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20/jan

Finalmente estou aqui para falar do filme Before I Disappear. Lançado em 2014, no SXSW Film Festival (e vencedor do prêmio de audiência), essa é a versão estendida de um plot que nasceu em Curfew, curta metragem que ganhou o Oscar de Melhor Curta-Metragem live action, em 2012. Ambos foram criados, escritos, produzidos, dirigidos e etc., etc., etc. por Shawn Christensen – que também assume o personagem principal dessa história.

 

Se algum de vocês chegou a ver o curta antes do filme, saberá que as cenas migraram para o roteiro estendido com algumas alterações de diálogo e de cenário. Porém, é fato que os quase 30 minutos de Curfew entregam totalmente o enredo de Before I Disappear.

 

Então, o que foi feito?

 

Adição de novas circunstâncias e conflitos para mover Ritchie, o protagonista, para além da banheira. Ele é um cara um tanto quanto atípico e até diria introspectivo. Seu maior problema de vida é querer morrer e não conseguir.

 

Bizarro? É sim.

 

A história de Before I Disappear se desenrola em Nova York, no tempo de 24 horas, e ganha um curso que tem como objetivo impedir que o personagem bata as botas. Não, não se trata daqueles filmes dramáticos em que o cidadão causa tanto problema de um jeito nada condizente por causa do desejo de morrer. Há humor negro no fato de Ritchie querer sumir do planeta, o produto principal das mais variadas alucinações. Até a Morte tira com a cara dele.

 

Já nos primeiros minutos de Before I Disappear, Ritchie dá de cara com uma mulher morta em um dos banheiros da boate em que trabalha, o estopim para ele replanejar uma nova tentativa de suicídio. A visão dela logo lhe traz os mais melancólicos pensamentos/sentimentos, que nos apresenta Vista, a falecida namorada. Essa personagem é importantíssima, pois simboliza os altos e baixos emocionais do protagonista.

 

Quando Ritchie acha que está prontinho para partir dessa para melhor, o telefone toca. Sua nova tentativa contra a vida, já em curso, é interrompida por Maggie, irmã que não conversa há séculos. Ela implora para que ele cuide da sobrinha, Sophia, por estar em um grande apuro. O curso da situação muda com um simples ‘ok’, e o protagonista se depara com surpresas das quais não estava preparado. Isso cria um pouco de tensão, pois ele não tem o intuito de retroceder, o que aumenta seu mau humor e sua inquietação. Afinal, o personagem só quer saber de morrer e Sophia passa a ser um empecilho. Quando ambos se encontram, o título do filme começa a fazer sentido.

 

Ser babá por um dia não desliga Ritchie do desejo de morrer. A todo instante, se frisa essa “meta de vida”. De novo, não há tom dramático no filme, mas sarcasmo, o que acarreta no descrédito desse “sonho” do protagonista. Os encontros com Gideon, personagem de Paul Wesley, são algumas das partes engraçadas de Before I Disappear. Elas resgatam, como um lembrete, o quanto Ritchie está mais empenhado a negociar a própria morte ao invés de sentir medo de um cara que poderia parti-lo ao meio.

 

Porém, essa vontade é adiada por causa das experiências que começa a ter na companhia da sobrinha. Sophia, durona à primeira vista, se revela adorável, com o único dilema de ser muito madura para a idade. A garota é disciplinada, centrada e preocupada demais, uma criança que vive na asa da mãe solteira que se meteu na maior furada. Dá até para imaginá-la como babá de Maggie, até porque, na mente de Sophia, tê-la é mais do que suficiente. Ritchie acaba por desvendar um universo do qual ela não conhecia. Um mundo sem seriedade.

 

Fátima apaga o personagem de Shawn sem um pingo de dificuldade. A menina brilha. Especialmente na cena incrível da pista de boliche que foi uma das regravadas por pertencer a Curfew (só se manteve a música, produzida pelo próprio Christensen, e, claro, a atriz. Houve uma sutil mudança na coreografia).

 

Com o passar da noite, os dois descobrem, ao mesmo tempo, um novo ponto de vista sobre a vida. Sophia deixa de ser um iceberg e Ritchie começa a se importar com algo que não é a morte. No caso, a sobrinha e a irmã.

 

São nos momentos com Sophia que Before I Disappear levanta algumas questões pertinentes: o que você pode aprender em 24 horas? O que pode mudar nesse tempo? Morrer é uma solução? Ritchie é complexado. Ele não se acha merecedor de muitas coisas. Ele se sente um fracassado, um sentimento que pesa quando vem à tona. As respostas para ele não vêm romantizadas, de fazer todo mundo chorar as pitangas. Vem em ações positivas da sobrinha regadas, claro, de muito sarcasmo.

 

O roteiro de Before I Disappear agregou novos subplots, os conflitos além do desejo do personagem em morrer. Vista e a garota do banheiro são os dois vieses que criam os altos e baixos do filme, e que não pertencem a Curfew. Vista atormenta as memórias de Ritchie. Ela é a diabinha que impulsiona a depressão dele, um peso influente na trama por ser a angustia do personagem, fortalecendo o desejo desse cidadão em querer desaparecer. Já a garota do banheiro interliga Ritchie a Gideon, colocando o caráter do protagonista em jogo.

 

E o que dizer sobre Paul Wesley, cujo personagem sofre por mulher? Só sei que ele está sexy demais da conta e diverte quando está bem louco da cabeça.

 

Before I Disappear tem humor negro, mas é leve. Não há nada de mirabolante na trama, só mais um dia na vida de Ritchie. Há alguns momentos ilusórios que tira o longa dos trilhos, mas isso não interfere em nada. Chega a ser tão divertido quanto algumas tiradas de Sophia e de Gideon. Sem contar que, conforme  a história avança, é impossível não pensar no absurdo da Morte em negar uma pessoa que quer tanto sumir na noite.

 

No fim, o protagonista acreditou que tinha que desaparecer e ganha uma segunda chance. Uma segunda chance que reforça que nenhum encontro é por acaso. Que ninguém passa pela nossa vida à toa. Sophia é a conclusão de tudo. A pessoa inusitada que mostra ao tio que viver não é tão ruim assim (claro que ele precisará de um tratamento pesado contra a baixa autoestima, mas isso são detalhes).

 

Há clichês, mas a proposta é mostrar que nem tudo está perdido só porque achamos que está. Por mais que a mensagem não esteja escancarada, compreender as entrelinhas e os diálogos entre Ritchie e Sophia basta para ver o quanto esse filme sinalizou que, apesar dos pesares, a vida é maravilhosa. Só precisamos de um empurrãozinho de vez em quando…

 

PS: No Brasil, ainda não há sombra de exibição.

 


Vídeo hospedado no YouTube e pode sair do ar a qualquer momento

Stefs
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