhosa até hoje.

 

Imagem retirada do Deviantart

 

O Sirius sempre foi o meu personagem favorito, e nessa altura do campeonato eu já tinha devorado todas as fics Sirius/Remus que existiam na internet. O slash já era familiar para mim porque várias autoras que eu gostava bastante escreviam Draco/Harry. Mas o puppy love foi uma coisa que deixou meu coração em pedaços e me tornou ainda mais retardada socialmente. Eu passava as tardes na sala de estudos do cursinho escrevendo one shot atrás de one shot sobre eles, rodeada pela galera da monitoria de matemática. Nessa fase da minha vida eu era a Cath e vivia por Sirius/Remus.

 

Escrevia tanto que comecei a entrar em pânico, porque sabia que aquilo era a minha paixão. Não as fanfics em si, mas o ato de escrever. Eu estava prestando vestibular para geologia, meu Deus, como aqueles dois mundos poderiam sobreviver simultaneamente? E que direito eu tinha de querer um cantinho no mundo literário, se não conseguia escrever nem uma fic longa, muito menos um plot original? Apesar de amar escrever, passei a acreditar que nunca seria boa naquilo.

 

A universidade e um mundo totalmente novo

 

“Em situações novas, todas as regras mais complicadas são justamente aquelas que ninguém se dispõe a explicar. (E justamente as que você não acha no Google.) Tipo, onde começa a fila? Que comida você pode pegar? Onde você para, e depois, onde você se senta? Aonde vai depois que terminou de comer, por que todo mundo fica te encarando…”

 

A Faith era o tipo de pessoa que escrevia fanfic na aula de redação do ensino médio. Fiz isso sim, puppy love, ainda por cima. Só dei uma disfarçada no slash e mudei os nomes, ficou lindo e eu ganhei nota boa. Imaginem o quanto eu não surtei quando a Cath fez a mesma coisa. Só que a universidade era um mundo totalmente novo, e percebi bem rápido que se continuasse vivendo pra escrever fics, apenas repetiria o pesadelo social dos anos anteriores.

 

Eu não queria mais ser a nerd estranha que era motivo de piadas. Isso, somado ao lançamento das Relíquias da Morte, que acabou com a minha “carreira” de ficwriter. Foi triste porque, com exceção de um conto de terror totalmente original que escrevi em 2009, parei totalmente de escrever. Mas foi a ordem natural das coisas, e, além de uma pontadinha de tristeza, sempre que eu pensava em Harry Potter, abracei a mudança com tudo.

 

Apesar da decisão de deixar a Faith de lado, o primeiro ano da faculdade foi difícil. Uma veterana um dia me pegou vendo o Fanfiction.net e me perguntou o que era. Já fazia quase um ano que eu não escrevia, eu comecei a falar e falar e só fui parar depois de quase uma hora. Quando parei, bateu a vergonha, e eu nunca mais entrei no site na frente de outras pessoas. Outra prova de que eu não conseguiria levar as duas vidas ao mesmo tempo foi quando uma amiga da minha turma me achou no 6V. Nós surtamos online, mas nenhuma das duas conseguia tocar no assunto pessoalmente.

 

Foi nessa parte da história que parei de agir como a Cath e comecei a agir como a Wren, um comportamento que durou até eu me formar. Quando o pai das meninas fala que a Wren precisa começar a frequentar reuniões do AA, chorei de rir, porque meu pai me fala até hoje que eu preciso tratar o meu alcoolismo. Exageros à parte (eu dei meus PTs, mas nunca fui parar no hospital por causa de tequila), não me arrependo por ter mudado de atitude. Descobri um lado meu que eu não conhecia, e isso foi muito bom.

 

Além do mais, embora estivesse bem mais popular e solta para a vida, ainda sentia uma necessidade absurda de cuidar do meu pai e não tinha coragem de comer sozinha no bandejão. Parece familiar? Sério, gente, acho que fui conseguir comer sozinha naquele lugar só no último ano de graduação. Eu queria chorar lendo essa parte do livro, parecia que estava me olhando no espelho.

 

Como voltei a escrever e a minha luta contra a baixa autoestima literária

 

 

Fora da universidade, com a vida me obrigando a ser adulta, me deparei com uma realidade tão cinza e sem graça que acabei entrando em depressão. Sem mais fanfics para me ajudar a escapar do mundo, e sem escrever absolutamente nada, deixei a dorzinha no meu peito crescer até virar um monstro que quase acabou comigo ano passado.

 

No começo de 2014, com a minha paixão por 30 Seconds to Mars restaurada e o coração já batendo mais forte pelo Shannon, me deparei com fanfics sobre ele. Minha reação inicial foi um “EW” bem grande, porque nunca consegui ler ficção de fã que não fosse sobre Harry Potter, muito menos escrever. Mas a curiosidade bateu mais forte e aos poucos fui achando histórias muito boas.

 

Com a depressão já batendo à minha porta, e um plot que criou vida do além e não parava de martelar na minha cabeça, resolvi que iria começar a escrever uma fic sobre o Shannon. E que ela seria grande. Prometi para mim mesma que iria escrever, dar uma lida por cima para arrumar qualquer erro grotesco e postar cada capítulo sem pensar duas vezes. Foi assim que nasceu Alibi, meu monstrinho que me ajudou a lutar contra o horror da minha vida real durante todo o ano. No meio do caminho, descobri uma porrada de fics e autoras muito boas no Tumblr, todas em inglês.

 

Parei de escrever por um tempo para traduzir os capítulos que já tinha e continuei o plot em inglês, o que para mim foi outra conquista enorme, apesar de todos os erros. Às vezes, releio os capítulos na língua do Tio Sam e quero morrer de tão ruim que acho que estão. Mas não me importo com isso por muito tempo, porque o meu orgulho por ter voltado a escrever fala mais alto.

 

Infelizmente, briguei com Alibi há um tempo e nós ainda estamos sem nos falar. Problemas de incompatibilidade entre a minha protagonista e eu. Mas não importa, porque comecei a escrever outra fic e tenho um plot lindo que ainda estou cozinhando pra uma terceira.

 

 

Resolvi voltar a ser maluca. Aliás, deixar de ter vergonha de assumir que sou maluca. Resolvi sair da minha zona de conforto e escrever em primeira pessoa (ainda em período de teste). E é com uma felicidade imensa que falo que sou mais feliz agora. Apesar de ainda ter um medo absurdo de escrever qualquer coisa totalmente original, estou escrevendo uma história que apenas usa nomes conhecidos (um universo alternativo, digamos), sendo que todo o enredo é meu. Estou caminhando para um dia conseguir acordar e perceber que fui eu quem criou aquilo, sem me sentir incapaz de escrever e bloqueada à mera menção da palavra original.

 

Fangirl me fez relembrar toda a minha história com fanfiction, foi com muita nostalgia que me lembrei de cada passagem escrita nesse post ao ler o livro. Foi com muito carinho que me identifiquei com cada ação e cada fala da Cath. Além disso, a Rainbow Rowell me ajudou a lembrar do quanto amo escrever, e por isso ela ganhou o meu amor. É um livro extremamente gostoso de ler e que com certeza será usado e abusado por mim até o fim – meu ou dele.

 

 

Na Prateleira
Título: Fangirl
Autor: Rainbow Rowell
Páginas: 421
Editora: Novo Século

Mônica
Postado por:       

       
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  • heyrandomgirl

    MORRI RINDO de vc me julgando neste texto, marida! Deveria processá-la por difamação. E tenho certeza absoluta de que não seríamos amigas, porque era uma trombadinha amarga com quem não era H² kkkkkkkkkkkkkkkkk

    MENTIRA pq sou forever alone no grupo das migas. Sou exótica kkkkkkkkkkkkk

    A treta seria esse shipper aí, Remus com esse cidadão. Sou mais a Tonks se for pra escolher. Esse sim mata qualquer relação HAHAHAAHAHAA

  • Mônica Oliveira

    Compre, Tia! É uma delícia esse livro! E obrigada <3

  • Camila Stipsky

    Tava querendo ler esse livro!! Vou ver se compro no próximo mês! E você arrasa, Bô! Sua fic em inglês é orgulho master! <3